| Opinião
Outros ministros já se demitiram por menos | |||
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AO CONTRÁRIO do que fizeram algumas centenas de concidadãos do ciberespaço lusófono (e, antes deles, outras vozes da nossa comunidade de Pequenos e Médios Artistas indignados por razão idêntica) não vou pedir que a cabeça do ministro da Cultura role na praça pública. Mas que já outros ministros se demitiram por menos do que fez Manuel Carrilho, não tenho a menor dúvida. O último demissionário, por exemplo. António Vitorino não lesou os contribuintes. Não «roubou» o tecto digital a 25 mil só porque um deles tinha telhados de vidro, através dos quais exibia um conteúdo eventualmente chocante. Vitorino soube portar-se à altura dos «media» que lhe descobriram a careca - mas Carrilho enervou-se com uma típica notícia de tablóide em tempo de férias a ponto de cometer um erro político grave. Vitorino não comprometeu a face dos seus pares de Governo - enquanto Carrilho deixou o Ministério de Mariano Gago num prudente e significativo silêncio perante o encerramento intempestivo, precipitado e cujas verdadeiras razões continuam por assumir, de um serviço público que muito contribuía para a imagem favorável de que o Governo gozava junto da cibercomunidade. A Missão para a Sociedade da Informação, o projecto Internet nas Escolas e outras iniciativas ajudaram a fazer crescer, orgulhosa, uma comunidade lusófona inserida numa teia mundial dominada pela cultura anglo-saxónica. Contribuindo ainda para diminuir as distâncias entre as culturas lusófonas do Brasil e dos PALOP, que usavam o Terràvista como ponto de encontro. Tudo isto foi traído por uma irada ordem de um ministro da Cultura (sublinho: da Cultura) farto de ouvir tablóides falarem em pornografia - diga-se de passagem, menos acessível na rede que pela TV Cabo e visível nalguns filmes e peças de teatro a que o seu ministério tem servido de mecenas. Um ministro que não ouviu os seus colaboradores - entre eles os responsáveis pelo sucesso que dá pelo nome de Terràvista e que podiam ter evitado o desastre com um oportuno conselho. Não admira que a comunidade que agora se manifesta se sinta traída. O que todos sabíamos, mas não importava, tornou-se subitamente crucial: o ministro da Cultura não liga à Internet, portanto não podia avaliar o alcance da medida que ia tomar. Chama-se a isto governar no escuro. Problema de Carrilho. Quanto ao problema da cibercomunidade, advém da sua principal característica: é saudavelmente anárquica e desorganizada. Reage mal às tentativas de gritar em coro. Mas essa é a única forma de ser ouvida pelo Poder, que por regra só ouve a berraria amplificada pelos «media». Já se percebeu que temos uma forte cibercomunidade. Vamos ver se ela consegue, em defesa do seu espaço fundamental, por uma vez deixar os grupos de discussão com a sua lógica de intervenção individual e chegar às grandes superfícies mediáticas, os jornais, a rádio e, sobretudo, a televisão.
PAULO QUERIDO
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