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PLAY : COLUNAS : HECTORAMA #13

05/06_ Hectorama #13

_ Hector Lima

Informação é uma droga

Corta para close nos olhos e olheiras atrás dos óculos de um cara nos seus vinte e tantos anos fiando o entrevistador. Fundo musical triste. Começa seu depoimento:

"Começou com uma pesquisa pra faculdade. Todo mundo falava aos poucos dessa internet, de como as pessoas trocavam informações rápido, de como era legal ter e-mail. Ele dava um grau. Aí eu precisava de mais; putz, me apresentaram pra sala de bate-papo, lista de discussão. Meus amigos falaram que não, não tinha erro e quando eu vi não conseguia fazer mais nada..."

Hum, não. De novo:

A internet conecta milhões de pessoas de praticamente todos os lugares do planeta a um fluxo crescente de informações. É quase uma dimensão própria que representa uma mente coletiva, uma enciclopédia viva, um cérebro para onde podemos enviar muitas informações e de onde podemos copiar muitas outras. Possibilita que se converse em tempo real com gente do outro lado do globo.

Um mané no seu quarto faz um site que pode ser quase tão conhecido quanto o de uma empresa gigante. Você pode tentar e até conseguir falar com aquela figura cujo trabalho você tanto admira e que está a alguns oceanos de distância. Não esqueço a sensação "fanzueca" de quando o escritor Grant Morrison respondeu a um e-mail meu. Assim é a rede de informações cuja importância poucas obras de ficção científica previram.

E também pode ser uma coisa tão chata.

Porque depois que passa o "deslumbre de brinquedo novo" ao se comprar um micro e se esbaldar com e-mail, piadas, notícias, bate-papo, trocas de arquivo, nem sempre é fácil perceber que nossos hábitos viciados e repetitivos podem fazer com que algo tão vasto como a internet fique tão pequeno e sem graça. Depois de alguns poucos anos usando a Rede me peguei entediado. Pode ser aquele tédio que se tem no ambiente de trabalho, afinal este é o meu; a internet é meu escritório, minha redação. Obviamente recebo links novos todo dia, seja por e-mail ou ICQ, de conhecidos ou não e cada site que se vê costuma ter links para outros. O "internauta" ou "navegador" (termos que nunca me desceram direito) se quiser vai longe sem notar, porque os elos entre as informações não têm fim.

Ainda assim, como muita gente deve fazer, normalmente me prendo a alguns poucos sites. Logo quando a lista de discussão da revista Play foi inaugurada, muitos participantes enviaram a relação dos sites que visitam todo dia pra todos verem como são os hábitos de cada um na internet e também pra se conhecer alguns links novos. Não foram muitos. Boa parte das pessoas gasta seu tempo basicamente lendo e-mail, sites de notícias, weblogs, acionando alguma central de troca de arquivos e atualizando a própria página.

Os sites que vejo todo dia, por exemplo, são o Hotmail (meu primeiro e-mail, hoje em dia cheio de spam), Yahoomail (prático e com mais recursos, mas que virou mais depósito de mensagens), Uol (o "Jornal Nacional" da rede, que não pesa tão bem conteúdo pago com gratuito), Terra (eu uso a hospedagem mas, opa, tem notícia lá também), IG (a versão SBT do Uol, por assim dizer), Audiogalaxy (é ótimo achar músicas e conhecer novos sons, mas mesmo isso pode perder a "novidade"), Yahoogroups (participo de listas cheias de informação, mas com nível de ruído alto), Newsarama (notícias da HQ americana; depois de um tempo mesmo boas reportagens têm cara de release), Comic Book Resources (de tanto perder furo pro anterior se especializou em colunas de opinião), Warren Ellis Forum (uma comunidade semi-global também cai fácil no bate-papo vazio), Barbelith (ponta de lança pra novas idéias mas um tanto perdido em si mesmo), Google (o melhor site de busca também não acha tudo), alguns weblogs ("ah, você comeu isso no almoço hoje? Tá, um-hum, sei") e, por razões óbvias, meus próprios sites (cujas caras às vezes nem eu agüento ver). Desafio você a me mostrar aqui um link pra uma página diferente.

Por mais que sejam fontes diárias de novidades, tanto o formato em que essas novidades são passadas quanto seu conteúdo é repetitivo. Dá a impressão que as mesmas coisas acontecem no mundo sempre. O que muda é como e em que intensidade acontecem. E discussões sobre um tema pra falar a verdade costumam levar os debatedores a sacar que normalmente estão falando a mesma coisa, ou que suas opiniões divergentes se completam e não raro se anulam. Não adianta ser um site em Flash, nem a enxurrada de novidades do seu autor favorito, muito menos a Copa (não dou bola pra futebol), nem a corrida "maluca" presidencial. Informação não-aplicada vira algo extremamente tedioso. Desopila um pouco ler um livro, como o Breve Encontro, do Pedro Amaral. Não sou o maior fã de poemas mas os dele são curtos, quase sintéticos, e o nível de "cabecice" é baixo. Alguns são quase vinhetas; o cara sabe escolher palavras. E tirar também, o que importante.

O que me lembra que uma das melhores alternativas ao tédio e à enxurrada de trabalhos alheios é o que nós mesmos fazemos. Então é ótimo produzir o que dá aquela fagulha de tesão, aquela sensação de velocidade e eletricidade, de coisas acontecendo com algum propósito. Não era bem um trabalho meu, mas tive a sensação de missão cumprida, de sanduíche bem comido, de foda bem dada, depois de me entender com o Photoshop domingo passado e conseguir fazer o letreiramento em português de Gorda, mais uma HQ da série Fatias. Um orgasmo nerd? Não, mais auto-realização mesmo; sim, tem muita coisa que preciso acabar de escrever. E no meu caso isso tem de ser produzido antes de acessar quaisquer um dos sites citados, senão é fácil me perder e me afundar nesse pântano sem-saída que a internet pode se tornar.

Informação é uma droga. Tanto pode curar doença, melhorar sua saúde como às vezes também vicia, não dá mais barato e pra largar tem de ser meio como com as outras: a seco. Não é fácil, ainda mais pra quem trabalha com isso e tem gosto em divulgar informação como eu. Mas tem de ser feito. Não é niilismo ou alienação induzida, é necessidade de pisar no freio, respirar e se organizar pra fazer direito logo em seguida. Então agora vou desligar o computador, sair pra dar uma volta e ver gente.

Depois você me conta o que aconteceu.



Hector Lima

 


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