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01/07_ Hectorama #16
_ Hector Lima
A Dimensão-Cubo e os Anos-Zumbi Quando menos espero, redescubro que muita gente não sabe ler.
Há quem até saiba juntar letra com letra, palavra com palavra
e frase com frase mas daí a entender o sentido de um texto é
um pulo maior. Tive dois exemplos recentes me fizeram lebrar que poucas
pessoas lêem as coisas direito. Ok, amiguinho, errar é humano
- quem trabalha com texto fica sujeito a erros de interpretação
da mesma forma - e você já devia saber que falta
de leitura faz mal. Ler correndo, na diagonal, também.
Uma multidão presa numa dimensão paralela; zumbis atrás
do cérebro de um garoto incauto. Foi o que aconteceu nos incríveis,
engraçados, deliciosos e assustadores casos de ficção
científica e horror relatados a seguir. Eu
sou Hector Lima e este é o Além da Falta de Imaginação.
A Misteriosa Lista Fora do Tempo
Há algumas semanas quase 1.800 pessoas foram teleportadas pra um
lugar desconhecido do qual não conseguiam sair. Uma delas passou
uma informação errada, foi confundida com o responsável
por aquela situação e uma gritaria começou. Ninguém
sabia dizer o que havia acontecido. Num belo fim de semana tive um e-mail
cadastrado numa lista do Yahoogroups
que pretendia anunciar uma festa de música eletrônica. Normalmente
não gosto de quem me cadastra sem eu autorizar mas deixei pra ver
no que iar dar, até porque eu poderia repassar a informação
para a Flávia usar no Assessorindie.
Já tinha esquecido do tal cadastro quando uma enxurrada de mensagens
apareceu no e-mail, quase todas xingando ou dizendo "não!".
Um estúdio de dança enviou pra seus próprios endereços
uma divulgação de seus cursos e acabou mandando isso pra
tal lista misteriosa. Como ao final dessa propaganda estava escrito que
era só responder escrevendo "não" pra se retirado
do mailing, gente adoidado achou que era o necessário pra sair
dali. Escrevi pra lista mostrando como sair e pedindo pra pararem de escreverem
porque todos estavam recebendo.
Fui até o site do Yahoogroups, vi que a lista tinha quase 1800
membros e li todas as mensagens enviadas até então. Tentei
assinar a lista pela web, ou seja, ficar sem receber mensagens e logar
no site pra conseguir ler. É muito mais fácil pra administrar
o tempo, escolher o que ler e evitar receber vírus. Até
aí sem problema. Só que isso não adiantou. Continuava
recebendo mensagens por e-mail e chegou uma notificação
de um serviço de administração de listas brasileiro
dizendo que minha mensagem não podia ser enviada pra lista porque
não era fazia parte dela. Afinal, eu havia saído ou não?
Fiquei nessa por alguns dias, apagando as mensagens por e-mail e lendo
pela web. Mandei mais um ou dois toques pra quem quisesse tentar sair,
ainda que eu não tivesse conseguido. Além da minha namorada,
percebi que vários conhecidos estavam "presos" lá
também (será que a lista de endereços de alguém
havia sido vendida?). Fui aos arquivos da lista e vi as primeiras mensagens,
a seção de arquivos e uns links guardados lá. Um
endereço de e-mail se repetia; devia ser o do moderador. Escrevi
pra ele, pro Yahoo e não tive resposta na hora (aliás, do
Yahoo não tive até hoje). Avisei isso na lista e relaxei
vendo o pessoal se esgoelar, xingar e dizer "não" porque
não tinha remédio e era gozado. Algumas pessoas me escreveram
em particular atrás de informação que eu nao tinha.
De curioso fui ver a lista de membros pra achar a estrela azul que indicava
quem era o dono da lista e autor da confusão. Passei os olhos pelos
endereços mostrados pela metade (pra evitar spam, eles dizem -
haha) e seus respectivos IDs. Pra minha surpresa havia mesmo muitos jornalistas
conhecidos ali, incluindo alguns da grande imprensa. A pessoa que montou
aquilo havia escolhido algumas pessoas não muito indicadas pra
enviar divulgação de uma festa de música eletrônica.
Mas diacho, várias dessas figuras estavam respondendo "não"
pra lista também.
Enfim, a lista foi deletada pra tristeza de alguns que acharam aquilo
engraçado e pra alívio de muitos. O cara fez o que suspeitei.
Criou uma mailing list no Yahoogroups mas ao invés de mandar convites
pra quase 1800 pessoas, cadastrou-as contra a vontade e escolheu outra
opção errada: ao invés de clicar em "newsletter"
(pra qual só o moderador pode escrever), clicou em "discussion
group" (pro qual todos os membros podem escrever). Isso permitiu
que o distraído estúdio mandasse seu jabá e que todos
escrevessem de volta gritando "não" e pedindo pra sair.
Erro de leitura de ambas as partes. Primeiro do cara que armou toda a
história - e se desculpou depois com todos por e-mail - e segundo
de todos que mandaram mensagens pra lá sem ver pra onde estavam
escrevendo. Simplesmente clicavam em "reply" e mandavam bala.
Foi isso que o pessoal do estúdio provavelmente fez; ele chegou
até a receber ligações telefônicas malcriadas
(o número constava na propaganda) de quem achava ser ele o responsável.
Fiquei admirado com os jornalistas ali "presos": gente que trabalha
com internet, direta ou indiretamente e supostamente tem uma capacidade
boa de observação mas que não soube identificar o
remetente de uma mensagem de e-mail. Nem sabia o que era uma lista de
discussão, como algumas mensagens mostraram (não posso provar
porque a lista foi deletada). Eu ia aqui fazer um manualzinho sobre como
usar o e-mail, explicando que o nome da pessoa vem antes do sinal de "arroba"
e o que vem depois é o servidor da conta, essas coisas. Quem sabe
até um toque sobre como ligar e desligar o micro. Mas aí
já é demais, que se virem.
Anos 80, a Década Morta-Viva
A coluna
anterior foi a mais visitada e comentada até agora. Sabia que
ao afirmar que não gosto do revival dos anos 80 podia gerar opiniões
discordantes e engraçadas. Mas não imaginei que havia uma
pequena horda de amantes da época que escreveria me xingando ou
em seus blogs e listas dizendo que não tenho capacidade pra falar
do assunto porque sou novo ("intelectualóide poseur"
foi o mais legal).
Acharam que mais pra frente eu ficaria louco pra ir num dos clubes noturnos
que abrigam festas com músicas da década - eu quero ir mesmo.
Cada um tem a opinião que quiser sobre o assunto. Eu expus a minha,
grandes coisas. Foi o suficiente pra algumas pessoas acharem que tinha
mexido com a mãe delas. Fiquem tranqüilas, crianças,
ninguém vai estragar o xodó de vocês.
Como sou rato de internet fui atrás de algumas listas e blogs em
que isso havia sido comentado e rebati alguns argumentos. Não sei
por quê. Muita gente não entendeu o texto; uma parte sequer
o havia lido. Meu problema não é só com a década
em si, que é sim cheia de boas bandas, bons filmes, bons quadrinhos
e bons seriados de TV. Mas é com o revival que só vende
a parte feia e chata dos anos 80.
Sei bem o que é isso: Santos, a cidade em que vivo, nunca saiu
dos anos 80. Num trecho da coluna até vejo a coisa por outro lado
e tento justificar algumas voltas - afinal muito do que a gente vê
na produção cultural de hoje não passa de coisas
de outras décadas refeitas mesmo. De tão óbvio que
é o fato do que temos hoje "dever" sua existência
ao que apareceu nos 80 achei que estaria subentendido e nem valia o comentário.
Mas acho bom colocar as coisas em perspectiva. Se por exemplo você
nunca deixou de gostar das bandas boas (ênfase no "boas")
dos anos 80, problema seu. Se conheceu muitas agora (por conta do revival
ou não), idem. De resto, se você ouve a algo da época
que acha ruim (ênfase no "que acha ruim") é como
ver um filme thrash: você gosta porque é ruim e te
faz rir.
Levar algo que se considera ruim a sério demais é justificá-lo
e legitimá-lo como algo digno de nota. Talvez seja diferença
entre rir ou chorar ao ver um episódio do Ultraseven.
E o que a gente acha bom e ruim muda com a idade porque mudam nossas referências,
conhecemos mais coisas e mudamos de opinião. Algo perfeitamente
humano, de bom senso, aceitável.
Agora, como afirmei no texto
anterior e muita gente não pescou, o problema é a facilidade
que os grandes produtores culturais têm de empacotar velharias e
revender como se fossem novidade no lugar de tentar produzir algo diferente.
Se você gosta de bandas como Legião, Capital, Titãs, Barão, Paralamas
ou qualquer uma outra gringa que surgiu depois de 1981 concorda comigo
que em aguma época foram novidade, certo? E como teriam a primeira
chance de surgir e terem a carreira que tiveram se na época só
tivesse atenção o que que se encaixasse num revival dos
anos 50, por exemplo? Está acompanhando o raciocínio?
Até os anos 80 parecem menos implicantes que nossa época
atual. Talvez até mais modernos. E dizer que depois de 1989 não
se produziu nada de bom é a mesma coisa que achar que nada de bom
surgiu depois dos Beatles. É tão óbvio que dá
até vergonha de escrever. Depois dos hippies e punks velhos, chegam
os góticos velhos. E depois, os grunges e cyber velhos?
Tem gente que quer pegar o Delorean do "De
Volta para o Futuro" pra conseguir voltar a cultura pra 1985
- o meio da década perdida - e de lá não sair. Eu
quero ficar no presente, ou no máximo conhecer aquele 2015 doido.
Essa facilidade em se marketear e consumir o que é velho além
de ser medo do futuro e comodismo, vai fazer a cultura ocidental entrar
num buraco "noventista" daqui a 10 ou 5 anos.
E em 2012 quem sabe a realidade não entra em si mesma e se anula,
sendo transferida pra um híper-contexto no qual o presente é constante
e todas as épocas vão poder ser acionadas imediatamente. Tio
Morrison estava certo. Meus argumentos não mudaram em relação
à coluna passada, só os exemplos. Se não entendeu
sugiro que leia e releia até entender ou que procure uma ajuda
pra sacar melhor compreensão
textual. Até lá vou fazer como o Ronnie me ensinou:
"apenas diga não".
___________
Quando você estiver lendo isso é bem capaz que no Escritório
Noturno já esteja no ar uma das minhas HQs favoritas da série
Fatias do Andrew Dabb. A Política de Sempre mostra
o que acontece quando a gente fica cansado da palhaçada na presidência
e elege logo um palhaço. Entre outras coisas.
Hector Lima
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