Edgar Rodrigues

 

OS COMPANHEIROS

3

[Letra J]

Parte I

  

Rio de Janeiro

1996

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Homenagem especial a:

Luisa Adão

Joaquim Duarte Batista

José Oliva Castillo

Ramiro da Nóbrega

Paulete Lisenko

Serafim Porto

Antônio Lopes

Isabel Cerruti

Antônio Castro

Enio de Cardoso

Alzira Marques


INTRODUÇÃO

"Os Companheiros" nada têm de comum com os homens e mulheres que servem de pasto à imprensa comercial brasileira hoje. Nunca apareceram nas páginas dos jornais diários, salvo quando eram presos, expulsos como "agitadores estrangeiros", ou ilustravam boletins policiais.

Salvo raríssimas excepções, nunca foram agraciados com palavras justas ou reconhecidos como desbravadores, construtores deste imenso país. Em contrapartida alguns dos seus exploradores e torturadores viraram nomes de ruas, constam nos anais dos congressos estaduais, federal e seus descendentes respondem pela corrupção que vai fazendo escola no Brasil às portas do século 21.

Pioneiros idealistas, trabalhadores, muitos vieram ao Brasil atraídos pela propaganda que as embaixadas e os consulados brasileiros faziam no exterior. Carregavam sua força de trabalho nos braços, e no cérebro idéias revolucionárias. Sua "fortuna" cabia dentro de uma escola ou de uma mala velha: duas mudas de roupa, algumas ferramentas, uns poucos livros e endereços de companheiros ou associações operárias. Outros só traziam mesmo a roupa do corpo, não sabiam ler, desconheciam por completo o idioma falado no Brasil, mas acreditavam num amanhã com liberdade.

Apoiados em promessas, viam-se enganados logo ao desembarcar ou, quando muito, nos centros de imigração que os encaminhava para trabalhar nas fazendas onde sofriam maus tratos. Só recebiam salários quando os fazendeiros queriam, pagamento que nunca lhes permitia mudar-se de emprego. Os mais resistentes recusaram-se a trabalhar rebelando-se contra a exploração e a violência dos capatazes e alguns fugiam para as cidades auxiliados por filhos de imigrantes que sofreram iguais discriminações. Outros foram alertados pelos delegados que os sindicatos enviavam às fazendas para lhes falar de anarquismo.

Os ventos revolucionários sopravam da Europa convidando os trabalhadores do Brasil a organizar-se para lutar pelas 8 horas de trabalho diário, o seguro contra acidentes, amparo na invalidez e na velhice, higiene e segurança nas fábricas e oficinas, descanso semanal, por instrução e educação para os seus filhos e por último pela própria emancipação cultural e humana.

Para isso fundaram sindicatos, deflagraram greves, muitos foram presos, expulsos por escrever uma história com suor e sangue que só agora vai ganhando eco.

É destes "heróis" anônimos escritos com a letra J que vamos falar nas pequenas biografias que compõe este volume. Não se trata de trabalho elaborado dentro dos padrões clássicos, pelo contrário, é simples quanto as figuras humanas que nos servem de matéria prima para escrevê-la. São eles quem falam a maior parte do tempo em que nos ocupamos de seus feitos.

Nossos "heróis" são:

NACIONALIDADE
Brasileiros 13
Espanhóis 31
Italianos 13
Franceses 2
Argentinos 1
Portugueses 21
Não Identificados 15

PROFISSÃO

Operários 73
Intelectuais 6
Não identificados 17

IDEOLOGIA

Anarquistas 79
Anarco-Sindicalistas 14
Outros 3
Saíram para o PCB 3

Edgar Rodrigues 1996


JOSÉ REZZA - 1

Espanhol, alfaiate e tintureiro, anarquista.

José Rezza era o que se podia chamar um grevista profissional. Estava sempre em greve... Quando não podia levar seus companheiros de ofício a abandonar o trabalho, fazia-o sozinho. Para ele existiam sempre motivos para deflagrar greves a nível de oficina, de categoria profissional e/ou "solidariedade" a outras classes. Muito estudioso, adquiriu grande cultura anarquista e geral. Falava bem, defendia com desembaraço as idéias ácratas e justificava sua posição e comportamento com argumentos "sólidos".

Apesar de bom profissional e muito inteligente estava sempre desempregado: sua rebeldia nata fazia com que os patrões o demitissem e/ou não lhe dessem emprego. Chegou a passar fome por esse posicionamento quando não obtinha ajuda dos companheiros.

Sua militância no anarco-sindicalismo do Rio de Janeiro deixou recordações em Amilcar dos Santos e Diamantino Augusto que com ele conviveram.

Participou com estes mesmos anarquistas do grupo "Os Emancipados" ao lado de Pierre, Alberto, Albano, Sebastião Batista, Dr. Fábio Luz, H. Ferreira e outros companheiros de idéias.

Tomou parte nos grupos de teatro social, e pela sua capacidade de assimilar rápida e de improviso, várias vezes supria elementos ausentes e/ou preenchia espaços entre uma e outra peça (na época cada espetáculo compunha-se de duas e três peças, dramas e comédias, abrindo espaço para troca de cenários) agradando aos espectadores. Colaborou no jornal "Luta Social".

Em 1936 embarcou clandestinamente num navio cargueiro no porto do Rio de Janeiro com outros companheiros na tentativa de chegar à Espanha. Queria combater ao lado dos anarquistas espanhóis em guerra contra o fascismo. Nunca se soube se alcançou seus objetivos e/ou se foi morto.

Vejamos como defendia o anarquismo diante dos desertores que se engajaram no P.C.P.:

"Ao camarada Otávio Brandão

Camarada:

Cordiais saudações.

Fui ouvir a conferência que você pronunciou ultimamente na sede da "União dos Operários em Construção Civil"; as impressões que em mim deixaram as suas palavras é o que pretendo, neste momento, reduzir ao papel, na esperança porém, de se vítima da ignorância incorrer nalguma falha de interpretação, você, bondosamente, venha desvanecer-me do erro perpetrado.

Suponho que você procurou demonstrar a inconveniência que resulta de se manterem, os anarquistas, numa atitude de radical intransigência sobre princípios e meios pelos mesmos achados bons, e, que você, em data que não vai longe, proclamava as excelências...

Você condenou na sua conferência a crítica "exagerada" que presentemente, fazem, os anarquistas de "contemporizar" com o mesmo; para mim julgo querer dizer, no caso, consentir.

No meu fraco pensar, semelhante raciocínio é um formidável contra-senso. A anarquia, não pode "consentir" que, os "seus" propagandistas, silenciem um só momento, sobre a crítica a fazer às instituições "Estatais" em vista do estreito espírito conservador e, portanto, reacionário que elas traduzem assim como, em muitos casos, não pode deixar passar em julgado a ação dos "servidores" do "Estado" meramente daqueles que "desejam" e "defendem" a continuação do mesmo.

Outro ponto peregrino por você tratado e, que, devido talvez à minha pobreza mental não pude decifrar, consiste no seguinte: todo o cidadão que abrace um princípio e o defenda com calor e energia, esse indivíduo não passa dum simples e refinado comunista; o diagnóstico é simples; é um caso patológico de "burguesismo cerebral"!!! É verdade que você meu caro Otávio, justifica as causas e fatores agentes mórbidos da citada endemia com o seguinte: "É muito mais fácil atacar ou defender uma coisa qualquer do que saber colocar-se a gente num plano médio" e mais ainda; "isto é muito cômodo" etc.

Pelo que você diz, meu caríssimo Brandão, para trabalharmos às direitas até cairmos exaustos, temos que, primeiro, curar-nos do "burguesismo cerebral" isto é deixarmos de lérias de convicções, não atacar nem defender coisa alguma; nesse dia, então, começaremos no seu conceito a desenvolver uma obra proveitosa gigantesca! Desde esse momento fulgurante cessará a "obra de pigmeus"- segundo a sua muitíssima abalizada competência - feita até hoje por esses malucos Kropotkine, Reclus, Bakunine, Malatesta, Grave, Faure, Anselmo Lorenzo e mais alguns idiotas que agora não recordo os nomes e cuja maior infelicidade, segundo vejo, foi o não haverem consultado você com antecedência sobre os assuntos que tão mal cuidaram...

 

JOSÉ LEITE - 2

Português, pintor da construção civil, libertário.

Começou sua participação na "União dos Operários em Construção Civil" do Rio de Janeiro, destacando-se logo pelo seu devotamento ao estudo. Lia muita imprensa e obras dos clássicos do anarquismo, e quando da formação do P.C.P. foi dos que mais combateu o autoritarismo do Governo bolchevista e o radicalismo estrábico dos seus fundadores, outrora libertários confessos.

Nos meios operários foi um anarco-sindicalista dos mais firmes. Falava nas assembléias, discursava nas manifestações de rua, nos comícios de protesto e nas comemorações do 1º de Maio.

Pela sua competência profissional empregou-se no Hospital Salgado Filho encerrando ali a sua carreira.

Nunca transigiu nem teve dúvidas ideológicas: foi libertário convicto e culto!

Deu também sua colaboração valiosa ao teatro anarquista, integrou grupos amadores, interpretou papéis em peças revolucionárias, anti-clericais, em comédias e improvisava quando era preciso entreter a platéia nos entreatos.

Em suas memórias manuscritas Marques da Costa e Amilcar dos Santos lembram o "companheiro José Leite".

O autor também ouviu José Oiticica e Diamantino Augusto recordar esse companheiro... Morreu no Rio de Janeiro durante a Segunda Guerra Mundial sem abjurar de seus princípios ideológicos.

 

JOÃO PERDIGÃO GUTIERREZ - 3

Espanhol, pedreiro, anarquista.

Nasceu em Casillas del Angel, Ilha de Puerto Ventura, arquipélago das Canárias em 12 de junho de 1895. Viveu com seus pais no Uruguai de 1900 a 1904 quando veio com eles para Santos.

Bem jovem ingressou no movimento operário de Santos, onde militou.

Inteligente, estudioso, rapidamente assimilou o anarquismo que defendeu com lucidez até à morte. Homem de ação era também polemista, discursava e escrevia bem. A imprensa operária e anarquista está marcada por sua colaboração, quase sempre trabalhos de profundidade ácrata. Não transigia quando se tratava de defender o anarquismo, incompatibilizando-se algumas vezes com militantes menos radicais no terreno das idéias.

Foi preso algumas vezes. Outras conseguiu fugir das garras da polícia, inclusive quando ia deportado para o Rio Grande.

Vamos colher de suas memórias manuscritas alguns dados sobre este extraordinário, anarquista genuíno: "Tupi e Perdigão chegam no Rio de Janeiro em 15 de maio onde encontram conhecidos, entre os quais Antônio Arcas. Este convida Perdigão para jantar em sua residência e após o jantar oferece-lhe dormida no seu lar".

Não conseguindo trabalho voltei para S. Paulo, fui a Santos a pé.

Estava sendo processado e para escapar, logo que me refiz da caminhada e da fome, retornei a S. Paulo, fui a Sorocaba e Gavião Peixoto e ao voltar li na imprensa que havia sido despronunciado. Estava na Av. S. João. De repente deparo com Evaristo Ferreira de Souza, antigo administrador de "A Plebe". Segui-o à distância na intenção de lhe descobrir o paradeiro e fui preso. Ele mesmo me denunciou.

Passei três dias no xadrez nº 3 da Rua 7 de abril de onde me enviaram para Santos. Ali fui recolhido à solitária com ladrões e vagabundos a quem consegui sensibilizar explicando-lhes as idéias anarquistas.

Após 24 dias de reclusão, 21 na cadeia e 3 no posto policial do Macuco sem comer, fui embarcado no Cargueiro "Itapan" da Costeira, com o nome de Manoel Saavedra, rumo ao Rio Grande do Sul. Aportando em Paranaguá, fui advertido pela polícia marítima de que não podia sair de bordo. Os operários da estiva, tomando conhecimento da minha situação, convidaram-me para desembarcar na lancha. Recusei por não me parecer prudente tal gesto. Segui viagem até Florianópolis onde desembarquei clandestinamente mas vendo o estado de penúria do local retornei ao navio tomando conhecimento de que a polícia me havia procurado. A greve dos marítimos estava em franco progresso naquele porto obrigando o "Itapan" a seguir para o Sul. Nessa época os navios eram protegidos por marinheiros da armada brasileira com quem travei amizade depois de expor minha situação e minhas idéias. Não obstante sua condição de militares ofereceram-me apoio para eu saltar no Rio Grande: "Quando o navio encostar, salte, o resto deixe por nossa conta", declarou-me o sargento maquinista. Ao preparar-me para pular do barco, vi todos os marinheiros do navio encostados na amurada e o sargento, armado de revolver a um canto.

- Salte! Gritou o sargento. Saltei para o cais, dei alguns passos, virei-me e ergui o braço num gesto de despedida. Aqueles marinheiros, uníssonos, ergueram os braços ficando a acenar por longo tempo.

Como não sublimes esses gestos de Solidariedade Humana!!!

João Perdigão Gutierrez foi um dos anarquistas mais fiel e dedicado às idéias. Militou em Santos, S. Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, e fugazmente noutras localidades por onde passou.

Além de sua colaboração na imprensa, fundou o periódico "Dor Humana" de que foi redator, escreveu folhetos e manifestos em datas como o 1º de maio e outras, e fez-se ouvir pela palavra em todas as oportunidades que lhe foram propiciadas. Morreu em Sorocaba, Estado de S. Paulo de onde trocava correspondência com os companheiros do Brasil e do exterior.

Em homenagem, o autor botou seu nome numa das ruas de loteamento em Austin, no Estado do Rio de Janeiro.

Incluímos um dos adendos às suas memórias escritas a pedido do autor pelos dados que nos fornece:

"Notas para as Memórias

De 1919 a 1935 (se não me falha a memória) faleceu o militante do movimento anarquista e operário de S. Paulo, o dedicado anarquista - Francisco Arouca e, nessa mesma época, o Nino Martins, que, por sua cultura e conhecimentos filosóficos, era mais conhecido por Zaratustra morreu na Clevelândia (Oiapoque).

Maria Antonia Soares, irmã de Florentino e companheira do M. Campos, desenvolveu enorme atividade nos meios operários e anárquicos, agindo e falando em todas as reuniões onde comparecesse. A ela e a irmã, Angelina Soares, deve-se a catequização de grande número de companheiras. Dizem que após o falecimento do Campos, converteu-se ao espiritismo. Reside no Rio de Janeiro, em Bento Ribeiro.

Temos lembrança de um grande número de indivíduos que militaram em nosso meio, mas há que haver coerência, ao apontarmos, como anarquistas, dignos desse título aos militantes de hoje ou de ontem. Olhemos em torno, e que vemos? Nada. Ficou-nos uma nata ácrata composta de alguns verdadeiros apóstolos do ideal que tudo sacrificando em holocausto à idéia.

Houve intelectuais que compareciam a algumas reuniões especiais, escreviam belíssimos artigos, mas, quando era necessário agir, desapareciam. Podem ser considerados anarquistas militantes? Pode, sua biografia interessar alguém se ela não for falseada? Pode-se escrever uma biografia de um fulano, nascido no dia tal do ano tal, apresentando-o como grande militante do anarquismo porque ele freqüentou o Sindicato, comprou uns números de um jornal anarquista, tinha na estante a "Conquista do Pão" e... sumiu? Há! sim, fez um discurso exortando os operários a combaterem o patronato e julgava que após o triunfo do Proletariado, poderia gozar porque haveria mulheres a granel que, despidas de todo preconceito sexual, entregar-se-iam como qualquer cadela. Isto é ser anarquista? Não. Os que estiveram preocupados em escrever biografias, devem procurar sindicar o passado e o presente de seu biografado.

Se fosse organizar uma lista de todos os que passaram por nosso campo, intelectuais e operários blasonando anarquismo, necessitaria duzentas páginas. Todos foram anarquistas sui generis.

Para sermos verdadeiros anarquistas, devemo-nos despir de todo interesse político ou financeiro. A vaidade, a inveja, a calúnia e todos os preconceitos morais e intelectuais, devem por-se de um lado e seguirmos lutando pelo advento de nossos ideais, sem desfalecimentos, sem um recuo, aconteça o que acontecer, muito embora tenhamos de tombar sem vida.

É assim que concebo o anarquista, e só a estes, que são uma milionésima parte da humanidade é que consideramos verdadeiros anarquistas.

A humanidade, as multidões, são como as águas do oceano: ora avançam dando-nos a impressão de uma próxima e total inundação da terra, ora recuam, deixando uma porção de terra a descoberto. Volúveis. Humanos. As gotas, as poças que ficaram. essas são as que manterão a umidade, tão necessária à vida. E com o sol da idéia, as gotas refervilham e as águas das poças evaporam-se, condensando-se no espaço, onde formam as nuvens pejadas de idéias que hão-de descarregar a tempestade que lavará os humanos que contaminam a sociedade. Revolução, fim de uma evolução. Canção inata da Humanidade.

Há que fazer uma anotação honrosa ao velho militante Adelino de Pinho, escrevendo, falando ou educando em sua escola, sempre foi coerente com seus ideais. Separado da família, sofreu amargamente, tendo passado muita fome. Quando retornando, a Minas, esteve em nosso lar, na hora do almoço, não se conteve e chorou copiosamente.

- Que é que você tem Adelino?

- Há! Já faz tempo que não estou habituado a isto.

Dizem que está recolhido no lar de um seu filho. Residiu algum tempo em "Nossa Chácara".

João Penteado, continua freqüentando nossos Centros. É espírita. Aterroriza-se ao ver uma barata. Se à noite, ela estiver na soleira da porta de seu lar, ele não entra, e prefere passar a noite na calçada. Que tal?

Álvaro Palmeira (Dr.) quando estudante foi um verdadeiro artista da oratória. Apresentava. paisagens ideológicas que arrebatavam... Onde está? Sumiu... Antônio Candeias (Hélio Negro) ficou milionário. João da Costa Pimenta, candidato a deputado. Everardo Dias... Nuvem que passa. Não falamos dos inflamados anarcóides Astrojildo Pereira, Octávio Brandão, Elias da Silva porque esses passaram com armas e bagagens para a outra banda. Afonso Schmidt o boêmio que, com o fundilho das calças furado, dormia sobre um banco da redação d’A Lanterna, hoje é o grande intelectual, poeta, romancista e jornalista, Sr. Afonso Schmidt! Não me toque...

E Schmidt foi autor da célebre frase: "A onda vermelha, que se avoluma e avança".

No Rio, tínhamos o velho João Gonçalves. Coerente com seus ideais. Não tinha a mínima vaidade. Íntimo do Fábio Luz. Tinha uma mania: quando nascia um filho de burguês enviava, ao progenitor, um cartão de pêsames por ter nascido mais um herdeiro da tirania, e quando falecia um burguês mandava para toda a família um cartão felicitando-a por ter morrido um explorador da humanidade. Não deixava escapar um. Se não me falha a memória tinha a profissão de contador. Magro, alto, sofria de bronquite o que muitas noites o impedia de comparecer as reuniões.

Pertenceu ao Centro "Os Emancipados".

Frederico Kniestedt. Alemão. Companheiro de Kropotkine e Malatesta, pessoalmente informou-nos ter sido condenado à morte, tendo emigrado para o Brasil. Vassoureiro, trabalhava por conta própria, em Porto Alegre.

Adolfo Garcia, anarquista convicto. Grande inteligência. Meigo e tolerante. Esoterista. Seu sobrinho e cunhado, Vítor Garcia, foi expulso em 1928 para a Espanha. A irmã de Vítor, companheira de Adolfo, tendo ido na delegacia, discutiu com o delegado Ibraim Nobre, sendo presa e expulsa para a Europa.

Vítor tomou parte na revolução espanhola.

Manoel Peres Tavira, profundo conhecedor da filosofia anarquista. Pessimista ao extremo. Fez parte do "Centro de Estudos Sociais", "Os Emancipados" do Rio de Janeiro. Tomou parte ativa em todos os movimentos operários e anárquicos, na cidade de Santos.

Antônio Ribeiro militante santista. Manoel Marques Bastos, bom elemento. Severino Gonçalves Antunha foi um bom elemento, é atualmente um bom burguês. Tupi (Salustiano da Silva) mais conhecido por Silvio (Amorim) militou com muito entusiasmo, mas sem convicções. Fazem 24 anos, não sabemos nada dele.

Se não informei em anterior carta, informo-vos que Rodolfo Felipe (o simpático Quasimodo d’A Plebe) manteve por muito tempo, em S. Paulo, a livraria "Inovações" quando administrador d’A Plebe.

Francisco Cianci, bom elemento, continua freqüentando o Centro de S. Paulo. Com quase todos os oriundos da velha Itália, só se preocupa com o que diz respeito à terra de Dante. Souza Passos dizia dele que: "se o anarquismo fosse italiano, seria capaz de transformar a sociedade". Se você não o conhece pessoalmente, pode ver sua fisionomia no clichê d’O Cruzeiro. "Álbum de família" é o título à direita de quem olha para a revista. Está olhando para o fotógrafo.

Antônio Abranches, pessimista. Tinha uma frase que aplicava a todos os que não eram muito coerentes com o ideal que apregoavam: "Um, como há muitos". Alfio Famarini, muito meigo, inteligente, mas muito medroso. Era contador. Há 37 anos não tive notícias dele. João Martim Garcia. Muito inteligente. Autor de ótimos artigos publicados no "Libertário" e "Plebe". Contador, mas como na época, maioria dos contadores não ganhavam para comer, trabalhava em açougues. Em 1925 ou 26 passou a mascatear vendendo roupas feitas. Ultimamente estava em Santos, como apontador, em construções, das quais era empreiteiro um seu cunhado. Fazia parte do Grupo "Os Libertários".

O Grupo "Os Libertários" era composto por: Arsênio Palacios, João Martim Garcia, Felipe Gil (Souza Passos), João Peres Bousa, Alfio Famarini, Manoel Soares Arias, Indalecio Iglesias, Priori, Manolão, João Perdigão, Maria Antonieta Soares, Angelina Soares, Pedro Zanela, Ricardo Cipola, José Romero, Fernandes Varella, Nicola Parada, Francisco Peralta, Alonso (creio que seu primeiro nome era Antonio). Suicidou-se por questões de amores, em 1922 ou 21, Nino Martins, o Zaratustra, Francisco Arouca, este tolerante e freqüentava o Grupo da "Plebe" assim como Antonino Fernandes. Temos a esclarecer que Antonino e João Peres, eram amigos inseparáveis, ambos sapateiros e residindo, sempre, no mesmo cômodo.

Além do Grupo "O Libertário" existia um grupo sem nome tendo por sede o Café São Paulo, sito no Largo da Sé. Aí conseguimos reunir alguns intelectuais. Nossas reuniões prolongavam-se até 1 ou duas horas da madrugada, discutindo literatura e daquelas reuniões nasceu o movimento literário e poético que ganhou foros de cidadania, com o verso livre. Souza Passos, Arsênio Palacios, Felix de Carvalho e outros entusiastas da literatura moderna, desenvolveram grande campanha nesse sentido. Tivemos bastantes contatos com Carlos de Campos (mais tarde foi governador de S. Paulo) no Café Paraventi, que ele freqüentava.

Martins Fontes era um grande médico e poeta, escreveu um grande número de poesias anárquicas, entre as quais "Chuva de Estrelas" e "Os Iconoclastas". Vestia-se com um esmero desurrado, e sempre dizia que não tinha roupa.

Sobre Martins Fontes, seria útil procurar saber mais dados biográficos de sua pessoa e vida. Ele foi íntimo de Olavo Bilac, embora não comungasse com seus princípios doutrinários. Era médico do pavilhão de tuberculosos, na Santa casa de Santos. Faleceu, em uma intervenção cirúrgica que sofreu. Proclamava seu anarquismo, por todos os recantos. Foi médico de Júlio Prestes e convidado pelo Governador Mexicano a ir até o México realizar uma das suas célebres e poéticas conferências, declinou do convite. "por não ter roupa para apresentar-se perante o mundo oficial mexicano". Era o homem que mais luxuosamente vestia em Santos! Casaca ou fraque, camisa, branca, engomada; sapatos de verniz, com meia polaina, branca, luvas brancas, bengala ou guarda-chuva, com o cabo de ouro! E não tinha roupa para apresentar-se!!

As noites, na área traseira de sua residência (era um sobrado) punha-se a declamar, em voz alta, suas composições poéticas, e só depois de bem buriladas é que as redatava para dá-las à publicidade.

Este homem rodeado de uma legião de admiradores, não conhecia a vaidade. Ao entrar na Santa Casa, todos os funcionários do hospital sabiam-no, porque ele entrava falando alto. As freiras temiam-no. Se ao subir para o pavilhão, no elevador, houvesse operários esperando a vez, ele fazia-os entrar, com ele e depois ia-lhes falando da má organização social presente.

Martins Fontes foi querido por gregos e troianos. Se não me falha a memória estava separado da mulher".

  

JOSÉ SIMÕES - 4

Português, empregado no comércio e depois funcionário do Lloide Brasileiro, anarquista.

Fez-se militante no Rio de Janeiro onde viveu e faleceu. Sua colaboração começou depois de algum tempo de observação nas associações operárias e de muita leitura de imprensa e obras de sociologia. Somando seu aprendizado à convicção ideológica, tornou-se um militante culto. Escrevia bem, fundou com José Oiticica o jornal "Ação Direta" (1ª fase - 1929-30) e durante a "Revolução de 1930" teve de homiziar-se no subúrbio do Rio de Janeiro. Perdeu o emprego mas sobreviveu à caçada policial retornando à luta, integrando o Grupo fundador-diretor da "Liga Anti-Clerical" com sede na Rua Teófilo Otoni. Durante uma batida policial a sede da Liga por denúncia - segundo informe de Diamantino Augusto e outros - dos bolchevistas que haviam tentado em vão, integrar a direção daquele organismo libertário-anti-clerical, foi preso, sendo pouco depois restituído à liberdade. A ditadura firmava-se isolando o movimento anarquista, as forças oposicionistas e antifascistas no Brasil, graças ao maquiavélico Getúlio Vargas e seus sequazes.

Obrigado a manter-se em silêncio isolou-se, comparecendo apenas aos piqueniques depois de 1945. Mesmo afastado José Simões nunca renunciou ao anarquismo. Morreu fiel aos princípios que abraçara com convicção e segurança na juventude.

 

JOÃO PERES BOUZAS - 5

Espanhol, operário, sapateiro, anarquista.

Nasceu em Orense, província da Galícia, em 8 de abril de 1898 e faleceu no Rio de Janeiro em 5 de setembro de 1958.

João Peres emigrou para o Brasil em 1915, chegando ao Rio de Janeiro a 18 de novembro.

Sem outro meio de ganhar a vida emprega-se e logo se dá conta do conflito entre o capital e o trabalho. Ouve falar da luta de classes, é convidado por companheiros de aprendizado para assistir a uma conferência do Dr. José Oiticica no sindicato. Atento e curioso saiu impressionado com o calor dos debates esclarecedores que vinham de encontro às suas dúvidas e inquietações. Resolveu então freqüentar o sindicato e estudar o ideal libertário propagado pela imprensa afim e pelas obras sociológicas vendidas nas sedes das associações operárias e nas redações dos jornais de classe.

Em 1920 vai radicar-se em S. Paulo. Entra em contato com os anarco-sindicalistas e anarquistas da capital bandeirante. Estuda os clássicos do anarquismo, forma sua biblioteca, mais tarde roubada pela polícia paulista, num dos assaltos de que foi vítima pelos "defensores da lei"...

Sua participação cresceu com sua convicção ideológica e guiada sempre pelo temperamento enérgico, fazendo dele um grande agitador antes de um teórico.

Para a polícia João Peres era um elemento perigoso, um anarquista que precisava ser banido. Certa vez, prendeu-o e tentou dar-lhe sumiço, mas o proletariado paulista, tomando conhecimento das intenções policiais, deflagrou intenso movimento de protesto em seu favor, nos principais Estados da federação brasileira fazendo gorar o intento criminoso da polícia.

Por suas idéias e por sua ação desassombrada foi preso diversas vezes conhecendo as tétricas masmorras do Estado de S. Paulo, dos Gusmões, Paraizo e Maria Zélia, sofreu torturas psicológicas e físicas, inclusive sendo obrigado a dormir no chão úmido com temperatura de 10 graus abaixo de zero, a levantar-se altas horas da noite para ser torturado e nu receber duchas de água gelada. A pretensão da polícia era reduzir a resistência, matar lentamente João Peres. E não se pode dizer que não conseguia lograr êxito: durante as torturas policiais sob o efeito da baixa temperatura nas masmorras paulistas contraiu bronquite asmática que lhe amargurou a vida, encurtou a existência e levou a sepultura.

Não obstante a ferocidade com que era tratado pela polícia política, tão logo era restituído à liberdade voltava à sua trincheira, recomeçando a luta no ponto onde as autoridades o surpreenderam.

Em 15 de julho de 1924 encabeça manifesto dirigido ao "Comitê Revolucionário" do Estado de S. Paulo fixando as metas do proletariado anarco-sindicalista servindo para que o Governo de Artur Bernardes deportasse vários anarquistas para o Campo Concentração do Oiapoque. Alguns dos deportados lá ficaram para sempre...

João Peres não costumava fugir da polícia. Seus atos, seu comportamento ideológico era dos mais retos: dizia francamente o que pensava das coisas e das pessoas sem rodeios e/ou amortecimento de adjetivos. Direto, chegava a agredir com palavras quando não lhe agradava o procedimento. Por isso tinha amigos que admiravam a sua franqueza e os que dela discordavam por não entender devidamente as origens do seu comportamento exaltado, seu radicalismo ideológico.

Em Outubro de 1934 João Peres voltou a ser preso, desta vez na sede da Federação Operária de S. Paulo. Levado para o cárcere como criminoso, foi novamente torturado ficando entre a vida e a morte. E novamente os protestos, as manifestações públicas, comícios e as denúncias na imprensa salvaram João Peres.

Por essa época o fascismo importado da Europa tinha livre trânsito no Brasil. Milhares de brasileiros recebiam com entusiasmo o fascismo de Getúlio Vargas e o integralismo de Plínio Salgado.

Os dois se integravam com a diferença de que o primeiro dispunha do poder militar e o segundo dos seus legionários. O proletariado anarco-sindicalista opunha-se a estas forças retrógradas com suas armas: a greve, a sabotagem a sua imprensa! S. Paulo foi convertido em campo de batalha e João Peres - como "soldado" da Federação operária - lá estava enfrentando a polícia e os integralistas com sua coragem.

Foi então que o Governo de Getúlio Vargas por insistência de sua ralé policial decretou a expulsão do irrequieto anarquista João Peres que só veio a saber quando viu nas primeiras páginas dos diários sua ordem de expulsão. Colhido de surpresa, assim mesmo consegue burlar a vigilância policial, viaja para o Paraná, Santa Catarina e foi "exilar-se" no Rio Grande do Sul, e transcorridos alguns meses volta a S. Paulo como turista e desta cidade viaja para o Rio de Janeiro onde fixa residência com a família.

"Esquecido" passou os anos de guerra (1939-1945) mantendo contato com seus companheiros de idéias, e com a queda da ditadura de Vargas sai da clandestinidade para ajudar a fundar o jornal "Ação Direta" ao lado de José Oiticica, José Romero, Manuel Peres, Amilcar dos Santos e outros sobreviventes.

Por não escrever na imprensa o nome de João Peres poderia ter ficado no mais absoluto anonimato como tantos lutadores, se não fosse pai do anarquista Ideal Peres, esposo de Carolina Peres e/ou não tivesse merecido de Edgar Leuenroth o seguinte comentário na imprensa quando de sua morte: "Não lhe podemos negar valores paralelos: Rodolfo Rocker escrevia e João Peres fazia".

João Peres - para nós - foi um dos muitos idealistas que os escritores não incluem na História do Brasil por medo de desagradar aos seus amos.

Em novembro "Ação Direta" do Rio de Janeiro e em dezembro de 1958 "Voluntad", jornal anarquista do Uruguai registaram a morte do anarquista destemido que se chamou João Peres Bouzas.

  

JOSÉ PUYCEGUR - 6

Francês, operário da construção civil, anarquista.

Radicado em Santos é lembrado pelos que o conheceram como um dos mais dedicados semeadores da idéia ácrata naquela cidade.

O jornal "Ação Direta" (29-12-1948) com assinatura de Quetzal (Sousa Garcia) comenta assim a morte de José Puycegur: "O francês, como o chamávamos na intimidade, era como poderíamos dizer um desses raros militantes que vivem exclusivamente para suas idéias. Pertencia à geração de revolucionários feitos já sob o ciclo da reação que no Brasil se iniciara com Epitácio Pessoa e Bernardes; tomou parte ativa no movimento obreiro em prol da emancipação da classe trabalhadora desde 1924, não esmorecendo um só momento; atuou durante muitos anos no sindicato da Construção Civil de Santos, em cujo seio havia ganho um lugar no coração dos trabalhadores por sua sinceridade e honesta atuação; foi um dos fundadores da Liga Anti-Clerical em cujos quadros batalhou incessantemente, e quando a Liga resolveu em uma assembléia transformar-se em Centro de Estudos Sociais, lá estava o Francês em suas primeiras filas, animando com sua palavra a obra de esclarecimento. Foi durante muitos anos pacoteiro de "A Plebe" e "A Lanterna", e um dos fundadores a animadores da Juventude Anarquista de Santos.

Conheci o Francês nos agitados dias de 1933 quando convidado a participar de uma assembléia da Liga de Livres Pensadores. Nessa assembléia a Liga transformou-se em Liga Anti-Clerical, e conjuntamente com Puycegur fui nomeado membro da Comissão Diretiva. Ao terminar a assembléia, nos reunimos e depois, como morávamos no mesmo bairro, fomos juntos para casa, e o Francês não perdeu tempo; convidou-me a ir a sua casa e foi nessa mesma noite que entrei em contato com o ideal anarquista. Puycegur possuía uma selecionada biblioteca e pela primeira vez tive a satisfação de ler os folhetos de Kropotkine: "O Anarquismo, sua filosofia e seu ideal", "No Café", de Malatesta. Desde esse momento nos tornamos amigos inseparáveis e o Francês brindou-me com a oportunidade de observar uma vida exemplar, dedicada inteiramente à causa da libertação humana. O que mais me impressionou foi a identidade de sua vida com as idéias que propagava. Havia construído um lar que bem pode servir de exemplo como uma célula viva da sociedade anárquica.

A reação, em 1935 desfez as organizações sindicais; o Francês prosseguiu entretanto sua obra de propagandista como franco-atirador. No país não se publicava nenhum jornal anarquista, mas sempre de uma ou outra maneira chegava a Santos, "Cultura Proletária", de Nova Iorque, "Tierra y Libertad", da Espanha, e "La Protesta", de Buenos Aires, e o Francês com a persistência da formiga ia repartindo nossa propaganda e com sua palavra levando um pouco de luz às mentes proletárias. Sua biblioteca estava em constante movimento, e quando em 1946 reapareceu "Ação Direta", lá estava Puycegur no seu posto de combate e imediatamente se tornou o "pacoteiro" do nosso jornal de Santos.

"A Plebe" de 13 de outubro de 1948 e de 20 de fevereiro de 1949 também registou a "perca irreparável do companheiro dedicado, do anarquista, do ser humano José Puycegur, ultimado pelo discurso fúnebre do Dr. Francisco La Scala que reproduzimos: "Nesta despedida última, José, queremos reafirmar-te a grande admiração que tivemos e teremos por você. A doença insidiosa levou-te prematuramente, quando muito ainda esperávamos de tua atuação social.

Ficaram, entretanto, exemplos formidáveis, que não poderão ser esquecidos e servirão de estímulos animadores a fazer vicejar outros valores humanos do teu quilate. Ninguém de boa-fé, poderá contestar o idealismo que acusaste, ninguém ousará apontar outro melhor; ninguém poderá desmerecer-te, pois estiveste sempre a cogitar do aperfeiçoamento.

Datando de pouco o nosso conhecimento, tive a satisfação de reconhecer em ti um verdadeiro trabalhador consciente, de vistas largas, escudado em princípios verdadeiramente bons, compreendendo a questão social com marcante superioridade e lutando com denodado vigor pela factibilidade dos mesmos. Os que te conheceram há mais tempo, melhor poderão dizer de como defendias e pregavas a causa da emancipação social.

Demonstraste sempre uma compreensão cristalina das necessidades humanas, e tendo tido atuação destacada nos meios sindicais de Santos, nunca te deixaste arrastar por tendências contrárias à tua mentalidade libertária.

Defendestes com desassombro a sociedade sem donos e sem leis autoritárias. A tua militância bem prova o asseverado.

Grande lacuna abre-se na Santos libertária de outros tempos; o teu lugar não poderá ser preenchido. Quem o há-de fazer com tanta firmeza? Confiemos nas sementes.

José, antes de encerrar este último bate-papo com você, quero externar a todos aqui presentes do teu valor e firmeza de convicções. Ontem, ao ser internado no Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Santos, na portaria, ao ser feito o registo de internamento, foi indagado da companheira se o José tinha religião. Dona Isaura, com infundado receio e hesitante, acabou dizendo que o Francês era protestante.

Quando, no leito do Hospital o José soube do fato, apesar de toda a prostração e caquexia, indignou-se cheio de amargor, dizendo não ter nenhuma religião - e não estar ainda com o miolo mole.

Morto José, teu nome é uma suave mensagem, convidando todos os anarquistas e simpatizantes a prosseguirem"().

 

JORGE CAMPELO - 7

Português, comerciário, anarquista.

Viveu e militou alguns anos no Rio de Janeiro.

Foi expulso do Brasil por ser anarquista antes da guerra de 1914-18. Com os demais militantes da época, ao mesmo tempo que militava nos meios acratas, era grevista com seus companheiros de ofício. Lutava por melhorias que iam desde aumentos salariais até redução da jornada de trabalho diário e melhores condições de higiene nas fábricas, oficinas e armazéns.

Expulso por suas idéias só lhe restou recorrer a solidariedade dos companheiros portugueses até conseguir liberar-se da polícia e obter emprego.

Como todos os trabalhadores idealistas, a "grande fortuna" de Jorge Campelo eram os seus braços para trabalhar e as idéias libertárias pelas quais era punido...

Seu estado de pobreza está patente no teor da carta dirigida por ele a Neno Vasco, com data de 12 de setembro de 1912, que inserimos a seguir:

"Caro Neno:

É com bastante pesar que me vejo obrigado a importunar-te mas o estado crítico da minha situação a isso me obriga.

Bem vês que sendo eu como tu um trabalhador foi com sacrifício que te servi, aliás baseado na promessa da restituição logo que te fosse possível. Bem sei que se não o tens feito é por te faltarem doutros lados, mas a minha situação é desesperadora porque estou empenhado e ou satisfaço estes compromissos ou terei de me empenhar ainda mais, o que me levará a uma situação deplorável.

Crê, meu bom Neno, que se me obrigo a escrever-te desta forma, não é porque a isso sinto prazer é antes com profunda mágoa, mas tu compreenderás e farás o possível de me valer neste momento crítico recorrendo aos teus amigos como por ti e fiz valendo-me dos mesmos. Cinqüenta e cinco escudos decerto não será coisa que não arranjas recorrendo aos teus amigos de "Além-mar", mesmo não sendo de uma vez será de duas e me haverá salvado num gesto de solidariedade.

Do teu Camarada e amigo

Jorge Campelo()

Apesar de todas as dificuldades econômicas Jorge Campelo continuou sua caminhada ácrata. Tomou parte nos Congressos da União Operária Nacional de 1914, em Tomar, Portugal e em 18 de março de 1923, data do aniversário da Comuna de Paris (segundo o jornal "A Comuna" do Porto, Portugal, daquele mesmo dia e mês) Jorge Campelo com outros anarquistas portugueses promovia clandestinamente em Alenquer a Primeira Conferência Anarquista junto do forno (recinto onde se manipulava o pão) de uma modesta padaria na qual trabalhava associado com outros companheiros.

 

JOSÉ BERNARDO - 8

Brasileiro, operário marítimo, anarquista.

Não se pode atribuir ao libertário homem do mar José Bernardes rasgos literários, discursos candentes e/ou uma militância constante. Por dever de ofício, só quando regressava a terra (Niterói) é que podia oferecer a sua colaboração na sementeira ácrata. E foi uma dessas vezes que José Bernardo enviou "A Plebe", semanário anarquista de S. Paulo um trabalho intitulado "Meu Brado": "Não sei se porque sou ambicioso, presa dessa ambição elevada de saber, conhecer, definir, esmerilhar os segredos estranhos da natureza - se porque sou quase analfabeto, o certo é que dentro de mim, estruje forte e tonitroante este brado de agonia racional: Instrução!"

"Sem instrução não pode haver compreensão nítida do ideal libertário. Abraçar uma idéia sem conhecer-lhe o fundo é afirmar uma causa que não se sabe o efeito.

País novo, imbuído das maiores aberrações prosaicas e místicas, que para aqui vieram trazidas de além-mar por aqueles que por lá se desmascararam perante os nossos irmãos, tem sido este pedaço de terra o melhor pasto para as bestas humanas que de lá vieram e as que aqui se criaram saciaram desassombradamente a sua sede de sangue, sugando o esforço cotidiano dos que aqui labutam.

A disseminação do erro, a propagação da mentira por eles transformada em verdade, são suas armas preferíveis, nos seus escritos, nas suas palestras, conferências, etc...

Sua divisa é: instruir para corromper!

E obedecendo ao mesmo lema terrivelmente perverso, criam-se internatos e externatos, fundam-se escolas e mais escolas, importam-se professores e professoras e, num desdobramento perpétuo a corrupção vai se alastrando entre todas as camadas sociais como o contágio virulento de um mal incurável.

Urge pois que criemos as nossas escolas para salvaguardar-nos a parte maior do proletariado adulto e a totalidade dos pequenos proletários, se quisermos triunfar para o futuro.

Instrução! deve ser o nosso brado, e nossa divisa: instruir para nos redimir().

Nesse mesmo ano forma-se o Grupo de Propaganda Social, tendo como secretário de correspondência José Bernardo e local de reuniões a rua S. João, 95, Niterói.

Tanto nos estatutos deste Grupo quanto nas atividades posteriormente desenvolvida, José Bernardo estava lá pregando a necessidade da Instrução Racionalista, disseminando a cultura geral e o anarquismo.

 

JOSÉ MARQUES DA COSTA - 9

Português, carpinteiro, jornalista, anarquista.

Desde muito jovem, Marques da Costa se inicia no árduo trabalho de buscar a verdade social, a verdade política, a verdade cultural e introduzindo-se em todos os meios onde pudesse colher algo que desse satisfação a sua ânsia de aprender. A sua aldeia, pequeno e humilde lugar de Perafita que não tinha espaço suficiente para dar vazão às suas múltiplas energias.

Num lugar tão pequeno e de tão parcos recursos não lhe permitiram dar satisfação à dinâmica do seu temperamento. Por isso no ano de 1917 chega ao Brasil, fixando-se inicialmente em Belém do Pará. Ali ingressa no Sindicato da Construção Civil.

De 1917 a 1920 milita em Manaus e Pará. Robustece sua capacidade militante, funda e dirige no ano de 1919 o jornal "A Revolta". Destaca-se como jornalista-operário e passa a dirigir o periódico "O Trabalhador", órgão de propaganda da Federação Operária do Pará, de cuja organização foi ativo e eficiente militante. No ano de 1920 (ainda no Pará) redigiu "O Semeador", jornal sindicalista revolucionário, que, tal como as duas outras publicações anteriores, produziram forte impacto nos meios capitalistas.

Em fins de 1920 viaja para o Rio de Janeiro. Por essa época as perseguições aos anarquistas e aos sindicalistas revolucionários era muito forte. Comandava a caçada aos "agitadores" estrangeiros o então desembargador Gemeniano da Franca. Por outro lado, o Movimento Operário, em cujo seio fervilhavam as idéias anarquistas pregadas por José Oiticica, Fábio Luz, Florentino de Carvalho, João Gonçalves, Carlos Dias, Orlando Lopes, Domingos Passos e tantos outros não menos valorosos combatentes e idealistas, ressentia-se das investidas dos bolchevistas orientados pelo também intelectual e dito anarquista Astrojildo Pereira. Foi neste clima de efervescência que Marques da Costa chega à então Capital do Brasil para ingressar no movimento operário e libertário.

Destaca-se logo pela sua atividade e fluência como orador. É indicado para Secretário Geral da Federação Operária do Rio de Janeiro, ao tempo com sede à rua da Constituição nº 12, e em seguida para substituir o militante Mâncio Teixeira na direção da "Voz do Povo", publicação hebdomadária.

Os debates em torno da revolução russa pegam a esquentar nos sindicatos, nas assembléias da Federação Operária e no "Centro Cosmopolita", com sede na rua do Senado. Astrojildo Pereira age sempre repticiamente e vai aliciando alguns militantes ao mesmo tempo que acena aos despeitados com um lugarzinho de chefe e consegue levar José Elias da Silva, militante de valor, e mais tarde, o farmacêutico Otávio Brandão. Marques da Costa à frente da Federação Operária e sentindo esse árduo problema funda a revista "Renovação", logo no ano de 1921 em cujas páginas desenvolve com outros anarquistas, o combate aos "trânsfugas", aos "astrojildistas" que se deixavam levar pela cantilena do "bravo-defensor" da revolução russa. Desde então onde quer que houvesse uma assembléia, uma reunião ali está Marques da Costa defendendo vigorosamente o anarquismo. Tempos depois funda "O Trabalhador", jornal que dirige com brilho graças a impressão excelente feita nas oficinas do diário "A Pátria", onde Marques da Costa dirigira (desde o 1º número) a seção "trabalhista". Como jornalista revela-se combativo e conhecedor profundo na questão operária passando também a dirigir seções trabalhistas nos diários "A Notícia", "A Nação" e mais tarde na "A Vanguarda". Desfrutando de uma condição excepcional na imprensa diária, pode como ninguém, opor-se aos novos líderes do bolchevismo, e o fez com as próprias pregações daqueles que pouco antes se diziam preclaros inimigos do Estado. Além disso Marques da Costa colaborou também no "O Emancipado" dirigido por Fábio Luz e "Spartacus", sob a direção de José Oiticica, antes auxiliado pelo "chefe" dos bolchevistas, Astrojildo Pereira. A posição privilegiada na imprensa, com que Marques da Costa contava, e os seguros e contundentes golpes mortais que aplicava nos desertores do anarquismo granjearam-lhe o título de inimigo nº 1 dos bolchevistas e uma ignóbil agressão física.

Desde então passou a ter que se defender de dois grandes inimigos: dos bolchevistas "astrojildistas" e da polícia política que o acusava de "agitador" estrangeiro. Todavia ele continuava inflexível em defesa do anarquismo e no combate aos trânsfugas que desejavam ser chefes, o que não podiam ser no campo libertário. Chega o dia 1º de maio de 1924 e os trabalhadores organizam, na Praça Mauá, um dos maiores comícios públicos até então realizados. Marques da Costa foi proibido pela polícia de falar. Inconformado, salta sobre o palanque e com a sua enorme cabeleira em desalinho, inicia seu agitado discurso: "Camaradas! Apesar da polícia ter vindo aqui para me proibir de falar, eu vou falar". E como falou! Aqueles que assistiram ao grande comício contam que Marques da Costa inflamou de tal forma a multidão que parecia ter-se desencadeado enorme tempestade a ponto de a polícia ficar tão acuada pela multidão que não pode impedir o seu pronunciamento. Mas foi o fim!

Terminado o comício a polícia promove uma verdadeira caçada ao incomodo anarquista e consegue prendê-lo. Mas os motivos para uma expulsão não eram suficientemente fortes e recupera a liberdade vigiada. Explode a Revolução Paulista de 5 de julho e é preso de novo, agora juntamente com o prof. José Oiticica, o Dr. Fábio Luz e muitos outros anarquistas que nada tinham com a revolução política, mas foi o pretexto para expulsá-lo para Lisboa, onde chegou em fins de agosto de 1924.

Claro que, para quem lutou com tanto desassombro contra todas as espécies de governos e seus partidários, teria fatalmente que contar com muitos adversários e sérios inimigos, tanto no campo fascista quanto no bolchevista. São do próprio Marques da Costa as seguintes linhas: "De qualquer modo, nós anarquistas, somos colocados no extremo oposto - precisamente por não nos prestarmos a fazer a política de uma ou outra facção. Incidem sobre nós os olhares desconfiados e as críticas desabridas dos marxistas - porque não concordamos com as suas teorias nem com os seus processos de luta - sempre incertos, sempre movediços, sempre espantosamente oportunistas. Somos igualmente criticados com severa intolerância pelos "ativos" da oposição democrática - porque não damos franco e público apoio às suas campanhas (na questão africana, por exemplo) nem as suas loucas intentonas... mo mar e no ar.

E por cima de tudo, somos rigorosamente vigiados e perseguidos, sob todos os aspectos, pelos agentes e órgãos da situação - porque somos anarquistas, simplesmente e combatemos o seu sistema político desde o seu nascimento".

Todavia no campo marxista, foi no Brasil onde travou heróicas batalhas e sofreu covardes traições.

José Marques da Costa foi um dos grandes colaboradores da nossa pesquisa. Vale inserir aqui três de suas cartas com dados substanciosos sobre a sua militância e colaboração no Movimento do Brasil:

"Lisboa, 12-11-1924

Meu prezado amigo José Cancella

Muitas saudades!

Já quis escrever-lhe mas não soube para que endereço devia fazê-lo. Mas agora, que minha companheira me disse, em carta que recebi ontem, que você e o Cypriano foram quem lhes fizeram a embalagem e mais favores de que precisou para embarcar; e visto que me mandou o endereço do Cypriano, não mandando o seu por se ter extraviado; resolvi escrever-lhe e faço-o na convicção de que este lhe há-de chegar às mãos.

Quero ter a satisfação de lhe dizer que muito obrigado!

Essas duas palavras, tão singelas na forma, encerram, no fundo, toda a minha gratidão.

Estou preso, em conseqüência duma infame acusação. Mas o que mais doe e o que mais revolta a alma é que fui acusado por indivíduos que até tinham por dever defender-me - se eu fosse o criminoso que a polícia teima em me considerar.

O Joaquim Rodrigues, aquele que você conhece, da "Renovação" foi um pulha para mim, um miserável, pior que um traidor. O Alexandrino Valente Coutinho, outro pulha, não menos miserável nem crápula que o outro. E o próprio Elísio Nascimento, talvez sem pensar o mal que me fazia, corroborou o depoimento daqueles dois.

Que dizer disto? Que é uma infâmia? Não! Não há vocábulos que classifiquem semelhante ação.

Estou preso há 40 dias!

Estive rigorosamente incomunicável, só, como ainda hoje estou, 33 dias!

Passei os maiores horrores.

Agora estou à espera de ir para o Tribunal. Se o Juiz me pronunciar, como tudo indica, entrarei no Limoeiro e esperarei 2, 3, 4 ou mais meses para ser julgado. E depois, a perspectiva horrível duma sentença, que pode ser de 2 a 20 anos de prisão!

Quando se é acusado por qualquer ato que praticamos, não temos o direito de nos lamentar. Mas no meu caso, nesta horrível emergência?! Oh! sinto que todo eu sou ódio contra os meus acusadores.

E que razões teriam para me acusar?

Nenhumas. O Elizeo veio me visitar e disse que só disse o que disse porque os outros já tinham feito o mal. E os outros, alegam que foram ameaçados de não sair da prisão. Assim, disseram o que a polícia indicou e foram postos em liberdade.

O Manoel Antônio Pereira também esteve incomunicável perto de 30 dias.

No dia 8 foi preso o Salomão Bunin.

E minha esposa e meus filhos aguardam, coitadinhos, o meu regresso... Quando será?

Leia a carta do Marques.

Digam ao Albino Barros que eu escrevi para o nome dele e do Primitivo Caetano, para a rua Barão de São Felix, 138.

Também escrevi para Manuel Batista (o zelador) para Praça da República, 42 - 3º e para o Alfredo Ferreira, escrevi a/c de "A Pátria" e outra para rua do Senado, 73 ou 78.

Agora não escrevo para mais ninguém, sem receber respostas.

Naquelas cartas iam outras, para o Aniceto, Pizzuto, A. Barros e tantos outros.

Mandem-me o endereço do Lírio de Rezende e os endereços de vocês. Falem-me do Passos.

Digam a toda a gente que quando eu pedi, daqui da prisão, auxílio para minha família é porque ignorava, absolutamente, o resultado da subscrição.

E expliquem: Que minha companheira gastou durante o tempo que demorou em Lisboa e em passagens e transporte de bagagem para o Porto 960$00. Mandou-me primeiro 200$00 e agora mais 100$00 para comer e outras despesas como papel, selos, jornais, gorjetas aos guardas, comida, etc., e declarou que ainda tem recursos para quase todo o mês de dezembro.

Não ouve, da minha parte, qualquer intuito de exploração. Sabedor do muito que os trabalhadores do Rio lhe deram, renunciei logo a qualquer novo auxílio, retirando o apelo que daqui enviei.

Recomendem-me a todos os camaradas e recebam abraços cordiais do

Marques da Costa

Escrevam para casa onde estão morando minha esposa e filhos.

Rua Silva Aroso, 4

Perafita, Matosinhos, Portugal".

 

Lisboa, 25 de novembro de 1962

Meu camarada e amigo:

Espero que terás recebido a minha carta de 18 de outubro e que, interrompida de várias vezes, demorei longos 18 dias a escrever! Terá realmente chegado às tuas mãos? Conto que se a recebeste me darás resposta passado pouco tempo - para meu governo!

Estive com o Alexandre, anteontem. Ele pretendeu vir a minha casa no passado domingo, mas não pôde. Telefonou-me, porém, a dizer-me que tinha recebido inesperadamente a visita do teu amigo, a levar-lhe os 300$00 de que me tinhas falado, além de outros mimos, de cujo recebimento está agradecido e me pede que eu te diga antes do mais. O encontro, disse-me, foi rápido, quase instantâneo, pois que o navio apenas demoraria uma ou duas horas a levantar ferro. Não tiveram tempo para trocar impressões nem para mandar-te qualquer recado. De qualquer modo, foi agradável e útil, sob vários aspectos, aquela visita.

Falou-me do livro que publicaste ultimamente e que prometeu emprestar-me quando puder dispor dele. Emprestou-o no mesmo dia, a um amigo nosso, que lhe prometera devolver-lhe depressa. Assim se passam as coisas entre nós. Não deveria emprestá-lo antes de o ler. Mas fê-lo. Não teve coragem para recusá-lo, sabendo que não há aqui a possibilidade de o adquirir. Mas é de crer, tratando-se de quem se trata, que a devolução não demore muitos dias a efetuar-se. Todavia, foi assim que se me foi da minha posse e do meu alcance o teu penúltimo livro - que aguardo também venha a ser devolvido um dia, a mim ou ao Alexandre para o poder conhecer.

Tenho diante de mim dois exemplares dum periódico em que há colaboração tua: trata-se de "Voluntad", de Montevideu - Uruguai. Gostei imenso de ver que tens possibilidade para uma tão intensa atividade jornalística e editorial - e ainda mais satisfeito, ao verificar que te vens ocupando da história do nosso movimento operário e libertário brasileiro. Francamente, nunca tive a veleidade de poder dar grande contributo intelectual para um trabalho desse gênero, mas sempre desejei que alguém aparecesse para o executar. Edgar Leuenroth era, sem dúvida, quem estava à altura e em condições de o ter iniciado - e quer-me parecer que chegou a trabalhar nesse sentido, ali pelos anos 20. Outro camarada nosso, de muito prestígio e com possibilidades suficientes, teria sido o velho anarquista Florentino de Carvalho (Primitivo Soares) - o que não quer dizer que não houvesse mais ninguém que pudesse incumbir-se desse inestimável trabalho. Houve sempre uma grande falta de valores positivos, intelectualmente falando, no movimento operário e anarquista de muitos países; e Portugal e Brasil sofrerem e estão sofrendo enormemente os efeitos dessa carência de recursos, como da falta de espírito de iniciativa. Militantes com extraordinárias faculdades de trabalho noutros aspectos, como a propaganda das idéias, combate, polêmicas, organização etc., tinhamo-los de certo. Era uma satisfação podermos contar sempre com suficiente número de comparticipantes ativos para qualquer manifestação que tentássemos levar por diante. Mas já não se pode dizer o mesmo respeitante a trabalho de investigação e recolha de elementos para a história, e menos ainda quanto ao que se refere à concatenação, coordenação e publicação de dados históricos mais ou menos definitivos do nosso movimento e das nossas atividades.

Li com todo o interesse a carta que tinhas confiado a Pietro Ferrua e que agora foi entregue ao Vieira por Olavo (?). Tomei conhecimento, portanto, da falta de informações sólidas, fidedignas, com que tens lutado. Anotei o teu pedido para conseguir livros que não tens, como o do M. J. de Souza e o Almanaque. Este Almanaque, meu velho, se tu soubesses como tem sido procurado, como tem sido disputado? Nada do gênero se encontra, de resto, em parte alguma do país. Eu tenho mantido forte batalha e vasta correspondência com amigos da província, no mesmo sentido. Acredita, considero justo o teu desejo, mas será muito difícil satisfazê-lo. O Roberto das Neves fez-me, há já alguns anos, um pedido assim. Mas nada se conseguiu. Foram baldados todos os esforços.

O José de Almeida, de Coimbra, estava empenhado num trabalho de caracter bibliográfico, que eu próprio considerei muito interessante e do qual é natural que tenhais tomado oportuno conhecimento. Pediu e recebeu para o efeito de colaboração de muitos camaradas portugueses e brasileiros, e foram-lhe cedidos a título devolutivo livros e folhetos. O Alexandre Vieira, acedendo ao pedido que recebera dele, emprestou-lhe precisamente o "Almanaque de A Batalha"... e até agora nunca mais se soube nada do Almanaque nem de nada. Eu próprio deixei de receber resposta às minhas cartas, não sabendo o que foi feito do velho camarada e amigo doutros tempos.

Revistas e jornais? Foram-se-me as coleções e recortes selecionados que tinha. Tudo! "A Revolta"- a primeira folha ácrata aparecida em Belém do Pará - que fundei e redigi sozinho durante os primeiros números em 1919; "O Trabalhador"- órgão da Federação Operária do Pará, cuja publicação resultou do desaparecimento combinado de "A Revolta" e de "O Semeador" folha sindicalista-revolucionária, para facilitar melhor compreensão no movimento operário local, onde tinha surgido uma triste e lamentável dissensão entre militantes e da que estavam a notar-se prejudiciais reflexos nos meios sindicais; recortes do "Jornal do Povo", da "Folha do Norte" e de "O Estado do Pará"- também da capital daquele estado do norte do Brasil; recortes de "A Hora" do Recife; recortes do diário da Confederação Operária do Brasil "Voz do Povo", desaparecido em 1920. Foi seu diretor Álvaro Palmeira, que emprestou ao jornal uma fogosidade e uma orientação de cujo brilho ainda conservo a melhor impressão. De certo a época era propícia aos mais arrojados cometimentos, aos mais atrevidos vôos revolucionários e o Brasil foi, de 1918 a 1922, fértil em demonstrações de entusiasmo e de vontade emancipadora da classe operária, tanto na capital como nas principais cidades dalguns estados da Federação.

Eu cheguei ao Rio de Janeiro, indo do Pará, precisamente em fins de 1920. Atravessava-se uma época de tremendas perseguições. O movimento operário e libertário estava sofrendo a natural conseqüência daquela feroz repressão policiesca, à qual presidia e da que era fomentador e feroz impulsionador o desembargador famigerado Gemeniano da Franca.

Fui logo indicado para exercer funções de responsabilidade no seio da Federação Operária Local; e poucas semanas após, tendo Mâncio Teixeira deixado a direção do "Voz do Povo", passei eu a dirigir a sua publicação hebdomadária - que pouco durou - como Secretário Geral daquele organismo sindical.

Habilidosamente, retirei dali, certa noite, todo o material tipográfico considerado indispensável para obras de pouca monta, como manifestos, circulares, papel timbrado e envelopes, etc., instalando a oficina num prédio da Rua Tobias Barreto, rés-do-chão, em cujo primeiro andar funcionava, desde há muito, a sede da Associação dos Padeiros.

Ainda durante a permanência da tipografia na Rua da Constituição (creio que era no nº 12), perto da Praça Tiradentes, eu tinha fundado a revista "Renovação". Desta publicação apareceram uns bons 12, 14 ou poucos números. Não tenho dela sequer um exemplar, ainda que tenha guardado ciosamente, durante anos, a sua coleção. E tenho pena, porque nas suas páginas ficaram registados preciosos testemunhos da crise ideológica de então, que atacou um regular grupo de militantes sindicalistas revolucionários e do movimento libertário, de entre os quais se destacavam: Astrojildo Pereira, Santos Barbosa, José Elias da Silva, Octávio Brandão e outros, cujos nomes não me ocorrem neste momento.

Sem vaidade o digo, ninguém me excedeu, então, no combate que tivemos de manter, principalmente para esclarecer o proletariado militante. O Astrojildo Pereira era a lama danada, o mais entusiasta, o mais aguerrido e também o mais inteligente e mais experimentado do grupo que se mostrava partidário de "novos rumos"...

Numa reunião que a seu convite se efetuou no rés-do-chão do prédio em que estava instalada a farmácia do Otávio Brandão (creio que na Rua São Pedro) e na qual participaram alguns camaradas de São Paulo, Astrojildo Pereira, a quem apostrofei, exigindo que se manifestasse claramente, que dissesse sem rodeios, se estava disposto a permanecer entre nós, libertários, ou a bandear-se para o bolchevismo, pretendeu ainda fazer crer "que a sua simpatia pelo povo russo, pela Revolução de Outubro, e mesmo pela Internacional recém fundada (3ª Internacional) não significava renegação, nem era apostasia"... Segundo ele, "era preciso ter presente e na melhor conta as lições que os trabalhadores russos vinham dando à classe operária de todo o mundo, numa tremenda batalha mantida heroicamente contra a burguesia e o capitalismo internacional..."

O Domingos Passos - da União dos Operários da Construção Civil do Rio de Janeiro - um dos militantes sindicalistas revolucionários mais ativos e mais prestigiosos daquele tempo, que compareceu na referida reunião, foi ainda mais violento e mais eloqüente nas suas manifestações. Gritou-lhes "que não podíamos admitir que camaradas nossos, do estofo intelectual do José Elias e de Astrojildo, que pretendessem convencer-nos de que continuavam fiéis aos princípios libertários, à organização operária de tendência anarco-sindicalista, estando como demonstravam, tão empenhados em justificar toda a ação bolchevista, o procedimento anti-libertário do Governo Russo, os seus decretos ditatoriais, o seu despotismo, enfim!"

Ainda no cargo de Secretário Geral da Federação Local dos sindicatos do Rio de Janeiro, propus que publicássemos um semanário porta-voz da nossa organização operária, para preencher, no que fosse realmente possível, a lacuna deixada na imprensa trabalhista pela extinta "Voz do Povo". E publicou-se em seguida "O Trabalhador"- que era composto e impresso nas oficinas gráficas de "A Pátria"- e que eu também dirigi, desde o 1º número.

Pois meu amigo, como disse acima, nada possuo, nada tenho, tudo perdi, dessas tarefas, dessas lides jornalísticas. E bem poderás compreender que eu daria quanto pudesse, para possuir, para reaver todo o fruto daquele labor, em que deixei amorosamente vincado o entusiasmo, toda a convicção revolucionária, todo o ardor combativo da minha acidentada e fértil juventude.

Marques da Costa

"Lisboa, 25 de dezembro de 1962

Meu amigo:

Referindo-me à revista que aí publiquei, em 1921 - "Renovação"- disse-te na minha carta de 25 de novembro p. findo, que ainda consentira durante alguns números (em dois ou três) receber e publicar colaboração do Astrojildo Pereira. Bem, eu tinha certas razões para não desejar um rompimento precipitado. Além de que se tratava de um artigo militante do nosso movimento libertário, com larga audiência entre as camadas do proletariado das cidades do centro e do sul do Brasil, principalmente com um passado que muito contribuía para dar à atitude assumida perante a Rússia bolchevista e a 3ª Internacional um certo ar de seriedade e ponderado discernimento, eu achei conveniente atiçar-lhe o brio, estimular o seu amor-próprio, levando-o a tomar publicamente uma atitude clara e decidida, contrária à orientação seguida até então pelo movimento operário brasileiro, do que ele era considerado um dos mais prestigiosos mentores.

Inteligente, hábil, sagaz, Astrojildo Pereira procurava escapar-se duma declaração que o colocasse na responsabilidade dum procedimento menos simpático, como o de um vulgar desertor - ou o de um mistificador. Estava realmente contra nós, mas evitava dizê-lo em letra de imprensa. Só mais tarde o fez - quando já não lhe restava outro recurso.

É verdade que eu fiz o que pude para o obrigar a desmascarar-se. Era o meu dever. Nem seria digno de nós encobrir-lhes - ao Astrojildo e aos seus satélites - a evidente traição. E pelo que a mim, individualmente, dizia respeito, seria estúpido continuar indefinidamente a facultar aos nossos declarados inimigos, aos trânsfugas do nosso movimento sindical e libertário, aos despudorados renegados dos nossos princípios revolucionários, os meios de que precisavam e não tinham - a imprensa -, para prepararem airosamente a debandada dos do seu rancho...

Separados os campos, como se impunha, trataram então de dar forma orgânica ao seu trabalho de captação, a tida a sua atividade: fundaram o "Centro Comunista"- que me parece ter sido antes um simples "Grupo", sem confessadas pretensões políticas - e passaram a publicar um "Boletim", onde a presença do chefe incontestável se notava em tudo, clara e acentuadamente!

Como bem sabes, eu fazia então parte do corpo redatorial de "A Pátria", diário matutino do saudoso João do Rio, onde tinha a meu cargo a "Seção Trabalhista"- muito desenvolvida, por sinal. Ao mesmo tempo, exercia iguais funções no vespertino "A Notícia", do escritor e ilustre acadêmico Medeiros e Albuquerque, a quem tinha sido inculcado por Fábio Luz; mas deixei este jornal passados alguns meses, por ter-me sido oferecida a "Seção Operária" do também jornal da tarde - "A Vanguarda"- de Oséas Mota.

Foi em tais circunstâncias que eu pude publicar, durante anos seguidos, na imprensa carioca numerosos artigos, preciosas informações que nos enviavam do estrangeiro, relatos de assembléias dos nossos sindicatos, resenhas de palestras e conferências, tudo, enfim, que eu via de sumo interesse para a propaganda do sindicalismo revolucionário e que pudesse contribuir para alargar e generalizar a concepção anarquista do sindicalismo.

Domingos Passos deu-me certa vez um artigüete seu, com o pedido de que o desse à estampa na "Vanguarda". Era um comentário mordaz, uma crítica penetrante, cáustica - tão acerrada como merecida - em que o autor punha ao léu as repetidas incoerências, os absurdos, as inconsonâncias doutrinárias, as pobres, tristes, deploráveis afirmações de Astrojildo Pereira, numa palestra-controvérsia que tivera lugar dois dias antes, no Centro Cosmopolita, sito na Rua do Senado. Li o artigo muito atentamente e senti ganas de o publicar no dia seguinte. Mas tendo refletido melhor sobre as conseqüências que resultariam da corajosa quebra do nosso espírito de tolerância, tantas vezes já posto à prova em semelhantes circunstâncias, resolvi pedir a Domingos Passos que consentisse em deixar para melhor ocasião para dá-lo a público. "Só ganharíamos, disse-lhe, prolongando algum tempo mais aquele período de tão assinalada tolerância". A prudente apreciação que vínhamos fazendo da atitude discrepante daquele grupo de captados do Astrojildo não deveria ser intempestivamente alterada. E a publicação daquele artigo de Passos daria à contenda nova feição, fisionomia diferente.

A discussão do problema foi tomando cada vez maior calor. Nos sindicatos, às vezes a - propósito de particularidades de quase nula importância, como a simples referência a um ato ressaltante do Governo Soviético, levantavam-se imprecações e proferiam-se protestos contra os que defendiam a teoria da Ditadura do Proletariado. Havia quem considerasse impossível passar do regime capitalista para o comunismo, sem esse sistema de transição - clamando em "que nem por isso se consideravam menos libertários que antes..."

O professor Dr. Fábio Luz achou oportuno explicar aos militantes operários do nosso movimento sindical o que havia de absurdo nessa híbrida tese, "da inevitabilidade da Ditadura do Proletariado", e fê-lo com a autoridade dos seus vastos conhecimentos e o brilho da sua linguagem, numa concorrida conferência, que teve lugar na sede dos operários da indústria do calçado, na Rua José Maurício. Estou a ver o conferencista, alto, desempenado, apesar da sua idade... A sua magnífica figura patriarcal inspirava grande simpatia, ao mesmo tempo que infundia a todos igual respeito, por tudo, mas muito especialmente pela sua serenidade. A sua voz, harmoniosa e cálida, e a sua cadenciada pronúncia, emprestavam ao discurso uma rara eloquência. Ainda que não tivesse uma grande viveza oratória nem ousasse valer-se dos seus profundos conhecimentos como arma ou processo de convencimento da audiência, o certo é que exercia sobre os seus ouvintes uma sã influência espiritual e facilmente os persuadia, já que os argumentos que brandia se fundavam na mais irrefragável verdade. Era seu hábito, de resto, exprimir-se com a mais espontânea naturalidade, quando expunha as suas idéias.

Nas apreciações e comentários que fazia sobre assuntos em que houvesse de dar opinião, Fábio Luz sempre falava sem excesso de palavreado, sem qualquer espécie de exageros. Era avesso à exacerbação.

E daquela vez, ao explicar como tinha eclodido a Revolução Russa e qual tinha sido o verdadeiro caracter, o sentido expropriador da ação das massas operárias sublevadas, o significado indubitavelmente "comunista-anarquista" de todas as manifestações do proletariado das cidades e dos campos, Fábio Luz foi verdadeiramente inexcedível!

"Daí resulta o ser-me tão fácil explicar - disse - por que motivos eu nunca poderia apoiar a idéia da Ditadura do Proletariado. É exatamente nessas razões que se funda a minha intransigência, melhor dizendo a austeridade ideológica das minhas atitudes perante o procedimento arbitrário, sistematicamente ditatorial dos governantes bolchevistas".

A clareza e o escrúpulo que pôs na larga exposição dos seus conceitos político-filosóficos deram ao vasto auditório uma idéia nítida, perfeita da inexatidão de toda a propaganda com que se vinha espalhando através do mundo por conta do Governo Russo e da 3ª Internacional.

Otávio Brandão tinha-se revelado um dos mais intolerantes, talvez o mais feroz contraditor dos bolchevistas. Tanto na imprensa como na tribuna mostrava-se um exaltado defensor dos princípios libertários, que tinha professado ainda muito jovem. É dele a expressão astrojildismo que tenho aqui empregado. Mas mostrava-se muitas vezes contemporizador e justificava, por exemplo, a atitude daqueles que afirmavam ter o convencimento de "que a Revolução Russa não estava sendo traída pelos que defendiam a Ditadura do Proletariado; pois esta era a conseqüência inelutável de circunstâncias alheias à vontade dos trabalhadores; motivos fortes, portanto a serem ponderados..."As conclusões a tirar, seriam: "Antes uma ditadura das classes produtoras do que a dos partidos da burguesia!" O que revelava uma falsa interpretação dos princípios anarquistas. Mas o caso nem sequer tinha esse pretendido aspecto, visto que a ditadura que imperava na Rússia e que nós condenávamos, era a ditadura do Partido Comunista! Os fatos conhecidos eram concludentes a esse respeito, Sabia-se já, de fontes insuspeitas, que os anarquistas, como os socialistas revolucionários e os sindicalistas, que não davam incondicional apoio aos bolchevistas e antes lutavam pela socialização libertária das terras, das fábricas e das oficinas - estavam a ser ferozmente perseguidos pelos soldados "vermelhos" de Trotsky.

Otávio Brandão sabia-o muito bem - tão bem como nós o sabíamos. E protestava. Assumiu atitudes em que mostrava todo o interesse em dissipar todas as dúvidas acerca do que no seu procedimento pudesse ser tomado como tácita simpatia pelo comunismo autoritário, pelo marxismo-leninismo ou pelo Governo Russo!... Numa conferência que realizou em 22 na sede dos operários da indústria têxtil, na Rua Acre, rematou nestes termos um dos seus empolados rasgos de estudada oratória:

"Ah! Não, meus camaradas! Não, meus amigos! A Revolução Social não poderá fazer-se com truões, como Lenine, nem com tarimbeiros, como Trotsky, nem com caixeiros viajantes como Krassine!...

Em "Mundos Fragmentários" - um folheto de 70 páginas que publicou naquela altura - como noutros escritos seus, - Otávio Brandão deu-nos ainda alguns dos seus brilhantes pensamentos libertários: uns, plenos de filosofia; outros, transbordando beleza espiritual e fundo sentido revolucionário, muito peculiares no seu fraseado. Estes, por exemplo, colhidos ao acaso:

"O homem não deve aviltar jamais outro homem - porque é rebaixar a grandeza do Homem. Quem avilta, avilta-se!"

"Quando me curvo diante do Estado, não é por reconhecer os pretensos direitos, a pseudo-autoridade do seu governo; é porque sou obrigado a reconhecer a sua força brutal, tirânica, retrógrada - que odeio profundamente".

"Meu ego, formidável, absorvente, devastador, que se levanta como um baluarte terrível a favor de todos os desgraçados e oprimidos, não reconhece nenhuma lei, nenhuma forma de governo, no passado ou no presente".

Como não haviam de causar surpresa e pasmo até as condições insólitas e o modo absolutamente imprevisto da sua debandada, da sua cínica deserção?

Lembro-me assim de como foi que Domingos Passos rompeu fogo contra o bando dos trânsfugas - numa assembléia da União dos Operários da Construção Civil, cuja sede estava situada na Rua do Barão de São Felix. Pedro Carneiro, que presidia, perguntou à assistência se achava oportuno ouvir Domingos Passos numa comunicação que ele desejava fazer, sobre a atitude que Otávio Brandão acabava de tomar, "como desinteressado orientador das classes trabalhadoras"... Houve logo quem gritasse: - "Sim, sim, que fale! Mas Pedro Carneiro quis que a assembléia se manifestasse coletivamente - sim ou não - e pediu que os que fossem contrários a que o camarada Passos falasse se manifestassem, levantando o braço.

A votação foi rápida - e concludente: três votos contra! O que poderia classificar-se de "votos de consolação". Porque na verdade não havia entre os presentes, posso dizê-lo, quem não lamentasse a perda do movimento libertário, com mais aquela deplorável fuga, de um dos seus militantes tidos como de muita inteligência e fundas convicções. E os que se manifestaram contrários a que Passos falasse pertenciam ao reduzido número dos que sabiam o que ele tinha para dizer do camarada Brandão. Os outros, a esmagadora maioria dos presentes, ainda não tinham conhecimento da ocorrência, por isto se mostravam interessados em saber do que se tratava.

Passos, no breve discurso que fez, começando por informar a assembléia de como, a seu ver, se teria processado "o ato de evasão" a que se referia, salientou as estranhas circunstâncias em que se verificou a "insidiosa adesão do autor de "Rebeldias" no grupo bolchevista". Criticou asperamente a deslealdade, o cinismo, a carência de hombridade, a perfídia que todos os trânsfugas tinham tido no seu procedimento para com os militantes seus amigos do movimento sindical, acentuando "que essa falta de dignidade, merecendo a mais indignada repulsa, dava a todos nós pleno direito para os desmascarar e dar-lhes combate, tanto do ponto de vista moral como no aspecto ideológico". E concluiu declarando "que por sua parte passaria a agir livremente, sem nenhuma das atenções que até ali tivera para aqueles do bando dissidente, que nunca julgou capazes de desmerecerem a consideração e o respeito a que tinham jús".

No dia seguinte, nas colunas do diário "A Pátria", veio a lume o artigo de Passos, que semanas antes me pedira que publicasse em "Vanguarda" e eu, por excessos de tolerância para com Astrojildo Pereira, achara inoportuna inserir... Com ligeiros retoques, atualizando-o e ajustando-o a uma apreciação genérica dos fatos e dos indivíduos em causa, atingiu o autor dois ou três coelhos com uma só cajadada!...

E a campanha tomou vulto e assumiu proporções de um combate a sério - na tribuna e na imprensa.

A certa altura dos debates, ocorreu-me uma idéia que logo pus em prática e que deu todo o resultado que eu imaginava. Comecei a inserir na "Seção Trabalhista" e no "Movimento Operário" daqueles jornais a que acima fiz referência excertos de artigos de Astrojildo Pereira, recortados duma revista que ele editara anos atrás - "Crônicas Subversivas".

E como fecho de coluna, por exemplo, aquele passo da conferência de há tempos, na sede dos têxteis, em que fazia referência ao "tarimbeiro" Trotsky e chamava bobo a Lenine.

E eu não esperei que mo dissesse duas vezes... Durante meses seguidos, interpelando-os, muitos pensamentos, muitas sentenças de Otávio Brandão foram por mim reproduzidas, principalmente na Seção que no diário "A Pátria" estava a meu cargo, ressaltando sempre a passagem da sua conferência na sede da Rua Acre...

O fulcro da contenda estava realmente entre nós, no Rio de Janeiro! E era ali que a luta havia de assumir o caracter de verdadeira disputa, o aspecto de violência que o distinguiu.

No Recife, veja-se bem, onde a meu ver, primeiro se fez sentir nos meios operários a influência das idéias anti-libertárias, de defesa da Ditadura do Proletariado, a campanha tinha outra fisionomia, orientada mais propriamente sob o aspecto doutrinário. Mantinha-se entre os militantes mais perfeita inteligência - o que permitia conduzir os debates sem atritos de maior efeito - ainda que sem que fosse possível evitar a lenta mas constante delimitação dos campos opostos.

Também no Rio Grande do Sul não tardou muito a aparecer a "erva daninha" do bolchevismo. Mas nem o fenômeno teve projeção semelhante ao que no Rio de Janeiro tivemos de encarar, nem houve, por assim dizer, luta acesa entre os discrepantes, que se hostilizavam sem recursos aos insultos que se fez moeda corrente nas mãos truculentas daqueles que no Rio de Janeiro se arvoraram em agentes da Terceira Internacional.

Dum modo geral, os anarquistas passaram a ser alvejados, por sistema, com referências caluniosas, vis e sórdidas insinuações e ditérios sem nome. Só não nos chamaram "pequenos burgueses" - porque esta imbecil e acintosa designação ainda não tinha adquirido a importância de significado deprimente que mais tarde lhe atribuíram na terminologia "revolucionária" do leninismo... Mas aparte isso, quantos nomes feios nos chamaram, os nossos primos?

Pode-se afirmar, porque se trata duma verdade que não precisa de ser adjetivada - e eu digo aqui sem gosto nem desgosto especial, que fui eu quem mais recebeu em cheio safardenices da "troupe" astrojildeana. Não, de certo, porque eu houvesse feito alguma coisa de especial, para merecer essa... "honra"! Simplesmente, porque era forçoso escolher alguém para cabeça-de-turco da contenda - e a eles se afigurou que era em mim que o barrete melhor devia assentar. De resto, estavam absolutamente convencidos, certíssimos, de que nada podiam contra mim. Seria inútil querer limitar ou neutralizar a minha atividade, que tinha na imprensa diária, especialmente em "A Pátria" e na "Vanguarda", inegável vantagem para os que se opunham à obra cisionista da facção bolchevista. Isso era o que mais enfurecia o renque revisionista, que se mostrava cada vez mais intolerante e mais rancoroso.

Eu fora prevenido de "que se intentava contra mim uma espera..." Mas nunca acreditei que o fizessem. E porquê especialmente contra mim? Eu não merecia, positivamente, que me dessem tanta importância e me preferissem entre tantos militantes libertários que, no Distrito Federal, se opunham com igual tenacidade aos preconizadores de "novos rumos".

Foi nestas circunstâncias que se preparou e levou a cabo o miserável atentado, a ignóbil agressão física que eu sofri.

Deixo para a próxima vez o relato dessa proeza dos pobres acéfalos do grupo comunista de Astrojildo. Não é coisa que tenha a caracterizá-la nada importante. Tem, isso sim, um tudo nada de sabor romântico, uma ponta de aliciante poesia que sempre ilustrava a atividade revolucionária dos anarquistas daquele tempo.

Fiquemos, portanto, em que te direi da próxima vez como se deu e quais foram as conseqüências do atentado a que aludi...

Teu camarada e muito amigo,

Marques da Costa

 

JOÃO PLÁCIDO DE ALBUQUERQUE - 10

Brasileiro, comerciário, anarquista.

Nasceu em Minas Gerais a 15 de novembro de 1885 e foi para o Pará em 1913, com sua mãe. Faleceu no Rio de Janeiro em 30-4-1920

Sua ação ideológica e revolucionária desenvolveu-se no Pará.

Ingressou nas associações operárias, devotou-se à luta de classes e à leitura de imprensa anarco-sindicalista e dos clássicos do anarquismo.

Somando sua inteligência ao estudo sociológico destacou-se entre os de seu ofício pela boa cultura libertária adquirida, merecendo de seus companheiros de associação a indicação de delegado ao 3º Congresso Operário Brasileiro, realizado no Rio de Janeiro, à rua do Acre, nº 19, sobrado, sede dos operários tecelões.

Antes porém fundara o Grupo de Estudos Sociais com outros companheiros desenvolvendo no Pará uma dupla atividade de reivindicação e protesto em solidariedade aos seus colegas de ofício e participou da sementeira anarquista desenvolvida pelo Centro libertário de que fora fundador e secretário no Pará.

O 3ª Congresso Operário do Rio de Janeiro realizou-se em abril de 1920. João Plácido de Albuquerque e Manuel da Silva Gama foram indicados delegados para representar o Pará naquele conclave mas longe estava de saber que não retornaria à sua terra para dar conta de sua missão aos companheiros que o indicaram.

Na oportunidade o diário anarquista "Voz do Povo" do Rio de Janeiro de 1º de maio de 1920, comentando a morte de João Plácido de Albuquerque regista:

"O nosso saudoso companheiro viera do Pará em companhia do camarada Silva Gama a fim de tomar parte no 3º Congresso Operário, então a reunir-se nesta capital.

Tanto João Plácido de Albuquerque como Silva Gama, formavam a delegação dos Trabalhadores do Pará. Ao chegarem ao Rio, foram presos a bordo do vapor em que viajavam, sendo conduzidos à Polícia Central. João Plácido que adoecera, quando em viagem, detido num dos xadrezes da Polícia Central, viu os seus padecimentos agravados, falecendo dias após em conseqüência do mau trato e da falta de assistência necessária".

No dia 8 do mesmo de mês "A Plebe" São Paulo, comenta com pesar o falecimento de João Plácido de Albuquerque, delegado da Federação Operária do Pará ao 3º Congresso Operário do Rio de Janeiro.

Para "A Plebe" João Plácido de Albuquerque veio encontrar a morte no Rio de Janeiro porque em vez de ser enviado imediatamente para o hospital, como seu estado de saúde exigia, foi mandado para o xadrez ardendo em febre e depois de passar muitas horas nos porões da Polícia Central identificado como criminoso. Sucumbiu a este procedimento cruel e delinqüente da polícia carioca que atendia aos seus colegas paraenses.

O seu sepultamento foi no dia 1º de maio de 1920, no cemitério de S. Francisco Xavier. O ataúde saiu da sede da União dos Operários em Construção, na rua Barão de S. Felix acompanhado de imenso cortejo de trabalhadores, anarco-sindicalistas e anarquistas, alguns dos quais proferiram vibrantes discursos a beira do túmulo exaltando a figura do idealista João Plácido de Albuquerque enquanto acusavam a burguesia denunciante do Pará e a polícia pela sua morte.

No dia 1º de maio de 1921, ao completar-se um ano do seu sepultamento o proletariado do Rio de Janeiro promoveu um cortejo ao cemitério de S. Francisco Xavier e junto de sua campa mais uma vez exaltaram o mártir do anarquismo.

 

JUAN PUIG ELIAS - 11

Espanhol, professor, anarquista.

Nasceu em 30 de julho de 1898 em Sallent, província de Barcelona, filho de família republicana.

Formou-se professor em Barcelona, fundou a famosa Escola Natura, de onde saíram um pelotão de jovens libertários.

Juan Puig Elias se considerava discípulo de Francisco Ferrer y Guardia, ainda que pela sua idade não chegasse a conhecê-lo, mas por ter continuado a sua obra pedagógica e adotado todos os métodos da Escola Moderna.

Durante os 7 anos da ditadura de Primo Rivera, a Escola Natura sobreviveu e se firmou, constituindo um centro de expansão e propaganda das idéias anarquistas, ainda que não se declarasse como tal.

Puig Elias fora um excelente pedagogo, sabia aliar o ensino, postura moral e influência exercida junto dos seus alunos por sua simpatia pessoal e competência profissional.

Ao proclamar-se a segunda República, a Escola Natura estendeu seu espaço de influência e multiplicou o número de alunos.

Além disso, nesses mesmos anos, a atividade de Puig Elias não se limitou às atividades educacionais. Com Eusébio C. Carbó, Máximo Llorca, Federico Urales, Federica Montseny, que tomou parte ativa na vida sindical de Barcelona, Catalunha e de Espanha em geral.

Intelectuais e profissionais liberais de Barcelona, participaram do Congresso da CNT (Confederação Nacional do Trabalho) de 1931; no Congresso Regional da Catalunha de 1932, e de todos os comícios que se realizaram naqueles anos distantes, cheios de acontecimentos das mais diversas atividades. Em quase todos os comícios, Puig Elias esteve presente como delegado dos intelectuais e profissionais liberais, juntamente com outros destacados companheiros de idéias.

No Congresso Confederal de 1936 foi delegado com Eusébio C. Carbó e Federica Montseny. A proposta elaborada pelo sindicato referente ao "Conceito Confederal do Comunismo Libertário", serviu entre outros, de base para a Moção aprovada pelo Congresso e mais tarde como veículo de orientação para os empreendimentos coletivistas e socialistas de julho de 1936.

Ao eclodir a Revolução o procedimento socializante no ensino criando o famoso C.E.N.U. (Conselho da Escola Nova Unificada) Puig Elias foi o elemento mais ativo de tal organismo, o orientador das realizações de alto nível pedagógico efetuado por C.E.N.U. sendo indicado para sua presidência.

Ao passar as mãos de um militante Confederal o Ministério da Instrução Pública, o delegado da CNT para esse cargo, Segundo Blanco, nomeou Puig Elias subsecretário, cargo que sustentou até ao final da guerra, passando como todos os exilados a fronteira e vivendo, junto com os demais, as imemoráveis penalidades, vexames, maus tratos e humilhações que lhes esperavam.

Saiu do Campo de Concentração para trabalhar na agricultura e quando da invasão dos alemães a zona onde residia se incorporou às forças de resistência. Dessa atividade é testemunha o certificado (veja-se no fecho desta biografia) expedido pelo Comandante Chefe do "Batalhão Libertade" composto por voluntários espanhóis.

Com o fim da guerra participou do comício do 1º de maio como delegado da CNT em Paris. Nesse Congresso Puig Elias foi nomeado membro do Comitê Nacional, passando em 1946 a ocupar a Secretaria da Cultura e Propaganda. E durante o período de sua gestão se celebrou uma notável exposição de Arte em Toulouse, para a qual Picasso enviou um quadro merecendo elogios de franceses e espanhóis. Organizou ainda à frente da Secretaria da Cultura e Propaganda cursos por correspondência; idiomas, contabilidade, desenho, gramática, etc.

Foi reeleito no final de seu mandato renunciando no segundo período após a nova exposição artística enquanto auxiliava e animava a obra editorial da CNT exilada, tendo se publicado então o "Proletariado Militante", de Anselmo Lorenzo e iniciado a edição de "La CNT en la Revolucion Española", de José Peirats.

Em 1952 emigrou para o Brasil escolhendo Porto Alegre, Rio Grande do Sul para moradia

Como bom espanhol, logo se pôs contra o Governo ingressando com outros companheiros na "Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos". Chegando a sua presidência converte esta entidade associativa e cultural em abrigo dos liberais que aportavam aquele Estado da federação brasileira e reduto de resistência contra o ditador espanhol General Franco.

Atacado por terrível enfermidade acabou seus dias preso a uma cadeira sem perder por um só instante a lucidez ou renunciar às idéias anarquistas.

Morreu em Porto Alegre a 5 de setembro de 1972, onde militou os últimos 20 anos de sua vida.

Sobre suas prisões e exílio o poeta Luís de Tápis escreveu:

"Son las tres de la tarde: julio, Castillo...

! La conducción avanza como trailla!...

!No hay árboles, da el viento calor de hoguera!...

!Es serpiente de fuego la carretera!

!Relumbram los tricornios de los civiles!...

!Brillan los correajes y los fusiles...

!Ocho o diez hombres foscos, de andar cansino,

desfilan maniatados, por el camino!...

Caminan silenciosos... Siguen la ruta

sin saber que delito se les imputa...

El ministro, entre tanto, duerme la siesta

en el sillon que la patria le presupuesta...

!Conducción afrentosa...! Verguenza hispana!

?Y es ésta la famosa nación cristiana?...

?Que valor tener pueden las procesiones,

en pais donde existen las cunducciones?...

Segue o certificado de participação de Puig na luta pela libertação da França e "Trabalho Cultural" de sua autoria extraído de "O Protesto"(), Porto Alegre

Ier. Bataillon

"D.A.A.T.

Bataillon de Voluntaires

Espagnols

18º Regio

ATTESTATION

Je soussigné Comandant Santos, Chef du Bataillon Libertta

CERTIE:

Que le nomme Jean Puig Elias a renda a la Resisten ce de tres grand services depuis 1942 jusqu’au 2 Septembre 1944.

Qu’il a particulierement assuré des liai sons trés dangere uses sur des routes particuleirement gariées par l’ennemi.

En foi de quoi, je de livre la présente attestation pour servir ce que de droit.

Fait a Bordeaux le 8 avril 1945. Carimbo e assinatura ilegível".

TRABALHO CULTURAL

A formação intelectual e moral do ser humano, não é obra exclusiva dos centros docentes, nem o afam de saber e ser melhor, patrimônio de uma classe, sexo ou idade.

Assim vemos que nos mais diversos organismos de caracter popular, centros recreativos, excursionistas, corais, sociedades de socorro mútuos, sindicatos, cooperativas, etc., realiza-se uma obra de formação técnica e espiritual de seus filiados e não só aquelas atividades específicas a que se refere a denominação social da entidade.

Graças a essas agrupações, infinidades de adolescentes e adultos, de um e outro sexo, que possuíam em potência altas qualidades e que por carência de recursos não teriam podido freqüentar os centros docentes específicos (escolas), encontraram seus primeiros estímulos e meios para o cultivo total da sua personalidade.

Quando a sociedade, em que vivemos não sabe oferecer a todos tais oportunidades, inutiliza valores que teriam sido para ela elementos de progresso e bem estar. Forjando com sua indiferença suicida, a legião dos deserdados do "pão do espírito", que se sentem vítimas da desigualdade de condições do meio social, serão os ressentidos, que com sua desgraça pessoal se constituirão em fator negativo para o bem estar comum da coletividade.

Todo homem - e ao dizer homem, dizemos outro tanto da mulher - que mereça o nome de tal, sente, além da necessidade própria de realizar a vida do seu eu, a não menos imperiosa de ajudar a seus semelhantes e consegui-lo por sua vez.

A idéia cada vez mais definida e clara de que para ser útil a si mesmo, há que saber ser útil aos demais, se abre caminho, frente à miséria moral do individualismo anti-social - que é uma potência, o despotismo e a guerra - o individualismo consciente e humano do apoio mútuo como alavanca do progresso para conseguir as flores e os frutos de uma humanidade melhor.

É tão lamentável e pobre a vida - inclusive na opulência - dos que carecem da emoção moral! Daqueles que não sabem dos prazeres da solidariedade afetuosa. De sentirmos que somos - e não - eu em outro eu

Trabalho cultural é toda a atividade que, cultivando o bom e o bonito, abre novos horizontes no mundo de nosso interior, ensinando-nos a sermos melhores para com os demais e... para com nós mesmos.

Juan Puig Elias

 

JOSEPH JUBERT - 12

Francês, trabalhador, anarquista.

Militando em Santos onde fixara residência, viu-se detido, levado ao Tribunal, condenado a 5 meses de prisão e a pagar multa de 450$000.

Vejamos como o jornal libertário anti-clerical "A Lanterna", de São Paulo, 5-7-1913, comenta a situação deste idealista ácrata: "Finalmente, após dois meses de absoluta incomunicabilidade, pode Jubert ser visitado na Penitenciária.

Segunda-feira passada a sua dedicada companheira, em companhia de alguns parentes seus, depois de andarem de Herodes para Pilatos, para arranjarem a necessária licença, conseguiram conversar com o nosso estimado companheiro.

Como era de esperar, encontraram-no de ânimo forte, armado da sua indomável energia de sempre, mostrando-se decidido a retornar a seu posto de combate assim que se veja livre das garras dos janízaros da justiça, dos argentários jesuítas que dominam esta terra.

É essa vontade férrea que o ajuda a suportar as torturas morais a que está sujeito. Sim, Jubert está sendo torturado moralmente, pois não lhe permitem escrever e para sua leitura só fornecem livros religiosos!

É o cúmulo da malvadez! Como já tivemos ocasião de dizer, não consta dos anais da justiça penal que alguém condenado por delito(?) de imprensa, tenha cumprido a pena na Penitenciária.

E Jubert foi para lá remetido, enquanto na Detenção encontram-se criminosos já condenados, como Babiano, o famigerado padre protestante que cometeu uma série incontável de sádicas santidades...

Quando cá fora andam livremente a ostentar as suas caras deslavadas de criminosos confessos, bandidos da laia do padre Faustino Consoni, chefe do Orfanato Cristóvão Colombo, o célebre covil onde a infeliz Idalina pereceu vítima do sadismo clerical, quando vivem em liberdade os ladrões do povo não pode realmente ser outro senão a Penitenciária o lugar dos homens conscientes e de mãos limpas".

Joseph Jubert cumpriu sua pena enquanto os libertários solidários com sua luta coletavam dinheiro para pagar os 450$000 a que fora condenado a depositar no Tesouro 15 dias antes de vencida sua pena.

Apesar de ser uma quantia absurda o proletariado e os anarquistas conseguiram indenizar o Estado ofendido, sendo no entanto este que tinha de pagar a sua vítima Joseph Jubert os meses sem trabalhar, a miséria de sua família e seus desgostos sofridos.

 

JOSÉ PUJOL CRÚA - 13

Espanhol, médico, anarquista.

Nasceu em 9 de outubro de 1903 em Benisanet, província de Barcelona, Espanha. Filho da classe média, pôde estudar medicina, tornando-se um dos mais brilhantes alunos e médico humanista.

Federica Montseny homenageando o Dr. José Pujol, num extenso artigo, pouco depois da sua morte no Brasil, chamou-o "El médico de los pobres" enquanto "O Protesto" de Porto Alegre, outubro de 1967, falando do primeiro ano sem José Pujol Crúa, lembrava alguns dos mais bonitos gestos de solidariedade humana do médico anarquista.

Guiando-nos pelas notas de escritora e jornalista libertária Federica Montseny, Pujol distinguiu-se pela sua generosidade no exercício de sua profissão. Quando se tratava de doentes pobres, cobrava consultas reduzidas e em muitos casos não cobrava nada. Pertenceu a escola dos médicos Pedro Vallina, seguia a tradição dos Drs. Garcia Vinãs, Trinindad Soriano, Gaspar Sentiñión fundadores da "Sessão Espanhola da Primeira Internacional", o último deles amigo do revolucionário Cidadão do Mundo nascido na Rússia, Miguel Bakunine.

Trazia consigo o exemplo médico-revolucionário de Queraltó. Catalán que denunciou publicamente as freiras do "Hospital de Santa Cruz" de Barcelona que arrancavam a pele das costas de um jovem tuberculoso para "apagar" uma tatuagem com as palavras "Viva la Anarquia", apressando a sua morte.

Sua nobreza de sentimentos e seus princípios humanitaristas aproximaram o médico José Pujol dos anarquistas ao mesmo tempo que escandalizou a burguesia.

Quando os militares reacionários se levantaram contra o Governo democrático na noite de 18 para 19 de julho de 1936, Pujol aderiu imediatamente aos anarquistas passando a integrar a "Federación Nacional de Sanidad", num esforço para recuperar o tempo perdido por culpa de uma medicina ao serviço da burguesia com o aval da Igreja e do Estado. Não obstante o seu esforço e de outros médicos bem como dos idealistas que combatiam nas frentes de batalha, as forças fascistas venceram obrigando o Dr. Pujol e seus companheiros a exilar-se em França. Recolhido com milhares de refugiados nos Campos de Concentração da França, logo se destacou pela presteza e esforço despendido para salvar vidas trabalhando dia e noite nas enfermarias sob os efeitos do vento e da neve cortantes. Viu morrer milhares de feridos, velhos, mulheres e crianças sem poder socorrê-las como o caso exigia. Depondo sobre a tragédia humana para o livro de Federica Montseny: "Pasión y muerte de los Españoles en el Exílio" publicado pela primeira vez em 1946 e em segunda edição na Espanha, no ano de 1977, Pujol fala do drama dos refugiados, muitos deles mortos por incapacidade dos médicos franceses e outros por culpa da burocracia estatal.

Com a ocupação dos nazistas, Pujol foi levado para Bourdeus e mobilizado pelos invasores alemães com outros refugiados espanhóis para construir o muro do Atlântico. E mais uma vez o médico libertário conseguiu impor-se por sua competência e serenidade na "Caserne" a cargo do famigerado Otto conseguindo com sua capacidade proteger a vida de centenas de exilados.

Libertado das garras nazistas Pujol foi para Toulouse, e com outros anarquistas desenvolveu intensa atividade como Secretário da Solidariedade Internacional Antifascista (S.I.A.) ao mesmo tempo que revalidando ali seu diploma passando a exercer sua profissão em França que de fato nunca deixara de praticar.

Não obstante sua condição de exilado, sua casa transformou-se num abrigo de refugiados, num pequeno consulado dos espanhóis libertários. E como se isso não bastasse, aderiu ao movimento de "infiltração" clandestina na Espanha e lá foi. No interior recomeçou a luta clandestina com seu grupo parte dos quais acabaram feridos. E mais uma vez Pujol conseguiu salvar seus companheiros envolvendo outros médicos com seu respeito e sua diplomacia. Assim mesmo a polícia franquista soube de sua presença e teve de regressar a França acabando vigiado em sua moradia por um acordo entre a polícia democrática francesa e a fascista espanhola. Cerceado por todos os meios, viajou para Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, onde fixou residência, em 7 de setembro de 1952.

Para Federica Montseny - o Dr. Pujol "curava tanto com os medicamentos prescritos quanto com as suas palavras e seu sorriso. Às vezes me dizia: primeiro que tudo é preciso saber ouvir. Não podes imaginar quantas vezes contribuí para a cura de doentes simplesmente deixando-os falar, escutando-os, mostrando-lhes compreensão e simpatia.

Antes de tudo, Pujol praticou a medicina psicossomática".

Em Porto Alegre passou os últimos anos de sua existência voltado para a sua profissão e suas idéias libertárias, morrendo em 1966 aos 64 anos de idade, vítima de enfermidades que contraíra na clandestinidade por se esquecer de si mesmo para tratar os outros.

Comentando sua morte o jornal "O Protesto" lembra que na época não existia um órgão de imprensa libertária no Brasil (a ditadura implantada em abril de 1964 silenciara também os anarquistas) e por isso só ao completar-se um ano podiam os anarquistas prestar justa homenagem póstuma à memória daquele que em vida foi um "médico dos pobres" e um militante do anarquismo.

 

JOSÉ SALGUEIRO - 14

Brasileiro, empreiteiro de obras, anarquista.

Sua colaboração na imprensa anarquista e anti-clerical de S. Paulo é subscrita com o nome de Osvaldo Salgueiro.

Por se recusar a reconhecer valor em colaboração no movimento anarquista e na imprensa ácrata nunca quis fornecer dados sobre sua vida e obra ao autor, embora chegássemos a visitá-lo e almoçar com ele, na sua residência nos últimos anos de sua vida, com esse fim.

Sabemos no entanto que em S. Paulo participou ativamente no Centro de Cultura Social, colaborou na Federação Operária, nos congressos anarquistas, e escrevia assíduamente nos jornais "A Lanterna", "A Plebe", "Remodelações", "Ação Direta", "A Opinião do Povo", entre outros periódicos libertários e afins.

Também lhe ouvimos falar da "experiência" de Maria Lacerda de Moura em Guararema, "comunidade" que chegou a visitar nos fins de semana e ali conviver em estreita comunhão de princípios com os seus componentes. Segundo Salgueiro a "experiência" pecava pela falta de objetividade e de coesão nas tarefas comunitárias, reduzindo por isso em muito as possibilidades de um sistema de vida que podia prosperar e produzir frutos capazes de atrair outros companheiros e companheiras, independente da liberdade sexual e do amor livre que ali se praticaria. Algumas pessoas chegavam a Guararema atraídos pela propalada liberdade sexual que se praticaria e ele confessava que foi um deles.

Conviveu de perto com Maria Lacerda de Moura a quem admirava e respeitava como escritora e como ser humano, ainda que uma vez ou outra discordasse, na imprensa e pessoalmente de seus escritos na última fase de sua vida.

Para Osvaldo (José) Salgueiro, Maria Lacerda de Moura posicionava-se como uma libertária individualista sobre a burguesia, a exploração, a desigualdade, o ensino, a Igreja e o Estado. Mas a velocidade e a rapidez com que falava, escrevia e/ou agia as pressões brutais que sofria dentro da sociedade, levou-a a contradizer-se algumas vezes.

Salgueiro gostava muito de escrever sobre temas clericais, de combater a Igreja, instituição obscurantista e robotizadora. Chegou a escrever um livro anti-clerical que não publicou por falta de editor que o quisesse patrocinar.

Silenciado pela ditadura fascista de Vargas, quando rompeu o silêncio conventual o semanário libertário "Remodelações" publicado pelo professor cearense Moacir Caminha e sua companheira, Dra. Maria Iêda de Morais, em 1945, no Rio de Janeiro, Salgueiro vibrou

Eis algumas linhas duma carta enviada a José Oiticica na oportunidade:

"S. Paulo, 23 de novembro de 1945

Caro Camarada Oiticica

Fraternais saudações

Antes de mais nada, quero dizer-lhe que tive grande prazer ao ler a carta que mandou ao Edgard, em torno da saída de "Remodelações". Aliás, a leitura da mesma ante a rapaziada, no "centro de Cultura Social", causou grande regozijo.

Até agora, apenas tive a oportunidade de vir a ler dois números de "Remodelações" e muito folgo em notar que o periódico, do dia para a noite, começou a se remodelar.

De combinação com os camaradas do Centro de Cultura Social, escrevi um pequeno trabalho, que segue junto a esta afim de que o camarada o faça publicar em "Remodelações".

Estou ansioso para ir conhecer essa mocidade que por aí anda estudiosa de nossas idéias e da qual, me parece, você é o centro de gravitação; isso, porém, só poderá ser no próximo inverno.

Nada mais me ocorrendo de momento, aceite um abraço do camarada

Salgueiro"

Não faz muito tempo a autora do livro "Outra Face do Feminismo: Maria Lacerda de Moura" evocou artigo de Osvaldo (José) Salgueiro publicado em "A Plebe", 19-9-1935 para "provar" a incompatibilidade de sua "biografia" com o movimento anarquista. No entanto o artigo que fecha nossa homenagem ao libertário José Salgueiro, melhor do que nós diz que ele pensava da ilustre escritora mineira.

"Faleceu a Escritora Maria Lacerda de Moura

Casualmente, por intermédio de um amigo tive a dolorosa notícia de que a escritora Maria Lacerda de Moura faleceu.

Maria Lacerda de Moura publicou um bom conjunto de livros e muitos folhetos. Não possuo dados cronológicos precisos acerca da sua bibliografia, mas creio que se iniciou, em 1918, com o livro, "Em Torno da Educação". Este livro mereceu louvores de escritores de grande relevo intelectual, como por exemplo, Olavo Bilac e os professores José Oiticica e Sá Viana, que, desde logo, mencionaram as elevadas qualidades intelectuais e morais da autora, como sejam, a seriedade do assunto, a singeleza do estilo, a agudeza de inteligência e sua grande bondade.

É de se presumir que as palavras de José Oiticica, de que "As dúvidas se dissiparão e essa alma viva, atuante, culta e progressista, retomará a pena para elaborar o maior livro, um livro de renovação", tenham estimulado Maria Lacerda de Moura e até lhe tenham sugerido o título para o futuro livro, publicado no ano seguinte, precisamente com a epígrafe "Renovação".

"Renovação", é desde as dedicatórias das primeiras páginas, um livro efusivo, sincero e terno. Alguns de seus capítulos estão adornados, à guisa de aforismos, com trechos escolhidos, alusivos à emancipação da humanidade, de J.J. Rousseau, Kropotkine, Saint-Beuve e outros grandes autores.

Maria Lacerda de Moura continuou evoluindo e por isso "Renovação" não é, nem poderia ser, o seu melhor livro; mas já é o depoimento de que em sua alma viva, atuante, culta e progressista, se haviam dissipado muitas dúvidas, num sentido renovador. Há ali conceitos tão avançados que, confrontados com outros de obras publicadas muito mais tarde, nos dão a impressão de que, em certo sentido, a autora retrogradou. Um livro assim, vindo da província (Maria Lacerda de Moura é de Barbacena, onde então vivia) mas combatendo, com impavidez, todos os provincianismos, não podia deixar de despertar, como de fato despertou, grande interesse por haver sido escrito por uma mulher.

Mais tarde (creio que ali por 1923) Maria Lacerda de Moura veio para S. Paulo e aqui fundou a excelente revista "Renascença". Então começaram (se é que já não haviam começado antes) a surgir as primeiras decepções, quando certos leitores, assinantes ou coisa que o valha, deram de assediá-la para que lhes estampasse o retrato nas belas páginas da revista. Entretanto, apoio monetário, que era bom, nada. As conseqüências não se fizeram esperar...

Depois publicou diversos livros: "Lições de Pedagogia", "Civilização - Tronco de Escravos", "Han Ryner e o Amor Plural", "A Mulher é uma Degenerada" e outros. Também publicou muitos folhetos e pronunciou muitas conferências sempre regurgitantes de público.

"A Mulher é uma Degenerada" é, a meu modo de ver, um dos seus mais sólidos trabalhos. Este livro mereceu-lhe diversas edições e foi traduzido no estrangeiro. Trata-se de uma réplica ao anátema: "A Mulher é uma Degenerada" da autoria do psiquiatra português Miguel Bombarda, incerto em seu livro "A Epilepsia e as Pseudo Epilepsias".

A tese, ou melhor, a antítese de Maria Lacerda de Moura, no sentido de demonstrar que a mulher não é uma degenerada, é baseada em outros cientistas, alguns dos quais de renome universal, onde a autora patenteia sua cultura. É de se supor que ela não se tenha dado conta de que muitos argumentos científicos de que se serviu, iam de encontro às arraigadas crenças espiritualistas; mas o fato é que o objetivo a atingir era provar cientificamente que a mulher não é uma degenerada e ela o atingiu brilhantemente.

Maria Lacerda de Moura foi uma inteligência alerta a todas as cogitações do pensamento humano, mesmo às mais avançadas. Gostava de receber seus amigos intelectuais, com os quais trocava idéias entusiasticamente. A este propósito, reproduzirei aqui o epílogo de uma palestra, em bela tarde de domingo, em sua residência do Jardim América, onde se realizaram tantas tertúlias de tão saudosas recordações.

Além de outras pessoas, achavam-se presentes os escritores José Martins (também já falecido) e Aristeu Seixas. Este, em dado momento que se discutia sobre política, volta-se para Maria Lacerda de Moura e pergunta-lhe:

- Em Matéria de sistema de governo, qual deles a senhora acha preferível?

- Em questão de governo, o preferível é não preferir governo algum.

- Como assim? Isso é um paradoxo! É o caos... seria como na Rússia.

- Não, não. Isso, sim, é um paradoxo, porquanto, na Rússia ainda há um governo.

- Mas, sem autoridade, como garantir os nossos direitos? Assim qualquer indivíduo pode vir ao meu encontro e exigir-me, por exemplo, meu relógio, sendo eu obrigado a entregar-lho, dada a falta de garantia.

- Antes de mais nada, é preciso que se note que mesmo com todas as garantias, havidas e por haver, o senhor não está garantido de não ficar sem o seu relógio. Depois, com os fabulosos dispêndios para manter tais garantias, poder-se-ia distribuir todos os relógios do mundo para quem os precisasse. Daí em diante, não haveria mais roubos de relógios. E o relógio é apenas um ponto de partida...

Infelizmente, mais tarde deixou-se absorver completamente pelo individualismo nebuloso e estéril do inefável filósofo Han Ryner. Este mórbido individualismo, que a nada conduz, conduziu Maria Lacerda de Moura aliado a outros acontecimentos de sua vida íntima a Guararema.

De fato, conforme agora leio em uma nota de "O Estado de S. Paulo", ali viveu em uma choupana, onde, segundo ela contou, certa vez foi surpreendida, alta noite, por uma tempestade tão violenta, que se meteu debaixo da mesa, com medo de que a cabana lhe viesse em cima. Mas, não obstante Maria Lacerda de Moura já então nos vir dizendo que nos devemos bastar a nós mesmos, Carlos Moura, que, diga-se de passagem, não foi apenas um marido, na acepção prosaica do termo, mas sobretudo, para ela um grande amigo, mandou-lhe construir, ao lado da choupana uma casa confortável, onde nem faltou luz elétrica e água encanada.

Maria Lacerda de Moura, havia-se tornado misantropa; não obstante tal qual Zaratrusta, de vez em quando descia da montanha, não para bailar, mas para verberar, através de conferências, os energúmenos do fascismo, cada vez mais ameaçador.

Seu horror à violência, tornou-a uma ardorosa anti-fascista e houve um tempo em que foi a inimiga nº 1 do fascismo, em São Paulo. É incompreensível, portanto, que mesmo depois que se pode combater sem riscos o fascismo, ela não tenha sido lembrada, já não digo pelos cristãos novos do anti-fascismo do momento, mas nem mesmo pelos anti-fascistas veteranos que ainda lidem na imprensa.

Creio que podemos afirmar, sem receio de contestação, que Maria Lacerda de Moura foi, até hoje, a mais culta das escritoras brasileiras.

Osvaldo Salgueiro

 

JOSÉ VERGARA - 15

Espanhol, camponês, anarquista.

Tão humilde quanto idealista, José Vergara vivia em Catanduva quando o movimento anarquista ressurgiu em 1945. E tão logo soube do seu despertar procurou contato com seus companheiros de ideais no Rio de Janeiro e S. Paulo. Escreveu cartas, recebeu respostas, pediu imprensa e manifestou sua opinião da forma que sabia sobre o Congresso Latino-Americano de 1948 emitindo também sua opinião sobre o Congresso Anarquista Brasileiro a realizar-se em fins de 1948.

Em carta de 17 de julho lamenta o longo silencia imposto pela ditadura de Vargas infundindo medo e "retraimento dos trabalhadores de Catanduva". Assim mesmo pede que lhe mande "Ação Direta" para distribuir, esperançoso de que a sua leitura abra espaço às idéias anarquistas.

Em novembro (8-11-1948) dirigindo carta ao "prezado amigo e companheiro Sousa Garcia"- a propósito do temário do Congresso a realizar-se em S. Paulo, na "Nossa Chácara" - fala da sua avançada idade, da falta de recursos e de mobilidade física, para participar do Congresso Anarquista mas antecipa sua concordância com a tomada de posição dos companheiros e manifesta-se disposto a continuar distribuindo imprensa em Catanduva. Aliás, este gesto dignificava os remanescentes da varrida fascista, homens insubmissos, muitos deles bem idosos, escrevendo com letra trêmula, mas escrevendo o que pensavam e sentiam dos ideais que abraçaram em plena mocidade.

O anarquismo, mais do que qualquer outra corrente de pensamento social, contou com inúmeros homens da estirpe de José Vergara, lutadores humildes, anônimos e fiéis até à morte.

 

JOÃO ALVES COSTA VALENTE - 16

Trabalhador, anarquista.

Radicado em S. Paulo ali mantinha sua atividade subterrânea até 1945 quando os militares que sustentaram a ditadura de Getúlio Vargas resolveram derrubá-la.

Embora detentor de boa cultura sociológica, não escrevia na imprensa anarquista. Sua colaboração era simplesmente monetária e física.

Para falar de idealistas como ele, que passaram pelo movimento sem deixar rastos escritos, só na correspondência se pode colher alguns dados. E pois de três de suas cartas que extraímos alguns dados sobre as suas convicções libertárias.

Uma delas, com data de 22 de fevereiro de 1952, depois de falar da entrega de "suas contribuições monetárias para "A Plebe", "Ação Direta" e "Centro de Cultura Social" ao camarada Edgard Leuenroth, opina sobre uma "Enquete" anarquista que lhe foi enviada nos seguintes termos:

1) Magnífica, é pena que não possa ser mais difundida.

2) Muito bons.

3) Muito bons.

4) De enorme vantagem, especialmente na época atual em que a propaganda bolchevista, tal qual a gripe, atinge as camadas burguesas que agem sem raciocinar.

5) Acho que a orientação de "Ação Direta" é boa e, assim, não vejo razões para modificações.

6) Julgo que, para impressionar as massas e ser assim mais difundida, "Ação Direta", deve ser tratado o assunto do custo de vida atual, explorado no regime burguês pelos tubarões, também burgueses e à sombra desse regime em comparação com o anarquismo.

Assim pensava o anarquista João Alves Costa Valente.

 

JOSÉ ELIAS DA SILVA - 17

Brasileiro, marítimo, funcionário público, anarquista e depois fundador do P.C.B. (Partido Comunista Brasileiro).

Começou sua militância no Rio de Janeiro, nas associações operárias. Adquiriu boa cultura sociológica e tornou-se bom orador.

Participou ativamente do movimento anarquista, foi elemento importante na realização do Congresso Anarquista no Rio de Janeiro em 1915. falava e escrevia bem. Integrou a redação do diário libertário "Voz do Povo" em 1920.

Tomou parte no 3º Congresso Operário Brasileiro e foi enviado como delegado do movimento anarco-sindicalista a Pernambuco para "pacificar" os trabalhadores e impedir a cisão ensaiada pelo Dr. Joaquim Pimenta, Cristiano Cordeiro e outros oportunistas.

Participou de debates em defesa do anarquismo e um ano depois de perder o emprego do diário "Voz do Povo" escreveu a seguinte carta:

Rio, 17 de outubro de 1921

Caro camarada Edgard

Cordiais saudações

Somente hoje é que me animo a lançar mão da pena para escrever-lhe, pois só agora é que vou começando a tranqüilizar-me.

Depois do indiscritível período da mais negra miséria, durante o qual tão mal podia trabalhar pela nossa causa, parece-me que inicio uma era de relativa segurança econômica, condição indispensável para que um homem mais ou menos equilibrado e com encargo de família possa ter o tempo e o sossego precisos para preocupar-se com assuntos que não sejam prementes, inadiáveis e gravíssimos, inerentes à conquista do pão cotidiano.

Venho comunicar-te pois, que fui nomeado inspetor de alunos da Escola Profissional Visconde de Mauá, por exclusivo intermédio do nosso velho camarada Orlando Corrêa Lopes, e tomei posse deste meu cargo no dia 13 do mês passado; recebo mensalmente a quantia de 350$000, e espero que dentro de um ano terei pago todas as minhas dívidas que não são pequenas aliás; tenho por companheiro de serviço o Luiz Palmeira e também por colega o Álvaro Palmeira que é um dos professores da Escola.

Ambos têm sido para mim excelentes companheiros, apesar da divergência de nossas opiniões; quanto à competência dos mesmos é incontesta, principalmente a do Álvaro que é talvez o melhor professor da Escola; externo-me desta maneira porque tenho sentimento de justiça e o meu idealismo não chega a obliterar-me a razão.

Eu, neste meu novo encargo, sinto-me satisfeito; realizo um trabalho dos mais úteis, colaborando na obra de educação de uma centena de rapazes; mais de educação que de instrução; na generalidade estes rapazes são filhos de proletários e julgo que é melhor que eles estejam ao meu encargo que ao de um indivíduo qualquer, cuja preocupação exclusiva fosse fazer jus ao "ordenado", no entanto sei que talvez alguns insensatos iluminados ou alguns críticos amarelos, já me censuram por ter aceite um emprego público, como se um comunista não desejasse que todos os trabalhos fossem públicos, ou melhor, que toda a sociedade humana organizada sem a concorrência ou rivalidade de interesses cuidasse em comum de toda a regularização da produção e distribuição.

Eu absolutamente não me impressiono com critérios estapafúrdios, muito menos dos que adaptando-se à organização burguesa recebem e guardam moeda, se sujeitam ao salariato, pagam os impostos e não sabem que fim ou aplicação tem o trabalho que realizam; fora do meio não está ninguém, pois que em curto espaço de tempo é eliminado o recalcitrante; entendo que o anarquista se distingue dos outros mortais, principalmente porque reage contra o meio na medida das suas forças, e de acordo com as suas libertárias concepções de vida social, e eu considero-me incluso nesta espécie de homens, e não tenho e nunca tive medo ou prevenções a palavras; que se chame Comuna ou estado comunista, o fato é o mesmo; delegado de los compañeros ou deputado do soviet, o fato é o mesmo; agora deputado parlamentar com a propriedade privada, o fato não é o mesmo e é neste ponto que nós não embarcamos na canoa dos laboristas, trabalhistas etc, etc.

Eu não deixo, nem "los outros tampouco" de beber água fornecida pela Repartição das Obras Públicas nem de receber socorro da Assistência Municipal, o que não quer dizer que ache direito o sistema governamental pelo qual se rege e organiza o serviço de abastecimento de água e de socorro médico; por este mesmo critério aceito qualquer incumbência de colaborar na obra de educação ou produção verdadeiramente útil, quer seja por conta del Gobierno ou de los patrones; ambos são burgueses.

Felizmente para nós, quem me censurou até agora foi apenas um cor de abóbora, isto é, destes que para amarelo já pouco faltam, e se te fiz tantas reflexões foi mais para dar expansão ao meu pensar e sentir que para perder tempo com a opinião de um maluco qualquer.

Quanto ao balancete que me pedes vou enviar-te por estes dias; eu procurei levantar um empréstimo no Banco dos Funcionários, afim de restituir a importância de uma vez de meu ordenado da C.E.Z.C. cobrir com a mesma a quantia perdida pelo ex-tesoureiro, figurando entretanto no balancete a saída dos meus dois ordenados, porém não tenho ainda o tempo de interstício preciso para levantar empréstimos.

Não sei como remediar este mal. Eu resolvi definitivamente não aceitar jamais em tempo algum, qualquer cargo de "las organizaciones de obreros"; livrei-me talvez arranhado, dos encargos que me pesaram nos ombros durante tantos anos; a miséria conseqüente da minha despretensiosa dedicação à causa, compeliu-me algumas vezes a abusar de algumas quantias sob a minha responsabilidade se bem que com as melhores intenções, e nem sempre a tempo pude solver estes sagrados compromissos; chega portanto de experiência; nem sempre a explicação de um fato é a sua justificação, e eu quero ser inflexível mais para comigo que para com os outros.

Se bem que ninguém me peça contas até hoje, eu sinto-me no dever de restituir algum dinheiro recebido a título de ordenado da C.E.Z.C. e a quantia de 180$000 com a qual deveria seguir para Pernambuco e entregá-la aos camaradas da Hora Social; a morte do meu sogro nas vésperas da viagem e as despesas forçadas que então tive que fazer impediram-me de embarcar e restituir o dinheiro; eis as dívidas que me tem tirado o sono e roubado a tranqüilidade; já não basta tudo que se sofre com a falta de trabalho, as perseguições, as noites perdidas; a própria fidelidade econômica compromete se, e para pior dos males, com motivos; é verdade que para o julgamento sereno dos espíritos elevados, os motivos são justos; porém que direito tenho eu ou qualquer, de esperar e exigir que se faça justiça em um caso de consciência da mais difícil elucidação?

Para o homem sincero resta somente conformar-se com a fatalidade da situação, e lançá-la a crédito do seu sacrifício.

O nosso martirológio raramente é um calvário, porém ordinariamente é uma favela; poucos dos nossos conhecem o céu de um Kropotkine ou um inferno de um Ferrer, porém quase todos amargam a vida na atmosfera pesada e cinzenta de um purgatório, da luta anônima...

Os lances teatrais, as apoteoses, as odisséias... que diabo, é preciso que eu dê uma volta nisso, senão lá vou eu me arvorando a fazer literatura, coisa para a qual eu não tenho mesmo jeito.

Sobre a propaganda tenho a informar-te que vai indo regularmente; o pessoal está se reanimando e crédito dos libertários vai se restabelecendo, pois houve um momento em que ele perigou com a última derrocada; alguns trouxas tomaram o colapso por morte definitiva e bancaram o laborismo, porém eu julgo que agora eles estão torcendo a orelha sem deitar sangue.

Todo o mundo pode ficar certo de que "quem quer se fazer não pode, quem é bom já nasce feito".

Realizamos aqui muitas reuniões reservadas e cordiais entre camaradas, nas quais discutimos amplamente anarquismo e bolchevismo, e da discussão saiu muita luz, luz claríssima mesmo que conseguiu iluminar muito cérebro tenebroso.

Conferências temos realizado muitas, e todas concorridas.

No mais, vamos indo sem alteração. recomende-me a todos. Abrace o camarada e amigo certo

Elias

Rua Moreira, nº 65, Engenho de Dentro

P.S. - No dia 16 passado a minha companheira deu-me mais um filho. Chama-se Valdemar Elias.

Elias confuso, falava ao anarquista Edgard Leuenroth de reuniões que vinha realizando com outros elementos do Grupo Comunista que cinco meses mais tarde homologaria os estatutos e daria por fundado o P.C.B.

Foi - diga-se em abono da verdade - um dos maiores responsáveis pela cisão dentro do movimento anarquista de que se dizia defensor, um dos promotores das reuniões e aliciador dos fundadores do P.C.B.. em nome do anarquismo.

Não obstante o seu "esforço" e a sua "traição" em favor do bolchevismo logo foi "afastado"...

Mais tarde tentou explicar-se com Edgard Leuenroth escrevendo-lhe a carta que segue para com ele desabafar suas mágoas.

Marília, 22-2-1944

Caro Edgard

Cordiais saudações

Aviso-te que espero encontrar-me em S. Paulo no próximo dia 26 pela manhã, ou à tarde.

Estou com saúde e se fosse possível, a minha viagem seria mais demorada.

Peço-te que apresentes os meus respeitos a tua família, transmitas as minhas lembranças aos rapazes nossos bons amigos e aceites o abraço do amigo certo.

Zeca()

P.S. - Somente hoje, dia 24 é que resolvi os meus negócios; conto chegar em S. Paulo às 13 ou 14 horas do dia 26.

Eu não sei se por "remorso", esteve presente no funeral do seu ex-companheiro anarquista José Oiticica, e alguns dias mais tarde foi à redação de "Ação Direta", na Av. 13 de Maio, 23, sala 922 procurar José Romero para lhe dar seus pêsames tal como o viria a fazer na mesma ocasião o fundador do P.C.B. Astrojildo Pereira.

Numa visita que Fábio Luz e João Gonçalves da Silva lhe fez ao Colégio Visconde de Mauá em 1923, Elias declarou-lhes: "Quando chegar ao poder pouparei as vossas vidas por que são meus amigos, mas muita gente dos nossos meios serão degolados". Depois "afastaram-no"... do P.C.B.

 

JOSÉ LEANDRO DA SILVA - 18

Brasileiro, marítimo, anarco-sindicalista.

Não se pode atribuir feitos heróicos nos meios operários nem assídua freqüência nos comícios e/ou conferências nas sedes das associações anarco-sindicalistas. Tudo que dele se pode dizer é que era um devotado leitor da imprensa libertária e tinha convicções seguras. Trabalhador do Lloid Brasileiro passava a maior parte de sua vida no mar, mas ao chegar à terra não deixava de rever os companheiros e freqüentar a sede dos "Marinheiros e Remadores" na Praça da Harmonia, acabando envolvido num crime que não cometeu.

É deveras contagiante, e às vezes até comovente, a sagacidade, a presteza, a desenvoltura e a variedade de recursos de que lançava mão o proletariado e o elemento libertário, para angariar recursos financeiros e socorrer os seus companheiros desempregados, doentes, inutilizados pelo trabalho, ou quando eram presos.

Para se avaliar, decorridos mais de 50 anos, o espírito idealista, humanitário e de solidariedade dos precursores, dos conquistadores de melhorias sociais, que mais tarde seriam tornadas obrigatórias através de leis, e de cujos benefícios hoje gozamos, só existe um meio: ajuntar uma das listas das contribuições pró-libertação do operário marítimo José Leandro da Silva, preso e condenado a 30 anos por participar de uma greve no Cais do Porto do Rio de Janeiro na qual morreu um guarda truculento, encarregado de manter a "ordem".

É uma pálida amostra do companheirismo, da solidariedade e da prestação pública de contas, das contribuições voluntárias pelo proletariado Pró-Liberdade de José Leandro da Silva:

"Rateio feito entre os representantes das associações, na sede da União dos Operários em C. Civil, em 24-11-1921 128$000;

Conferência realizada na sede da União dos Operários em C. Civil 226$000;

Conferência realizada na sede da Associação dos Marítimos Remadores 312$000;

Conferência realizada na sede da Aliança dos Operários em Calçados 365$000;

Festival realizado na sede do Centro Cosmopolita em 15-2-1922 747$000;

Auxílio por intermédio do Dr. Fábio Luz 25$000;

Lista a cargo do camarada Bernardo Barros 14$000;

Lista a cargo do camarada Joaquim Miranda 48$000;

Lista a cargo do camarada Joaquim Silva 25$000;

Lista a cargo do camarada Ranolfo Silva 31$500;

Lista a cargo do camarada Silvério Araújo 14$000;

Lista a cargo do camarada Pedro Carneiro 33$000;

Lista a cargo do camarada João Cavalcante 1$000;

Lista a cargo do camarada José Ribeiro 29$900;

Lista a cargo do camarada Aurélio Silva 31$000;

Lista a cargo do camarada Constantino Neves ..11$500;

Lista a cargo do camarada Alfredo Mesquita 65$000;

Lista a cargo do camarada Joaquim Miranda 26$000;

Lista a cargo do camarada Manoel Pires 2$000;

Lista a cargo do camarada José A. dos Santos ..52$000

Lista a cargo do camarada Ernesto Gravino 9$000;

Auxílio do Sindicato de Pedreiros e Carpinteiros do Estado da Bahia 30$700;

Rateio feito em uma conferência na sede da União dos O. da C. Civil 54$000;

Auxílio de Aurélio Varell 2$000;

Auxílio de diversos camaradas na reunião de 21 de abril na sede da União dos Operários em F. de Tecidos 12$000;

Cotas dos sócios quites da União dos O. em C. Civil .. 150$00;

Cotas dos sócios quites da Aliança dos Trabalhadores em Marcenarias 116$500;

Cotas dos sócios quites da União dos Operários em Tinturarias 10$000;

Cotas dos sócios quites do Centro dos Operários Marmoristas 20$000;

Cotas da União dos Em. em Padarias 60$000;

Auxílio da Associação dos Marinheiros e Remadores 50$000;

Lista da Aliança dos T. em Marcenarias 18$000;

Casa Pascali 16$000;

Lista 1 34$500;

Lista 6 15$000;

Lista 16 8$000;

Voluntária 32$000;

União dos Operários em C. Civil 5$400;

Aliança dos T. em Marcenarias $400;

União dos Operários em Tinturarias $900;

A cargo do Comitê 14$900;

Saldo do Festival do Jardim Zoológico 1.591$800

Centro Cosmopolita 12$000;

Aliança dos Operários em Calçados 310$000;

Aliança dos T. em Marcenarias 42$000;

Associação dos Marinheiros e Remadores 54$000;

TOTAL.................................................4.865$200

Entregue a João Argolo, tesoureiro da defesa de José Leandro da Silva:

Em 24 de novembro de 1921 128$200

Em 3 de dezembro de 1921 226$000

Em 10 de dezembro de 1921 312$000

Em 24 de dezembro de 1921 384$000

Em 15 de Janeiro de 1922 700$000

Em 25 de Janeiro de 1922 25$000

Em 15 de março de 1922 500$000

Em 27 de abril de 1922 588$000

Em 12 de maio de 1922 10$000

Em 9 de junho de 1922 200$000

Em 12 de junho de 1922 20$000

Em 13 de junho de 1922 250$000

Em 24 de junho de 1922 100$000

Em 25 de junho de 1922 189$000

Em 14 de julho de 1922 200$000

Em 29 de julho de 1922 220$000

Em 9 de agosto de 1922 12$000

Em 11 de agosto de 1922 70$000

TOTAL:..........................4.084$40

João Argolo recebeu de outros lugares:

União dos Taifeiros do Estado do Rio 80$000

União dos Taifeiros Culinários e Panificadores Marítimos 200$000

O Comunista 100$000

União dos Alfaiates 83$000

Sindicato Culinário, rateio 17$000

Centro Cosmopolita, rateio 38$000

João Cavalcante, lista 96$000

Aníbal Santos, lista 30$000

Associação dos Carpinteiros Navais 200$000

TOTAL:..........................................844$000

Haveres a cargo do Comitê:

2 carimbos; 7 sacos; 1 fruteira de vidro; 1 tigelinha; 1 aeroplano pequeno; 1 guarda-chuva; 1 copo; 1 faquinha; 110 bandeiras pequenas; 10 barricas; 82 Maximalismo e anarquismo; 33 Os Camponeses; 19 O Pecado de Simonia; 30 Programa e Anarquismo Revolucionário; 24 Pelo Comunismo Anarquista; 12 da Religião à Anarquia; 9 A Moral Anarquista; 3 O Que é o Maximalismo ou Bolchevismo; 3 Noli me Tangete; 3059 Hino Nossa Paz; 1 Quadro com retrato de Pedro Kropotkine; 2 Clichês.

Faltam entrar nas conferências de dezembro de 1921 a janeiro de 1922:

Mário Serber, 20 entradas 20

Aníbal Santos, 10 entradas 10

Laureano Teixeira, 10 entradas 10

Severino Luiz, 10 entradas 10

Lourenço "Sapateiro", 20 entradas 20

Marinheiros e Remadores 20

Do Festival do Jardim Zoológico:

Aliança dos Operários em Calçado 150

Aliança dos Trabalhadores em Marcenarias 120

Hino Nossa Paz:

Federação do estado do Rio 500

União dos Empregados em Padarias 500

Centro Cosmopolita 200

A. dos Operários em Calçados 500

Listas:

Ao camarada Paulino Dias

Ao camarada Frederico Garrido

Ao camarada José Ribeiro

Saídas 4.625$600

Entradas 4.865$200

Saldo 239$600

O Tesoureiro do "Comitê"

Aurelino Silva

Três anos mais tarde "A Plebe", São Paulo, 16-2-1924 comentava a absolvição de José Leandro da Silva no Tribunal do Júri do Rio de Janeiro a cujo julgamento assistiram 150 trabalhadores, dentro e fora do Tribunal.

 

JOSÉ G. AUGUSTO - 19

Espanhol, operário, anarquista.

Nasceu em 5 de maio de 1903, em Barasona, província de Huesca, Espanha.

Não chegou a conhecer os pais; sua mãe veio para a Argentina e depois passou ao Brasil onde faleceu.

Criado com avó, José Augusto, por morte desta, viajou para Barcelona onde começou sendo ajudante de ladrilheiro, classe totalmente integrada à CNT (Confederación Nacional del Trabajo). Às vésperas de prestar serviço militar obrigatório recusou-se fugindo para França. Em Besan, começou a trabalhar numa pedreira tendo como companheiros de ofício três anarquistas espanhóis. Um deles - José Bonet colaborava na imprensa anarquista de Paris - promoveu sua apresentação aos companheiros da capital francesa para onde viajou. Fixou-se em Chambre Mistrieuse, Rue Saint Menard, 5 tendo então oportunidade de conviver com destacados militantes como Agustin Gibanel, Manuel Moreno, Manuel Ruiz, integrantes do Grupo Spartacus.

Ali começou de fato o aprendizado de José G. Augusto. Leu os clássicos do anarquismo, a imprensa periódica e assistiu aos comícios em favor da libertação de Sacco e Vanzetti condenados nos Estados Unidos e contra a extradição de Ascaso, Durruti e Jover pedida pelos Governos Argentino e Espanhol.

Na ocasião já integrava o "Grupo Spartacus". Em seguida ligou-se a um chaufer de quem nunca chegou a saber o nome, que trabalhava para Francisco Maciá, depois Governador da Catalunha, transportando armas à fronteira espanhola. Pouco depois Ascaso e Durruti planejam sequestrar o Rei de Espanha durante viagem que este fez a Paris, servindo-se do "desconhecido chaufer" e acabaram descobrindo que este trabalhava para a polícia.

Foi assíduo ouvinte das conferências de Sebastião Faure, Charles Auguste Bontemps, Han Ryner, Emile Armand, André Colomer e outros militantes em evidência. Aprendeu muito com esses mestres do anarquismo, inclusive o idioma francês, enquanto cimentava sólida amizade com Pedro Fernandez, administrador do semanário órgão da "Federación del Grupos Anarquistas de Língua Española em França", passando a ajudar na administração do jornal. Ajudou igualmente Ismael Rico, Pastor e outros companheiros exilados que passavam fome em França para publicar a revista "Procriação Consciente" saindo mais tarde em Valência com o título Studios onde colaborou muito Maria Lacerda de Moura.

Com o regresso de Federico Ferrer da "seção de Vinhos e Licores do Sindicato de Alimentação", passou a ocupar o seu lugar na fábrica de Cervejas Moritz e recebeu o encargo de impedir que ali se instalasse um Comitê da U.G.T. o que viria a prejudicar substancialmente a CNT ali radicada a tempos.

Em 1934, o deputado Gordon Ordaz publicou extenso manifesto denunciando a selvajaria cometida nas Astúrias contra o Proletariado libertário e a Federação Local dos Grupos anarquistas de Barcelona resolveu fazer com esses dados um folheto com o título: "Páginas Para a História". Encarregado dessa tarefa Ildefonso Gonzalez e Valeriano Luis Simon, quando dobravam e grampeavam o folheto a polícia invadiu o local prendendo-os. José Augusto que havia regressado a Espanha foi preso com eles.

Os cárceres estavam cheiros de anarquistas sem julgamento nem culpa formada. Um dos prisioneiros - conta José Augusto - era Liberto Callejas que chamava a atenção pela sua calvície, merecendo do carcereiro a pergunta: "Quem és tu?" "Aqui um objeto, uma coisa, nada; lá fora na rua diretor de Solidariedad Obrera", responde Callejas.

Participou da Guerra Civil de 1936/39 voltando a França com os vencidos por Franco.

Em 1951 veio para o Brasil fixando residência em Porto Alegre onde já estavam refugiados espanhóis. Desde então trabalhou e militou com Juan Puig Elias, José Pujol, Rafael Fernandez e outros companheiros brasileiros. Participou de um Congresso Anarquista em S. Paulo. Fundou com outros companheiros a Editora Proa publicando em Porto Alegre uns poucos livros e ajudou no lançamento do jornal "O Protesto".

Participou também da fundação em 24 de maio de 1953 do Centro Cultural y Artístico com Jesus Ribas, Rafael Fernandez e Tarcísio Gandolfi.

A José Augusto e Rafael Fernandez deve o autor valiosa ajuda para esta obra.

 

JOSÉ DIAS - 20

Português, operário, anarquista.

Sua conversão ao anarquismo deu-se em Portugal onde militou na clandestinidade a maior parte do tempo que ali viveu.

Depois de descoberto pela PIDE., preso, torturado até à exaustão. Quando esta famigerada polícia política lusitana, irmã da GESTAPO de Hitler e da K.G.B. soviética pensou que estava "pronto" para morrer em casa, soltou-o. "Livre" conseguiu alcançar a África e de lá veio para o Brasil fixando-se em S. Paulo no ano de 1941. Vivia-se em plena Guerra mundial (1939-1945) quando o anarquista José Dias chegou à cidade bandeirante carregando consigo as seqüelas dos maus tratos, das torturas físicas e sobretudo psicológicas. Assim mesmo fez contatos com os anarquistas de São Paulo que lhe prestaram ajuda. Conseguiu trabalho para sua manutenção. Mas periodicamente era acometido de crises mentais e como não tinha família, eram os anarquistas que o socorriam e lhe davam toda a assistência de que precisava.

Durante 27 anos viveu períodos de equilíbrio longos interrompidos por perturbações fugazes - que embora ordeiras - algumas vezes precisavam de internamento para uma reabilitação razoável, já que seu mal era incurável.

Lembrando o falecimento deste mártir da PIDE do muito católico Oliveira Salazar, o periódico anarquista "Dealbar", de São Paulo, abril/maio de 1968 regista assim seu óbito:

"Deixou de existir no dia 13 de março de 1968, aos 63 anos de idade o nosso companheiro José Dias, que se encontrava doente há quase dois anos de insidioso mal.

Apesar de sofrer periodicamente ligeiras crises mentais, José Dias, mantinha-se ordeiro e equilibrado, levando vida normal e de bom companheirismo. Não tinha família em São Paulo e, em sua prolongada doença, tanto em casa como no hospital, teve ao seu lado o aconchego e o carinho dos companheiros libertários de São Paulo.

Vai aqui a nossa sentida e respeitosa homenagem".

 

JOÃO MARTINS DOMINGUES - 21

Português, garçon, anarquista.

Como a grande maioria dos emigrantes, João Martins Domingues chegou ao Brasil influenciado pela propaganda que se fazia no exterior, visando atrair mão de obra especializada.

Fixou-se no Rio de Janeiro e logo pode perceber que a propaganda paradisíaca brasileira só existia para uns poucos espertalhões-exploradores, comerciantes, industriais, padres e políticos profissionais. O trabalhador vivia no Brasil a mesma miséria, sofria a mesma exploração e maus tratos quando se dispunha a reclamar o longo horário de trabalho e/ou a falta de higiene nos locais de trabalho e nas habitações "improvisadas" para abrigar emigrantes.

Dentro desta realidade contata com outros companheiros de ofício e de sofrimento e começa a freqüentar associações de classe, lê jornais libertários, assiste a conferências e comícios, toma parte de greves, sofre perseguições por isso e tornou-se anarquista. Lutou por suas idéias, debateu seus objetivos, seu alcance com outros trabalhadores como ele e foi preso.

João Martins Domingues não chegou a discursar nem a escrever na imprensa libertária, faltava-lhe dom para isso, mas foi um militante prestimoso e ativo, "um camarada, cujo caracter e ação se reflete nas demonstrações que lhe devotaram seus companheiros quando do seu sepultamento no dia 1º de maio de 1922".

Foi com estas palavras que o mensário anarquista "A Voz da União", ano 1 nº 2, São Paulo, 1-6-1922 (Órgão dos Empregados em Cafés de S. Paulo, editado pelo "Grupo Jovens do Futuro") sede no Largo do Riachuelo, 56 e redator principal o garçon Sousa Passos, inicia a sua homenagem ao "camarada João Martins Domingues".

 

JOÃO NAVARRO - 22

Espanhol, pintor-decorador, anarquista.

Homem muito estudioso, carregando vasta cultura sociológica e grande visão do anarquismo preferia mais ouvir do que falar nas reuniões, nos comícios, onde quer que se realizassem manifestações. Viveu, trabalhou e faleceu em São Paulo depois de ficar cego com mais de 90 anos de idade. Introvertido por natureza era também um militante anarquista de grande visão e muito lúcido, esta última acompanhando-o até à morte.

Não faltava às reuniões onde fosse possível sua presença já que a classe dos decoradores não tinha sindicato. Era sempre dos primeiros a chegar ao Centro de Cultura Social, quer para participar das reuniões, assistir às palestras, colaborar no encaminhamento dos trabalhos e ajudar na feitura de pacotões de jornais nos dias de fazer sua expedição.

Sua contribuição financeira era certa, quer para a imprensa do Brasil ou do exterior, quer para o Centro de Cultura Social de São Paulo bem como para a "Cooperativa Editora Mundo Livre" do Rio de Janeiro, mesmo contando mais de 80 anos.

Não faltava igualmente às reuniões em "Nossa Chácara" no Itaim, e mais tarde em "Nosso Sítio", onde os jovens o surpreenderam com uma festa ao completar 80 anos. O autor teve a oportunidade de assistir e ser um -talvez o maior - dos seus herdeiros da imprensa que durante a sua longa vida recebeu, leu e guardou com grande carinho, tanto as coleções de revistas (Blanca e outras) que lhe chegavam de Espanha quanto a que recebia de todo o Brasil e de outros países da América e da Europa.

João Navarro, foi exemplo de coerência, de continuidade e firmeza ácrata.

Colhendo dados recentemente com Maria Angelina Soares, cuja casa freqüentara quando morou no Brás, São Paulo, com sua família, João Navarro preferia mais ouvir do que falar. Mas nunca faltava aos seus compromissos inclusive nos grupos de teatro social de que foi ponto.

Em homenagem à sua firmeza ideológica, a sua colaboração para a divulgação do anarquismo e em reconhecimento pelo muito que nos ajudou com a imprensa na pesquisa incluímos sua fotografia no livro "Novos Rumos - 1922-1945", Rio de janeiro, 1980.

 

JOAQUIM DOS SANTOS BARBOSA - 23

Brasileiro, pintor, anarquista.

Sua militância desenvolveu-se no Rio de Janeiro.

Participou ativamente da União dos Operários em Construção Civil a cuja classe pertencia. Como operário, tomou parte em greves, foi preso por isso, escreveu poemas recordando os companheiros expulsos:

Ainda...

(A Bordo do "Arlanza" a Hora da Partida)

O transatlântico pesadamente,

no afan protocolar da despedida

rumo da barra avança finalmente.

Monstro - a Justiça - de armas embaladas,

o Cais deixou, e apenas certa gente

ali ficou pelas balaustradas

a comentar o caso simplesmente.

Lenços se agitam num adeus final;

Palpitam corações angustiados...

já se não houve a Internacional.

Repete o Estado a negregando prova,

Mais irmãos nossos seguem deportados

- O Estado aduba a sementeira nova. ()

Muito estudioso e por isso bastante culto, Santos Barbosa, como era mais conhecido e assinava seus trabalhos, destacou-se como componente dos grupos de teatro social no Rio de Janeiro, é autor de peças teatrais.

Data das primeiras décadas do século 20 a sua participação como teatrólogo no universo libertário brasileiro.

No livro "O Anarquismo na Escola No Teatro e na Poesia" registamos suas peças e a boa aceitação dos espectadores, inclusive a repetição de suas representações.

"A Guerra Social", periódico anarquista do Rio de Janeiro, com sede na rua do Senado, 196, nº 17, ano 1 de 20-3-1912 em sua segunda página abria espaço à atividade teatral de Santos Barbosa com a seguinte notícia:

"O Mártir de Montjuich"

Desejando o nosso camarada Santos Barbosa, residente nesta capital. editar o seu trabalho teatral com o título acima, a fim de distribuí-lo gratuitamente, solicita aos companheiros e a todos os amantes da liberdade em geral um auxílio para tal fim.

Ao nosso jornal poderão os leitores enviar a sua justa e sincera contribuição.

N.B. - Pedimos a transcrição deste apelo em todos os jornais operários e libertários, bem como a publicação das cotas recebidas enviando depois o total ao companheiro.

Santos Barbosa

Rua Conde de Bonfim, 815"

São de sua autoria também as peças "Naquela Noite", "Famintos", "Pecados de Maio", "Pró Pátria", "Ideal Fecundo", "Cata-Vento", "A Jaula", entre outros. Foi ator e mais tarde ensaiador dos grupos de teatro social anarquista.

Quando da formação do Grupo Comunista que veio a homologar o P.C.B. em março de 1922, Santos Barbosa manifestou-se em defesa do anarquismo nas páginas da revista "Renovação", (ano 1, nº 4, Fev. de 1922) dirigida por Marques da Costa, sob o título "Ser ou não ser".

"Anarquistas, nós ocupamos, da banda de cá da barricada, uma posição muito nossa, diametralmente oposta a dos revolucionários sociais que se batem pelo sistema político-econômico predominante na Rússia.

Relativistas desapaixonados, nós vemos no comunismo autoritário, ou antes no chamado Estado proletário, posto à prova, e de que é ditador o Partido Comunista, o exemplo máximo de onde promanam, em catadupas maciças os contrastes mais flagrantes, as mais positivas negações a confirmação mais eloqüente de tudo quanto sobre o tem dito a observação libertária, prática, infalível, insofismável, anti-nirvanica, sem laivos de "iluminosidades"...

Não somos contra esse gênero exótico revolucionarismo vermelho, por prevenção, por diletantismo, por tradicionalismo, por ortodoxismo, por mais isto ou mais aquilo, mas simplesmente por coerência e convicção; por termos a certeza certíssima de que podemos fazer obra nossa, mais ou menos consentânea com o nosso critério. Basta para tanto, que reacendamos dia-a-dia, o fogo sagrado do ideal que nos anima; que uniformizemos a propaganda; que nos preparemos e preparemos a humanidade para o comunismo que antevemos e que não é assim um "bicho de sete cabeças", um "Deus nos acuda", um "impossível tamanho", que tanto exaspera e tortura de impaciência aqueles dos nossos, que fizeram presa irrequieta do "bichinho" carpinteiro bolchevista.

Mais por temperamento, por contágio, por vontade de derrubar, por "volúpia napoleônica", por leviandade e - quem sabe? - ainda por outros fatores psicológicos, a militância anarquista internacional sofreu singular alteração com a retirada dos que "deram atrás" não missão, aliás sincera mas contraproducente, de "movimentar novamente o comboio" embora por linhas tortas... muito semelhantes às dos outros...

Não é que por linha reta, na marcha que levamos, menos veloz, porém mais segura e mais confortadora, nós estejamos isentos de encontros, descarrilamentos, desmoronamentos de barrancos e "bois na linha", não, é que assim vamos melhor, mais à vontade; mais cônscios da nossa atuação histórica, tranqüilos, serenos, convictos de que vamos conosco mesmos, com mais ninguém. E - é fatal - havemos de chegar primeiro".

Não obstante este posicionamento do anarquista Joaquim Santos Barbosa, foi mais tarde contagiado pelos "progressos soviéticos". Mas tão logo se deu conta do equívoco, fez declaração pública contra o bolchevismo e o P.C.B.

Perseguido pela polícia política refugiou-se no interior passando a viver de dar aulas pelos métodos da Escola Moderna de Ferrer.

Morreu anarquista como viveu... (testemunhos de Angelina Soares, Amilcar dos Santos e Diamantino Augusto, companheiros de Joaquim dos Santos Barbosa).

 

JOAQUIM PINTO LEAL JUNIOR - 24

Português, operário alfaiate, anarquista.

Leal Junior como era conhecido nos meios operários e libertários veio de Portugal militante feito.

Chegou ao Rio de Janeiro em 1911 com uma bagagem cultural muito boa. Carregava valiosa cultura sociológica e anarquista, uma grande experiência militante e sobretudo o dom da palavra: era um excelente orador. Onde quer que falasse, e logo que lhe descobriram essa vocação, convidaram-no para falar até mesmo em lugares alheios a sua classe profissional, arrebatava pela palavra fácil a assistência.

Nos breves 5 anos que viveu no Brasil, Leal Júnior esteve presente em todas as assembléias onde fosse necessário que alguém usasse a palavra para falar aos companheiros.

Foi orador em comícios no largo de São Francisco ao lado de João Gonçalves da Silva.

Participou como delegado da União dos Alfaiates do Rio de Janeiro com António Moreira, do Segundo Congresso Operário Brasileiro, realizado em 1913, na sede do "Centro Cosmopolita", a rua do Senado. Neste conclave externou em vibrantes e brilhantes discursos e intervenções sua experiência militante e suas definições anarco-sindicalistas exposta no melhor estilo europeu.

Participou ativamente de todos os eventos no curto espaço de tempo em que viveu! Seu nome aparece registado na imprensa operária e anarquista do Brasil, falando em comícios contra o desemprego, a carestia de vida, contra a guerra de 1914-18 e os açambarcadores de alimentos de primeira necessidade. Apoiou com toda a clareza de palavras e gestos a divulgação dos métodos racionalistas de Francisco Ferrer, defendeu a fundação da Escola Moderna nos meios operários e acratas, participou dos grupos e das representações teatrais no Rio de Janeiro e vibrava com os poetas que externavam suas "Aspirações":

"Eu quisera ter poderes

Sobre tudo o que desejo;

Porque assim, num bafejo,

Meio mundo extinguiria:

- A cruz, o sabre, o dinheiro.

Tudo o que diz - Cativeiro,

E proclamava a Anarquia!"

Quando da sua morte em 1916, o jornal libertário e anticlerical de São Paulo, "A Lanterna" em nota intitulada "Lutador que desaparece"- Leal Júnior, tece os seguintes comentários:

"Assim se chamava o camarada que vem de deixar o mundo dos vivos no Rio de Janeiro.

Era um ativo, inteligente e dedicado propagandista do ideal anarquista. Como operário, era no seio de sua classe que extremamente desenvolvia a sua atividade.

Havia cinco anos que viera de Portugal, onde muito labutara em prol da sublime causa.

No Rio muito fez. Como falava bem, sendo mesmo um excelente orador, foi figura obrigatória em todas as agitações. A sua palavra vibrante sacudia o povo operário nos comícios.

Ao seu enterro compareceram representantes de todas as associações operárias e grande número de trabalhadores.

No cemitério proferiram vibrantes discursos os nossos camaradas anarquistas Dr. Orlando Corrêa Lopes e José Elias da Silva.

Leal Júnior será sempre lembrado como um exemplo de lutador pertinaz".

O prognóstico feito pelo jornal "A Lanterna" em 1916 não foi sem razão: decorridos quase três quartos de século de seu desaparecimento Joaquim Pinto Leal Júnior ainda é lembrado em obras de pesquisadores que quando de sua morte estavam longe de nascer.

Esta é uma das grandes diferenças entre os homens de idéias, operários ou sábios, e as autoridades que os perseguiram, prenderam e torturaram!

 

JOÃO PENTEADO - 25

Brasileiro, professor, anarquista.

Nasceu em 1876 e faleceu em 31 de dezembro de 1965, quando contava 86 anos de idade, de "bem" com o anarquismo.

João Penteado militou em São Paulo onde viveu e faleceu. Sua atividade esteve praticamente voltada para a educação e o ensino anarquista. Não "compreendia" uma sociedade nova sem uma nova educação e uma instrução que despertasse e revelasse nas crianças e nos jovens todas as suas potencialidades intelectuais, artísticas e a solidariedade humana. Quer na imprensa onde colaborou, como "A Plebe", "A Lanterna", "Boletim da Escola Moderna", São Paulo do qual foi fundador e diretor e outros, quer na "Escola Moderna nº 1" que fundou numa modesta sala, na rua Saldanha Marinho, no Bairro Belém, lá pelos idos de 1912 e fechada por ordem judicial em 1919, dando lugar mais tarde a Escola de Comércio Saldanha Marinho de que foi diretor, João Penteado colocava sempre antes da revolução social a premência de uma Educação Nova!

Senão vejamos o que escreveu João Penteado em "A Guerra Social", jornal anarquista do Rio de Janeiro, (3-4-1912): "Depois do malogro das revoluções passadas, depois da conclusão tirada da história da humanidade, aprendemos perfeitamente, por experiência, que o edifício arquitetado em nossa imaginação precisa de alicerces firmes, muito firmes, lançados sobre a rocha, para que não ceda ao embate das tempestades reacionárias, nem aconteça ruir por terra esmagando sob seus escombros a milhões de obreiros que debalde amaldiçoarão a inépcia dos próprios trabalhos, vítimas irremediáveis de uma condenável imprevidência. Mas companheiros, sabeis em que devem ser lançados tais alicerces? Na consciência. Sabeis de que alicerces vos falo? A instrução. E o edifício? O comunismo social. Aquela nos brada: escola moderna. E este nos traduz: revolução. Pois bem a instrução é o caminho que nos conduzirá ao grande objetivo, que só alcançaremos pela revolução.

As revoluções também foram sempre de um duplo efeito: pode-se dizer que em tudo na história oferece direito e avesso. Quem quer evitar o engano, deve, portanto, examinar com crítica atenta, interrogar todo o homem que pretende ter-se dedicado à nossa causa. Não basta gritar: revolução, revolução! para que caminhemos logo atrás de quem sabe arrastar-nos. É natural certamente o ignorante siga o seu instinto: o touro alucinado corre sobre um trapo vermelho e o povo sempre tiranizado se precipita enfurecido contra o primeiro que lhe indiquem. Uma revolução qualquer tem sempre um lado bom quando feita contra um regime de opressão; mas se se deve provocar um novo despotismo, é lícito perguntar se não seria melhor ter-lhe dado outra direção. É já tempo de empregar unicamente forças conscientes; os evolucionistas chegando enfim ao perfeito conhecimento do que pretendem realizar na próxima revolução, têm outra coisa a fazer mais do que amotinar descontentes, lançando-os na refrega sem fim nem bússola.

Na obra de regeneração social devem colaborar obreiros livres, conscientes, instruídos, que saibam medir as conseqüências de seus atos e agir por si mesmos, dispensando as determinações e tutelas de chefes".

João Penteado escrevia como falava e falava como escrevia. Coerente, sempre, não faltava às reuniões e aos congressos dos anarquistas realizados em 1948 e nos anos subsequentes em "Nossa Chácara".

Tampouco descuidava de sua contribuição monetária para ajudar na manutenção do Centro de Cultura Social e nas despesas com a publicação dos jornais anarquistas.

Noticiando o seu falecimento o anarquista e diretor de "Dealbar", Pedro Catalo escreveu: "Pouca gente sabe que aquele imponente edifício que enche de orgulho o bairro Belém, teve seu começo numa modesta sala da Rua Saldanha Marinho, lá pelo ano de 1912, como Escola Moderna nº 1 "Francisco Ferrer". Ostentava esse nome em homenagem ao fundador da Escola Racionalista. Francisco Ferrer y Guardia, fuzilado na Espanha a mando do Clero dominante naquele país, no ano de 1909. Ainda devem existir nesse Colégio, como perpétua recordação da obra de Francisco Ferrer, dois armários com a seguinte inscrição "Escola Moderna nº 1".

João Penteado nunca deixou passar sem resposta, serena e inteligente, a imprensa que punha em dúvida os métodos da Escola Moderna e a seriedade das idéias anarquistas. O texto que inserimos em seguida demonstra seu inconfundível posicionamento:

"Morreu Neno Vasco!

Eis a notícia que nos acaba de transmitir o telégrafo, lacônica e indiferentemente, em três linhas apenas, e ainda assim mentindo no que diz respeito ao sublime ideal de que o nosso inestimável companheiro foi sempre não só ardoroso e abnegado propagandista mas também um dos mais belos e admiráveis expoentes no terreno da literatura e do jornalismo revolucionário.

Ao contrário pois, do que telegraficamente se leu em "O Estado de S. Paulo" não era nem fora apologista do sistema republicano, mas sim genuíno e sinceramente anarquista, cujas convicções e propósitos se patentearam sempre com galhardia e inteligência no decorrer de sua plácida e trabalhosa vida; quer como propagandista dos mesmos princípios; quer como pai, esposo e filho, de que foi sempre, na família um dos mais belos modelos de ternura e de amor; quer, finalmente, como indivíduo, cuja moral e inteligência, a par de uma sólida cultura científica".

João Penteado demonstra aqui sua admiração ao homem probo que foi Neno Vasco e sua vocação nata: um mestre retratando um mestre!

 

JESUS FERNANDES - 26

Espanhol, operário, anarquista.

Como a maioria dos libertários que chegaram ao Brasil ou aqui se fizeram acratas, foi seriamente perseguido por suas idéias.

Sua ação desenvolveu-se em Santos, São Paulo e findou em Sorocaba.

Em 1962, de passagem por esta cidade fui levado a sua casa por João Perdigão Gutierrez. Estava abatido pela doença, porém firme em suas convicções. Não havia perdido a fé no anarquismo ainda que nada mais pudesse fazer para divulgá-lo, nem mesmo entre as pessoas mais próximas.

Saí de sua casa impressionado com a clareza e a firmeza de suas convicções: pareciam existir em separado do seu organismo enfraquecido, de seu coração prestes a deixar de pulsar! Durante nossa visita não perdia uma só palavra e seus olhos brilhavam com redobrado entusiasmo em sinal de apoio quando conversamos sobre as perspectivas do movimento anarquista do Rio de Janeiro implementando uma dupla atividade cultural-sociológica-libertária: os cursos e palestras do Centro de Estudos Professor José Oiticica e os planos editoriais da nascente "Editora Mundo Livre".

No ano seguinte, em carta datada de 27-5-1963, João Perdigão Gutierrez dava-nos a fatal notícia do falecimento de Jesus Fernandes. Morreu anarquista como viveu!

 

JOAQUIM FERNANDES - 27

Operário, sapateiro, anarquista.

Os operários por princípio, não se preocupavam em deixar memórias escritas e/ou dados biográficos. Os que colaboraram na imprensa ácrata e/ou foram presos por suas idéias deixaram de alguma forma seus nomes registados aqui e ali, mas os lutadores anônimos, pouco se descobre hoje de sua militância, de sua coerência e de suas convicções. Neste caso está Joaquim Fernandes, um anarquista até á morte de quem pouco consegui saber, para além de que era irmão de Jesus Fernandes, que viveu e morreu como ele em Sorocaba, no Estado de São Paulo.

"Dealbar", de março-abril de 1966, pela pena de Pedro Catalo, sob o título "Triste Notícia" assim se expressava: "É sempre doloroso ter de comunicar o desaparecimento de pessoas que nos foram caras, de velhos amigos e companheiros que através de décadas nos acompanharam em nossa vida particular e na disseminação dos nossos postulados de confraternização social.

Positivamente, o ano de 1965 foi para nós portador de um grande "déficit" no círculo das nossas afetuosas relações, causando um rombo quase irreparável nos remanescentes de uma geração de humanistas libertários que, apesar de tudo, ainda conservam as mesmas convicções filosóficas, a mesma fé e as mesmas esperanças nas forças renovadoras dos homens.

É um punhado de homens o que nos deixa, que soube honrar as idéias que defenderam, mesmo a custa de grandes sacrifícios morais e materiais. Resta-nos o orgulho de poder citá-los como exemplo de retidão e honestidade, coisa muito rara nos dias que correm.

João Perdigão Gutierrez e os irmãos Jesus e Joaquim Fernandes, de Sorocaba, Felipe Gil de Sousa Passos e Rodolfo Felipe, de São Paulo que morreram inesperadamente".

São assim modestas as notas registadas na imprensa libertária.

No entanto dá para se pressentir a estirpe dos que com Joaquim Fernandes integram a nota fúnebre.

 

JESUS RIBAS - 28

Espanhol, operário, canteiro, anarquista.

Radicado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, ali militou quer nos meios operários a cuja classe pertencia, quer em grupos anarquistas.

Muito inteligente, culto, excelente orador Jesus Ribas dava pousada em sua casa a todos os perseguidos.

Formou com Frederico Kniestedt, Francisco Diz, Daniel Conde, Angel Vega, Antonio Campaña, Antonio Manno, Anastácio Greco, Francisco Greco, Rafael Fernandes, o grupo que publicou "A Luta" em Porto Alegre, jornal de valiosa importância para o movimento anarquista do Sul, do Brasil.

O nome de Jesus Ribas aparece ligado a todos os eventos anarquistas até 1930. Daí por diante - tal como aconteceu com outros militantes muito conhecidos - teve de moderar sua atividade libertária. A ditadura de Vargas esmagava todos aqueles que se atravessavam em seu caminho.

Mas tão logo caiu o ditador e chegaram os jornais "Remodelações" e "Ação Direta" do Rio de Janeiro e "A Plebe" de São Paulo, Jesus Ribas foi dos primeiros a apresentar-se para reorganizar os sobreviventes em Porto Alegre, todos idosos como ele.

Em julho de 1951 colabora com exilados espanhóis chegados da França na fundação da "Federación Local de Porto Alegre", e dois anos mais tarde, (1953) participa do acordo com anarquistas de várias nacionalidades residentes no Sul e funda-se em 24 de maio deste ano o "Centro Cultural e Artístico" em Porto Alegre congregando os militantes de diversas procedências.

Jesus Ribas foi nomeado presidente deste Centro, tendo como secretário Tarcísio Gandolfi e tesoureiro Rafael Fernandes.

No começo houve - como nos conta José Augusto - grande atividade neste Centro: conferências, cursos, debates, publicação de prospectos e distribuição de imprensa que vinha do Rio de Janeiro, São Paulo e de fora do país. A maioria dos seus componentes eram pessoas idosas. Alguns adoeceram, os mais novos não se adaptaram ao sistema brasileiro e saíram para a Venezuela, Argentina, etc. Puig Elias, José Pujol e Jesus Ribas, morreram na década de sessenta.

Pouco tempo antes de falecer, Jesus Ribas - a pedido de João Perdigão Gutierrez e de Rafael Fernandez - escreveu suas "Recordações": "Alguém me pede que faça um relato do movimento libertário do Rio Grande do Sul.

Quanto ao passado histórico, não me parece oportuno. Também não creio ser a pessoa indicada para isso.

O presente se me apresenta tão confuso que não me atrevo a entrar em detalhes.

Se alguém se interessar em saber minha posição desde já declaro que sou o que sempre fui e, estou onde sempre estive. Fui, sou, e serei sempre contra todas as tiranias, contra todas as espécies de exploração. Sou contra todos os hipócritas, contra todos os partidos, contra todas as seitas políticas, religiosas e filosóficas.

Fui, sou e serei sempre, um defensor do livre pensamento.

Anima-me o sentimento da união fraternal de todas as criaturas.

Creio que todas devem ter o direito de expor seu modo de interpretar a vida e a natureza.

Não imponho nem aceito imposição de quem quer que seja, sem protesto.

Sempre combati e combato a ignorância em todas as suas modalidades.

Nunca endeusei a ninguém, nem aceitei ser endeusado. Respeito a opinião do meu semelhante, e exijo respeito à minha individualidade. Entendo que a emancipação da criatura, tem de ser fruto de seu sacrifício. Todo aquele que se deixa conduzir por outro é um aleijado. Toda a criatura humana deve ter plena convicção de seus direitos e também os seus deveres.

Na solução dos problemas coletivos, deve aliar sua forças, ao seu semelhante, sem imposição nem humilhação. No convívio da sociedade, cada um deve produzir de acordo com as suas possibilidades e consumir de acordo com as suas necessidades.

A felicidade por todos almejada, só será possível quando estiver arraigada na mente das criaturas, o sentimento de amor e fraternidade una e indivisível, sem leis e sem amos. Sem tiranos e sem escravos. Sem hierarquias, considerando que toda a criatura é portadora de uma virtude útil a si e à sociedade.

Cabe a esta saber tirar todo o proveito dessa virtude.

Não desejo neste momento entrar em mais detalhes. Estamos diante de um momento de transição, e confusão extremamente doloroso. Em nome da liberdade, campeia a mais desenfreada libertinagem. Em nome a um Deus, de um Cristo e de uma Virgem se explora a ingenuidade humana... Em nome da justiça se praticam os mais abomináveis crimes!... A riqueza social acha-se nas mãos dos que nada de útil produzem...

O número de parasitas e exploradores aumenta do dia para a noite e a humanidade marcha para um abismo do qual não mais poderá sair. Procuram-se outros mundos sem ter conhecimento das riquezas e belezas do mundo que habitam.

No meio de uma imensa riqueza acumulada, a terra é um celeiro de famintos e maltrapilhos! Esta foi a situação criada pela esperteza de uns, a custa da ignorância e covardia de outros. Trabalhadores do braço e do cérebro, uni-vos! Despertai desse sono letárgico em que vos achais mergulhados! Lembrai-vos de que os mártires da liberdade clamam pela vossa ação, pelo vosso esforço em prol de pão e liberdade para todos. Liberdade, meus amigos, não se pede de joelhos, toma-se de fronte erecta! Sindicalismo de Estado, jogos de futebol, corridas de cavalos, cinemas, festas de Igrejas, partidos políticos e muitas outras disparatadas, são meios de iludir as criaturas e distraí-las. Para que não tenham tempo de raciocionar de perceber que estão sendo roubadas!

Quem quer progredir, quem quer evoluir não perde seu precioso tempo, nem desperdiça suas economias com banalidades. Não perde seu tempo em aplaudir tiranos e ladrões profissionais.

É tempo, meus amigos, de despertar para organizar uma sociedade mais nobre, mais humana, na qual tenha pão e liberdade para todos. Liberdade, não libertinagem. Liberdade humanizada, liberdade fraternal de auxílio mútuo, de um por todos e todos por um! É este, só este, o presente, a recordação da minha luta pelo bem estar comum, que ofereço no inverno da vida a todos os meus irmãos e irmãs da Terra.

Escrito que copio de um trabalho do camarada Jesus Ribas

Porto Alegre, 30 de agosto de 1961

Rafael Fernandez

Nota: Este escrito enviei-o ao companheiro João Perdigão Gutierrez, creio que em primeiros de setembro de 1961. O Perdigão me respondeu que o que ele era ou deixava de ser não interessava. O que interessava para o caso eram dados históricos.

Este companheiro não quis historiar o movimento.

Kniestd é que escreveu, mas como morreu inesperadamente em 12 ou 13 de outubro de 1947 tudo se perdeu, os filhos nada se importaram pela obra do pai.

O que se pode dizer de Ribas é que era um companheiro lutador e bom orador que foi sempre o pouseiro de todos os companheiros perseguidos, não só daqui do país como do exterior e sua solidariedade não tinha limites. Foi várias vezes detido, a última foi preso pelo exército e fez greve de fome. Insinuado - segundo me contou - que lhe dizemos que devia comer - ele lhes respondeu que ele só comia na sua casa e que se não o punham em liberdade o que poderiam esperar seria um cadáver. O puseram em liberdade e lhe perguntaram se ainda tinha a mesma opinião sobre o exército. Ele disse que sim.

Rafael Fernandez

18-10-1983

 

JOÃO FERNANDEZ - 29

Espanhol, operário pintor, anarquista.

João Fernandez chegou ao Brasil cumprindo o dito popular dos espanhóis: Há Governo? Sou Contra!

Ingressou na União dos Operários em Construção Civil e tomou parte ativa no "Grupo Social de Propaganda", com sede na rua Barão de S. Felix, 119, sobrado. Participou de greves, comícios, manifestações de comemorações do 1º de maio. Onde houvesse uma reunião e/ou um protesto lá estava ele com seu apoio, sua presença.

Como a maioria dos militantes da época, João Fernandez não escrevia nos jornais e por isso as marcas de sua militância se apagaram com a sua morte. Pertenceu à grande legião dos idealistas que lutaram e morreram no anonimato, embora muitos deles combateram heroicamente os exploradores, a Igreja e o Estado; semearam as idéias em que acreditavam, pagaram caros tributos nos cárceres por isso e morreram abandonados e esquecidos. E o caso de João Fernandez só algum velho companheiro de ofício se recorda dele, de sua participação no movimento anarco-sindicalista e libertário ou nos grupos de teatro social.

João Fernandez, nos últimos anos de vida - para sobreviver - associou-se com o também anarquista Pascoal Gravina e foram trabalhar por conta própria.

 

JOSÉ MARTINS FONTES - 30

Brasileiro, médico, poeta, anarquista.

Martins Fontes como assinava seus livros foi - no dizer de seu pai, o socialista Silvério Martins Fontes - "a sua obra mais perfeita", elogio que o poeta anarquista retribuía com o maior carinho e apreço à sua Terra, sua Casa e sua Gente em versos como estes:

Foi junto ao Coliseu, à direita do Teatro

No mais puro e feliz de todos os recantos

Que, em junho a 23 do ano de oitenta e quatro

Desabrochei ao sol, na Cidade de Santos.

Era a "chácara" um bosque impenetrável e átro

Sombreado de araças, cambucás, amarantos...

E eu, que adoro o passado e que os meus idolatro

Sinto, ao rever a infância, o maior dos encantos.

Comovido, a evocar, muitas vezes contemplo,

Na Praça de José Bonifácio de Andrada,

O prédio hoje desfeito onde vivemos nós...

Rezo. Em frente a Matriz, aberta como um templo

Berço da Abolição era outrora a morada

Da família Martins, Casa de meus Avós!

E mais:

A Casa dos Martins vivia cheia

De novidades e de comensais,

Tendo a alegria de quem presenteia,

Era herdada a franqueza de meus Pais.

Até o rosar - doirar da madrugada,

A Casa Ilustre esplendia, a arder,

E, nababescamente iluminada,

Era um solar no brilho e no prazer.

Em cada ponche havia uma surpresa.

Cada vianda era um beijo ao paladar.

Nunca se retirou daquela mesa

A alva toalha, na sala de jantar.

Mas do que se tratava nessa Casa,

Qual a causa de tantas discussões?

Eram os corações fulgindo em brasa,

Sonhando alegria das revoluções!

E abolição saiu, dez anos antes

Dela em pleito vivaz, luta febril,

Nela teve a República os amantes

Mais tenazes e puros do Brasil!

As mais altas virtudes socialistas

Eram aclamadas com fervor e afã

Nessa Casa pregaram-se as conquistas,

As sagradas vitórias do Amanhã.

Em conferência inserida em "Terras da Fantasia"- fls. 285 e 286 - o poeta libertário voltou a falar do pai e do seu jornal "A Questão Social":

"A 12 de dezembro de 1889 (memorável data!) Silvério Fontes, sem nunca, jamais querer nada, abnegadíssimo, recusando tudo, tendo terminado polêmicas, em prol da Abolição e da República, do seu órgão de combate - A Evolução, montado em 1881, escreve o seu vatidico - Manifesto Socialista, ao Povo Brasileiro, não publicado nessa época, pelas dificuldades criadas pela polícia burguesa, e só impresso, no Estado de São Paulo, na seção paga, em 28 de agosto de 1892.

Desse Manifesto Marxista resultaram o Centro Socialista de Santos à rua do General Câmara e o jornal "A Questão Social", colaborado por ele, por Soter de Araújo e Carlos Escobar. Apareceram 19 números desse jornal quinzenal. O Centro Socialista, atuando através de conferências semanais e pela vulgarização por meio de opúsculos, durou dois anos. Todos os problemas que atualmente se debatem e estabelecem foram pregados nesse período libertário e nessa associação de operários filósofos. Não há mais triunfo para Santos. O tempo o demonstrará".

Martins Fontes revelou-se muito cedo um menino com inteligência superior às crianças de sua idade.

Seu veio poético e seu dom de orador surpreenderam e entusiasmaram a quantos o conheceram na sociedade santista ainda de "calças curtas".

A 1º de maio de 1896, o Centro Socialista de Santos, organizado em 1889 pelo Dr. Silvério Fontes, pai de Martins Fontes, Sóter de Araújo e Carlos Escobar, comemorou com uma sessão solene essa data máxima dos trabalhadores. Nessa noite, Zezinho Fontes, que aos oito anos, em 1892, já publicara os primeiros versos no seu jornal manuscrito "A Metralha", recitou um hino a Castro Alves, do qual, muitos anos depois só se recordava do começo: "Primeiro de Maio é a grande data do futuro! Na frase do poeta imortal, Castro Alves, a mocidade representa o porvir por antecipação, e eu que sou esse porvir ainda mais remoto, porque sou uma criança..."etc.

Martins Fontes assistia às conferências do Centro Socialista e foi testemunha de vários conflitos na sede, entre partidários do socialismo autoritário e do anarquismo. Acostumou-se aos debates calorosos entre as duas correntes socialistas e entregou-se ao estudo das questões sociais sob a orientação do seu mestre e pai, de quem, mais tarde divergiu, afastando-se do socialismo chamado científico e abraçando o anarquismo de Proudhon, Bakunine e Kropotkine. De tal modo se identificou com as teorias anárquicas que este ideal o acompanhou até a morte.

Sobre a personalidade arrebatadora e ardente de Martins Fontes, sua transição para o ideal anarquista, suas lutas e decepções, conta-nos o seu biógrafo Jaime Franco, o seguinte:

"Do socialismo científico de Marx ascendeu ao anarquismo de Proudhon e de Bakunine. Isso não obstou que Martins Fontes deixasse de apreciar a doutrina socialista que lhe serviu de base nos estudos sociais. Influiu imenso sobre a sua atitude, a história da luta entre Marx e Bakunine, no célebre Congresso da Internacional, de Haia, no ano de 1872, de onde o segundo foi expulso. Martins Fontes preferiu o idealismo poético do agitador revolucionário ao materialismo histórico do sábio economista. Simpatizava, por temperamento, com o apóstolo Miguel Bakunine, mais expansivo, franco, libertário, desprendido da vida, universal, cósmica, do que frio, o calculista, o nebuloso, o autoritário e burguês Karl Marx!"

Estudou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em 1904, já anarquista convicto, foi ajudar na fundação e manutenção da "Universidade Popular do Ensino Livre", num sobrado da rua da Constituição, 47 (sede também do Sindicato dos Pintores) ao lado de Elísio de Carvalho (escritor), Fábio Luz, (médico) Curvelo de Mendonça (professor, escritor), Rocha Pombo (historiador) e outros intelectuais e estudantes como ele, seguidores das idéias anarquistas, dispostos a pô-las em prática pelo ensino.

Martins Fontes formou-se médico em 1906 e logo após empreendeu viagens de estudos pela América do Norte e Europa. No estrangeiro relacionou-se com personalidades eminentes nas artes e nas ciências e recordava sempre aos amigos e admiradores, pleno de entusiasmo, a sua visita a Pompeyo Gener, em Barcelona, e o encontro de ambos no célebre Café dos Poetas Catalães. A sua poesia de caracter social reflete a influência que sobre ele exerceu Pompeyo Gener.

Kropotkine foi a maior adoração de Martins Fontes, e em um momento de exaltação pelas idéias do genial apóstolo da redenção humana, esboçou uma epopéia em três atos, para um filme fantástico, que se encontra em seu livro de conferências intitulado "Fantástica". Trazia-o de cor e repetia-a aos amigos íntimos e camaradas.

De volta das suas viagens recolheu-se ao torrão natal para dedicar-se à família, abrindo consultório médico. De grande capacidade de trabalho, cultuava a sua arte, nos vagares dos serviços múltiplos da Delegacia de Saúde, do Hospital do Isolamento e dos Postos Médicos de várias sociedades beneficentes, onde exercia a sua profissão com absoluto desprendimento, alheio a interesses financeiros.

O traço característico dessa figura inconfundível de Poeta e Idealista era a Bondade. Martins Fontes era a personalidade da Bondade, e justamente por isto, sua vida tumultuária, plena de desilusões, correu entre grandes sofrimentos morais.

Martins Fontes, de extrema sensibilidade emotiva, bom e sincero nos seus ideais, era acometido de crises tremendas de revolta contra as insídias dos falsos amigos e dos inimigos, contra as tiranias e as crueldades sanguinárias, contra os usurpadores das liberdades do povo.

Faleceu em 24 de junho de 1938. Sempre dizia aos amigos que desejava morrer num dia de sol ardente, lindo, majestoso. E, curiosa coincidência, no dia da sua morte, parecia que a Natureza em festa se engalanara para receber o poeta de "Verão", aquele que tão grandiosamente cantara em versos sublimes a beleza do estio da cidade de Braz Cubas".

Um dos biógrafos do médico-poeta-anarquista José Martins Fontes, Camilo Abrantes, comenta assim o seu sepultamento:

"Morreu Martins Fontes!

A notícia correra célere, ultrapassando as divisas do Município, e a todos deixando chocados com o acontecimento. Cerca de trinta mil pessoas, vindas de automóvel, de bonde, a pé, de todos os recantos da cidade, formaram o enorme cortejo, que o acompanharam até ao cemitério do Paquetá.

Irmanados na mesma dor, aí estavam para o último adeus, para a derradeira homenagem ao médico dos pobres e ao poeta do povo. E, sem o saber, aquele aglomerado de pessoas, naquele momento derradeiro, tornara realidade o sonho de Martins Fontes: "Humanidade, antes de tudo, quer dizer - clemência, cultura, justiça, benevolência, misericórdia, compadecimento, bondade, o bem comum, a perfeição, o amor!"

Martins Fontes é patrono da "Ordem Nacional dos Escritores", nome de avenidas e ruas de Santos, São Paulo, de livrarias e vários estabelecimentos comerciais, e tem o seu busto e o seu nome em uma praça na cidade de Santos.

Escreveu e publicou "Verão", "Boêmia Galante", "As Cidades Eternas", "Rosicler", "Volúpia", "Escarlate", "A Fada Bombom", "Schaharazada", "A Flauta Encantada", "Sombra", "Silêncio e Sonho", "Nos Rosais das Estrelas", "Paulistânia", "Guanabara", "I Fio Retti", "Sol das Almas" e "Canções do Meu Verguel", todos hinos de amor em versos. Em prosa escreveu "Decamaron" (contos), "Nós as Abelhas" (reminiscências), "Fantástica" (crônicas) e para o teatro "Arlequinada" e "Partida para Citera".

Proferiu inúmeras conferências e deixou quatro obras poéticas inéditas que seus amigos publicaram em 1938. Sua tese de doutoramento também foi publicada.

Sobre sua vida e sua obra escreveram-se as seguintes biografias: "Yéyé - Martins Fontes na Intimidade", de Nelson Ribeiro, São Paulo, 1963 (115 pág.); "Martins Fontes", de Raimundo de Menezes, Edições Melhoramentos (62 pág.) e "Martins Fontes Uma Alma Livre", de Jacob Penteado, São Paulo, 1968 (230 pág.)

É de Martins Fontes este "Diário Rimado":

"Hoje é domingo. Não saio. Por que toda a enfermidade

Vou passar Todo o mal,

Este Primeiro de Maio Findará na Humanidade

No meu lar Ideal!

Primeiro de Maio! data O Homem sentindo a saúde,

Sem rival! Será bom;

Representação exata E há de legar a virtude

Do Ideal! Como um dom.

Todos Terão, neste dia, Religiões e preconceitos

Cobertor! Morrerão!

Terão pão! Viva a Anarquia O homem só achará direitos

Meu Amor! Na Razão!

Na Bolívia, na Inglaterra Sem rei, sem roque, liberto

No Tirol, Julgajul!

Para todos, sobre a Terra, Será a terra um céu aberto

Nasce o Sol! Sempre azul!

É o dia da Humanidade A Anarquia, Liberdade,

Em que Hugo, Que esperais,

No templo da Liberdade, É a ausência da autoridade,

Comungou! Nada mais.

Catando os fastos supremos, Borboleta da alegria,

A fremir, Eia! Sus!

Este dia imaginemos, Tudo dentro da Anarquia

No porvir Será luz!

Todas as glórias da Ciência Sairá do Casulo, ou basa

Hão de ser Afinal

Só para a nossa existência A falena a flor com asa

Dar prazer Do Ideal!

Neste dia a Bakunine Quero que este delirante

Hão de alçar Folhetim

Assim como Kropotkine, Tenha o júbilo atuante

Um altar! De um festim!

Sem fio, a telegrafia E na embriaguez da folia,

Na amplidão Bato as mãos!

Transmita: - Viva a Anarquia Brademos - Viva a Anarquia,

Meu irmão! Meus irmãos!

Pelos espaços profundos, Poeta, os sonhos da Beleza

Os heróis Serão teus!

Brindem a Paz, que une os mundos, Amarás a Natureza

Entre os sois! Como um Deus!

É um sonho? Pois eu suponho Nesta crônica rimada

Que não é Com paixão,

Na verdade deste sonho Envio um abraço a cada

Tenho fé Cidadão!

E ainda mesmo que ele o fosse, Abraço ao leitor. E o faço,

Sem desar, Por sinal

Para mim nada é amis doce Com quem ferra um abraço

Que sonhar! Fraternal!

Beijo a leitora... Que dia

Criador!

Viva o Amor Livre! a Anarquia,

Mãe do Amor!

(Primeiro de Maio de...?)

 


Os Companheiros, Vol 2. Edgar Rodrigues. Florianópolis: Editora Insular, 1997.

Os Companheiros: Letra J Parte 2