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1. Introdução e Metodologias

Quando Leonor Pina apresentou ao II Congresso Nacional de Arqueologia a descoberta em 1964 do Cromelech dos Almendres (Pina, 1971), já se tinha instalado na comunidade dos estudiosos da Arqueologia a controvérsia sobre o possível significado astronómico de alguns monumentos megalíticos.
Alexander Thom acabara de publicar a síntese duma extensa campanha de observação de largas centenas de monumentos megalíticos na Grã-Bretanha (Thom, 1967), onde acumulou informação susceptível de sustentar a existência de direcções astronómicas em monumentos megalíticos, bem como a utilização de conhecimentos elementares de geometria e aritmética na sua construção.
Muitos cromelechs visitados apresentam formas elípticas e circulares simples, ou constituídas por arcos elípticos ou circulares construidos com base em triângulos pitagóricos. Dado que estes são realmente triângulos rectângulos em que os lados têm comprimentos representados por números inteiros, naturalmente se conjecturou a possibilidade de ter sido usada nessa época uma unidade de comprimento, que veio a ser designada por jarda megalítica (aprox. 0.83 m).
Alternativamente, a análise aprofundada de casos singulares específicos é também susceptível de propor interpretações elaboradas, dos respectivos monumentos, com recurso ao especulado conhecimento dos povos construtores. A validade destas interpretações repousa pois na acumulação de circunstâncias particulares que diminuam a possibilidade dos arranjos direccionais ocorrerem por acaso, e sobretudo na possibilidade de, com os conhecimentos actuais, podermos rigorosamente utilizar o respectivo monumento para o fim conjecturado.
É o caso de Stonehenge, principalmente Stonehenge-I, em que Hawkins (Hawkins, 1964) interpreta o círculo dos "Aubrey Holes" como um verdadeiro computador (no sentido de ábaco) megalítico para a previsão de eclipses.Posteriormente, o célebre cosmologista Fred Hoyle, desafiado por um seu amigo arqueólogo, reinterpreta (Hoyle, 1966) o trabalho de Hawkins, e apresenta de forma inequívoca, a possibilidade de se usar o círculo de 56 buracos como previsor da totalidade dos eclipses (Hoyle, 1972). Esta reinterpretação foi feita com ênfase nos pormenores que se podem observar no próprio monumento. Efectivamente a conjectura, consiste em interpretar o círculo de 56 buracos como uma representação da eclíptica sobre a qual se podem mover, com regras muito simples, de buraco para buraco, três marcas; uma que representa o Sol, outra que representa a Lua, e uma terceira, na realidade duas diametralmente opostas, que representam os nodos celestes da Lua. A coincidência das três marcas num mesmo buraco, ou em proximidade suficiente, definiria a ocorrência dum eclipse.
Embora, de longa data (Lockyer, 1906), se considerasse o significado astronómico de Stonehenge-I, foi a possibilidade de simular em computador esta conjectura que permitiu a Hawkins demonstrar a sua plausibilidade. Além da controvérsia que gerou entre os arqueólogos e os astrónomos, focou de forma
acentuada a atenção de grande número de cientistas que posteriormente examinaram deste ponto de vista variados monumentos megalíticos, interpretando em termos astronómicos, as suas feições apropriadas.
Independentemente da contovérsia que se instalou neste seguimento, entre o método de observação e análise utilizado pela arqueologia, e o método de observação e análise utilizado pelas ciências da Natureza, existe também o confronto entre ciência e conjectura. Não é de facto possível confirmar hoje o raciocínio que os construtores megalíticos poderiam ter utilizado para o desenho e implantação dos objectos que hoje designamos por monumentos megalíticos, nem a sua motivação para o fazer. Tudo o que podemos é fazer hipóteses (conjecturas), e mostrar como elas podem ser compatíveis ou não com a realidade observada. Se ainda é possível mostrar hoje como se poderia utilizar o objecto megalítico para mostrar a sua compatibilidade ou não com a hipótese formulada, já não é, em geral, possível comprovar por experimentação, pois o seu desenvolvimento não seria feito estrictamente com os conhecimentos intelectuais da época, mas seria sempre influenciado pela concepção actual do mundo. Também não existem em geral suficientes réplicas do mesmo tipo de construções para que o seu estudo comparativo comprove a conjectura. Isto sem questionar se, desde a construção inicial até ao presente, não terá havido rearranjos, já em épocas mais recentes, isto é, com conhecimentos científicos mais avançados.
Curiosamente são as conjecturas associadas aos monumentos megalíticos únicos as que mais estimulam e fascinam os cientistas que têm dedicado atenção às suas interpretações astronómicas, geométricas e aritméticas. Quando há um grande número de monumentos megalíticos semelhantes são as interpretações estatísticas que, fornecendo uma base segura para estudos comparativos, mais podem contribuir para o avanço do conhecimento dessa época.
Existirá sempre uma controvérsia entre o rigor do método científico e o que será sempre uma conjectura por impossibilidade de confirmação ou prova conclusiva. Ciência ou Conjectura será sempre o mote das interpretações astronómicas dos monumentos megalíticos.
A acumulação do elevado número de observações de natureza objectiva, cuja interpretação pode requerer conhecimento especializado (astronómico, geométrico ou aritmético), bem como a sua interpretação, terá apanhado de surpresa a comunidade arqueológica, ao mesmo tempo que suscitou o interesse e o entusiasmo de muitos intrusos, cientistas de outras áreas do conhecimento, fascinados com a perspectiva de se poder reconhecer a existência de registos megalíticos do desenvolvimento intelectual da espécie humana. Embora este desenvolvimento esteja, via de regra, associado aos registos, isto é, associado ou dependente da "escrita" como forma simbólica de representar o conhecimento, não pode ser descurada ou ignorada a necessária observação continuada da natureza envolvente sobre a qual ocorre a "formalização" de conceitos que naturalmente precede essa evolução. Desta forma se pode supor que a invenção da escrita foi antecedida duma longa fase de observação e experimentação capaz de estimular a evolução intelectual. Assim, a pesquisa de possíveis registos anteriores à escrita toma a forma duma verdadeira arqueologia do pensamento humano, um pouco na linha do que Carl Sagan descreve no seu livro "Dragons of Eden" relativamente a "sinais" que ainda hoje perduram e podem, ou poderão, ser reconhecidos na fala e no comportamento humano, aprendidos no tempo em que os seres humanos viviam nas árvores e nas cavernas.


Não será de todo inverosímil que a simples observação do nascer ou do pôr do Sol tenha chamado a atenção para que a sucessão destes eventos no horizonte se mantém dentro dum domínio bem definido, ou que o reflexo do Sol ou da Lua na água no fundo dum poço não seja visto acima duma dada latitude; e que observações desta natureza tenham sido úteis para desenvolver conceitos que mais tarde poderiam ser reconhecidos no âmbito do que hoje referimos como astronom
ia; e que esse conhecimento tenha sido, dalguma forma incorporado nas construções que ainda hoje descobrimos.
A grande quantidade de observações relacionadas com a construção dos recintos e agrupamentos megalíticos, ou com a sua localização, permite analisar de forma estatística a plausibilidade das interpretações astronómicas. No entanto, embora suficiente para indicar essa plausibilidade, a análise especializada necessária para uma conclusão com elevado grau de confiança, gerou também acesa polémica no seio da comunidade estatística (Freeman, 1976, 1979) sem nunca se ter chegado a uma conclusão definitiva, por exemplo, relativamente à jarda megalítica
Tudo indica que a seguir ao entusiasmo inicial que levou inclusivamente à criação de publicações periódicas especializadas, se tenha instalado uma descrença relativamente às mais apuradas especulações sobre os significados astronómicos, e se tenha voltado às metodologias mais convencionais da arqueologia.
Ao acompanhar Michael Hoskins director do Journal for the History of Astronomy, e um dos entusiastas desse período inicial, numa das suas visitas (1995) à região de Évora e Monsaraz, foi possível verificar que o seu trabalho sistemático de medição das orientações do corredor central das antas, e a sua análise em termos estatísticos, era em tudo semelhante ao que outro arqueólogo faria, por exemplo, relativamente à colheita de peças de cerâmica, em que as medições dos diâmetros relativos das peças, tal como a sua forma, podem distinguir diferentes culturas regionais e caracterizar assim os aglomerados sociais dos seus produtores.
Em termos arqueológicos esta atitude é porventura a que mais pode contribuir para o conhecimento da sociedade pré-histórica, e certamente no que respeita ao uso do conhecimento de orientações astronómicas em monumentos megalíticos, mais terá contribuido do que outras conjecturas mais ousadas.
O próprio M. Hoskins fez sentir que todo o trabalho feito de há três décadas atrás, incluindo o realizado sobre Stonehenge-I, tinha sido algo secundarizado em favor do método tradicional da análise arqueológica.
Nós, que não sendo arqueólogos, encontramos nestas conjecturas um desafio intelectual, continuaremos sempre a oferecer interpretações que mais não são do que maneiras diferentes de olhar para a mesma realidade, independentemente de serem ou não incorporadas na corrente principal prosseguida pelos especialistas da área, porque acreditamos que o desenvolvimento intelectual do Homem se radica no passado pré-histórico.
Em Portugal cita-se desde 1846 a existência de monumentos megalíticos, do tipo frequentemente associado com observações astronómicas, numa distribuição geográfica que se estende de Norte a Sul do país, sendo porém as identificações efectuadas nas últimas décadas as que têm fornecido o maior número de monumentos acessíveis à análise, situados em grande parte na região de Évora.
No que se segue omite-se o detalhe das descrições pomenorizadas dos monumentos envolvidos, actualmente amplamente descritos na literatura, e também os detalhes dos cálculos efectuados que só tornariam pesado um texto desta natureza. Os conceitos básicos de astronomia necessários para estes cálculos, bem como para a análise que se segue, podem ser facilmente adquiridos por não especialistas com recurso a bibliografia específica preparada para arqueoastronomia (Newton, 1974)*. Não se fará neste texto referência exaustiva à literatura actualmente existente sobre o Cromelech dos Almendres, e sobre os menhires do Alentejo, em cujas publicações também se encontra excelente documentação fotográfica.
Deve ter-se em conta que quaisquer sugestões de associações astronómicas só têm o rigor do cálculo quando o ponto de observação e o ponto de mira podem ser definidos inequivocamente e com rigor. De resto são sempre aproximações da expectativa ou da conjectura, aproximações essas em que muitas vezes é suficiente a ordem de grandeza para o prosseguimento da análise mas em que a confirmação irrefutável requereria uma determinação mais rigorosa dos valores envolvidos. Em muitos casos não fará sequer sentido fazer cálculos muito refinados, introduzindo por exemplo correcções de segunda ordem, quando os dados de base, por exemplo as posições dos monólitos, não são suficientemente fiáveis ou com o mesmo grau de rigor.
Para facilidade de identificação adoptou-se a numeração dos monólitos usada em (Alvim, 1997,pg. 16)
O leitor desculpará o tom narrativo de muitas passagens, mas também será importante perceber como a evolução da percepção dos factos observados pode conduzir a construção da conjectura. Este texto é apenas a apresentação nua e crua de algumas feições aparentemente inegáveis do Cromelech, e dos raciocínios interpretativos que elas suscitaram. Quando os acordos numéricos parecem consubstanciar essas interpretações isso não quer dizer que o Homem megalítico tenha seguido o mesmo raciocínio mas apenas que o resultado pode ser atingido por uma via diferente. O Cromelech parece tão rico na sua estrutura e feições internas, que certamente muitos pontos de vista são necessários para as abordar.

* Para melhor compreensão do que se segue convém no entanto ter presentes alguns factos básicos. Como o Sol está num dos focos da órbita elíptica da Terra, os pontos correspondentes aos equinócios dividem a órbita em dois arcos. O arco correspondente ao Verão é maior, e leva presentemente cerca de 7 dias mais a ser percorrido pela Terra, do que o arco correspondente ao Inverno. Desconhecedor desta circunstância, embora mais mitigada na sua época, o Homem megalítico, para quem a única realidade é apenas a variação anual do nascer (pôr) do Sol no horizonte distante, não poderia formular conceito de equinócio mais elaborado do que o correspondente aos pontos em que a duração entre duas passagens "equinociais" sucessivas durassem o mesmo tempo, quer de Verão, quer de Inverno. Estes pontos no horizonte, situam-se, por essa razão, ligeiramente a Norte da linha Este-Oeste, e marcam o que se designa por "equinócio megalítico". Convém também notar que o Sol, no seu movimento diurno, não se põe ou nasce perpendicularmente ao horizonte, mas sim ao longo de uma trajectória cuja inclinação depende da latitude do lugar. Isso fará com que, no caso de se observar ao longo duma linha inclinada, por exemplo resultante de o Sol se pôr sobre um perfil orográfico situado acima do horizonte, o plano de observação intersecte o Sol descendente algo a Sul da linha Este-Oeste, num valor angular que depende dessa inclinação.

 

2. O Cromelech dos Almendres

Em 1974, R. Vilela Mendes tinha visitado o Cromelech dos Almendres e, impressionado com a imponência do recinto decidiu procurar pontos de referência nas imediações. Escolheu caminhar na direcção do nascer do Sol no Solstício do Verão e, para sua surpresa deparou com o grande menhir tombado junto ao Monte dos Almendres.
Na primeira visita conjunta que fizemos ao recinto, acompanhados por John Campbel, Professor da Universidade de Cambridge, foi imediatamente reconhecido, e ponto assente, que se poderia materializar qualquer direcção que se quisesse, isto é, que, em relação a qualquer direcção que viesse a ser objecto de conjectura, se poderia sempre encontrar um ou mais pares de monólitos alinhados nessa direcção. Dito por outras palavras, não se pode atribuir nenhum significado àquilo que não será mais do que uma simples coincidência. É como aquela situação em que se descobre em casa que do canto do sofá se vislumbra o nascer do Sol na janela do corredor ao fundo, no dia 22 de Setembro; não houve, da parte do construtor certamente nenhuma intenção de o fazer, e muito menos com significado astronómico.
O simples facto duma direcção se materializar em monumentos megalíticos não é suficiente para lhe atribuir qualquer significado de natureza astronómica. Este significado tornar-se-á progressivamente mais plausível à medida que se adicionam factos adjuvantes que entretanto se descubram e que concorram no sentido de reforçar a interpretação. Nessa mesma visita se observou que a forma típica dum elevado número de monólitos envolvia uma face plana vertical, ou pelo menos uma aresta, sugerindo a necessidade dum levantamento exaustivo dessas feições para as associar às possíveis conjecturas. Esse levantamento foi por nós efectuado em 1977, não tendo surgido, nessa observação, nenhuma circunstância particular que privilegiasse alguma direcção solsticial ou outra, interna ao recinto megalítico. Nessa altura muitos monólitos estavam caídos, e a localização dos seus socos ainda não tinha sido efectuada. É possível que os trabalhos posteriores, de colocação dos monólitos na posição vertical, e sua implantação nos seus socos originais, possa ter revelado feições adicionais significativas, não tidas em conta no presente texto.
Outra feição global imediatamente observada nessa altura, diz respeito ao desarranjo que aparenta a extremidade Este do conjunto globalmente elíptico de monólitos. Leonor Pina atribui (Pina, 1976) essa irregularidade à possível erosão que o terreno tenha tido desde a época da construção. Na realidade o topo Oeste parece menos inclinado do que a restante área do cromelech, e de facto os restantes monólitos exibem uma distribuição razoavelmente elíptica, isto é, exceptuando a zona aparentemente desarranjada os restantes monólitos parecem distribuir-se em torno duma linha média de forma elíptica. De tal modo a zona desarranjada destoava do simples modelo elíptico que logo na primeira visita se conjecturou por ironia, que estes monólitos nunca tivessem chegado a ser usados na construção, e ali tenham ficado a aguardar melhor destino.

Esta primeira visita iniciou um conjunto de observações em diversos monumentos megalíticos nas zonas de Évora e Reguengos de Monsaraz, além de posterior trabalho de campo no Cromelech dos Almendres, que viriam a ser objecto de apresentação no IV Congresso Nacional de Arqueologia em Faro (1980) cujas actas, infelizmente, nunca foram publicadas. Juntamente com a apresentação da conjectura de que o Monumento megalítico dos Almendres estivesse ligado à observação da passagem do equinócio, o trabalho então apresentado também estabelece a relação solsticial com o menhir junto ao Monte, bem como sugere a existência na região de outros monumentos megalíticos com possível significado astronómico. A análise então efectuada assentou no pressuposto de que o cromelech ocupasse inicialmente uma zona razoavelmente plana no topo da colina, permitindo que a linha de observação do pôr do Sol seja horizontal, e explorou três feições razoávelmente claras:

i - Forma elíptica do recinto
Quaisquer que sejam as distribuições iniciais propostas para o recinto megalítico dos Almendres, e a sua evolução temporal até chegar à forma presente, é indubitável que a maioria dos monólitos se distribui em torno duma forma elíptica. Uma elipse construída a partir dum triângulo pitagórico (3,4,5) parece ajustar-se bem à parte com maior desenvolvimento, tendo-se reconhecido de início que a parte restante, mais desarranjada, teria de ser objecto de atenção especial.

ii - Eixo de simetria do recinto
Do mesmo modo, independentemente dos detalhes da estrutura inicial, parece bem claro que se pode afirmar que no seu desenvolvimento principal as posições dos monólitos definem dois arcos dispostos simetricamente em torno duma linha central disposta sensivelmente na direcção Este-Oeste.

iii - Monólito truncado
No conjunto dos monólitos implantados na extremidade Oeste observa-se a ocorrência dum monólito (nº8) que se distingue da forma típica dos restantes por se apresentar truncado e com covinhas na face quase horizontal, ligeiramente inclinada para ENE (Figªs. 1a,b). Com estas características é um monólito ímpar em todo o recinto, embora haja dois outros monólitos truncados em posições aparentemente não proeminentes

Figura 1a. Monólito Truncado observado ao longo do eixo de simetria do Cromelech dos Almendres
Figura 1b. Detalhe da face de truncatura observada de NE, evidenciando a concentração das covinhas" na metade anterior

No pressuposto do recinto inicial ser razoavelmente plano, e posteriormente erodido para a forma actualmente inclinada para Este, as três feições observáveis indicadas podem conjugar-se numa conjectura em que o eixo de simetria do recinto se confunde com o eixo maior da elipse, e em que o monólito truncado, situado praticamente na extremidade Oeste do eixo maior, poderia ser observado como coincidindo com o pôr do Sol na altura do equinócio. Conforme se poderá ver a seguir, esta observação é compatível com aspectos internos do recinto megalítico (existência dum monólito de apreciáveis dimensões no foco Leste da elipse média, situado portanto no interior do recinto sobre o eixo maior da elipse, que poderia ser o ponto de observação do pôr do Sol, e com a implantação, do monólito truncado, ligeiramente a Norte do eixo maior da elipse, em concordância com a definição de equinócio megalítico.

Posteriormente (vide V) esta questão foi revista no pressuposto alternativo de o recinto megalítico ter sempre tido uma inclinação igual à que actualmente se observa, o que implica naturalmente uma mudança do ponto de observação do equinócio.

II - 2 Orientação Menhir - Cromelech
O primeiro trabalho de campo, realizado em 1977, foi o de estabelecer a possível relação entre o menhir, anteriormente tombado junto ao monte dos Almendres, e o cromelech que não era visível directamente do local do menhir face ao espesso arvoredo existente na direcção de observação.
Para determinar a orientação geográfica do menhir relativamente ao cromelech foram estabelecidas duas estações para observar, com o teodolito, o ponto coordenado da Sé de Évora e um ponto auxiliar externo (Fig. 2). Dada a não visibilidade directa, uma estação situou-se dentro do cromelech junto ao topo Oeste, permitindo também referenciar a estrutura interna relativamente ao Norte geográfico. A outra estação situou-se junto aos silos, no Monte dos Almendres, a 70m do menhir. A triangulação obtida com a ajuda do ponto externo, materializado por uma bandeirola colocada cerca de 30m a NO da primeira estação, permite obter para o topo Oeste do Cromelech um azimute de 237.99 graus, e para o topo Este um azimute de 237.00 graus, quando observados da posição actual do menhir. Os valores indicados correspondem respectivamente a declinações celestes de d= -22.68 graus, e d= -23,39 graus. Dado que o menhir se encontra a uma distância de 1360 metros do cromelech é fácil verificar que, se a sua posição original fosse cerca de 25m mais a Norte, junto ao local onde hoje se encontram os silos, já o topo do cromelech atingiria a declinação de -23.4 graus. Nestas condições, um observador situado na posição actual do menhir poderia, cerca de 2000 aC, observar um ocaso solsticial na sua maior declinação Sul, em que o bordo Norte do Sol rasaria a extremidade Este do Cromelech. Para épocas mais recentes, ou para posições poucos metros para Norte da posição actual do menhir, observar-se-ia o ocaso do Sol sobre o cromelech.
Este resultado parece apontar para um claro significado astronómico das posições relativas do menhir e do cromelech.

Figura 2. Arranjo geométrico utilizado na determinação da orientação menhir-Cromelech


II - 3 O Eixo de Simetria do Cromelech

Tal como atrás referido, a análise que entre 1975 e 1977 se efectuou, das posições relativas e formas dos monólitos, não foi conclusiva relativamente à existência de orientações internas do Cromelech. Tendo entretanto sido levantados os menhires tombados e colocados nos seus socos originais torna-se possível fazer novas análises da estrutura interna ( Alvim, 1997).
Em qualquer caso, então como agora, a aparente simetria da distribuição dos monólitos em torno da linha Este-Oeste sugere que se analise com cuidado esta feição interna.
No relato feito ao IV Congresso em Faro toda esta análise assentou na possibilidade de observar o pôr do Sol ao longo do eixo maior da elipse quando o Sol se põe (ou poria) sobre o monólito truncado. Nessa altura a observação directa não era possível dado o espesso arvoredo obstruir a visibilidade do Sol. A análise que então se propôs tinha como base a existência dum grande monólito (nº39) tombado junto ao foco Leste da elipse, e do qual se observaria o pôr do Sol na truncatura do monólito nº8 a Oeste. A possibilidade de direcções com declinação próxima de zero graus reduz-se praticamente ao equinócio megalítico, já que, das estrelas brilhantes, Aldebaran só ocorre nestas declinações em época anterior a 2000 aC, e rapidamente se afasta. A plausibilidade desta observação centrou a atenção na distribuição algo irregular das covinhas, procurando interpretá-las no contexto de que seriam evidência de sucessivas tentativas de observação mais rigorosa do contacto visual do Sol com a parte plana da pedra em sucessivas passagens equinociais. Repare-se que, de todos os dias do ano, a passagem equinocial é a que se faz com maior sensibilidade, dado que, nessa altura, a variação diária em azimute é máxima e da ordem do diâmetro solar, fornecendo a regra de observação simples de usar uma pedra com largura tal que, um dia antes e um dia depois, o Ocaso ocorra fora do topo da pedra. Se assim fosse teria sido possível ao Homem megalítico observar a alternância da duração de 182 e 183 dias entre as passagens equinociais, e a ocorrência de quatro em quatro anos de duas sucessivas de 183 dias, ou seja do ano bisexto que mais tarde viria a ser criado para manter o calendário conforme com as estações do ano. Por outro lado a análise das dimensões da truncatura do referido monólito, e a distribuição das "covinhas" na metade Norte da sua superfície plana, determina o ponto de observação como ocorrendo a cerca de 40m, local onde se encontrava tombado o outro monólito (nº39) que existe sobre o eixo de simetria.
Procurou-se uma correlação da distribuição das "covinhas" com as regularidades das ocorrências azimutais do equinócio, quer usando valores tabelados para um período de 40 anos, quer calculando valores da declinação para as passagens equinociais num período de 150 anos com parâmetros astronómicos correspondentes à época de 2000 aC. Verifica-se que o ciclo de quatro anos não se mantém, como seria de esperar por o excesso anual ser ligeiramente inferior a um quarto de dia, existindo no entanto um aparente período de 33 anos, sigificativamente menor que o período natural de 128 anos. Na hipótese das covinhas terem servido para a marcação das passagens equinociais os resultados desta análise permitem tornar plausível a irregularidade das suas posições.

 

3. Possíveis orientações com significado astronómico noutros monumentos megalíticos próximos de Évora.

Se o "culto" do equinócio se estabeleceu no Homem megalítico da região de Évora, ao ponto de este o incluir na construção dum monumento importante como é o do Cromelech dos Almendres, ou pelo menos ao ponto de estabelecer condições para a sua observação, não será difícil aceitar que possa ter pretendido maior rigor nessa observação, e que o tenha levado a utilizar maiores linhas de base, como as que seriam disponíveis através da observação do nascer do Sol sobre a colina de Monsaraz quando vista dos menhires dos Perdigões ou do Cromelech da Ribeira do Álamo. Em 1976 quando se visitou o local dos Perdigões ainda se observavam, além do grande menhir na Horta do Pomar, vários outros dispersos numa linha transversal à de observação, e numa extensão superior a 50 metros.
Todos estes monumentos se encontram em muito mau estado de conservação para que qualquer análise interna tenha significado. Porém, a partir da sua posição geográfica se pode deduzir que teriam pontos de referência convenientes na colina de Monsaraz para observar a passagem equinocial ao nascer do Sol. Ambos têm longas linhas de base, respectivamente 11 e 14 quilómetros, a que vai corresponder uma dispersão dos pontos de observação, correspondentes às "covinhas" dos Almendres, por extensões da ordem de 100m, fornecendo assim uma grande precisão à observação do azimute da passagem equinocial. Pelo menos no caso dos Perdigões podem ainda observar-se além do grande menhir na Horta do Pomar, vários outros dispersos ao longo duma linha transversal à de observação, e numa extensão da ordem de 50m. Não seria portanto inverosímil que estes monumentos pudessem funcionar como duais do instrumento dos Almendres.

Analogamente, e no que respeita a direcções solsticiais, deve notar-se que o cromelech da Portela de Mogos se situa no topo duma colina sobranceira a uma reentrância orográfica, a Portela, e que observada, quer de ENE quer de OSO, define um nítido horizonte recortado. É de supor que o conjunto monumental, e em particular o enorme menhir central, poderiam ser avistados de grande distância. Na zona da Veleira, a a umas dezenas de metros da estrada, encontram-se duas antas bastante desmanchadas, donde se observou o pôr do Sol durante um solstício de inverno, tendo-se concluido que das proximidades da primeira anta seria possível observar o ocaso sobre o cromelech, enquanto uma posição quase junto à estrada já permitiria a observação do ocaso na reentrância da Portela. Do lado oposto, a análise da carta de 1/25.000 e cálculo analítico mostram que a linha solsticial que passa pela Portela de Mogos passa também a escassos metros do grande menhir da Herdade das Veladas, junto à estrada do Escoural. Com visibilidade também desimpedida na ausência de arvoredo,seria possível observar daí o nascer do Sol na Portela, no solstício de Verão.

 

4. Conjectura astronómica à procura de significado megalítico.

Todas as observações anteriores, isto é, todas as direcções registadas como de possível significado astronómico se relacionam com a observação do Sol, quer nos Solstícios quer nos Equinócios. Não foi até agora sugerida a existência de direcções lunares, isto é, de direcções de observação da Lua nas suas máximas elongações. Contudo a possibilidade de existência de observações lunares parece apontada pela circunstância de o valor do máximo de elongação lunar ser muito próximo do da Latitude do Cromelech dos Almendres, sem que, no entanto, tenha sido vislumbrado um processo simples que levasse à sua observação, simultaneamente com determinação da latitude do local. Se se tratasse de determinar o local em que a declinação máxima da Lua é igual à latitude, isto é, em que a Lua na sua elongação máxima passa pelo zénite, bastaria procurar um local em que se visse a imagem da Lua reflectida na água dum poço profundo e, nas imediações se procurasse um poço, profundo ou não, em que esse reflexo fosse tapado pela nossa cabeça. Não parece no entanto ser fácil descortinar um processo, ao alcance da tecnologia do Homem megalítico, que permita a comparação da elongação da Lua com a latitude do lugar.
Porém, a constatação analítica (que resulta de resolver as equações da trignometria esférica associada a este processo) de que só há duas latitudes em que é possível observar esta circunstância, e que uma delas é a de Stonehenge, e a outra a dos Almendres, não permite "deitar água na fogueira" que esse desafio acendeu.
No seu movimento aparente a Lua nasce e põe-se em direcções que variam entre um mínimo e um máximo de desvio relativo à linha geográfica Este-Oeste (elongação). Estes máximos variam de mês para mês. e de ano para ano, ao longo do ciclo lunar de 18.61 anos, de tal modo que o valor máximo "E", esperado para a elongação, depende da latitude "L" do lugar de observação, e da declinação máxima da Lua "D", que ocorre quando a inclinação da sua órbita se adiciona à inclinação da eclíptica. Estes valores satisfazem a relação:

sen D = sen E . cos L

Para cada objecto celeste particular, ou para cada posição particular dum objecto celeste de declinação variável, esta equação tem duas soluções tais que a elongação E iguala a latitude L sempre que a declinação seja inferior a 30º. Para valores da declinação superiores a 30º, esta equação não tem soluções. Se nesta equação se usar o valor D=29.17º correspondente à declinação máxima possível da Lua, cerca de 1500 aC, resulta que as duas soluções ocorrem repectivamente, uma a L=38.55º correspondente a uma latitude muito próxima da dos Almendres, e a outra a L=51.44º correspondente a uma latitude muito próxima de Stonehenge (51.18º). Esta segunda solução toma o valor L=51.18º se usarmos o valor máximo da declinação correpondente a 2000 aC.
Usando uma equação ligeiramente mais complicada para tomar em conta a elevação do horizonte em que se observa o nascer ou o pôr da Lua, pode mostrar-se que pequenos valores da elevação são suficientes para produzir a coincidência exacta das soluções, com as latitudes dos lugares referidos.
Muito embora não tenham sido encontradas direcções conspícuas nos monumentos megalíticos da região de Évora que possam corresponder às referidas observações lunares, a singularidade da coincidência, em ambos os casos, das soluções, com as latitudes dos referidos monumentos megalíticos, além de insólita, adiciona plausibilidade à conjectura sobre a existência de direcções lunares na região dos Almendres.

 

5. Cromelech dos Almendres revisitado

A visibilidade pública da possível associação do Cromelech dos Almendres com o Equinócio, em particular com o Equinócio megalítico, e o interesse suscitado numa comunidade cada vez mais alargada de visitantes deste imponente recinto megalítico, aliada ao facto de, em anos recentes, ter estado desobstruida a visibilidade do Sol a poente, suscitou a necessidade de uma nova visita ao local, para observação directa nas circunstâncias actuais, isto é, no pressuposto de que a actual inclinação do terreno não será muito diferente da inclinação na altura da construção. Nestas circunstâncias não se espera que a observação do pôr do Sol se faça ao longo do eixo maior da elipse, isto é, ao longo do eixo de simetria do recinto. Parece pois perder significado que este eixo esteja orientado na direcção Este-Oeste. Procurando-se o novo ponto de observação, calculou-se o desvio para norte da direcção de observação, resultante de uma inclinação estimada do terreno, de 7º para Este, isto é, duma linha rasante entre a superfície de truncatura do monólito nº8 e o topo dos possíveis monólitos de observação. Verifica-se que o valor estimado de cerca de 5º, nos coloca na zona dos designados monólitos desarranjados. Este conjunto de monólitos poderia constituir uma estação de observação do equinócio, através da observação do pôr do Sol sobre o monólito truncado, pelo que se procurou testar a plausibilidade desta hipótese.
Programou-se assim, um conjunto de observações ao nascer e pôr do Sol, que se realizaram por altura do equinócio da Primavera que em 20 de Março de 2000 ocorreu às 07:35Horas. As observações principais foram as seguintes:

i - Observação do nascer do Sol no dia 18 de Março, a partir do Cromelech dos Almendres
ii - Observação do nascer do Sol sobre Monsaraz no dia 19 de Março a partir do Menhir dos Perdigões
iii - Observação do pôr do Sol sobre a pedra truncada, no dia 19 de Março, a partir da posição estimada dentro do Cromelech
iv - Observação do nascer do Sol no dia 20 de Março, sobre Monsaraz a partir da colina junto ao Menhir dos Perdigões


As condições meteorológicas estiveram favoráveis para as observações i, ii, e iii, mas já não permitiram a observação mais próxima do equinócio actual.

Observação i (dia 18) - Sabendo que nesta altura o Sol está muito próximo da linha Este-Oeste, ligeiramente a Sul, e na ausência de referências de interesse astronómico, pretendia-se apenas documentar fotograficamente que a Sé de Évora se encontra a Norte da direcção Este como se deduz da carta topográfica. No entanto, feitas as fotografias, persistem desta observação diversos elementos importantes para a análise em curso. Não é facil transmitir o impacto do inesperado, naquele primeiro momento em que a primeira luz directa do Sol correspondente à sua calote brilhante, emerge no horizonte distante, por cima, na direcção da vertical, do grande monólito que supostamente reside, agora erecto, no foco da elipse (Fig. 3). Tudo se passa como se este menhir tivesse sido ali colocado para apontar onde o Sol vai surgir quando observamos o nascer do Sol colocados na extremidade Oeste, no topo da colina do Cromelech. Num dia completamente claro e seco, como estava, a observação deste nascer do Sol é como uma experiência quase mística, em que toda a construção parece feita para envolver e apontar o Sol nascente nesta ocasião, mesmo antes de ele surgir. Um verdadeiro anfiteatro aberto ao Sol equinocial. Claro que a posição do observador para ver o Sol nascer, precisamente na vertical do menhir, varia de dia para dia, mas pode estimar-se que a deslocação lateral necessária nessa posição é de cerca de 40 cm, isto é, da ordem de grandeza da distância entre os olhos de dois homens ombro a ombro. A ideia de que uns quantos homens colocados lado a lado, ombro a ombro no topo da colina veriam cada um deles sucessivamente, e em dias sucessivos, o Sol nascer na vertical do referido menhir pode conferir uma verdadeira dimensão antropomórfica ao Cromelech.

Figura 3. Nascer do Sol dois dias antes do Equinócio, visto do topo Oeste do Cromelech dos Almendres

Observação ii (dia 19) - também esta observação se destinava a documentar fotograficamente que o nascer do Sol sobre a colina de Monsaraz se poderia observar a partir da zona dos Perdigões na altura do equinócio megalítico (Fig, 4). Uma vez que o menhir dos Perdigões está tombado no meio do olival, e este não permite avistar Monsaraz, o ponto de observação foi estabelecido numa elevação próxima situada sensivelmente na direcção Menhir-Monsaraz. O resultado da observação mostra claramente que no equinócio megalítico, sensivelmente um a dois dias depois do actual equinócio astronómico, o Sol nasce claramente sobre as feições internas da colina de Monsaraz, particularmente se tivermos em conta a dispersão até 50m para norte, dos restantes menhires que compunham este conjunto dos Perdigões. Note-se que nessa faixa se ergue uma pequena colina com uma posição proeminente e desafogada para observar o Sol nascente, tal como nos Almendres, mas agora sobre Monsaraz.

Figura 4. Nascer do Sol sobre a colina de Monsaraz, um dia antes do equinócio, visto do menhir dos Perdigões

Observação iii (dia 19) - Esta foi a observação mais próxima do Equinócio, uma vez que a nebulosidade que se instalou durante a noite não permitiu observar o nascer do Sol no dia seguinte. Nos Almendres, o topo da colina já não está tão desobstruído quanto se esperava, mas permitia ver claramente o Sol através da ramagem pouco densa.
À medida que o Sol baixava sobre a pedra truncada se tornava cada vez mais claro qual o ponto de observação para esse dia. Cerca das 18H05 o Sol pôe-se sobre a pedra, hora essa em que o Sol se encontra 6,3º acima do horizonte astronómico, em bom acordo com o valor aproximado de 7º que se obtém para a inclinação do terreno por inspecção do levantamento topográfico (Pina, 1971)
É importante que se perceba claramente que, sendo estas medidas objectivas dotadas de algum rigor, elas dependem de factores diversos que convém ter presentes, quer na discussão dos factos, quer nas conclusões.
Quando se fala no pôr do Sol tem que se referir qual é a circunstância observável que o define. Tanto pode ser o primeiro contacto, i.e. quando o disco solar toca, neste caso, a linha da truncatura da pedra visto do ponto de observação, como pode ser a altura em que, nessa linha, passa o centro do disco solar, como pode ser o momento em que ocorre o último contacto do disco solar, isto é, quando desaparece a última réstea de Sol por detrás da pedra truncada. Qualquer destas possibilidades, por mais rigor que apresente na sua determinação, é afectada pela posição efectiva dos olhos do observador, isto é, se o observador é mais alto ou mais baixo, se observa de pé, se curvado,ou se observa rasante ao monólito em que estiver colocado, se está mais para a esquerda, ou para a direita. Esta incerteza do ponto exacto de observação não permite a determinação rigorosa da direcção associada, a não ser que circunstâncias especiais estejam presentes e comprovadas, e que o definam.
No caso descrito em II-1 assumiu-se um ponto fixo de observação, a cerca de 40m, e isso determinava uma dispersão do ponto de contacto de cerca de 0.5º (na ordem de 40cm), sobre a pedra truncada. Alternativamente, se se escolher observar o contacto sempre no mesmo ponto, por exemplo colocando uma marca numa das covinhas, essa incerteza é transferida para a posição do observador. Tendo em conta que, na altura do equinócio, o avanço diário da posição do observador também é da ordem de 40cm, é plausível supor que a zona desarranjada do cromelech seja constituída por um conjunto de monólitos que poderiam ser usados para observar a aproximação do Equinócio, isto é, serviria para observar o pôr do Sol em dias anteriores ao equinócio, de tal modo que o último monólito desse sector fosse usado precisamente nesse dia. Em favor desta interpretação concorre o facto de esse último monólito se destacar pelo seu porte, e de, incluindo-o, haver precisamente 20 monólitos na faixa angular correspondente aos últimos 20 dias que antecedem o Equinócio da Primavera. Note-se que a linha que une a pedra truncada a cada monólito desse sector tem um limite bem definido que faz um ângulo de 4º com o eixo de simetria, medido na planta topográfica. Este ângulo está, assim, em bom acordo com o ângulo da direcção de observação calculada para o equinócio megalítico, tendo em conta a inclinação do terreno.

Observado o pôr do Sol, no dia 19, ao longo dessa linha limite rasando o monólito nº38 (Fig.5), verificou-se que o Sol desce ligeiramente a Sul da truncatura, a uma distância compatível com o facto de se estar a observar dois a três dias antes do equinócio megalítico. A extrapolação da posição observada levaria a que no dia 21/22 se assistiria ao pôr do Sol sobre a truncatura.

Figura 5. Pôr do Sol sobre o monólito truncado, no Cromelech dos Almendres, dois dias antes do equinócio megalítico, quando observado do monólito nº38

 

6. Discussão e Conclusões

A questão principal que resulta da observação geral do cromelech é a de que, quer pela sua posição proeminente no topo da colina, quer pela disposição das pedras talhas em anfiteatro na vertente virada a Este, quer pela vista desimpedida para um vasto horizonte a nascente, quer finalmente pelo facto da sua construção privilegiar a direcção de Este-Oeste, todo o conjunto parece disposto para ser usado na altura do equinócio associado eventualmente a algum culto de fertilidade da terra. Paradoxalmente esta direcção não existe materializada através de observação directa, ao contrário das direcções solsticiais que são direcções limites do Sol na sua digressão anual, ou da direcção Norte-Sul marcada pelo menor comprimento da sombra dum pau colocado na posição vertical. A direcção Este-Oeste é uma direcção abstracta que requer um salto conceptual, isto é, um raciocínio dedutivo para procurar uma linha que divida a meio o ângulo entre as direcções solsticiais de Verão e Inverno, ou que divida a meio o tempo que medeia dois solstícios consecutivos, isto é, o tempo que o Sol leva a deslocar-se dum solstício ao outro. Estamos a lidar com um Homem inteligente capaz de arquitectar uma construção e adequá-la a um objectivo de culto. Qualquer dos processos requer referência às linhas solsticiais de que não encontramos evidência segura nos componentes do recinto megalítico. A linha solsticial entre o cromelech e o menhir do monte dos Almendres poderia ser usada como razoavelmente rigorosa para marcar o solstício de Inverno, mas não tem rigor para a observação inversa do solstício de Verão porque não sendo horizontal não aponta para o nascer do Sol no Verão, embora ande lá perto. Procurou-se a ESE outro menhir ou marca que pudesse ser usada para observar o solstício de Verão através do pôr do Sol sobre o cromelech, mas sem sucesso. Com efeito não há referências de objectos megalíticos nessa direcção, nem vestígios credíveis no que foi possível calcorrear, nem a orografia do terreno nessa direcção torna plausível a sua existência para este efeito. Há alguma evidência de direcções solsticiais próximas associadas ao cromelech de Portela de Mogos mas, nem esta evidência é muito segura (são efectivamente linhas marcadas por construções megalíticas que se apresentam na direcção solsticial), nem a proximidade parece suficiente para um uso associado ao Cromelech. Quaisquer que fossem os processos de recurso às linhas solsticiais, só faria sentido a divisão ao meio do ângulo resultante se estas fossem linhas num plano horizontal. Mais plausível, no entanto, é que a divisão se faça por um processo de contagem simples, ficando independente da determinação exacta dos ângulos. Por exemplo, fazendo um risco numa superficie lisa por cada dia que passa poderia ter constatado que o número de dias entre o Solstício de Verão e o de Inverno é igual ao correspondente entre o de Inverno e o de Verão. Um espírito arguto pode ter reformulado a questão colocando uma marca "equinocial" aproximadamente a meio da digressão anual do Sol, e contando o número de dias entre duas passagens sucessivas do Sol nessa marca. Verificando por exemplo, que a parte de Verão era maior do que a de Inverno, moveria a marca no sentido adequado (neste caso para o lado do Solstício de Verão), até que, por aproximações sucessivas os dois números fossem iguais. Nesta altura a marca "equinocial", em consequência, estaria aproximadamente na direcção Este-Oeste. Esta reformulação requer apenas um processo de contagem, isto é, dum dispositivo (tipo ábaco), em que registando cada nascer (ou pôr) do Sol se possa depois comparar o número de registos na parte de Verão, com o número de registos da parte de Inverno. Para materializar este procedimento o nosso Homem megalítico não teria necessidade de construir um monumento de grandes dimensões, mas poderia recorrer, por exemplo a um expediente simples como o de fazer um risco no chão na direcção da marca "equinocial". Cada dia ao nascer do Sol poria uma pedrinha junto ao risco, do lado em que o Sol nasce. Quando o Sol passasse a nascer do outro lado do risco teria o cuidado de colocar as respectivas pedrinhas em face das que estavam já colocadas do lado anterior do risco. Ao fim de um ciclo completo haveria excesso de pedrinhas do lado em que o Sol passou maior número de dias. Assim, com o uso duma marca "equinocial" e dum processo de contagem, ficaria independente de observações solsticiais, passando a usar apenas as sucessivas passagens "equinociais" do Sol sobre a marca. Em boa verdade o risco no chão nem necessita de ser traçado na direcção da marca equinocial, isto é, o processo de contagem pode ser independente do processo de observação do Sol e da marca.
Não parece haver dúvida quanto à verosimilhança da relação entre o Cromelech e o Equinócio. Desde a sua posição privilegiada no topo da colina, olhando desafogadamente, e sem obstrução, todo o horizonte distante a Este, à observação do nascer do Sol em toda a sua digressão anual, proporcionada pela extensa planície alentejana, até à simetria da disposição dos monólitos em anfiteatro como dois braços abertos para receber o Sol nascente na posição do horizonte apontada pelo grande menhir central, tudo se conjuga para sugerir que o Cromelech dos Almendres possa ter sido construído para celebrar o culto do Sol e do Equinócio. Isto é, da direcção que divide ao meio o espaço, mas sobretudo que divide ao meio o tempo, o tempo do calor e o tempo do frio, o tempo da fertilidade da terra e o tempo da falta de alimento. Sob esta forte pressão haveria que construir um recinto grandioso incorporando este conhecimento como forma de apoiar o culto com o aparente controlo da natureza, neste caso do Sol.
Com base nas duas alternativas descritas anteriormente parece claro que o monólito truncado pode ter desempenhado o papel de marca equinocial, quer na primeira (vide II-3) porque serviria de mira para a observação da passagem equinocial, a partir do grande monólito situado no foco Este da elipse, vista ao longo da linha Este-Oeste materializada pelo eixo maior da elipse, quer na segunda, (vide V) também porque serviria de mira para a observação da aproximação do Equinócio, e da passagem equinocial, usando como base a zona ENE do Cromelech. Embora, neste segundo caso, a própria direcção de observação da passagem não seja ao longo do eixo de simetria, a orientação deste na linha Este-Oeste é agora assegurada pelo monólito focal, que a aponta ao nascer do Sol quando observado no horizonte, a partir do topo da colina. Nesta hipótese parece haver uma clara distinção entre a marca equinocial para a determinação do dia, e a marca para a celebração do nascer do Sol no horizonte distante. Ambas as marcas existem em ambas as hipóteses, mas na primeira coincidiriam também as linhas de observação.
Após a passagem equinocial decorrem 91 dias até ao Solstício e novamente 91 dias até nova passagem equinocial. A adição de um círculo de 91 pedras permitiria incorporar no monumento o próprio processo de contagem, embora tal não fosse necessário. Com efeito, avançando dia a dia uma marca no círculo este seria percorrido duas vezes entre duas passagens equinociais perfazendo 182 dias. Com facilidade se imagina um processo de regular a necessidade de contar mais um dia na metade do ano ligeiramente maior, 183 dias, bem como da sucessiva ocorrência de dois períodos de 183 dias, o que requereria alguns monólitos adicionais. Nestas condições o monumento megalítico teria um número total de monólitos comparável ao que actualmente se observa no Cromelech dos Almendres, por exemplo os 93 enumerados em (Alvim, 1997, pag.16).
Se assim foi, os indícios relatados parecem indicar que não se tratou de obra do acaso mas antes resultado dum espírito engenhoso que incluíu, na construção, o próprio sistema de determinação da passagem equinocial do Sol. E para tal quase lhe bastava saber contar e observar. No entanto, com o instrumento assim construído, poderia ter dado pela necessidade de um dia intercalar de quatro em quatro anos para que tudo quase acertasse de novo. Para um construtor arguto que poderia ter sentido a necessidade de melhorar a precisão das suas observações, e por isso poderia ter construído um sistema mais rigoroso (ex. Perdigões-Monsaraz), a constatação desse facto seria certamente estímulo para novos desafios intelectuais.
O conhecimento, que hoje designamos por científico, pode ter começado muito antes do Homem megalítico, e evoluido por processos simples desta natureza.

 

BIBLIOGRAFIA

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