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Mar: o pão das gentes poveiras.
 

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:: Ala-Arriba! (1942)
 

O Amor acontece praia adentro; mar fora. Paixões tomam lugares da razão, das forças inquestionáveis da Natureza. A paixão é muito grávida de sotaque. E ainda mais o Amor. Carregados da cultura popular, dos cantares e das ironias e esgares sérios – porque fundos, viscerais – dos homens do trabalho, do bacalhau, azeite e malga em flor pelo tinto do vinho. Das redes.
Espaços onde ressoa a alegria comunitária em comes e bebes dançáveis à luz de uma cantadeira e das palmas. Das laranjas que rebolam. Das sardinhas em brasa e da broa. Tão difíceis de encontrar na aculturação do mundo que adopta o imediato e se esquece do vira poveiro, o da praia, o do mar; do ferreirinho à porta, da chula vareira, da poveirinha, da ala-arriba. Enfim, que se esquece de saber que o mar enrola, persistentemente, na areia. Como dois apaixonados desenfreados.

Ala-Arriba! conta uma estória, verdade. Uma de Amor, com os vários condimentos inerentes ao romance e à técnica de o escrever audiovisualmente na década de 40, do século passado. Mas tal apenas serve de mote para um relato documental das vivências poveiras, das raízes da mais antiga comunidade piscatória portuguesa. Das hierarquias e o modo funcional dessa sociedade. Das divisões e das uniões de um povo. Subindo-se a escada para o verdadeiro propósito da película: o mar. Essa fonte secular de alegria e desconcerto das populações: ganha-pão e carrasco.
A advertência é feita logo de início pelo pároco da Senhora da Lapa, o narrador da estória, que se permite a explicar os hábitos e os costumes antigos deste povo: «Os poveiros são honestos. Bons pais e bons filhos. Mas não são todos iguais: esta colmeia de pescadores mais velha de Portugal tem a sua aristocracia e a sua plebe. Os nobres são os pescadores lanchões, heróis da pesca do alto, possuidores das grandes lanchas poveiras, antigas de muitos séculos. O povo são os sardinheiros, pescadores humildes de batéis pequenos, a arraia-miúda que não vai para o mar largo e se contenta com o peixe costeiro. Destas duas castas se forma a multidão poveira, havendo às vezes questões por uns pescarem nas águas dos outros. Quando a filha de lanchão gosta de um sardinheiro, é preciso que este se eleve por méritos próprios ou por dádivas, até ingressar na classe superior; e não raramente é o pai da rapariga que dota o futuro genro para que tudo fique a parecer bem.»
O filme passa-se a desenvolver esses mesmos hábitos e costumes poveiros.

José Leitão de Barros foi o realizador que dei vida às imagens. Não saiu do seu tema habitual, o mar, e levou o seu drama-documental à vitória da Taça Volpi no Festival de Veneza. No mesmo ano de Ala-Arriba! (1942), realizou A Póvoa de Varzim. O seu primeiro filme, Mal de Espanha, data de 1918, e o último de 1962 – Escolas de Portugal.
Do campo das curiosidades, Ala-Arriba! é uma expressão usada pela comunidade piscatória da Póvoa de Varzim e significa "força (para cima)". Era usada no acto de trazer os barcos para a praia, através da entreajuda da comunidade. Foi caindo em desuso com a construção do porto de pesca, mas subsistiu, aproximadamente, até à década de 80, do século passado. Do mesmo campo, podemos ficar a saber que não foram actores a interpretar, mas gentes da terra a fazer o que lhe é mais natural, a viver; o que permitiu manter fielmente o sotaque característico.

 
 
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*Data: Dica: 11-02-2007
 
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