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HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS - 1932
Cidade recorda a Revolução, 50 anos depois

Na data em que se comemorava o cinqüentenário da Revolução Constitucionalista de 1932, o antigo jornal Cidade de Santos publicou um artigo em página inteira, relatando a história desse movimento paulista, as comemorações e a participação santista.

Quando esta matéria foi escrita - em 9 de julho de 1982 -, o Brasil estava nos últimos anos da ditadura militar imposta pela Revolução de 1964, e causou estranheza a muitos que o presidente da República, general João Baptista Figueiredo, presidisse as solenidades do cinqüentenário em São Paulo, mesmo sendo filho do general Euclides Figueiredo, que 50 anos antes comandara as forças revoltosas. 

A referência às Malvinas recorda a guerra entre Argentina e Inglaterra pela posse do arquipélago das Malvinas (que os ingleses denominam Falklands), encerrada apenas alguns dias antes (no dia 17 de junho de 1982) com a rendição da Argentina. 

Do outro lado do planeta, os países socialistas euro-asiáticos continuavam firmemente reunidos no bloco União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), comandado desde Moscou: o muro de Berlim, que dividia ao meio a capital alemã, só seria derrubado na noite de 10 de novembro de 1989, marcando o começo do fim desse bloco econômico e político. E, no Brasil, só em abril de 1984 aconteceriam as primeiras manifestações populares que ficaram conhecidas como "Diretas Já".
 


A bandeira paulista durante a Revolução de 32: 
o mapa do Brasil substituído pelo brasão de São Paulo
Foto publicada com a matéria

País comemora os 50 anos da Revolução

O País comemora hoje o cinqüentenário da Revolução de 32. O movimento surgiu contra duas ameaças: a pretensão de aniqüilamento de São Paulo do cenário político e econômico e o desrespeito à Constituição, o autoritarismo, ditadura imposta pelo homem que foi levado ao poder pela Revolução de 30 - Getúlio Vargas -, uma revolução de ideais traídos. O resumo explica, em parte, o movimento, de tantas versões, que alguns preferem creditar às classes dominantes de São Paulo, enquanto para outros "foi o mais belo movimento cívico que já se registrou nos anais políticos do Brasil".

O presidente paulista durante a revolução: Pedro de Toledo
Foto publicada com a matéria

A participação oficial, nas comemorações de hoje, do presidente João Baptista Figueiredo, em São Paulo, causa estranheza ao vereador e ecólogo Ernesto Zwarg, que vê incoerência, já que, no seu entender, o movimento que lutou com armas pela Constituinte foi vencido e hoje continua sua luta, mesmo que pacífica, mesmo que moralmente. Zwarg também vai participar das comemorações, só que em atitude de protesto. Estará no Ibirapuera, junto à estátua de Ibraim Nobre (seu tio-avô) para homenagear e solidarizar-se com o revolucionário, "que deve estar sentindo dor pelo desvio dos ideais revolucionários". Aqui, como em outros municípios, as Associações de Ex-Combatentes se juntam ao governo para comemorar o cinqüentenário da Revolução.

O movimento inexplicável - embora vencido - teve como conseqüência a convocação de uma eleição para Assembléia Constituinte Nacional em 1934. A seu favor, ainda se pode argumentar que dele participaram todas as classes sociais, no combate à ditadura. Narra Borba de Moraes - ex-combatente - em matéria publicada no Folhetim (encarte da Folha de São Paulo) que as forças voluntárias eram compostas por "gente das Indústrias Matarazzo, sobretudo daquela fábrica da Água Branca: havia médicos, advogados, comerciários. Enfim gente de todas as classes sociais.

"Mas o povo estava presente. Você quer um exemplo? Os próprios negros que, já naquela época, começavam a ter consciência de sua negritude, formaram dois batalhões. Combateram com bravura e muitos deles morreram nas trincheiras. Outra coisa interessante foi a participação das colônias estrangeiras fixadas em São Paulo. Imigrantes daquelas repúblicas do Báltico, hoje incorporadas à União Soviética, formaram batalhão de uns 500 homens. Morreram muitos homens porque lutavam ferozmente, sem prudência. Pulavam fora das trincheiras e avançavam como loucos. Do outro lado, a metralhadora comia, caíam aos montes".

Soldados paulistas entrincheirados na linha de fogo
Foto publicada com a matéria

O protesto de Zwarg - A participação do governo revolucionário de 64, nas comemorações do cinqüentenário da Revolução Constitucionalista, é motivo de protesto do vereador ecologista de Itanhaém, Ernesto Zwarg. Ele reivindica para si esse direito, já que seus pais participaram da Revolução de 32 e ele tem parentes que se destacaram na campanha, como Ibraim Nobre e Paulo Setúbal. 

Hoje cedo, como vereador e como presidente da Sociedade de Ecologia de Itanhaém, Zwarg estará no Ibirapuera, junto à estátua de Ibraim Nobre (seu tio-avô) prestando homenagem e solidariedade a Ibraim e Paulo Setúbal "pela dor que eles devem estar sentindo pelo desvio dos ideais da Revolução de 32. Uma revolução realizada pelo povo, contra a ditadura e pela Constituinte". O protesto de Zwarg visa também a presença do presidente João Baptista Figueiredo, que hoje estará em São Paulo, participando das comemorações do cinqüentenário.

"Se não temos ainda uma Constituição - porque o que está aí em vigor é arremedo, toda emendada - é por atos ilegais, emanados de um poder imposto à Nação" - diz Zwarg. "Além de lutar pela Constituição, a revolução de 32 foi, antes de tudo, um levante contra a ditadura. Nós respeitamos a figura do presidente Figueiredo, na sua boa vontade, no sentido da abertura, e, no entanto, nos parece que ele está cometendo um erro no sentido da ética, porque a sua participação nos festejos de 32 não condiz com o que o seu próprio pai (também revolucionário) desejaria, participante ativo que foi. Se o presidente não nos pode dar desde já a Constituinte e a liberdade de eleições, deveria se manter afastado dos festejos de 32. Atualmente, depois de 50 anos, um regime totalitário toma a bandeira de uma revolução que foi constitucionalista. Isto pode ser interpretado como um desrespeito aos mortos e feridos em 32. O que equivale a daqui a 50 anos o embaixador da Inglaterra vir a presidir os festejos do cinqüentenário das Malvinas, em Buenos Aires", protesta.

"No meu entendimento - continua Zwarg - como sobrinho-neto de Ibraim Nobre e Paulo Setúbal, a Revolução de 32 continua, embora pacificamente, continua moralmente. Os paulistas deveriam sair às ruas com tarjas de luto e faixas exigindo a Constituinte. Ao invés de festividades, deveriam ter um desfile fúnebre. São Paulo perdeu a revolução e não alcançou seus ideais. Pior ainda, as salvaguardas existentes da defesa da terra pátria na Constituição não são obedecidas, mais uma prova de ser a atual Carta Magna inócua".

Metralhadora antiaérea das forças constitucionalistas
Foto publicada com a matéria

O início - Não tão polêmica como os ideais da Revolução de 32 é a história do seu início. Foi nos dias 22 e 23 de maio que os paulistas saíram às ruas demonstrando sua revolta contra os atos da ditadura Vargas. Tais atos, em resumo, eram os seguintes: a situação política do estado que, após a "Revolução de 30", passou a ser governado por um interventor, não paulista, que provocou a indignação dos políticos desse Estado; na área econômica, houve a reforma da legislação tributária pelo novo ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, que substituiu ao anterior, José Maria Whitacker, que se demitira por divergências sobre assuntos financeiros com Vargas. Com sua reforma, Aranha gravou mais fortemente toda uma série de produtos importados.

A economia, que se recuperava de uma crise conseqüente do período de depressão havido nos Estados Unidos (N.E.: referência à crise econômica que levou à quebra da Bolsa de Valores de New York em outubro de 1929), era atingida agora por uma atitude do governo interno. Ocorre que os produtos gravemente taxados pagavam direitos reduzidíssimos, quase nulos, e vinham de países onde o café entrava também em condições favoráveis, mediante acordos entre os respectivos países.

Uma nova fase crítica no comércio cafeeiro significaria a falência do Estado. Houve grita geral. Os rivais do Estado, adeptos de Vargas, acusavam São Paulo de estar drenando para cá a riqueza do País. Os historiadores e defensores dos ideais da revolução de 32 falam de ciúmes dos políticos de outros estados, em especial dos do Nordeste. "Aliás, quando lemos as memórias de gente daquela época, percebemos as coisas. Os tenentes, que fizeram a Revolução, exigiram ocupar São Paulo. Tinham, para com o nosso Estado, falsa conta a cobrar, porque partiam do ponto-de-vista de que nos cabia a culpa pela decadência do Nordeste. Era aquela história velha, de que todo o dinheiro da Federação vinha para São Paulo, para financiar seu desenvolvimento", conta Borba de Moraes. Tais causas levaram o povo a pegar em armas.

Cartão para correspondência dos soldados constitucionalistas com seus familiares
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MMDC - Iniciais dos heróis - No anoitecer de 23 de maio, em plena Praça da República (N.E.: da capital paulista), tombaram os primeiros paulistas que lutavam pela causa constitucionalista. Das iniciais de seu nome de guerra formou-se o símbolo da luta: M.M.D.C. Mário Martins de Almeida, fazendeiro, morador em Sertãozinho, que, segundo consta, no dia fatídico se encontrava na Capital, visitando os pais; Euclides Bueno Miragaia, auxiliar de um cartório da capital paulista; Dráuzio Marcondes de Souza, estudante filho de farmacêutico; e Antonio Américo de Camargo Andrade.

A partir desta primeira luta, foi iniciada a grande campanha militar em São Paulo, que se empenhou na luta que ecoou por todo o Brasil. Formou-se a Aliança Revolucionária, que teve repercussão em todos os Estados do País, como no Paraná, Santa Catarina e inclusive o próprio Distrito Federal. Consta que os líderes do movimento nestes Estados foram traídos e presos. São Paulo ficou sozinho.

Começou-se então a falar mais claro de um "São Paulo para os paulistas". Naquele tempo, o movimento separatista era muito forte. "Poucas tropas federais aderiram ao movimento - conta Borba de Moraes -. O povo lutou contra o Exército de Vargas e até contra civis, de outros Estados. São Paulo lutou com deficiência de armamentos e foi vencido".

Soldados paulistas embarcam, na Estação da Luz, em São Paulo, para a linha de luta
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Santos na Revolução - O presidente da Associação dos Ex-Combatentes de Santos no Movimento Constitucionalista, Paulo Bhon Prado, conta que "o Porto de Santos foi fechado, havia soldados por toda a orla marítima. Quem não seguiu para as frentes de combate serviu a Revolução substituindo os soldados das Forças Púlbicas em funções como a de guardar os prédios públicos, o porto, as praias. As mulheres e crianças também deram a sua colaboração, quer incentivando as tropas, quer confeccionando fardas ou agasalhos, servindo nas cozinhas das Casas do Soldado, amparando feridos e tratando doentes. Os menores auxiliavam nas correspondências entre os combatentes e seus familiares".

Diplomas concedidos aos cidadãos que doavam peças de ouro ou metais preciosos para manter o tesouro paulista, na campanha "Ouro Para o bem de São Paulo, durante a Revolução de 32
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Comemorações hoje - O Cinqüentenário da Revolução Constitucionalista de 32 será comemorado hoje em todo o País, com programação conjunta entre associações, prefeituras e clubes de servir. 

Aqui, a Câmara, Prefeitura e Associação dos Ex-combatentes de 32 iniciam a comemoração às 8h30 na Praça José Bonifácio, com a tradicional concentração junto ao monumento do Soldado Constitucionalista, com hasteamento dos pavilhões. Na oportunidade falará sobre a data Oswaldo Franco Domingues. Posteriormente, os ex-combatentes desfilarão acompanhados pela banda militar do 6º BPM-I.

Às 9h30 haverá missa solene na Catedral e às 11 horas a inauguração do Mausoléu do Soldado Constitucionalista no Cemitério da Areia Branca. Às 16 horas, em sessão solene, falará o vereador Matsutaro Uehara, no Teatro Braz Cubas. Às 18, a festa será encerrada com arriamento das bandeiras pelos Escoteiros de Santos.

Outros municípios da Baixada Santista prepararam programação: em Cubatão, às 20 horas, no Bloco Cultural do Paço Municipal, falará sobre a data o professor Bandochi. Em São Vicente, Prefeitura, Câmara e a Associação dos Capacetes de Aço de São Vicente programaram para as 8 horas o hasteamento de bandeiras na Praça 22 de Janeiro e colocação de corbelha de flores no obelisco do ex-combatente Pérsio de Souza Queiroz Filho. Às 8h30 será colocada corbelha de flores no monumento dos Heróis de 32, na Praça dos Heróis de 32, e descerramento da placa comemorativa do cinqüentenário. E serão entregues prêmios aos estudantes vencedores do concurso "O que foi a Revolução Constitucionalista de 1932". 

Para as 10 horas, foi programada missa solene na Igreja Matriz de São Vicente e às 11 horas cerimônia alusiva à data, no Mausoléu dos ex-combatentes de 32, no cemitério local. Na Câmara, às 20 horas, as festividades serão encerradas com sessão solene, com entrega das Medalhas 9 de Julho, quando será orador oficial o professor Geraldo Goulart.

O "Tribuno da Revolução de 32", Ibrahim Nobre, no dia 9 de julho de 1964, na Câmara Municipal de Santos, recebendo o abraço do "tribuno" santista, professor Cleóbulo Amazonas Duarte
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