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PROGRAMA DE ESTUDOS DOS POVOS INDÍGENAS

 

 

Volta -  Etnohistória

 
 

 

 Tem índio no Rio

  José R. Bessa Freire  

OBS. – Esse texto, escrito com fins didáticos, sistematizou algumas informações básicas sobre os Guarani das aldeias do Rio de Janeiro, que podem ser encontradas em trabalhos, alguns deles inéditos, que foram elaborados em forma de dissertação de mestrado ou tese de doutorado.Uma parte dele foi incorporada no CD-Rom “Rio 500”, editado pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, no ano 2000.

 

 
 
 

  

Quem quer conhecer melhor o Brasil e os brasileiros deve procurar saber quem são os índios e observar as formas como a sociedade nacional vem se relacionando com eles, porque através desse relacionamento nós nos revelamos e o nosso país mostra sua cara. As culturas indígenas constituem, assim, um indicador extremamente sensível para avaliar a natureza e o caráter da sociedade que entra em contato com elas. Desta forma, estudar o índio não é apenas procurar conhecer o “outro”, o “diferente”, mas implica conduzir as indagações e reflexões sobre a própria sociedade em que vivemos.

 As instituições sociais que trabalham com essa questão - escola, universidade, mídia, museu, biblioteca, arquivo, igrejas, sindicatos, partidos políticos – nem sempre reconhecem a contribuição das culturas indígenas para a formação da nação brasileira. Construiu-se uma imagem bastante negativa dos povos indígenas, apresentados ora como amostras vivas de um estágio primitivo da evolução humana, ora como seres do passado que se opõem à modernidade, ou ainda como obstáculos ao progresso, no papel de ocupadores ociosos de vasta extensão de terras que poderiam ser aproveitadas para produzir riquezas. Os índios, com muita freqüência, são considerados como povos condenados a desaparecer. Por isso, é oportuno reavaliar essa imagem, discutir as formas de relacionamento com as culturas indígenas e refletir sobre o papel delas no presente e no futuro do País.

 Desde os primeiros momentos da colonização européia, entre tantos povos, dois deles mantiveram intenso contato com os portugueses e os espanhóis: os Tupinambá e os Guarani. Os primeiros foram extintos no período colonial. Hoje, não existe nenhum falante da língua Tupinambá. Mas os Guarani resistiram. Das mais de 1.000 línguas faladas em 1500 no território que hoje constitui o Brasil, 180 continuam e pretendem continuar vivas. A língua Guarani é uma delas, sendo falada atualmente por índios que vivem na Bolívia – os Chiriguano e em quatro países do Mercosul:  Paraguai, Uruguai,  Argentina e Brasil.

            Por serem um dos povos mais importantes na história dos contatos entre índios e europeus na América do Sul e habitarem atualmente um extenso território localizado em cinco países, os Guarani mereceram destaque. Eles vivem hoje em dezenas de aldeias espalhadas por mais de 100 municípios brasileiros, entre os quais os municípios de Angra dos Reis e Parati, no Rio de Janeiro.

 

    Como era em 1500

 

O Rio de Janeiro, em 1500, era densamente povoado por nações que falavam, pelo menos, 20 línguas diferentes. Os Tupinambá moravam em centenas de aldeias distribuídas por todo o litoral. Os Goitacá ocupavam vastas planícies e restingas do Norte Fluminense. Os Guarulho viviam na Serra dos Órgãos. Os Puri, Coroado e Coropó espalhavam-se pelas ramificações da Serra do Mar e pelo vale do rio Paraíba e seus afluentes. Os Goianá estavam localizados na Ilha Grande, em Angra dos Reis e em Parati. Apesar das matrizes culturais diferentes, esses povos possuíam, no entanto, algumas características comuns: eram alegres, apaixonados pela música e pela dança, criadores de cerâmica e de artesanato e produtores de muitos conhecimentos na área da astronomia, ecologia, medicina, farmácia, agricultura.

  Todos esses povos foram exterminados, começando por aqueles que viviam no litoral. Escravizados, seus territórios foram invadidos, suas aldeias destruídas e suas terras retalhadas em sesmarias para plantação de cana-de-açucar nos séculos XVI e XVII. Hoje, não existe mais nenhum falante das línguas Tupinambá, Goitacá, Guarulho ou Goianá

   Depois, foi a vez dos que habitavam o interior. A exploração de ouro em Minas Gerais, no século XVIII, e as fazendas de café que invadiram o vale do Paraíba no século XIX, liquidaram definitivamente os índios do Rio de Janeiro, suas línguas, seus saberes e suas artes. O Rio, certamente, ficou mais pobre.

 

    Como ficou em 1900

 

Na virada do século, em 1900, não sobrou nenhum índio para contar a história. Alguns poucos, destribalizados, conseguiram entrar no século XX, mas deles não temos notícias, porque depois da proclamação da República os registros de batismo, casamento e óbito passaram a omitir a condição indígena. Houve apenas uma exceção. A última índia do Rio de Janeiro, com registro oficial, é Joaquina Maria, puri, falecida em Pádua, em 1902, com 90 anos de idade, conforme o atestado de óbito encontrado recentemente por pesquisadores do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da UERJ:

                        “Aos trinta dias do Mez de Maio de mil novecentos e dois no        cemitério desta cidade foi sepultado o cadáver de Joaquina Maria pury, de cor parda, viúva, com noventa annos de idade presumíveis. Fallecida de Hydropsia. Sendo por mim confessada na forma do Ritual Romano. E que para constar mandei lavrar este termo. O Vigário. (Extraído do Livro de Óbitos nº  02, fls. 3 v).

     Esta é a derradeira sobrevivente de um processo de extermínio iniciado no século XVI, com um final melancólico em 1902. Nos documentos oficiais até hoje conhecidos, não foram encontrados registros posteriores relativos à presença indígena em território fluminense. A partir de então, ninguém mais falou as três últimas línguas indígenas usadas no Rio de Janeiro - Puri, Coroado e Coropó. Desta forma, durante toda a primeira metade do século atual, os índios deixam de figurar no mapa da cidade e do Estado do Rio de Janeiro e na documentação oficial.

 
    Hoje, os Guarani

 

No entanto, sem que a sociedade brasileira percebesse, o Rio de Janeiro começou a ser habitado outra vez por índios no final da década de 1940, quando centenas deles, em sucessivas ondas migratórias, se deslocaram discretamente do vale do rio Paraná em direção ao litoral fluminense, onde construíram aldeias em uma antiga área dos Goianá, cortada pelo rio Paraty-Mirim, no alto da Serra da Bocaina. Eles só foram “descobertos” em 1972,  com a abertura da estrada Rio-Santos. Eram os Guarani, índios do tronco-lingüístico Tupi. Muito antes da chegada do europeu, os Guarani, que habitavam as matas subtropicais da bacia dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai, migravam constantemente ou buscando a mítica Terra sem Mal, a morada dos deuses, ou caminhando entre diversas aldeias, o que permitia-lhes criar alianças e estabelecer uma rede de solidariedade. 

Desta forma, o litoral do Rio passou outra vez a escutar diariamente a melodia das frases, da poesia e do canto em uma língua da família Tupi-guarani, ecoando por outras regiões. A língua Guarani, falada diariamente no Rio, é compartilhada por índios que vivem  em cinco países diferentes, onde ocupam um considerável território.

No Brasil, a população Guarani é de aproximadamente 40 mil índios, subdivididos em três grupos lingüísticos: Nhandéva, Kayová e Mbya. Eles vivem em dezenas de aldeias, distribuídas por mais de 100 municípios, localizados em dez estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Espírito Santo, Mato Grosso, Pará, Tocantins, Maranhão e agora, Rio de Janeiro. Com os deslocamentos constantes entre aldeias, torna-se impossível determinar com exatidão os dados demográficos de cada  uma delas. A população que vive no litoral sul fluminense é Mbya, calculada em mais de 500 indivíduos, distribuídos atualmente em três aldeias situadas nos municípios de Angra dos Reis e Parati.

 Com seus conhecimentos, suas poesias, suas músicas – eles gravaram em 1999 um CD com cânticos tradicionais sagrados – sua língua, sua religião, sua literatura oral, sua arte e sua ciência, os Guarani contribuem para a diversidade e a riqueza multicultural do Rio de Janeiro. 

 

    As aldeias e a rede de relações

 

A condição para manter a identidade Mbya é morar numa aldeia guarani. Segundo o cacique Verá Mirim, da aldeia Sapukai, de Angra dos Reis (RJ), “o Mbya puro tem que morar na aldeia, junto dos parentes, se sair não é mais índio”. Contudo, viver em uma aldeia não significa fixar-se definitivamente em uma delas, posto que o lugar de preservação dos Guarani-Mbya é a língua e, portanto, eles se realizam onde há pessoas falando o seu idioma e praticando a sua cultura e não em um território fixo. Desta forma, eles estão sempre caminhando, sempre em movimento, realizando algum trajeto, de uma aldeia a outra, estabelecendo, nessas caminhadas, uma rede de relações que permite a formação de alianças e a solução de conflitos. Freqüentar outras aldeias é essencial à reprodução social do grupo”, esclarece a antropóloga Sílvia Guimarães.

O Guarani é um povo em permanente mobilidade, mas esse fato não implica que seja  um povo desenraizado. Para o antropólogo Aldo Litaiff, que estudou a comunidade de Sapukai, “residir na aldeia implica na aceitação das regras sociais do grupo, que marcam os limites e controlam a circulação interétnica”.  

No Rio de Janeiro, existem três aldeias: Sapukai, Itatiim e Araponga, que acabaram formando, como resultado do intenso intercâmbio com as demais aldeias do litoral, um grande complexo territorial, com uma relativa unidade cultural, onde os índios desenvolvem relações de reciprocidade.

 A aldeia Sapukai é a maior das três, com 700 hectares. Nela vivem aproximadamente 380 a 400 índios, que cultivam roça e fabricam cestas de taquaraçu. Localiza-se no alto de um morro conhecido como Bico da Arraia, no Sertão do Bracuí, na Serra da Bocaina, distante 6 km do asfalto e 25 km da cidade de Angra dos Reis. Seu território, demarcado depois de muita luta, é cortado pelo rio Itatinga. Nos dois pontos de acesso à aldeia, existem placas, colocadas em 1985 pelo então cacique Aparício R’okadju, que advertem: “área indígena, proibida a entrada”. No centro da aldeia, formada por 55 casas, está a residência do cacique e a Opy, que é a Casa de Reza. Possui ainda um posto de saúde com atendimento médico periódico e uma escola de 1º grau, mantida pela ACIBRA – Associação Indígena de Bracuí.  Apesar da beleza natural, é difícil plantar, devido à inclinação dos morros e a baixa qualidade da terra.

           

   A aldeia de Itatiim (Pedra Branca) está localizada a 4.5 km da rodovia Rio-Santos, no distrito de Parati-Mirim, município de Parati.  Seus habitantes, entre 90 e 100,  ocupam uma pequena área de 79 hectares, a 200 m acima do nível do mar, onde fazem suas roças. A ocupação se deu em diferentes momentos, desde o final da década  de 1940. A área, reivindicada pelas fazendas Paratimirim e Independência, foi desapropriada para fins de reforma agrária pelo governo estadual. Na ocasião, os Guarani foram “assentados”, em sua aldeia. Até hoje, os índios guardam zelosamente um documento de 1964, assinado pelo padre Antônio Costa Carvalho, executor do Plano de Aproveitamento de Terras Devolutas.

  A aldeia Araponga está  totalmente inserida no Parque Nacional da Serra da Bocaina, criado em 1971, sob a administração do IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis. Cortada pelo rio Paraty-Mirim, está situada a 7 km. da rodovia Rio-Santos, partindo da localidade denominada ‘Patrimônio’, no município de Parati. Possui uma população de aproximadamente 40 índios, que vivem num território de 223 hectares, registrado em 1996. Das três aldeias, é a de mais difícil acesso, situada em área montanhosa, a 600 metros acima do nível do mar, tendo como ponto de referência os morros do Cuzcuzeiro e da Forquilha. Possui árvores de grande porte, como jacarandá, cedro, canela, oiti, peroba, louro, além de uma riqueza grande de diferentes palmeiras e plantas. Algumas espécies animais ameaçadas de extinção são encontradas na área como: muriqui, macucú, jacutinga, pavão, gavião-pega-macaco, veado mateiro e catingueiro.

 

    As Casas e os arquitetos descalços

 

As habitações, denominadas Oo em  língua Mbya, estão relativamente distantes umas das outras e abrigam famílias nucleares. O saber e a técnica usados para construí-las são produtos da cultura guarani e do contato com a sociedade nacional.

Essas casas são, geralmente, pequenas construções de duas águas, feitas com bambu ou troncos cortados a machado de forma longitudinal, fincados no chão, amarrados a uma travessa no sentido horizontal, com cipó guaembé. Quase sempre sem janelas, possuem, no entanto, duas portas, uma em cada extremidade. O teto das habitações é feito com travessas de bambu ou finos barrotes de madeira, revestidos com folha de palmeira pindó ou guaricanga, algumas delas reforçadas por lona, plástico e/ou papelão..

  Esta forma de construir casas já foi modificada em algumas aldeias Mbyá do Espírito Santo. Mudanças similares foram projetadas para a Aldeia Sapukai, graças à assessoria do Instituto Tibá de Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitetura. Essa entidade, sem fins lucrativos, estimula a ação dos “arquitetos descalços”, resgatando a herança popular na arte de construir e o uso de materiais locais e técnicas tradicionais, combinando-os com noções de higiene, saneamento, uso de energia solar e técnicas alternativas na construção.

 Na maioria das habitações, existe uma divisória separando o ambiente. De um lado, fica  a área social da casa, que ocupa dois terços do espaço; de outro, uma área menor,  mais isolada, restrita aos moradores.

O mobiliário é extremamente simples. Em algumas casas, é possível observar grandes cestos de taquara e mesas rústicas, mas em geral encontra-se apenas alguns bancos de tábua serrada presa com pregos, além de estantes ou armários de bambu taquara, onde são guardados utensílios domésticos, vasilhas, panelas, latas e recipientes de plástico. No centro do cômodo maior, uma fogueira. No cômodo menor, o tupa, que é uma cama de troncos de palmeira pindó, cobertos com suas folhas, alguns cobertores industrializados de lã. Quando o casal tem filhos, uma pequena escada permite o acesso das crianças à cama. O uso de mosqueteiro foi observado entre alguns Mbyá sobretudo do Espírito Santo.

O chão da casa é de terra batida e, normalmente, está coberto por cascas de alimentos, resíduos de papéis e plásticos. Patos e galinhas circulam dentro e ao redor das habitações, onde muitas vezes fazem seus ninhos e comem insetos. Quase todas as casas possuem um ou mais cães.

     A agricultura e as roças coletivas

 

A agricultura e o artesanato são atualmente as principais fontes de subsistência dos Mbyá do Rio de Janeiro. Outras fontes são a criação de animais domésticos, um pouco de caça e pesca, além de trabalho assalariado temporário fora da aldeia.

 O Guarani é tradicionalmente um povo agricultor, que acumulou saberes seculares sobre as propriedades medicinais dos vegetais, domesticou plantas, realizou experimentos genéticos, selecionou sementes e testou hipóteses para melhorar as espécies, acumulando conhecimentos e oferecendo algumas das opções mais viáveis e promissoras para o uso de recursos sustentáveis nas matas sub-tropicais.

            No entanto, hoje, nas três aldeias do Rio de Janeiro, a agricultura não tem o mesmo peso do passado, porque as terras, de baixo potencial agrícola, oferecem dificuldades para o plantio. O vice-cacique da Aldeia Sapukai, Luiz Eusébio, confirmou para o antropólogo Litaiff:

“Prá quantidade de índio que mora aqui, setecentos hectares é muito pouco. Aqui tem pouco mato. A terra boa de plantar está lá embaixo, mas é dos brancos, aqui não dá quase pra plantinha, tem muita pedra”. 

Apesar dessas dificuldades, os Mbya mantém uma grande área de lavoura coletiva, além de roças menores, próximas às casas, com produção destinada ao consumo diário dos moradores de três a cinco residências. Recentemente, com a orientação de técnicos da EMATER, foi elaborado um projeto autosustentável de agricultura familiar para as aldeias de Araponga e Itatiim, prevendo a plantação de arroz, mandioca, palmito e milho, com a construção de uma casa de farinha para melhor aproveitar a mandioca, certamente um dos alimentos mais consumidos pelas três aldeias.

 Entre os Mbyá da aldeia Sapukai,  o milho (awati) e a mandioca (mandio) são os principais alimentos. Mas eles cultivam também a batata-doce (jeti), a banana (pakoa), a cana (takuareen), o feijão e o abacaxi. O antropólogo Litaiff registrou lá quatro tipos diferentes de milho: awati ju, amarelo de espiga pequena; awati si, espiga branca e macia; awati para í, espiga com grãos coloridos e awati ju guaçu, espigas grandes e amarelas.

Os Guarani costumam falar de alguns alimentos que, junto com a mandioca, o milho, a banana, o feijão e o amendoim são considerados típicos do Mbya: kora, farofa à base de farinha de milho ou de mandioca; huixim, paçoca de farinha de milho com amendoim; mbojape, tipo de pão feito com farinha de trigo e/ou milho assado dentro da fogueira; biju, massa feita de mandioca e água e mbyta, bolo de milho verde. Junto aos alimentos citados, consomem produtos industrializados como macarrão, arroz, sopa em pacote e enlatados. 

 

    A caça, a pesca e outras atividades

 

A caça está desaparecendo das florestas da Serra do Mar. Os desmatamentos, as queimadas e a caça intensificada pelos brancos são os principais causadores deste problema. Os poucos animais que ainda existem – veado, tatu, gambá, quati. tateto e  porco do mato – são caçados em geral através de diferentes armadilhas.

A pesca também varia de acordo com as possibilidades ambientais. “Aqui em Bracui dá prá ir pescar na praia. (...) Não pesca com anzol e linha, só com pirambua, que é cestinho com isca pro peixe entrar dentro, assim, diz o cacique Verá Mirim.

Pretende-se povoar o rio Pirapitanga, com várias espécies, entre as quais tambaqui, pacú e tilápias, através de um projeto elaborado recentemente pela EMATER, além de aproveitar o relevo acidentado do terreno para construir açudes e criar peixes.

 A criação de animais domésticos não fazia parte da cultura guarani. No contato com a sociedade nacional, os índios aprenderam rapidamente a criar alguns animais. Hoje, os Mbyá do Rio de Janeiro criam coletivamente patos, marrecos, galinhas, porcos e cabritos, que ficam soltos pela aldeia.

Muitos Guarani, tanto em Angra dos Reis como em Parati, apesar de não gostarem, também trabalham temporariamente fora da aldeia, em serrarias, plantações e extração de palmito. Este trabalho assalariado, segundo o antropólogo Aldo Littaif, desarticula a economia cooperativa familiar, individualizando a força de trabalho, tornando-a vulnerável à penetração da sociedade branca.

 

   A arte guarani: tradição e inovação

 

A arte guarani pré-colonial se caracterizou por uma expressiva variedade de desenhos geométricos aplicados em diferentes tipos de suporte: na pintura corporal, nos tecidos, nas máscaras, nas cestarias, nas esculturas em madeiras, mas sobretudo na decoração de cerâmica, conforme indicam as notícias dos primeiros cronistas e os dados arqueológicos. Esses desenhos, cujos significados foram estudados por alguns pesquisadores, como Fernanda Tocchetto, comunicam mensagens e expressam conteúdos relacionados à mitologia e à cosmologia guarani. Contudo, no convívio cotidiano com a população brasileira, as tigelas e potes de cerâmica foram substituídos por peças de alumínio e plástico, afetando a expressão artística tradicional, que modificou suas fontes de inspiração. Os desenhos sofreram mudanças e foram adaptados para aplicação em artefatos que passaram a ser produzidos para a venda, mantendo algumas características tradicionais.

 Hoje, os Guarani Mbya têm  no artesanato produzido para o mercado uma importante fonte de subsistência, usando para isso vários tipos de cana, palha, raiz e cipó. No entanto, na área onde vivem no Rio de Janeiro, como “tem pouco mato, porque o branco já derrubou e queimou quase tudo”, conforme relato do cacique Verá Mirim a  Aldo Litaiff, é muito difícil encontrar a matéria prima para fazer tinta. Desta forma, o uso da tinta vegetal está desaparecendo na região. Por isso, os corantes naturais para colorir as fibras e penas estão sendo substituídos pela tinta de tecidos e de papel carbono e até mesmo de Q-suco.

Os produtos artesanais são vendidos ao longo da rodovia Rio-Santos ou nas ruas e praças de Angra dos Reis e Parati. Dependendo da distância, o transporte da aldeia para o local de venda é feito de ônibus ou a pé. Os objetos mais vendidos aos turistas são: colares, arcos e flechas de vários tamanhos (confeccionados exclusivamente para a venda), chocalhos, abanadores e cestarias de diversos tipos e tamanhos. Mas as peças de destacada importância comercial são os cestos ou balaios, denominados ajaka, que possuem, quando são grandes, uma tampa reforçada com cipó guaembé e uma grossa lista circular de taquara, com diferente trançado. Neste caso, o acabamento do cesto, feito com um trama especial, torna as bordas mais duras e resistentes. Alguns deles possuem alças ou trancas feitas de fibra de cipó.

Apesar de bastante transformada devido ao contato com o turismo e o mercado, a cestaria continua sendo uma das principais “marcas culturais” dos Mbyá, mantendo os seus três desenhos básicos tradicionais: Ipara kora,  em forma de losango; Ipara jaça, em cruz e Ipara icy, em esse. Num processo de tensão provocada pela articulação entre tradição e inovação, os Guarani estão permanentemente recriando a tradição, introduzindo novos sentidos e novos símbolos. Não se trata de um patrimônio congelado, vinculado apenas ao passado, mas de algo vivo, ligado ao seu presente e a seu futuro.

 

    A religião: os teólogos da América
 

Os Guarani foram considerados por alguns estudiosos como “os teólogos da América”, devido à sua profunda religiosidade, que se manifesta em todo momento, no cotidiano, penetrando nas diversas esferas da vida social. As próprias atividades econômicas aparecem muitas vezes como simples pretexto para a realização de cerimônias. A colheita de produtos da roça pode ser motivo para rezas e danças rituais. O ciclo econômico anual é, antes de mais nada, um ciclo de vida religiosa, que acompanha as diversas atividades de subsistência. A religião é, assim, um dos mais importantes fatores de identidade para os Mbyá.

Na concepção deles, a alma está vinculada com a palavra. Cada pessoa é uma encarnação da palavra. Quando nasce uma criança e o xamã revela o seu nome, é essa palavra que providencia um lugar para si no corpo do novo ser. A antropóloga Graciela Chamorro observa que os guarani buscam a plenitude e a grandeza de coração através da prática da reciprocidade, que se enraíza na palavra. A sabedoria surge do controle da fala, da aprendizagem das ‘belas palavras’. “Quando a palavra, definitivamente, não tem mais assento na pessoa, esta morre, tornando-se uma palavra desarticulada”.

Na aldeia, a maior construção é a Opy - a Casa de Reza, cujas paredes são feitas com madeiras mais resistentes que as usadas para as moradias, presas com prego e revestidas de barro.  Não possui janelas, apenas duas portas, uma voltada para oeste, de frente para o pátio central e a outra para leste, na direção do mar. O chão é de terra batida e o teto de folha de pindó. O seu mobiliário é constituído por alguns bancos, uma rede e uma fogueira. 

Nas três aldeias Mbyá do Rio de Janeiro, a reza ou porahei é uma atividade comunitária que acontece todas as noites, com a participação de todos. Inicia-se por volta das 19 horas e vai até a meia-noite, podendo algumas vezes estender-se até a manhã. O cacique dirige a cerimônia, enquanto os demais, coletivamente, rezam, cantam e dançam para as divindades darem força para não terem doença, para não morrerem, para não apodrecerem a carne, para atingirem o estado de agüyje (de imortalidade).  Segundo Silvia Guimarães, “esses cantos-rezas são as ‘divinas palavras’, que foram feitas por Nhãderu e são revelados em sonhos às pessoas”.

Os Mbyá mantêm fidelidade à religião tradicional, resistindo às investidas de grupos evangélicos e de outras religiões. O cacique Verá Mirim, em depoimento a Aldo Littaif, declarou, apontando para a Casa de Orações:  “aqui é pra nossa reza, é pra se lembrar de Deus. Nós rezamos diretos com nosso Deus, Ñanderú; católico já tem santo. Esse é o nome de nosso Deus, Ñanderú”.

 Alguns objetos rituais, como o petygua,  o tetymakua, o popygua (bastão de reza) e o ajaka (cesto) são símbolos concretos de  cultura Guarani.

O cachimbo, denominado petygua, é  utilizado durante a reza. Quase todos os Mbyá, incluindo as crianças, fumam cachimbo, usando o petu-hu, tabaco preto, plantado na aldeia, geralmente pelas mulheres, ou o fumo de corda comprado nos bares e vendas próximas. Cada casa possui um ou mais cachimbos, que são fumados coletivamente e oferecidos aos visitantes. Em Bracuí, foram registrados dois modelos: o de barro e o de “nó de pinho”, ambos com piteira de canudo de taquara.

O Tetymakua (tetyma = perna, kua = prender no meio)  é uma corda feita de cabelo trançado  e enrolado várias vezes em torno de cada perna, logo abaixo dos joelhos. Apenas alguns Mbyá mais velhos usam este adorno. Esta peça, segundo os informantes de Littaif, é feita pela sogra a partir de seu próprio cabelo.

 No passado, furava-se o lábio inferior dos meninos ao entrarem na puberdade, para usarem o tembeta, uma haste de resina ou taquara. Litaiff encontrou em Bracuí apenas dois indivíduos com perfuração labial: o homem mais idoso da aldeia e um Mbyá da Argentina, de cinquenta anos.

 A importância da religião Guarani pode ser avaliada através das palavras do vice-cacique, Luis Eusébio: “Se o Mbyá deixar a religião dele, a língua, vai começar a beber, faz baile, tem briga com parente, casa com branco e desaparece a nação, morre o índio”. Segundo a antropóloga francesa Hélène Clastres, a religião Guarani significa para os índios a sua própria condição de sobrevivência, num mundo superpovoado pelos brancos, uma vez que ela contém os ensinamentos sobre convivência, tolerância e estratégia. Quanto mais diminuem as diferenças de hábitos entre índios e brancos, na esfera do/ao nível do cotidiano, maior força tem a religião, que passa a ser um fator decisivo de diferenciação étnica.

    As festas e as danças

 

Numa cartilha usada na escola da Aldeia Sapukai lê-se: Py oi ojeroky aguã Xondaropy, o que significa: “Temos os pés para dançar Xondaro”.

O Xondaro ou Txondaro é uma dança tradicional realizada pelos homens no final da tarde, antes do pôr do sol, no pátio central, ao som da rabeca. Esta dança possui um componente religioso, com significado cultural marcante para a comunidade Mbyá. Nela se insere uma espécie de jogo, mas seu intuito é o aquecimento, isto é, esquentar o corpo para as rezas noturnas e para proteger a opy. Sua coreografia segue os princípios de três pássaros: mainoi (colibri) para o aquecimento do corpo; taguato (gavião) para evitar que o mal entre na opy; mbyju (andorinha), cuja coreografia é uma espécie de luta onde um deve “derrubar” o outro com os ombros e esquivar-se de um possível tombo.

No ano de 1999, um grupo de jovens da Aldeia Sapukai promoveu a revitalização do Txondaro, reunindo-se todas as quartas-feiras com esse objetivo.         

Dos variados instrumentos musicais usados pelos Guarani, dois deles podem ser encontrados entre os Mbyá de Bracui: o mbaraca, que é um violão comum de madeira, tipo ocidental, com cinco cordas de nylons, afinadas de forma específica, diferente da convencional e a ravé ou rabeca, que é um violino feito artesanalmente de pele de cotia ou “palmito duro”, com três cordas de aço, acionadas por um arco de trinta e cinco centímetros, feito de corda de imbira, preso a uma haste de pindó.

Outros instrumentos comuns entre os Mbyá, não observados no Rio de Janeiro, mas presentes em outras aldeias do litoral, são as flautas mimby reta e mimby-i, feitas de taquara. A primeira, com 51 cm de comprimento e 2 cm de diâmetro, tem seis orifícios; a segunda,  com cinco orifícios, mede 30 cm por 1 cm. Uma forma de tocá-las é descrita por Litaiff: no entardecer, três ou mais mulheres sentam-se com suas flautas no pátio central da aldeia. Então, cada uma delas toca apenas uma nota, imediatamente seguida pela nota emitida por outra e mais outra e assim a música prossegue. 

 

    O namoro e o casamento

 

A sociedade guarani, apesar da aparente supremacia masculina, pois são os homens que se relacionam mais abertamente com a sociedade envolvente, é sustentada pela complementaridade efetiva de papéis e valores masculinos e femininos. Nas atividades cotidianas, aos homens cabe a direção; às mulheres, a orientação.  

Na aldeia, a instituição do namoro e do casamento é descrita por um Mbyá de Bracui, citado por Litaiff: “O casamento começa namorando assim: a gente vai lá na casa da moça, começa a se agradar, fica rindo e vai indo até que a gente fala com a mãe dela se dá pra morar ou não. A gente já tava se olhando um pouco, daí a mãe dela concordou. Não levou muito tempo e eu já casei”.

 O  ritual do casamento é realizado pelo cacique e registrado no livro da FUNAI.

Os Guarani procuram manter a endogamia, considerando como casamento ideal aquele realizado entre indivíduos do mesmo grupo, da mesma aldeia ou de outras aldeias Mbyá. Um dos principais fatores de identidade é justamente a obrigação de morar na aldeia. Se um membro do grupo casar com alguém de fora, deve deixar a comunidade, e portanto, não é mais Mbyá, porque saiu da aldeia.

Sobre essa questão, o cacique Verá Mirim esclarece:

                               “O branco casa com mulher Guarani, mas não deixa mulher branca casar com índio. Outra índia também não vai casar com o guarani. Algum índio casa com branco, mas não pode misturar, acaba nação, a criança fica tudo misturadinha. Se jogar um pouquinho de milho num saco cheio de arroz, o milho desaparece. Com Guarani é assim, muito pouquinho, branco já tem muito, então se misturar o índio desaparece. Aqui na aldeia aconteceu pouco”

    As crianças e as brincadeiras infantis

 

Um dos ritos mais importantes dos Guarani é o mitä mbo’éry – quando se dá um nome à criança, o que ocorre geralmente no primeiro ano de vida. A pesquisadora Graciela Chamorro presenciou uma dessas cerimônias e registrou o discurso do celebrante naquela ocasião:

“As crianças são como as plantas, como as sementes. (...) Por isso, a mãe e o pai, as madrinhas e os padrinhos devem cuidar e limpar os filhos para crescerem felizes como o pé de milho e de arroz quando são beijados pelo vento. Enquanto crianças crescerem no mundo, há esperança”. (...) Sem criança, o mundo vai acabar (...) Criança é a nossa vida”.

No mundo guarani, as crianças são socializadas sem repressão. “Mbyá puro não bate na criança. Bater não, nunca, tem que falar só, não precisa bater nem brigar”, declarou uma jovem Mbyá, mãe de três filhos, num discurso registrado por Litaiff. 

O pátio central da aldeia, em frente à Casa de Reza, é o espaço usado para reuniões, onde o cacique fala à sua comunidade. É também o lugar de festas, dança e brincadeiras infantis, ocupado diariamente por grupos de crianças que brincam o dia inteiro. O futebol e a bolinha de vidro ou bolita, são os brinquedos prediletos. Yolanda Benite, índia Mbyá, explica: “Menino brinca de bolinha de vidro, brinca de caçar, futebol; menina já é diferente, menina brinca com semente de milho Awati ete í, que é o milho do índio, brinca com boneca, faz o balaiozinho, assim”.

O cacique Vera Mirim fala das brincadeiras e cantigas infantis Guarani. Uma delas: as crianças ficam em fila, agachadas, com as duas mãos no ombro da criança imediatamente à frente, e caminham, como um pato, nesta formação, cantando uma música com o seguinte verso: “Amandáu Kyuí í, amandáu kyuí kyuí í”,  repetido várias vezes. Vera Mirim explica que esta música fala de uma minhoca, que sai de um buraco no momento em que uma pedra rola sobre ela, então as crianças tentam avisar ao pequeno verme sobre o perigo iminente.

O banho de rio ou de cachoeira é outro divertimento. Na aldeia Sapukai, em Bracuí,  existe um antigo tanque de captação de água, que serve de local de banho.

Devido aos problemas relacionados à agricultura, a alimentação das crianças nem sempre é adequada. Nas aldeias, é possível encontrar crianças menores de três anos, doentes e subnutridas, havendo alguns registros de mortes por pneumonia, diarréia e desidratação, causadas pela subnutrição.

   A escola bilingüe: a resistência

 

Na sociedade Guarani, são as pessoas mais idosas que detêm os saberes tradicionais. São elas, portanto, as encarregadas de transmiti-los às novas gerações. Daí a profunda desconfiança manifestada pelos mais velhos em relação à escola, que vem trazer novas formas de socialização do conhecimento, colocando em outras mãos, menos experientes, a tarefa de perpetuar a tradição.

Segundo o historiador Paulo Borges, que estudou o processo de escolarização dos Guarani, o cacique de Sapukai, Verá Mirim, só começou a aceitar, sem reservas, a experiência escolar em sua comunidade, em meados de fevereiro de 1996, quando compreendeu que “a opy guasú – casa de reza – é a raiz de tudo e a escola só é mais um galho”, ou seja, que a sala de aula  não compete com o reko (costume) guarani.

Existem três escolas, uma em cada aldeia.

A Escola Kyringue Yvotyty (Aprendizes do Jardim de Flores), na aldeia Sapukai, é a mais antiga e a mais bem aparelhada. Suas atividades começaram em 1985, quando o guarani Algemiro da Silva, filho do cacique, começou a alfabetizar crianças, debaixo de uma árvore. Hoje, funciona num prédio próprio, com salas, carteiras, estantes, aparelho de vídeo e merenda escolar.

A escola de Parati-Mirim não tem local próprio, funciona na Casa de Reza, com os alunos sentados em bancos improvisados, num ambiente sem luz ou ventilação. Só em 1999  algumas carteiras foram ali colocadas. Seu professor é o índio guarani Sérgio.

Na escola da aldeia Araponga, numa casa de palha com uma mesa e dois grandes bancos de madeira, os alunos aprendem outra história, baseada na tradição oral, como atesta seu professor, o guarani Nírio da Silva:

“Em 1500 havia muito mais índio guarani do que branco. Mas os brancos chegaram matando os guaranis. Esse tipo de história, meus avós contavam para mim, quando eu tinha dez anos de idade”.

Num depoimento contundente,  Algemiro, o professor guarani mais experiente do Rio de Janeiro, definiu com clareza:

“A nossa escola tem que falar de nossa história, de nossa língua e respeitar a nossa religião, e hoje eu acho que somente o professor indígena, o professor guarani é que pode dar aula em uma escola indígena”.  

            Desta forma, a escola é considerada como um bastião de resistência cultural. No entanto, com esta posição de resistência, os Guarani não querem viver confinados em um gueto. Eles estão abertos ao diálogo, querem conhecer outras experiências e interagir com a cultura brasileira. Mais de 60 líderes indígenas reunidos em outubro de 1993, em Itapecirica da Serra – SP, na IV Assembléia Nacional da Nhemboaty Guasú Guarani - organização que congrega os Guarani que vivem no Brasil – aprovaram um texto, definindo a escola que queriam, com um conjunto de propostas, entre as quais destacamos duas:

    " A escola deverá ensinar às crianças a história do povo Guarani para garantir a continuidade da cultura Guarani”.

      “É importante conhecer o mundo do povo branco para que não sejamos prejudicados e enganados, para melhor lutar, saber negociar, exigir direitos, etc.”

Desta forma, hoje, as crianças guarani são alfabetizadas em sua língua materna e aprendem o português como segunda língua, freqüentando uma escola específica, diferenciada, bilingüe e intercultural,  garantida pela Constituição de 1988. O idioma guarani continua sendo a língua de comunicação interna e o português a língua de relações com o outro.

Os Guarani realizam ainda atividade extra-escolar. O historiador Paulo Borges desenvolveu, em 1998,  um trabalho com imagens junto aos educadores indígenas, alguns dos quais manifestaram interesse em aprender a fotografar. Daí, foi realizada uma oficina com líderes das três aldeias, que aprenderam as regras básicas de fotografia. Outra experiência interessante foi realizada por uma artista plástica, com pinturas em tecidos.

 

   Nhande-reko: o jeito de ser guarani

 

O Guarani é um povo circulante. Eles próprios se definem como tapédja, ou seja, o povo de peregrinos e viandantes, conforme já assinalou Egon Shaden. Alguns autores destacaram a motivação religiosa dessas migrações, que visariam encontrar a terra sem males; outros, chamaram a atenção para diversos fatores como a busca de terras mais férteis ou a procura de proximidade com os parentes.

O certo é que, nesses deslocamentos, cuja dinâmica não deve ser confundida com o nomadismo, os Guarani mantiveram historicamente relações com outros povos, de quem souberam aproveitar contribuições e com quem mantiveram diálogos nem sempre simétricos. Desta forma,  modificaram muitos aspectos de sua cultura sem, no entanto, abandonar o que consideram essencial no nhande-reko, isto é no “jeito de ser Guarani”. 

Os Mbya vestem-se com roupas ocidentais usadas, quase sempre doadas, raramente compradas novas. Alguns usam pulseiras e colares feitos com “Lágrima de Nossa Senhora”, tipo de vegetação abundante em Bracuí. Os relógios de pulso são muito comuns, mas nem sempre funcionam. As mulheres enfeitam-se com brincos e colares ocidentais e algumas se pintam.

A antropóloga Maria Inês Ladeira observou que os elementos da cultura nacional, incorporados pelos Mbyá, são absorvidos diferentemente. Assim, as roupas, as louças, os objetos eletrônicos têm sua utilização sujeita aos padrões do grupo e sua duração condicionada às necessidades imediatas do possuidor.

As mudanças refletem o ajustamento dos Guarani a uma nova situação de vida, demonstrando desta forma a sua capacidade de resistência diante da situação de contato, na medida em que reorganizam seus códigos culturais para enfrentar as tensões vividas no cotidiano.

Diante das perseguições culturais e físicas sofridas nos últimos 500 anos de contato intenso e permanente com a sociedade envolvente, os Guarani Mbya desenvolveram vários mecanismos de resistência para guardar e viver suas tradições culturais e religiosas, garantindo sua reprodução enquanto povo e etnia.  Seus métodos não excluíram o convívio inevitável com o branco, com quem sempre procuraram manter um relacionamento amistoso. A demonstração de respeito aos costumes e religiões alheias e o modo de trajar-se copiado da população regional significam uma estratégia de autopreservação, mais do que submissão a um processo contínuo de aculturação. Desta forma, sob o traje que encobre diferenças profundas, os Guarani tentaram, embora nunca renegando sua condição de índios, resguardar-se de novas feridas.

 

   Tekoá: a interculturalidade

 

Os Guarani denominam a terra onde vivem de tekoá, ou seja, a Terra Guarani, lugar onde se dão as condições de possibilidade do modo de ser guarani. Sem terra, não há cultura.

Os Mbyá tiveram que se adaptar ao modelo ocidentalizado, principalmente em termos econômicos, para sobrevirem ao violento contato com a sociedade nacional. Algumas aldeias vivem dignamente, outras estão mergulhadas na extrema pobreza, quase favelizadas, contribuindo para que os índios perambulem pelas estradas do Brasil, usando roupas ocidentais em péssimo estado de conservação.

No entanto, os Mbyá do Rio de Janeiro conseguiram manter importantes características culturais. Todos eles falam o Guarani como língua materna e a maioria aprendeu o português como segunda língua. A religião, a endogamia e outros componentes da organização social permanecem vivos no meio da mudança. Trata-se, portanto, não de uma transferência mecânica de conteúdos de uma cultura a outra, mas de uma construção mancomunada de novos significados, sem renunciar as próprias tradições.

  Os etnólogos concordam que diante das pressões da sociedade nacional para abandonarem sua etnicidade e cultura, os Mbya constituem atualmente o que podemos chamar de um dos exemplos mais bem sucedidos de preservação de identidade. O Mbya muda, mas não desaparece. Muda para não desaparecer. Quinhentos anos depois, os Guarani resistem. Tem índio no Rio de Janeiro.

 

 

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Webmistress: Ludimila S. Fernandes*