Contribuição para a história do lesbianismo em Portugal

Século XIX

"Má vida" era mesmo má
 
Hontem á noite, no beco das Cruzes, frequentado por mulheres de má nota do bairro de Alfama, deu-se uma cena de ciumes, entre duas d'essas desgraçadas, tendo ficado uma d'ellas com uma facada no pescoço. No dito beco, nº30, loja, moram Hermínia Viegas e Maria da Conceição Menezes, duas raparigas ainda bastante novas. Entre ellas houve uma cena de ciumes, por questões futeis, e a Maria quiz sahir de casa, chegando a remover a sua roupa para casa de Silvana Rosa da Silva, na loja 28. Pouco de depois entrou novamente em casa da Hermínia, fechando a porta, applicou á ex-companheira alguns soccos, e em seguida jogou-lhe uma facada ao lado direito do pescoço, fazendo um extenso golpe. Maria tentou depois escapar-se, correndo para a rua; mas, sendo perseguida pela ferida, que gritou por soccorro, foi presa e conduzida á esquadra do pateo de D. Fradique. A Herminia foi levada ao banco do hospital de S. José, onde a pensaram, sendo a ferida cozida a pontos naturaes. A navalha, que dizem ser de ponta e mola, não foi encontrada.

Diário de Notícias 19/11/1898 transcrito na rúbrica Memória do Diário de Notícias de 19/11/1998, pág.3.

Século XX

No início do século XX, Egas Moniz publica o seu livro A Vida Sexual. O segundo volume, Pathologia (1902) tinha um capítulo sobre homossexualidade em que eram citadas as teorias de alguns dos criadores da homossexualidade como Krafft-Ebbing, defendendo-se uma visão "científica" da homossexualidade enquanto doença e perversão que irá perdurar ao longo do século XX. O livro de Egas Moniz que foi sucessivamente re-editado, permaneceu como livro de referência e de grande influência em Portugal, quer no meio médico, quer no meio jurídico.

O tribadismo está bastante espalhado e grassa com grande intensidade, epidemicamente mesmo, nos centros mais populosos da Europa. Encontram-se em todas as sociedades, mas onde mais se evidenceia é no mundo da prostituição, entre as actrizes e no seio da aristocracia.

(...) A tribade passa uma vida intima de torturas por não ter nascido homem: ella e o uranista completar-se-hiam operando uma troca de orgão sexuais.

(...) A inversão sexual é uma doença tão digna de ser tratada como qualquer outra.

Egas Moniz (1902) A Vida Sexual - Pathologia

A poesia de Judith Teixeira

Durante a primeira República, Judith Teixeira (1880-1959) publica poemas em que, de modo explícito e desassombrado, fala do amor e do erotismo entre mulheres. Juntamente com outros escritores, como António Botto e Raul Leal, que também abordam explicitamente essa temática, levantam um vendaval de reacções da sociedade portuguesa em vias de entrar em regime ditatorial.

Em Março de 1923 o Governador Civil de Lisboa faz apreender, para depois cremar, exemplares de Decadência de Judith Teixeira, de Sodoma Divinizada de Raúl Leal e das Canções de António Botto. Fernando Pessoa fará a defesa de António Botto e Raúl Leal em "Aviso por causa da moral", enquanto que Judith Teixeira irá defender-se com uma conferência pública, "De mim".

A socialização nos 50-60

Uma vez fui convidada para uma casa onde se dizia haver bacanais (de homens e mulheres) mas eu tive medo, não fui. E depois, se aparece a polícia? Conhecia uma senhora que vivia com outra e com elas ia ao teatro ao Parque Mayer. Uma vez fomos propositadamente ouvir uma fadista de quem falavam. Nos anos 50 era tudo à socapa, íamos de carro dar uma volta por aqui e ali. Havia festas particulares. Na altura, alugava quartos em casa e todas as minhas hospedes alinhavam, deixava-as fazer tudo e mais alguma coisa, trazer as suas amigas (na altura já estava separada).

Entrevista com Peres (Lilás nº4, 1993, pág.33)

 

A Costa da Caparica antes da ponte. Não havia sítios oficialmente conotados. Mas havia sítios onde as pessoas sabiam que iriam encontrar outras, por transmissão pessoal. Um dos locais onde nos encontrávamos foi escolhido porque encontrámos da primeira vez que lá fomos algumas pessoas interessantes e com determinadas características. Havia grupos fechados que se convidavam entre si, mas os lugares públicos eram perigosos por causa da Polícia dos Costumes. A qualquer hora podiam aparecer 2 ou 3 agentes que identificavam todos os presentes e levariam presos os que não tivessem identificação consigo ou que lhes parecessem suspeitos; presos pelo menos por algumas horas, mas ficando isso registado no cadastro individual. Por isso as pessoas fugiam a esse tipo de lugar. Alguns dos nossos amigos gay contavam-nos dessas rusgas efectuadas.

Entrevista com Ana Silva (Lilás nº8, 1994, pág 35)

A PIDE e as lésbicas

(...)A porta é aberta pelo dono da casa e de rompão eles entram e começam a pedir identificação, olham-nos um a um e levam-nos a todos. Éramos sete, dois vw pretos estacionados à porta do prédio, entrámos, perguntámos para onde iamos, o que tínhamos feito para tal acontecimento. A resposta foi apenas que tínhamos de ir para o Governo Civil.(…)
Passaram-se horas entre perguntas e papéis, entre cigarros e telefonemas, entre esperas e mais interrogatórios, mas ainda não era aqui a paragem definitiva. Com uma comitiva descemos umas escadas que me pareceu então serem a traseira do edifício. Um carro celular esperava por nós. O meu primo Sá e outra rapariga foram dispensados, não percebi muito bem porquê, até hoje. Polícia Judiciária, fomos divididos como leprosos em salas e salinhas separadas apenas por uma vidraça, todos nos víamos mas não nos ouvíamos. O medo e o terror eram visíveis nos nossos olhos.
AP. era o nome do agente que me tinha tocado para interrogatório mais íntimo. Tu és fufa? Perguntou. Lembro-me de ter dado um sorriso, sorriso esse que o homem quebrou com a sua mão na minha cara, estremeci, não pude evitar que as lágrimas caíssem, mas respondi: EU SOU HOMOSSEXUAL.
O homem irritado agarra na carcela da minha camisa azul-bébé suja de sangue, puxa-me para ele, e quase entrando pela minha boca dentro, diz-me: vais ter de dizer a bem ou a mal o que fazes com as mulheres na cama!(...)
Apenas recordo três noites que lá passei, a tareia que levei, os amigos que não o eram e a minha amiga Adelaide, que por lá ficou nesse ninho de baratas tontas quarenta e cinco dias, depois foi levada para Caxias mais dois meses e finalmente foi internada no IPO já cancerosa onde viria a falecer sessenta e oito dias depois, devido aos maus tratos, às águas que escorriam pelas paredes da cela, à má alimentação, aos chicotezinhos e ainda mais grave, por ter sido 24 anos lésbica.
Eu porém era seguida, não podia falar com ninguém, os telefones estavam sob escuta, os pais alertados, os amigos que pensara ter foram-se! Sair do país era a única maneira de deixarem as minhas amigas e algumas namoradas em paz, assim aconteceu. Quando volto de Barcelona algum tempo depois rebenta o 25 de Abril (…)

"Helena Correia, Excerto de "Retrospectiva singular da vida homossexual dos anos 60 (Lisboa)", 1997

As lésbicas e as feministas no pós 25 de Abril

Enquanto que no resto da Europa e nos Estados Unidos, os anos 70 e 80 representaram um surgimento do movimento lésbico, e uma visibilidade lésbica nunca antes vista, essencialmente por via do ressurgimento do movimento feminista, em Portugal, em que não houve um movimento feminista consistente, ou pelo menos com grande impacto social, o mesmo não se passou. No entanto, nos grupos feministas de mulheres formados após o 25 de Abril (por ex: MLM, Movimento de Libertação das Mulheres, e o IDM, Informação-Documentação Mulheres), havia um grande número de lésbicas, sendo estes um primeiro pretexto para que estas se envolvessem num activismo militante. Contudo nunca se formaram grupos autónomos de lésbicas como aconteceu no estrangeiro. No início do MLM (1974) o lesbianismo ainda era um assunto de que se falava, nomeadamente por influência do que se estava a passar no estrangeiro mas, rapidamente, as lésbicas começaram a ser postas de parte. Em grupos feministas que se formaram mais tarde como o IDM (1978), em que a maioria das mulheres eram lésbicas, parecia haver uma auto-censura, uma vez que não se podia falar sobre lesbianismo, nem expressar nenhuma afectividade lésbica.

Quando o MLM começou e durante muito tempo, não houve lésbicas no movimento. Apesar disso, o lesbianismo era muito falado entre nós, porque nessas reuniões falavam-se das coisas mais íntimas das mulheres, coisas para as quais aquele era o único espaço possível de discussão. Dentro do MLM apareceram mulheres que tinham estado em grupos estrangeiros. Havia muita informação trazida por elas. Também, com as experiências horrendas que muitas mulheres tinham vivido e que partilhavam nas nossas discussões, muitas se interrogavam se queriam ou podiam continuar a viver com homens. Havia uma enorme apetência por parte de muitas de nós para a experiência do lesbianismo. Uma vez apareceu um grupo informal de lésbicas, foram as primeiras que alguma vez tinha visto. Em resumo, na primeira fase do MLM, o lesbianismo era uma coisa muito apetecida.
E porque os grupos nunca se separaram - talvez porque o movimento tinha poucas mulheres e não se podia pensar em separação de grupos - começou a gerar-se uma certa ambivalência em relação ao lesbianismo e às lésbicas do movimento. As lésbicas eram invejadas, vistas como um grupo dentro de um grupo, mais coeso, quase como conspiratorial. É um facto que as mulheres hetero não tinham a mesma disponibilidade que nós para se encontrarem, tomar um copo, etc.
As pessoas, o grupo já era reduzido, as pessoas eram cada vez menos militantes, juntou-se e formou uma cooperativa, a Cooperativa Editora das Mulheres, que publicou três livros. A firma encarregada da distribuição foi à falência, não distribuiu os livros, as nossas dificuldades económicas foram enormes. Depois, fizemos uma revista, Lua , de que se publicaram alguns números. Como estávamos nessa altura com muita documentação, resolvemos abrir um centro de documentação, a Informação-Documentação-Mulheres (IDM). Que eu saiba, a IDM era o único sítio em Portugal onde não podiam entrar homens. Lá para o fim da existência do grupo, fez-se um pequeno bar na sede da IDM, que abria às sextas-feiras com comes e bebes. Nessa altura o grupo era pequeno e dois terços eram lésbicas.
Até porque as lésbicas eram lá dentro a maioria, penso que assumimos que não queríamos fazer daquilo um espaço lésbico e sim um espaço de mulheres. E isso também muito porque éramos o único grupo de mulheres assumidamente feministas em Portugal e queriamos manter abertura. Se tivessemos assumido comportamentos lésbicos sabíamos que muitas mulheres nunca mais lá teriam posto os pés. Porém, a nível do trabalho, as lésbicas faziam a maior parte. Quando as lésbicas sairam o grupo acabou, aquilo fechou.

entrevista com Ofélia (Lilás nº3, 1992, pág 24)

No entanto, em algumas publicações feministas do final dos anos 70, princípio dos anos 80 aparecem alguns textos sobre lesbianismo. Algumas das influências vindas do estrangeiro em termos de análise feminista da sexualidade e do desafio que o lesbianismo representa em relação a uma sociedade patriarcal, podem ser vistas num artigo do boletim do Grupo da Mulher da Associação Académica de Coimbra de 1979. Por outro lado, em revistas como Artemísia fundada em Janeiro de 1985 pelo Grupo de mulheres do Porto aparecem alguns dos primeiros textos com uma visão positiva do lesbianismo.

(...) Isto não significa que a homossexualidade feminina não constitua, contudo um desafio à sociedade patriarcal e à sua ideologia dominante, assim como às práticas falocráticas que lhe correspondem - ao assumir uma mulher como seu objecto sexual preferencial, a mulher lésbica demonstra por essa atitude a não necessidade de um homem para sua satisfação, procurando um ser do mesmo sexo para amar (...).

"o Corpo, a Sexualidade, o Poder", Boletim do Grupo da Mulher da AAC (1979)

 

Lesbianismo - Quebrar o silêncio

(...)É assim que sente uma mulher que quer falar do lesbianismo duma forma objectiva e nova, pois do lesbianismo ou não se fala ou então fala-se duma forma negativa. Eventualmente também se aceita que o lesbianismo existiu em tempos remotos, ou então que existe nalgum país estrangeiro, mas sempre bem longe de nós, o que não é verdade. Há lésbicas em todos os países.As pessoas heterossexuais normalmente pouca compreensão mostram, para com as lésbicas porque não aceitam que haja alguém que tenha uma sexualidade diferente e como estão tão acostumados à sua universal normalidade sentem-se muito inseguros perante uma pessoa que é diferente, pois é a prova concreta e viva da invalidez dessa universalidade. Toda uma filosofia de vida de uma pessoa heterossexual, pode ruir em menos de um segundo. O que normalmente também acontece é que os heterossexuais projectam nos homossexuais todos os seus fantasmas e pesadelos, apenas por serem diferentes e por pouco de bom se dizer deles.

Por o termo que designa a maneira de ser das lésbicas (homossexualidade) incluir a palavra sexualidade há a tendência de pensar que não se ocupam de mais nada na vida senão de sexo. E como são um grupo marginalizado logo são equiparadas com as características de todos os outros marginais como criminosos, doentes mentais, etc. que nada têm de comum com elas.

In Artemísia nº2, pag 12 (1985)

 
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Vem também de dentro do movimento feminista (AFIM- associação para a Cinematografia de Mulheres) uma das primeiras iniciativas culturais com interesse para as lésbicas, o 1º Festival Internacional de Filmes Realizados por Mulheres, que se realizou em Lisboa de 29 de Novembro a 16 de Dezembro de 1988, no Instituto Franco-Português. Este festival permitiu que fossem vistos pela primeira vez em Portugal alguns filmes lésbicos clássicos como, Desert Hearts, Before Stonewall, Jupon Rouge, Anne Trister e Novembermond.

Movimentações políticas das lésbicas

As movimentações políticas das lésbicas surgiram no ínicio dos anos 90. Um casal de lésbicas vivendo em Lisboa (Ana Pinheiro e Mena Loureiro), decidiu que algo tinha de mudar e criou em 1991 a primeira revista lésbica em Portugal - ORGANA.

Embora esta revista fosse lida apenas por um número restrito de pessoas devido à falta de publicidade, as duas mulheres decidiram organizar um encontro de reflexão em Novembro desse mesmo ano, em que estiveram presentes 20 mulheres durante 3 dias. A partir deste encontro mais quatro mulheres (Maria Josefina Silva, Mariana, Adelaide e Vitoria S.) começaram a colaborar na feitura da ORGANA.

A ORGANA para além de oferecer a revista fundou a primeira linha de atendimento de homossexualidade em Portugal, que funcionava na casa das fundadoras da revista.

Em 3 e 4 de Outubro de 1992, houve o segundo encontro da Organa numa sauna/bar (Spartacus) junto ao Camões, onde cerca de 40 mulheres de todo o país discutiram lesbianismo. O grupo de lésbicas presentes estava sedente de fazer muita coisa. Foi combinado realizar mais encontros de reflexão, que se efectuaram nos dois meses seguintes. Curiosamente, a dinâmica criada acabou por resultar no fim da ORGANA (publicou nove números) e na criação de um colectivo de seis lésbicas algumas delas vindas da ORGANA (Maria Josefina Silva [Maria Andrade], Mariana, Adelaide, Vitoria S., Helena P. [S. Marinho] e Luisa C.) que decidiram fazer outra revista em moldes diferentes - a LILÁS. O primeiro número da LILÁS surgiu em Março de 1993.

Os recentes encontros de lésbicas têm demonstrado a vontade de pensar, falar, partilhar o lesbianismo (e também de o dançar e rir), e a vontade que as lésbicas têm de se conhecer e conhecer, cada vez mais, como é que somos e também como foi ser lésbica noutros tempos. É nesta movimentação que surge Lilás, querendo estabelecer um circular de ideias, informações, factos, e opiniões.

Editorial da Lilás nº1, Março de 1993

A LILÁS começou a ter um maior impacto que a ORGANA. Embora, tal como tinha acontecido com a ORGANA, a publicidade feita nos jornais fosse mínima, devido à falta de dinheiro, o facto da imprensa se ter começado a interessar pela temática do lesbianismo - por exemplo, as 15 páginas do Público-magazine de Novembro de 1993 "As mulheres que gostam de mulheres"- ajudou a publicitar a Lilás. Mais de 200 mulheres compravam a revista. Por outro lado, foram organizados encontros com as leitoras da revista. Em 1996, quatro das lésbicas do colectivo da redacção da Lilás abandonaram a revista. No entanto, a LILÁS continua a ser publicada quatro vezes por ano.

Nas primeiras entrevistas, todas as perguntas que fiz se reportavam aos homens. Levei algum tempo a perceber que ninguém estava absolutamente nada interessada em falar de homens. Isso era coisa constante. E que o lesbianismo era sobre mulheres e não sobre homens.

Tereza Coelho, entrevistada a propósito do seu trabalho no jornal Público (Novembro de 1993) sobre lesbianismo (in Lilás nº5, 1994)

Conferência de Imprensa no dia da legalização da Associação Clube Safo (15 de Fevereiro de 2002)

Em 1996, foi fundado em Aveiro, por quatro amigas, o Clube Safo. As fundadoras tinham um passado de colaboração com a ORGANA e a Lilás. O seu objectivo era acabar com o isolamento das lésbicas em todo o país e começaram a organizar encontros um pouco por todo o país. Mais tarde transfere-se para Santarém e, em Setembro de 1997, inicia a publicação do boletim Zona Livre. Em 2002, torna-se na primeira associação lésbica portuguesa.

Em Maio de 1998, após um encontro que respondeu a um apelo mobilizador feito por duas mulheres dos órgãos dirigentes da Associação ILGA PORTUGAL, surge no seu interior o Grupo de Mulheres. A comissão instaladora do Grupo de Mulheres que é formada e que posteriormente dará origem à sua primeira comissão coordenadora, era constituída por lésbicas vindas do colectivo inicial da Lilás ou que tinham sido previamente leitoras e colaboradoras desta revista. No início de 1999 inicia a exibição do primeiro ciclo de filmes lésbicos, o qual teria continuação no ano seguinte. Em Março de 1999, o grupo inicia a publicação do boletim bimestral Lesbiana.

Nós, as lésbicas, somos parte integrante da população feminina e esse facto que é ser mulher torna-nos num alvo para a discriminação e violência que a sociedade patriarcal e machista impõe sobre as mulheres.
No entanto, e por sermos mulheres lésbicas, a cultura falocrática fez de nós um grupo invisível intensamente reprimido e marginalizado pela população heterossexual, tanto masculina como feminina. Estes factores explicam a chamada "dupla discriminação" que afecta as lésbicas.
Congratulamo-nos por, com a solidariedade das feministas de todo o mundo, darmos mais este passo no caminho que nos levará à igualdade, ao respeito e à aceitação. Assim, as organizações abaixo-assinadas exigem:
1. Contra a invisibilidade a que temos sido votadas, o reconhecimento das lésbicas enquanto mulheres e pessoas de plenos direitos, independentemente da sua raça, cultura, etnia, religião, condição social, idade, identidade de género e de ser portadora de deficiência.
2. O direito ao corpo, à sexualidade, à educação sexual e cívica e ao aborto.
3. Direito à maternidade, à adopção e à inseminação artificial.
4. Direito à saúde na sua especificidade, incluindo os meios de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.
5. A plena igualdade de direitos para todas as uniões civis, sejam elas o casamento, as uniões de facto ou outras.
6. Direito à nossa história e cultura e a uma educação que não omita a existência de todas as outras formas de família, afecto e sexualidade não normativas.
O nosso objectivo último é criar um mundo onde as pessoas não sejam discriminadas, e garantir que os direitos de todas as mulheres sejam considerados direitos humanos.

Grupo de Mulheres da Associação ILGA PORTUGAL, Clube Safo, GTH, Grupo Lilás

1º Manifesto Lésbico Português, distribuído na manifestação nacional da Marcha Mundial das Mulheres do Ano 2000

Através do Grupo de Mulheres e do Clube Safo começou a haver uma maior visibilidade das lésbicas na sociedade Portuguesa. Em 20 de Novembro de 1999, o programa Portugalmente, na RTP 2, foi dedicado às lésbicas, tendo estado presentes membros do Grupo de Mulheres e do Clube Safo. Um outro exemplo, é a participação do Grupo de Mulheres da Associação ILGA PORTUGAL e do Clube Safo na Plataforma Nacional da Marcha Mundial das Mulheres do 2000, a que aderiram cerca de 70 organizações não-governamentais. Entre as reinvindicações subscritas por estas organizações encontrava-se o fim da discriminação com base na orientação sexual. O ano de 2000 foi o ano da grande visibilidade das lésbicas, com as manifestações da Marcha do Orgulho (Semana do Orgulho em Junho de 2000) e da Marcha Mundial das Mulheres do Ano 2000 (dia 7 de Outubro de 2000).

Marcha Mundial das Mulheres em Portugal
Marcha do Orgulho de 2000

S. Marinho (GIRL)

Ainda em construção

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