Vão até esta sexta-feira, 2 de dezembro, as inscrições para as bolsas de estudo no exterior dos United World Colleges – UWC (Colégios do Mundo Unido). Trata-se uma estrutura de escolas que promove a paz e a compreensão entre os povos por meio da educação e do convívio internacional, baseados em experiências compartilhadas, serviços comunitários e na formação de cidadãos responsáveis e compromissados com vários ideais. Anualmente, cerca de mil jovens de 150 países são selecionados para seguir seus estudos nos dez colégios da rede em todo o mundo. Cada unidade é desenhada especialmente para receber, por dois anos, estudantes entre 16 e 19 anos, sem distinção de raça, religião, orientação política ou situação econômica. O currículo da bolsa – o Bacharelado Internacional – é reconhecido mundialmente como um rigoroso curso pré-universitário, e no Brasil equivale à conclusão do ensino médio. De três a cinco brasileiros são selecionados a cada ano. As bolsas são válidas para todos aluno da rede pública ou particular. O principal critério concorrer às bolsas das turmas 2006-2008 é ter entre 15 e 18 anos e estar concluindo o primeiro ano do ensino médio em 2005.

Os Colégios do Mundo Unido é um movimento idealista e sem fins-lucrativos, voltado para a criação de um mundo melhor, englobando todas as religiões e ideologias e buscando a compreensão das diferenças. O movimento foi criado por educadores europeus progressistas no final dos anos 1950, em plena Guerra Fria, com a inauguração da primeira escola, no País de Gales, o United World College of the Atlantic, em 1962. Hoje a rede está presente também no Canadá, Cingapura, Estados Unidos, Hong Kong, Índia, Itália, Noruega, Suazilândia e Venezuela. Nomes como Príncipe Charles, a prêmio Nobel em Medicina, em 1986, Rita Levi e os atuais presidentes do movimento, Nelson Mandela e a rainha Noor, da Jordânia, dão respaldo ao projeto, sustentado por doações e investimentos de ex-alunos, empresas e governos de todo o mundo. Até hoje, 25 mil estudantes secundaristas se formaram pelos UWC, que hoje formam uma rede internacional de amigos, responsável por divulgar o projeto. De acordo com dados do UWC, 90% dos alunos concluíram a universidade e 50% têm pós-graduação. O programa incentiva os participantes a voltarem para seus países para continuarem os estudos. “Assim, eles podem contribuir com o desenvolvimento de seus próprios países”, informa o site www.uwc.org.

No Brasil, por causa da falta de informação melhor articulada, o projeto acabou se elitizando, com vantagem a alunos das melhores escolas particulares do País. Por ser conhecido por poucos privilegiados, muitas pessoas chegam até a desconfiar. “Aí tem coisa. Ser bancado para ir estudar na Índia ou na Itália? Muita gente pensa que seja tudo muito bom para ser verdade e acaba deixando uma oportunidade única passar”, afirma Paulinho Fávero Gomes, de 20 anos, estudante de Artes Plásticas da Universidade de São Paulo. Ele passou dois anos, entre 2001 e 2003, no colégio Red Cross Nordic, em Flekke, uma pequena aldeia de 500 habitantes localizada entre montanhas e fiordes a uns 500 quilômetros de Bergen, a segunda maior cidade da Noruega. Ele ficou sabendo da oportunidade casualmente, por meio da irmã de sua namorada, que tinha ganhado a bolsa para estudar na Itália alguns anos antes. Ele se interessou e foi atrás de mais informações. “Adorei a idéia. Passei a ficha de inscrição para os meus pais assinarem, sem entrar muito em detalhes, e fui até os Correios para enviá-la. Nunca tinha enviado uma carta sequer antes disso”, lembra. Ele sempre sonhou em viajar, conhecer o mundo. Teve alguns amigos da escola Nossa Senhora das Graças, na zona Sul de São Paulo, que participaram de intercâmbios internacionais, mas nunca chegou a cogitar a idéia. Sairia caro demais. “É até engraçado, no fim da história, dois anos estudando na Noruega saíram mais baratos do que no Brasil.”

Conversando com Paulinho é possível perceber, logo de cara, o quanto essa experiência marcou sua vida, seja no seu jeito de falar sobre vários assuntos ou num certo brilho em seu olhar. “Trocar de país e cultura, deixar amigos e família, aprender a se relacionar de maneira diferente, ganhar independência, passar a ser o único responsável por minhas ações e decisões: tudo isso foi muito transformador”, conta. Além de aproveitar as férias para viajar pela Europa, ele estava o tempo todo conhecendo o mundo inteiro nos limites do próprio campus, graças ao convívio com seus novos amigos: “no primeiro ano dividia o quarto com um búlgaro, um norueguês e um aluno do Cazaquistão e outro de Botsuana; no segundo ano estiveram comigo um americano, um servo, um colombiano e um sudanês.” Mas o contato com uma realidade diferente não foi tudo que Paulinho teve que encarar. Nesses dois anos de bolsa, ele se esforçou e estudou muito para não ficar para trás, principalmente por causa do idioma. O inglês é a língua usada nas aulas e atividades dos colégios. No processo seletivo brasileiro, no entanto, a língua inglesa não é considerada como critério de classificação. “O curso é academicamente muito puxado. O inglês legal ajuda; mas é relativo, vi gente chegar falando só ‘yes’ e ‘no’ e passar nas provas e se dar muito bem. O melhor mesmo foi poder estudar aquilo que sempre quis”, diz ele, que optou por Inglês, Português, Matemática, Filosofia, Artes e Meio Ambiente. Diferente do sistema brasileiro, o currículo do Bacharelado Internacional dos UWC é amplo e flexível, com bastante peso nas atividades extracurriculares – muitas vezes organizadas pelos próprios estudantes. O aluno escolhe apenas seis matérias da grade.

Ana Waksberg Guerrini, de 26 anos, foi aluna dos Colégios do Mundo Unido do Canadá entre os anos de 1995 e 1997. Conheceu o programa de bolsas na 7.ª série, quando seus pais lhe mostraram uma reportagem. Ficou interessada, ainda assim era muito cedo. Em 1994, quando cursava o 1° ano do ensino médio, o comitê organizador do projeto, composto por ex-alunos, passou por seu colégio, o Santa Cruz, em São Paulo, para divulgação. “Era um desafio. Eu queria muito aproveitar a oportunidade, mas ao mesmo tempo tinha muito medo. Acabei participando do processo seletivo e levando a bolsa e o medo continuou. O que eu sentia era um misto de alegria e medo”, lembra. Tratava-se de uma apreensão normal, um frio na barriga por estar passando por mudanças decisivas. Essa sensação não foi além da primeira semana entre os novos amigos e professores do novo colégio. “Foram me buscar no aeroporto, a maioria dos professores vive no campus e a estrutura do projeto me tranqüilizou bastante, o suporte é muito grande”.

Atualmente, Ana trabalha na área de tecnologia da Prefeitura de São Paulo. Ela se formou em Economia e tem o currículo marcado por algumas experiências profissionais no exterior. Ao refletir sobre seus momentos como bolsista dos UWC, ela reconhece o peso da experiência em sua vida – profissional e pessoal: “Perdi o medo e passei correr atrás das coisas e a me relacionar bem com qualquer tipo de pessoa”.

PROCESSO SELETIVO
Mesmo pouco conhecido, o programa de bolsas do UWC é bastante disputado no Brasil. Cerca de 300/400 alunos se inscrevem anualmente para concorrer por no máximo cinco oportunidades. Uma média de 80 candidatos por vaga. O processo seletivo é composto de três fases: uma prova, no modelo vestibular, com o conteúdo do ensino fundamental e muitas questões sobre conhecimento geral e atualidades, além de uma redação e uma dissertação; Os 30 candidatos melhor avaliados passam, em seguida, por uma entrevista, realizada por psicólogos e ex-bolsistas do projeto; A última fase é um convívio de dois dias com 12 finalistas e seis membros do comitê organizador num sítio no interior de São Paulo, onde são desenvolvidas dinâmicas, oficinas e várias atividades em grupo.

“Foi meu primeiro ‘vestibularzinho’, estar sentado ali com outras pessoas, sob pressão, com o tempo passando. Mas a prova não é muito difícil. Me preparei um pouco, o que já eu tinha estudado no colégio me ajudou muito e também procurei ler bastante jornal e revista, ficar informado”, lembra Paulinho Fávero Gomes. Ana Guerrini concorda: “não é preciso se desesperar, não tem nenhuma fórmula ‘decoreba’, a prova serve só para testar o conhecimento do candidato e ver se ele está antenado com o que acontece em torno dele”, afirma. Por isso informação e sede por informação são critérios importantes. “O candidato que está mesmo a fim tem que ler jornal, conhecer o mundo ou estar bem interessado. O essencial mesmo é estar aberto, participar, perguntar, querer ouvir e aprender”, explica Ana. Ela destacou ainda que um jovem engajado, preocupado com questões sociais e ativo, seja na escola, no bairro, na rua, tem boas chances. Além desses conselhos, que valem para todas as etapas do processo seletivo, Paulinho dá uma outra dica, que o ajudou muito a ser escolhido: “não adianta tentar ser melhor do que a gente realmente é, não adianta bancar o ‘politicamente correto’. Acho que me escolheram porque durante todo o processo eu tentei sempre ser eu mesmo”.

SERVIÇO
Os interessados precisam ter entre 15 e 18 anos e estar cursando o primeiro ano do ensino médio neste ano. As inscrições vão até a próxima sexta-feira, 2 de dezembro. O processo de seleção é composto por três fases: todos os inscritos fazem uma prova, no modelo vestibular, com uma redação e uma dissertação; em seguida, 30 candidatos são selecionados para uma entrevista; a última etapa envolve um convívio de dois dias com jogos e dinâmicas avaliativos com 12 finalistas. A ficha de inscrição, que deve ser assinada pelos pais ou responsáveis e pelo diretor da escola, está à disposição na versão brasileira do site dos United World Colleges (www.br.uwc.org.br), onde outros dados sobre o movimento no Brasil também podem ser obtidos. O site principal (www.uwc.org), em inglês, apresenta informações completas, e links aos dez colégios da rede estão disponíveis.

Luciano Máximo é jornalista