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BEBERIBE (rio e bairro, Recife)

Semira Adler Vainsencher

semiraadler@gmail.com

Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

 

 

Na língua indígena tupi, a sílaba "ja" aparecia no começo de certas palavras. Com o passar do tempo, foi desaparecendo, como jamandakuru, que virou mandakaru; e com a palavra jabebyra, no topônimo Jabebyrype, que se transformou em Bebyrype e, depois, em Beberibe.

 

Há uma certa polêmica quanto ao significado dessa palavra. Alguns consideram que é "vela bipe", ou seja, lugar onde cresce a cana; outros afirmam que o nome vem do tupi Iabebier-y, que significa rio das raias, dos peixes chatos; e outros ressaltam que o nome vem de bebé e ribe, que significa voar em bando, referindo-se aos pássaros que se reuniam nas margens daquele rio. Como pode ser observado, o termo passou por várias transformações, mas, há alguns séculos, o nome utilizado tem sido o de Beberibe.

 

O rio Beberibe passa ao norte da cidade do Recife, misturando-se às águas do rio Capibaribe, que vêm do sul. Aquele rio nasce de um pequeno olho d’água, situado entre os municípios de São Lourenço e Olinda, nas matas dos antigos engenhos Timbó e Massiape, em um lugar chamado Cabeça de Cavalo. Dali recebe as águas de outros riachos e vertentes. O rio possui a extensão de 4.840 quilômetros e o seu curso é tortuoso.

 

O vale do rio Beberibe é bastante estreito, passando por terrenos baixos e pantanosos, desde a sua nascente até a povoação do mesmo nome. Por isso, seus terrenos laterais - formados por barro ferruginoso e massapé - são inundados, tão logo surja qualquer cheia.

 

No início da colonização, o rio Beberibe banhava as propriedades Ferraz, Pimenteiras, Passarinho, Beringué, Quimbuca, entre outras, passava pelo município de Olinda, banhava o Cumbe, as povoações de Beberibe, do Porto da Madeira, do Coqueiro, do Sítio dos Craveiros, do Fundão, do Salgueiro e do Peixinho, prosseguia ao longo do istmo de Olinda, entre os bairros de Santo Amaro das Salinas e de São Frei Pedro Gonçalves, correndo ao encontro do Capibaribe, no extremo meridional da ilha de Santo Antônio.

 

Em todo o seu percurso, o rio Beberibe recebe as águas dos seguintes afluentes: Pimenteiras, Secca, Marmajudo, Dois Unidos, Água Fria, Assador de Varas ou Chã de Piabas, Beringué ou Roncador, Quimbuca, Tapa d’Água ou Coelhas, Lava-Tripas, e o Beberibe-mirim ou Morno.

 

No local onde os rios Beberibe e Capibaribe se encontram, próximo ao final da Rua da Aurora, pode ser visto um casarão, construído por Mamede Ferreira. Esses dois grandes rios passam, hoje, sob as pontes Buarque de Macedo e Sete de Setembro, atual Maurício de Nassau, e vão desaguar no oceano Atlântico. Inaugurada no dia 30 de julho de 1966, a ponte de Limoeiro, passando sobre o rio Beberibe, une o Forte do Brum ao bairro de Santo Amaro.

 

Uma das localidades mais antigas do Recife, que remonta à metade do século XVI, possui também o nome de Beberibe porque é banhada por esse rio. Naquela época, prosperava em Pernambuco a cultura da cana-de-açúcar.

 

Registra a história que Diogo Gonçalves, auditor da Capitania, quando se uniu a Isabel Fróis - importante dama que veio de Portugal em 1535, e que era protegida pela rainha Catarina, esposa de D. João III - recebeu como dote de casamento uma extensa propriedade abrangendo as zonas de Casa Forte, Várzea e Beberibe.

 

O auditor da Capitania trata logo de organizar o seu feudo. Como sede da propriedade, escolhe as terras da Casa Forte; na margem direita do rio Beberibe constrói um grande engenho, uma casa de vivenda, uma fábrica e uma capelinha; e, na Várzea, levanta um outro engenho, que nomeia de Santo Antônio da Várzea.

 

Essas terras passam para Leonardo Fróis, herdeiro do casal, e depois são vendidas a um colono: Antônio de Sá. Em 1637, ele tem a propriedade confiscada pelos holandeses que vendem-na a Duarte Saraiva, com o nome de Engenho Eenkalchoven, pelo preço de dez mil florins.

 

Os pintores flamengos, integrantes da comitiva do conde Maurício de Nassau, conseguem registrar a beleza da localidade. Essas pinturas são oferecidas ao rei Luís XV, da França, contendo uma inscrição onde o rio Beberibe é citado como Bibaribe.

 

La riviére se nomme Bibaribe; de delá c’est un moulin à sucre avec la demeure du seigneur, et plus haut la chapelle.

 

Quando os holandeses são expulsos de Pernambuco, os herdeiros de Antônio de Sá reivindicam os seus direitos de posse e as autoridades portuguesas os concedem: as terras passam às mãos de José de Sá e Albuquerque. Não se preocupando mais com a indústria açucareira, segundo consta em documentos antigos, José transforma a propriedade na Fazenda Beberibe, passando a explorar as madeiras de suas matas e a fabricar carvão vegetal. As madeiras são transportadas através de balsas. Estas descem o rio Beberibe, indo até a cidade de Olinda onde, em suas vizinhanças, é produzido o carvão.

 

Sendo repassada de herdeiro para herdeiro, vão desaparecendo os aspectos do antigo feudo açucareiro. Em meados do século XVIII, a propriedade começa a ser negociada através de lotes isolados de terras, que continuam a explorar a indústria de carvão vegetal, desaparecem os engenhos e a capelinha, surgindo um povoado que cultiva lavouras de feijão, alguns tubérculos e fabrica farinha de mandioca, entre outros.

 

Em 1767, conclui-se a construção de um templo religioso, sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição do Beberibe. Na capela-mor (ainda existente), o mestre Simão dos Santos Pereira entalha, em 1780, uma de suas belas obras.

 

No princípio do século XIX, abre-se uma estrada ligando a Encruzilhada de Belém a Beberibe. Praticamente meio século depois (em 1865), surgem linhas da estrada de ferro, ligando Recife e Olinda. Os bondes elétricos, porém, são disponibilizados apenas em 1922.

 

No tocante aos dados históricos, na localidade de Beberibe, os liberais pernambucanos levantam suas armas contra o capitão-general Luís do Rego Barreto, e instalam o quartel-general do Movimento. Em outubro de 1821, é assinada a famosa "Convenção do Beberibe", nas matas das redondezas, pondo um fim à gestão do último governador português.

 

Também em Beberibe, em novembro de 1848, ocorre um grande combate entre os integrantes da Revolução Praieira e as forças de Tosta. Apesar de sua importância, a localidade só é elevada à categoria de Freguesia, e desmembrada da Sé de Olinda, no dia 2 de maio de 1879.

 

Os atuais bairros de Água Fria, Fundão e Cajueiro nasceram de Beberibe. Presentemente, esse subúrbio possui uma divisão administrativa bipartida entre os municípios de Olinda e Recife. Sobre a localidade, no período de 1816 à 1817, um cronista registrou:

 

Deixando o Recife passa-se pelo povoado de Beberibe, situado sobre o rio do mesmo nome, ornado de lindas casas de campo; e que ali se lava quase a maior parte da roupa do Recife, onde há falta de água doce.

 

No século XXI, percebe-se o seguinte:

 

1.      as águas do rio Beberibe se encontram extremamente poluídas, sendo impróprias, inclusive, para a lavagem de roupa; e,

 

2.      por incrível que possa parecer, quase duzentos anos após a passagem daquele cronista, ainda continua faltando água doce nos municípios do Recife e Olinda, e na maioria dos municípios do Estado de Pernambuco.

 

Recife, 24 de julho de 2003.

FONTES CONSULTADAS:

CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e seus bairros. Recife: Câmara Municipal do Recife, 1998.

 

FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife: estátuas e bustos, igrejas e prédios, lápides, placas e inscrições históricas do Recife. Recife: Secretaria de Educação e Cultura, 1977.

 

GALVÃO, Sebastião de Vasconcellos. Diccionario chorografico, histórico e e statístico de Pernambuco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1908. 4v.

 

GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Recife: Fundação Guararapes, 1970.

 

 

(Texto atualizado em 25 de setembro de 2007)




 

 


 
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