Bilheteria Nacional   

As maiores bilheterias do cinema nacional
Por Maria do Rosário Caetano

Sônia Braga, em "Eu Te Amo": quando a nudez das atrizes era uma garantia de boa bilheteria

CA Revista de CINEMA pesquisou as maiores bilheterias de toda a história do cinema brasileiro emostra os 50 filmes mais vistos

Quais são as 50 maiores bilheterias do cinema brasileiro em seus mais de cem anos de conturbada história? “Dona Flor e seus Dois Maridos” (Bruno Barreto/76) aparece nas estatísticas oficiais como o campeoníssimo. Sua arrecadação está registrada nos catálogos impressos pela Embrafilme dos tempos de Roberto Farias. Além de cineasta e produtor, Farias foi sempre administrador cultural preocupado com a memória do cinema brasileiro.

Se todos os dados históricos de nossas bilheterias (chanchadas e ciclo Mazzaroppi, em especial) estivessem disponíveis, “Dona Flor” perderia seu posto. Há quem garanta que a chanchada “Nem Sansão Nem Dalila” vendeu 13 milhões de ingressos. O erótico-chique “A Dama do Lotação” (Neville D’Almeida/78) é outro que também teria sua posição ameaçada. Afinal, o mais descabelado de nossos melodramas – “O Ébrio”, de Gilda de Abreu (1946) – e as comédias caipiras de Mazzaroppi (duas em especial: “A Casinha Pequenina” e “Jeca Tatu”) constituíram poderosos fenômenos de público. Atingiam espectadores das grandes cidades (em São Paulo, capital e interior) e dos grotões esquecidos do Brasil.

Os filmes de Amácio Mazzaroppi (1912-1981) causavam alvoroço até mesmo em Coromandel, pequeno município do interior de Minas. Lá, no Cine União (de quase mil lugares, somando a sala principal e o “poleiro”), a programação mudava de dois em dois (ou três em três) dias. Mas para os filmes de Mazzaroppi, o prazo tinha que ser maior. Aos domingos, parentes vinham da “roça” para ver Jeca e Pelanca (a atriz Geny Prado), amarravam o cavalo num tronco de árvore, assistiam ao filme e regressavam. E isto se dava com gente alfabetizada e gente analfabeta. Filme de Mazzaroppi não exigia leitura de legenda.

Tabelas dos anos 70 registram o sucesso do cinema caipira de Mazzaroppi. São dele as vagas de número 28 – “Jeca e o Capeta”; 30 – “Jeca, o Macumbeiro”; 31– “Jeca, Um Fofoqueiro no Céu”; 49 –“O Grande Xerife” e 50 – “Betão Roncaferro”. E quem acompanhou a carreira do cineasta de Taubaté sabe que sucesso para valer ele fez nos anos 60. Quando tirou Jeca Tatu do ‘Almanaque do Biotônico Fontoura’ (um dos impressos mais difundidos da história editorial brasileira) e o levou para as telas, o grande público se alvoroçou. Milhões de ingressos foram vendidos.

O cineasta, produtor e distribuidor Aníbal Massaíni (Cinedistri e Cinearte) confirma o “fenômeno” Mazzaroppi. “A distribuidora de meu pai, Oswaldo Massaíni, ficava próxima à PAM (Produções Amácio Mazzaroppi), no centro de São Paulo”. E pondera: “enquanto nós distribuíamos, pela Cinedistri, vários filmes, a PAM distribuía um só: o filme anual de Mazzaroppi, lançado religiosamente no dia 25 de janeiro, aniversário da fundação da cidade. Para tanto, o ator-produtor mantinha uma distribuidora, com gerente, faturista e contador. E contratava fiscais. Estes profissionais passavam um ano cuidando da distribuição de um único filme. E com êxito total. Não conhecemos, no país, fenômeno igual”.

Massaíni diz que é difícil quantificar bilheterias para os “Mazzaroppi” dos anos 60. Mas testemunha que os filmes do caipira distribuídos pela Cinedistri (“Chico Fumaça”, “O Noivo da Girafa”) foram sucessos retumbantes. “Temos que levar em conta que nos anos 60 não havia vídeo e o cinema era a maior diversão popular. Uma cópia custava caro, mas a mídia era baratíssima. Hoje, dá-se o oposto. Uma cópia custa metade do que custava naquele tempo, mas a mídia tornou-se caríssima, inacessível”.

Outras diferenças: “Um filme durava um ano nas telas. Ia explorando mercados grandes, depois as cidades de médio porte, depois as pequenas. Havia cinemas em todo o território nacional. Até a fazendas os filmes chegavam. Por isto, produzíamos cópias em 16 milímetros. Hoje, o filme dura um ou dois meses”.

A história de outro campeão de bilheteria tem a ver com a família Massaíni. “Meu pai era gerente da Cinédia, produtora de ”O Ébrio”, outro fenômeno. O filme de Gilda de Abreu, estrelado por Vicente Celestino, vendeu milhões de ingressos no país inteiro”.

Como paulistano, Aníbal acompanhou a trajetória de “O Cangaceiro” (1953/4). “Eu tinha nove ou dez anos naquela época, mas não havia outro assunto na nossa casa. Dizia-se que um quinto da população paulistana tinha ido ver o filme do Lima Barreto”.

“O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, que a Cinedistri produziu e distribuiu, foi visto por mais de um milhão de espectadores. “Mas” – pondera Massaíni – “sendo um filme sofisticado e premiado em Cannes, teve ótima repercussão crítica, sem constituir-se em fenômeno de público”.
 
Metodologia – Que metodologia usar para montar a lista de filmes mais vistos da história do cinema brasileiro? Para se levantar as bilheterias dos últimos cem anos, há que se basear em depoimentos de profissionais envolvidos com o cinema, e mergulhar nos livros e catálogos que registraram estatísticas nos períodos em que a atividade contou com boa infra-estrutura (em especial nos anos 70 e 80, fase da Embrafilme e do Concine). O produtor Paulo Sérgio Almeida (Filme B) promoveu levantamento das 50 maiores bilheterias brasileiras da Retomada, de 1994 até hoje. Só um dos títulos lá registrados tem lugar na lista dos 50 mais, “Xuxa Popstar”, em 48o lugar. Este ano, “Xuxa e os Duendes” tornou-se a maior bilheteria brasileira da Retomada e ocupa o 45o lugar na lista dos mais vistos de todos os tempos.

O pesquisador André Gatti, que prepara tese de mestrado na USP e estuda o assunto, pondera: “a coleta de informações sobre desempenho de bilheteria dos filmes brasileiros tem, obrigatoriamente que cercar-se de uma série de ponderações. A mais importante é que não se pode confiar cegamente nas informações disponíveis, ainda que estas sejam ‘universalmente’ aceitas”. Isto acontece “porque até a criação do INC (Instituto Nacional de Cinema), em 1966, estes dados ficaram sob a tutela de distribuidores e produtores, que podiam manipulá-los de acordo com os seus interesses”.

“A partir da criação do INC e até a extinção do Concine (março de 1990)”– prossegue Gatti – “os dados estatísticos tornam-se mais claros, devido à fiscalização e à sistematização levada a termo pela Embrafilme e pelo Concine”. E arremata: “O que me assombra é que, em pleno século XXI, na era da informatização, a nossa situação se assemelhe àquela anteriormente vivida nas primeiras seis décadas do século XX. Penso que corremos o risco de que se perca mais um manancial de informações, por descaso das nossas autoridades, já que pelo andar da carruagem a ANCINE, entidade que deverá realizar este trabalho, levará um certo tempo para se estabelecer e, portanto, finalmente trabalhar com estes dados que, historicamente, são tratados como ‘segredo de comércio’. Basta lembrarmos que esta polêmica nos remete ao ano de 1949, quando o crítico Carlos Ortiz iniciou um processo de descortinamento deste tipo de informação. Tudo leva a crer que até o ano de 2005, ou seja lá quando for, este tipo de informação ficará restrita a mercadores de conhecimento ou a instituições patronais que não são auditadas”.

O produtor e distribuidor Riva Faria, que atuou na Difilm (1966/1972) e na Ipanema Filmes, fornece dados significativos sobre o cinema brasileiro dos anos 60. “A maior bilheteria da Difilm foi “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”, com aproximadamente quatro milhões de espectadores”. Em segundo lugar vem “Todas as Mulheres do Mundo”. Em terceiro, “Toda Donzela Tem um Pai que É uma Fera”, seguido de “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, que foi lançado quando o circuito do Lívio Bruni entrou em concordata e estava com dificuldade de conseguir filmes estrangeiros. Nós, da Difilm, colocamos todas as cópias do Matraga à disposição do circuito dele. O filme ficou em cartaz várias semanas e agradou ao público”.

Walter Lima Jr. cita “Menino de Engenho” como outro dos grandes sucessos da Difilm. Riva Faria testemunha: “ ‘Menino de Engenho’ estourou no Nordeste, foi também um grande sucesso, mas não chegou a dois milhões de espectadores”.

Chanchadas e pornochanchadas – As melhores estatísticas oficiais do cinema brasileiro pertencem a Renato Aragão. No livro “Ô Psit! O Cinema Popular dos Trapalhões”, da gaúcha Fatimarlei Lunardelli (Ed. Artes e Ofícios/1996), há bilheterias oficiais de 32 dos 38 primeiros filmes de Aragão e parceiros (pré-Retomada). O Boletim Filme B registra os resultados dos quatro filmes mais recentes de Aragão (“Simão, o Fantasma Trapalhão”: 1,6 milhão; “Noviço Rebelde”:1,5 milhão; “O Trapalhão e a Luz Azul”: 771 mil; e “Anjo Trapalhão”: 118 mil).

Já os filmes estrelados pelo ídolo máximo de Aragão, Oscarito, carecem de estatísticas. Não há informações oficiais sobre as chanchadas da Atlântida, que costumavam abarrotar cinemas em todo o país. E que geraram, além de Oscarito, ídolos populares como Grande Otelo, Eliana Macedo, Adelaide Chiozzo, Fada Santoro e o vilão José Lewgoy.

Em programa sobre a atriz Eliana Macedo, o Canal Brasil (NET/Sky) apresentou dado revelador: a chanchada “Nem Sansão Nem Dalila” (Carlos Manga/1953) teria vendido 15 milhões de ingressos. O dado não é absurdo. Nos anos 50 ia-se muito ao cinema, o ingresso era muito barato e o país contava com um número de salas três ou quatro vezes maior que o de hoje. E os cinemas tinham 800, 1500 e até 2 mil lugares. Hoje têm 200, 300, 500 no máximo.

Já a pornochanchada, fenômeno que tomou conta das bilheterias brasileiras nos anos 70, tem muitas estatísticas a fornecer. Nenhuma chegou ao espantoso público de “Coisas Eróticas (Rafaelli Rossi/1982), primeiro sexo explícito brasileiro. Para conferir a “novidade” (um filme de baixíssima – aliás, nenhuma – qualidade) 4.525.401 brasileiros pagaram ingressos. Só para comparação, em 1980 foram vendidos 5.056.995 ingressos para espectadores brasileiros curiosos em conhecer o (magnífico) “Império dos Sentidos” (Nagisa Oshima/1976).

A estréia de Aníbal Massaíni na direção cinematográfica se deu no ciclo da pornochanchada. Ele dirigiu “A Superfêmea”, com Vera Fischer, “que vendeu mais de um milhão de ingressos”. E produziu “Histórias que nossas Babás Não Contavam” (Osvaldo Oliveira/1979), “outro grande sucesso, com mais de um milhão de ingressos”.

Brasileiro adora filme de sexo (hard ou soft). “Dona Flor”, “Dama do Lotação”, “Xica da Silva”, “Eu Te Amo” e “Luz del Fuego” (todos soft) dialogaram com a comédia erótica (e estão entre as mais significativas bilheterias de nossa história cinematográfica).

É sempre bom lembrar que filmes explicitamente eróticos não se destinam a toda família. Daí que raros títulos do gênero figuram entre as 50 maiores bilheterias brasileiras. Os que figuram na lista são cariocas e não passam de comédias de costume. Apimentadas, mas comédias de costume: “Os Mansos” (2,8 milhões), “A Viúva Virgem” (2,5 milhões) e “Como Era Boa a nossa Empregada” (2,04 milhões). Também fizeram sucesso: “Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera”; “Os Paqueras” e “Ainda Agarro Essa Vizinha”. Já os sucessos paulistas do gênero – “O Super Dotado ou o Homem de Itu”, “Mulher Objeto”, “Histórias que nossas Babás Não Contavam” – não chegaram aos dois milhões de espectadores . Daí, não figurarem entre os recordistas.

"Lúcio Flávio", recordista com mais de cinco milhões de espectadores

Filmes de empenho artístico como “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, “Menino de Engenho”; “Todas as Mulheres do Mundo”; “Macunaíma”; “Toda Nudez Será Castigada”;” Xica da Silva”; “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”;”Amor, Estranho Amor”; ”Ópera do Malandro”; “Eu Sei que Vou Te Amar”; “Central do Brasil” e “O Auto da Compadecida” tiveram desempenhos significativos no mercado (todos venderam mais de um milhão de ingressos).

A lista das 50 maiores bilheterias, porém, revela mesmo que o público brasileiro gosta de comédias caipiras e/ou ingênuas (Mazzaroppi, Trapalhões, Xuxa) e filmes com ingredientes eróticos.

As Maiores Bilheterias do Cinema Nacional
1 “Dona Flor e seus Dois Maridos” (Bruno Barreto, 1976) 10.735.305
2 “O Ébrio” (Gilda de Abreu, 1946) 8.000.000(*)
3 “Casinha Pequenina” (Glauco Mirko Laurelli, 1963) 8.000.000(*)
4 “Jeca Tatu” (Milton Amaral, 1960) 8.000.000(*)
5 “A Dama do Lotação” (Neville de Almeida, 1978) 6.508.182
6 “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (J.B.Tanko, 1977) 5.726.775
7 “Lúcio Flavio, o Passageiro da Agonia” (Hector Babenco, 1977) 5.401.325
8 “Os Saltimbancos Trapalhões” (J.B.Tanko, 1981) 5.218.574
9 “Os Trapalhões na Guerra dos Planetas” (Adriano Stuart, 1982) 5.089.869
10 ”Os Trapalhões na Serra Pelada” (J.B. Tanko, 1982) 5.051.963
11 “Cinderelo Trapalhão” (Adriano Stuart, 1979) 5.027.043
12 “O Casamento dos Trapalhões” (Adriano Stuart, 1988) 4.779.027
13 “Os Vagabundos Trapalhões” (J.B. Tanko, 1982) 4.632.428
14 “Os Trapalhões no Planalto dos Macacos” (J.B. Tanko, 1976) 4.566.796
15 “Coisas Eróticas” (Rafaelli Rossi, 1982) 4.525.401
16 “Simbad, o Marujo Trapalhão” (J.B. Tanko, 1976) 4.407.719
17 “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” (José Alvarenga Jr., 1989) 4.310.085
18 “O Rei e os Trapalhões” (Adriano Stuart, 1979) 4.240.591
19 “Os Três Mosquiteiros Trapalhões” (Adriano Stuart, 1980) 4.221.222
20 “O Incrível Monstro Trapalhão” (Adriano Stuart, 1980) 4.213.258
21 “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura” (Roberto Farias, 1968) 4.000.000(*)
22 “O Cangaceiro” (Lima Barreto, 1953) 4.000.000(*)
23 “Lua de Cristal” (Tizuka Yamasaki, 1990) 4.000.000(*)
24 “O Cangaceiro Trapalhão” (Daniel Filho, 1983) 3.912.287
25 “Os Trapalhões e o Rei do Futebol” (Carlos Manga, 1986) 3.647.316
26 “Os Heróis Trapalhões” (José Alvarenga Jr./Wilton Franco, 1988) 3.639.269
27 “Eu Te Amo” (Arnaldo Jabor, 1981) 3.479.266
28 “Jeca contra o Capeta” (Amácio Mazzaropi/Pio Zamuner, 1976) 3.408.814
29 “O Trapalhão na Ilha do Tesouro” (J.B. Tanko, 1975) 3.375.090
30 “Jeca, o Macumbeiro” (Amácio Mazzaropi/Pio Zamuner, 1975) 3.360.279
31 “Jecão, um Fofoqueiro no Céu” (Pio Zamuner, 1977) 3.296.384
32 “Os Trapalhões Na Terra dos Monstros” (Flávio Migliaccio, 1989) 3.200.000
33 “Xica da Silva” (Carlos Diegues, 1976) 3.183.493
34 “O Menino da Porteira” (Jeremias Moreira Filho, 1976) 3.130.214
35 “Robin Hood, o Trapalhão da Floresta” (J.B. Tanko, 1974) 2.978.767
36 “Independência ou Morte” (Carlos Coimbra, 1972) 2.974.083
37 “Os Mansos” (Braz Chediak, 1973) 2.808.668
38 “Roberto Carlos a 300 Km por Hora” (Roberto Farias, 1968) 2.751.344
39 “Os Fantasmas Trapalhões” (J.B. Tanko, 1987) 2.689.380
40 “Os Trapalhões no Auto da Compadecida” (Roberto Farias, 1987) 2.610.371
41 “A Viúva Virgem” (Pedro Carlos Rovai, 1972) 2.597.410
42 “Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa” (Roberto Farias, 1968) 2.596.955
43 “Uma Escola Atrapalhada” (Del Rangel, 1990) 2.571.095
44 “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa” (J.B. Tanko, 1973) 2.576.943
45 “Xuxa e os Duendes” (Rogério Gomes, 2001) 2.562.416
46 “A Filha dos Trapalhões” (Dedé Santana, 1984) 2.476.734
47 “Os Trapalhões e o Mágico de Oroz” (Victor Lustosa/Dedé Santana, 1984) 2.457.156
48 “Xuxa Popstar” (Tizuka Yamasaki/Paulo Sérgio de Almeida, 2000) 2.387.304
49 “O Grande Xerife” (Pio Zamuner, 1972) 2.356.303
50 “Betão Ronca Ferro” (Geraldo Affonso Miranda/Pio Zamuner, 1970) 2.304.447
(*) Dados estimados por produtores ou realizadores