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A cidade chamada Mooca

A velha Mooca, motor da locomotiva São Paulo

Greves, barricadas, mortes. Operários exigem seus direitos
Greves, barricadas, mortes. Operários exigem seus direitos
A doce saga dos Di Cunto
Cotonifício Crespi, para marcar a história da Mooca
Imigração, guerras, revoluções. A história passa pela Mooca
O jeito de falar, aquele cheiro do molho de domingo
Perde-se a vocação industrial, edifícios ocupam espaços
O hino da Mooca
Eis o Arnesto. É da Mooca e nunca deu mancada
Demônios da Garoa, voz e cadência da Mooca
“Sou poeta e cidadão mooquense. Não preciso mais do que isso”
Nesta festa, a Mooca é mais italiana do que nunca
Um gol e um soco no ar
Juventus da Mooca, o teimoso “Moleque Travesso”

 

Juventus da Mooca, o teimoso “Moleque Travesso”

Quase sempre em crise, o Juventus nunca deixou de ser apenas um “Moleque Travesso”, apelido que ganhou por aprontar surpresas contra os grandes do futebol paulista. Muitos craques já vestiram sua camisa

Por Tim Teixeira

O futebol, que um tal de Charles Muller havia trazido para o Brasil, estava virando febre na cidade. Assim, os operários do Cotonifício Rodolfo Crespi resolveram montar também a sua equipe. E o que existe a partir daí é uma grande confusão sobre as origens e transformações do clube. A começar pelo primeiro nome, que alguns dizem ter sido Extra e que teria uma camisa tricolor (preto, branco e vermelho). A verdade é trazida por Vicente Romano Netto, como o nome diz neto de Vicente Romano, um dos fundadores do clube, ao lado do português Manoel Vieira de Souza, ambos funcionários do cotonifício. Oriundo da Campania, sul da Itália, Romano deu ao clube o nome de La Grécia (pois foram os gregos que dominaram aquela região por longo período). E ele tinha poderes para isso, pois fora escolhido como primeiro presidente. Por algum tempo, a sede do clube foi a sua própria casa, na rua dos Trilhos, 42 (hoje no 600).

Reprodução
O primeiro time de futebol do Juventus em 1930, na rua dos Trilhos. Ele teve pelo menos três nomes até chegar ao atual, inspirado no clube de Turim. A opção pela cor da camisa homenageou o Torino
 
Marcelo Min/AFG
Na década de 60 o Juventus: construiu a sede social e o parque poliesportivo numa área de 85 mil metros quadrados no Parque da Mooca

O time foi ganhando fama, a ponto de ganhar também a simpatia dos donos do cotonifício, que cederam um terreno na rua Javari para a construção de um campo. E mais: ganhou também a adesão de uma equipe interna do próprio cotonifício. Em 1923, pouco depois de Rodolfo Crespi (dono do cotonifício) receber o título de “Cavaliere del Lavoro”, o time passou a se chamar Cavalheiro Crespi FC. No ano seguinte, mudou para Cotonifício Crespi FC e começou a disputar o Campeonato Amador. Em 1930, inscreveu-se na APEA (Associação Paulista de Esportes Athleticos), a entidade que organizava o futebol paulista na época. Mas teve de mudar o nome de novo, pois a APEA não admitia clubes classistas. Assim, surgiu o nome Clube Atlético Juventus, inspirado na Juventus de Turim. Contrário ao profissionalismo, que chegou em 1933, o Juventus resolveu se afastar por dois anos. Nesse tempo, para não ficarem parados, os jogadores formaram um novo time, o Fiorentino. Mas é apenas essa - os jogadores - a única ligação entre os dois clubes, embora a taça de campeão amador de 1929, ganha pelo Fiorentino, faça parte da galeria de troféus montada pelo Juventus.

Quanto às cores: para fazer jus à Juventus de Turim, o conde Crespi queria que fossem branco e preto. Mas houve resistência da APEA porque já havia pelo menos quatro clubes com essas cores. Pelo mesmo motivo, não se aceitou preto, branco e vermelho. A opção pelo grená utilizado até hoje (e que lembra outro time de Turim, o Torino) foi a solução diante da falta de alternativas.

Moleque Travesso

A decisão de aderir ao profissionalismo veio em 1935, quando ingressou na Liga Bandeirante de Foot-Ball, que depois passaria a se chamar Liga Paulista de Foot-Ball. Em 1941, ao lado do Palmeiras, Corinthians, Santos, São Paulo, Portuguesa, Ypiranga, Comercial, Jabaquara e Nacional fundou a Federação Paulista de Futebol. Mas, em 1950, os Crespi se afastaram e o Juventus passou por nova crise. Esteve a ponto de promover uma insólita fusão com a Ponte Preta, de Campinas, mas o espírito da Mooca falou mais alto, e o clube resistiu. Nova crise em 1954, quando caiu para a Segunda Divisão, mas no ano seguinte estava de volta.

Até o início da década de 50 os limites do Juventus se restringiam a uma área de 13 mil m² entre a rua dos Trilhos, Javari e João Antônio de Oliveira. Nesse período, as atividades do clube se limitavam apenas ao futebol e à prática de alguns esportes amadores, embora um salão de festas, construído anos depois ao lado do campo de futebol, também servisse para festas de carnaval e até de cenário para as filmagens de algumas chanchadas.

No futebol, o Juventus nunca deixou de ser apenas um “Moleque Travesso” (apelido que ganhou do jornalista Thomaz Mazzoni, do jornal A Gazeta Esportiva, pela teimosia em aprontar surpresas contra os considerados papões do futebol de São Paulo), mas, ao longo da história, grandes jogadores vestiram sua camisa, como os goleiros Caxambu, Oberdã Catani, Picasso, Félix e Cabeção, os zagueiros Juvenal, Alfredo Ramos, Ditão e Geraldo Scotto, os meias Luisinho e Lima, e os atacantes Teleco, Hércules, Júlio Botelho, Pinga, Rodrigues e Baltazar - todos com passagem pela Seleção Brasileira, alguns até com disputa de Copa do Mundo no currículo. Isso sem falar em César Luis Menotti, um ponta que passou sem muito sucesso pela rua Javari, mas que seria campeão do mundo como treinador com a seleção da Argentina em 1978.

Na década de 60, o moleque resolveu crescer. Numa área de 85 mil m² no Parque da Mooca, começou a erguer sua sede social e um parque poliesportivo. Contratou-se uma empresa imobiliária para a venda de títulos patrimoniais. Sucesso total: em pouco tempo, o clube havia vendido quase 40 mil títulos, o que acelerou a realização das obras, incluindo ginásios, piscinas, auditório, salão de jogos, quadras para várias modalidades, churrasqueira, play-ground, campo de futebol, bares, lanchonetes, restaurante, sauna, academia de ginástica, vestiários, departamento médico, sala de bingo, butique, berçário e um gigantesco salão de festas (o maior de São Paulo), além da sede administrativa com mais de 5,5 mil m2. Para completar, uma capela e uma boate.

O sucesso da venda de títulos permitiu ao clube comprar o terreno do estádio da rua Javari, que ainda pertencia à família Crespi, além de alguns imóveis colados ao estádio, o que ampliou sua área para 15 mil m2. O estádio, porém, continuou acanhado e o sonho de fazer do Juventus um dos grandes de São Paulo não vingou. O próprio número de sócios refluiu (hoje, embora o clube não divulgue, os sócios patrimoniais não seriam mais do que cinco mil), mas o time de camisetas grenás continua cantando alto no seu terreiro - exatamente como nos tempos dos operários do Cotonifício Crespi.

 
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