6 de maio, 2008

No qual me despeço da Riviera, com Asquerosa Nostalgia

Sempre achei penosamente brega esse hábito de alguns adultos de se classificarem como "lobos solitários", ou, pior ainda, "chacais". Que há, há; havia muita discussão desse tipo quando portais de blogs eram coisas novas na internet. A imagem de um blogueiro barbudo fedendo a cigarro e apaixonado por Elis Regina (menção gratuita a Elis Regina) se identificando com um lobo porque seu blog não pertencia a um portal me fazia dançar gavotas de desprezo no meu quarto. O lobo vem se tornando um símbolo brega, como unicórnios.

We are inclined to think that genuine innovators are loners, that they do not need the social reinforcement the rest of us crave. But that's not how it works, whether it's television comedy or, for that matter, the more exalted realms of art and politics and ideas. In his book "The Sociology of Philosophies," Randall Collins finds in all of known history only three major thinkers who appeared on the scene by themselves: the first-century Taoist metaphysician Wang Ch'ung, the fourteenth-century Zen mystic Bassui Tokusho, and the fourteenth-century Arabic philosopher Ibn Khaldun. Everyone else who mattered was part of a movement, a school, a band of followers and disciples and mentors and rivals and friends who saw each other all the time and had long arguments over coffee and slept with one another's spouses.

Gladwell, depois de falar no SNL da dácada de 70, Freud, o neoconfucionismo da dinastia Sung, os impressionistas, o idealismo alemão e o círculo em volta do avô de Charles Darwin, menciona o fim característico desses grupos:

The special bonds that created the circle cannot last forever. Sooner or later, the people who slept together in every combination start to pair off. Those doing drugs together sober up (or die). Everyone starts going to bed at eleven o'clock, and bit by bit the intimacy that fuels innovation slips away.

Vocês sabem onde eu quero chegar. O fim dos Wunderblogs aconteceu não tanto porque paramos de dormir com a Gilda Radner, se bem que espero que tenhamos, mas porque um por um foi (fazendo dancinha de desprezo) ooooh, amadurecendo, conseguindo empregos, criando responsabilidades (estou dizendo essas palavras rebolando loucamente), e deixando os blogs morrerem aos pouquinhos, ou em alguns casos abruptamente.

Não sei como parece para quem está de fora, mas para mim toda a experiência de pertencer a esse grupo foi algo extraordinário. Quando estávamos no auge, no distante e mítico ano de 2004, nos encontrávamos todos os finais de semana - ou estou romantizando tudo? estou, né? -, visitávamos a casa um do outro, víamos filmes de Wes Anderson e Milos Forman e Lubitsch, entrevistas com Nelson Rodrigues, bebíamos e falávamos mal uns dos outros - por que não falamos mais mal uns dos outros pelas costas, hein? - e dormíamos com a Gilda Radner e com a mulher do Lorne Michaels em oh, tantas madrugadas adentro.

As pessoas falam mal de "grupos exclusivos", "grupinhos de amigos", "sociedades de admiração mútua", "patotas" etc - quem senão um idiota usa esses termos? - em parte porque o prazer de pertencer a um grupo desses é excluir os outros, e não se deve esperar gratidão dos outros por isso. Metade dos nossos posts eram piadas internas. Às vezes bem mais do que metade; às vezes um exagero; mas eu gostava assim. Para mim os Wunderblogs eram como a Igreja Católica para Barbey D'Aurevilly: uma varanda de onde eu podia cuspir na plebe. Quando em 2006 fui dar uma palestra numa livraria, com quatro outros escritores, e durante a palestra esses outros escritores e a platéia começaram a desenvolver suas próprias piadas internas, espontaneamente, eu não conseguia evitar de pensar no quanto o nível das piadas era inferior ao dos meus amigos, que jamais ririam de coisas tão imbecis.

Uma das vantagens de se acreditar em reencarnação, escrevi num post que ficou no rascunho, é que todo episódio feliz mas isolado da sua vida pode ser o primeiro de uma série infinita. Ou, se preferirem, tenho certeza que vai haver uma continuação dos Wunderblogs num Wunderhimmel mostarda e preto, no centro do qual encontraremos o original platônico do O'Malley's esperando por nós. Mas agora que estou indo embora, não consigo deixar de me sentir um pouco como Dick Diver deixando a Riviera, para fazer uma comparação que dá um ar romântico descabido ao grupo e a mim ao mesmo tempo, e que afinal é como me sinto, o Wunderblogs sendo a Riviera em que seduzi Rosemarys metafóricas:

"I must go," he said. As he stood up he swayed a little; he did not feel well any more - his blood raced slow. He raised his right hand and with a papal cross he blessed the beach from the high terrace. Faces turned upward from several umbrellas.

Em termos do que realmente fizemos - para falar com a seriedade que sempre evitamos - em termos de, uh, contribuições, não sei como julgar, e confesso que tendo a supervalorizar tudo. Ainda posso apontar alguns posts nos arquivos de amigos meus que eram melhores do que qualquer coisa nos jornais, revistas ou livros brasileiros da época. Mas você tem todo o direito de desconsiderar o que eu estou falando, claro, seu nitwit.

Duramos cinco anos. Fomos bem menos do que podíamos ter sido. Se tivéssemos continuado no ritmo que tínhamos em 2004, teríamos nos tornado em algo - bem, quem sabe. Quelque chose de magnifique. "Uma chispa de isqueiro no escuro, um fósforo cinematográfico que, na tela, dava clarão, uma faísca, no máximo, mas ainda assim perceptível num país escuro, imenso, jeca."

Se bem que do jeito que foi, digo com toda a seriedade que, tudo considerado, fomos bem melhores do que a turma do Pasquim, essa turma de baby-boomers cariocas que apóia governos e nunca vai calar a boca. Amém.

Postado por Alexandre S. 10:04 PM | Comments (0)

1 de maio, 2008

Mas tentei

Tentei tirar as palavras "The Australian Aborigenes" e substituir por "Cariocas" no Paint, mas ficou ruim.

Postado por Alexandre S. 12:28 AM | Comments (0)

28 de abril, 2008

Links e Whatnot

* Ok, este texto aqui (em inglês). Eu concordo que esse tipo de chato é sempre homem, mas o que a autora toda feminista do texto não leva em conta é que esse tipo de chato chateia todo mundo que estiver à volta, e não só mulher. Outro dia um chato desses estava me explicando tudo sobre a produção de queijo de cabra, sem que eu tivesse perguntado nada - ele escolheu o assunto e desenvolveu em grandes detalhes, todos eles errados.

* The Moral Obligation to be Intelligent (via Márcio Hack).

* Dois vídeos de Nabokov falando de Lolita com Lionel Trilling.

* Eu gostei desses dudes com vasos na cabeça. Estas chinoiseries também. (via alessandrasouza).

* Passei algumas horas vendo isto. Oh, ok, alguns minutos.

* Testando esse negócio de Tumblr. (Muié mais-ou-menos-pelada no link se você clicar.)

* Dá pra ver vários episódios de Twilight Zone aqui (via Ieda.)

* Um post sobre a adultice que você nunca vai alcançar.

* Se nunca ouviu falar dela, pesquise, pesquise.

* Esta página tem vários manuais clássicos de esgrima, e, surpresa, de boxe também.

* Weenies são os donos dos blogs que eu menos gosto por aí (obrigado, Jules).

* Andrew Sullivan começou a tomar injeções de testosterona e descreve os efeitos na personalidade dele. Se os críticos de cinema da Folha fizessem a mesma coisa iam gostar de filmes completamente diferentes.

* Estava pra postar este link faz tempo. Uma conversa entre uma defensora dos direitos dos - ih, qual é o termo? Como se traduz de jeito PC "disabled people" mesmo? Enfim, entre uma defensora dos direitos dos aleijados e (estremeço, quase) Peter Singer.

* Resenha de um livro sobre vegetarianismo, escrita por B.R.Myers. Sinta-se livre para não ler, ué - mas eu gosto deste trecho: "But the idolatry of food cuts across class lines. This can be seen in the public's toleration of a level of cruelty in meat production that it would tolerate nowhere else. If someone inflicts pain on an animal for visual, aural, or sexual gratification, we consider him a monster, and the law makes at least a token effort at punishment. If someone's goal is to put the "product" in his mouth? Chacun à son goût."

* Bom ponto sobre Rocky.

* Fico aliviado de ver que gostar de Chico Buarque pode ser realmente coisa de geração (ver o comentário número 4. Claro, aproveita e vê o post todo, e depois o blog todo.) (via Martelada).

* Chico Buarque é para cougars.

* Para terminar, por enquanto (talvez coloque mais links depois): estou sem comentários ainda - desde fevereiro, caso você não tenha notado. Problemas técnicos, não (como você deve estar resmungando) "covardia". E, ah, umas mudanças por aí acontecerão, digo eu misteriosamente.

Atualização, pára tudo - Mais uns links, what the hell.

* Primeiras fotos coloridas da Inglaterra.

* Terapeuta esquerdinha e bobalhão acha que os problemas do mundo serão resolvidos se todo mundo falar sempre a verdade e tal. Isso ocorreu a todos nós quando tínhamos 16 anos, mas ele põe em prática. O jornalista lá tenta fazer isso durante algum tempo.

* A diferença entre coolness e cavalheirismo.

* A Mula-Sem-Cabeça não é kosher.

* Ignora a primeira parte do post, eu só estou interessado no apartamento da Coco Chanel.

* Get On Down with the Stepfather of Soul!

* Lê só mais Margaret Soltan corrigindo o texto dos outros e parei. (Muito divertido. Às vezes sinto vontade de fazer a mesma coisa em português.)

Postado por Alexandre S. 12:33 PM | Comments (0)

25 de abril, 2008

Guerra

Sempre que leio alguém argumentando contra a Guerra do Iraque percebo que ele mistura, acho que sem perceber, argumentos contra a Guerra do Iraque e argumentos contra todas as guerras que jamais existiram. Assim no meio de argumentos mais ou menos cabíveis contra a Guerra do Iraque a pessoa começa a falar em crianças sendo bombardeadas, etc. Isso talvez aconteça com todas as guerras que acontecem no presente e não no passado: você aceita que algumas guerras devem ser travadas apesar do sofrimento dos civis, especialmente uma ou outra guerra escolhida a dedo no passado, mas se a guerra está sendo travada agora, e o sofrimento dos civis aparece com frequência nos jornais, em fotos coloridas, e a guerra é impopular ainda por cima, você esquece que havia aceitado que algumas guerras devem ser travadas apesar do sofrimento dos civis, e passa a mencionar crianças bombardeadas no meio de argumentos contra aquela guerra específica. Isso faz com que cada governo que queira travar uma guerra tenha que defender não só aquela guerra específica, mas voltar atrás a um ponto que já parecia ter sido universalmente aceite e defender de novo, e de novo e de novo, a necessidade de algumas guerras em abstrato.

Postado por Alexandre S. 6:07 PM | Comments (0)

24 de abril, 2008

Observação Antropológica

Estava vendo The OC e o garoto pobre vai jogar videogame com o garoto rico, mas como o garoto pobre é cool ele fica jogando videogame com uma colher de sobremesa enfiada na boca, assim casualmente. A adolescência é a única fase em que você acha que deixar uma coisa enfiada na boca, assim casualmente, é cool: fio de palha ou de trigo, canudinho de refrigerante, caneta bic sem o reservatório de tinta - apropriadamente colocada não nos cantos da boca, o que é considerado brega, mas balançando nonchalantemente entre os dentes da frente -, o papel em que você anotou um telefone, a medalhinha na ponta da corrente que você está usando no pescoço, um copo de plástico, as obras completas e encadernadas de Philip K. Dick. Depois disso, claro, é só coisa pegando fogo.

Postado por Alexandre S. 12:30 AM | Comments (0)

23 de abril, 2008

Valha-me Deus, sou eu que tenho que resolver tudo

Quando alguém quer matar uma pessoa, às vezes por acidente mata duas. E quem pode ser a favor disso? Ninguém que não seja maluco. Ficar repetindo que assassinato é errado ( o que ninguém discute, ok?) e não se importar com o fato de que a ilegalidade do assassinato empurra milhões de assassinos de baixa renda para a marginalidade, para os becos imundos onde eles tentam matar um e erram a pontaria e acabam matando dois, três, quatro, quando não morrendo eles mesmos - à míngua!, - à tal da míngua!, - senhores, desculpem, mas não é religião, não é moralidade, mas paródia de religião e de moralidade.

Vale mais aceitar que os assassinatos vão acontecer mesmo, ao ritmo de tantos a cada ano, e tratar de diminuir o dano organizando os assassinatos legalmente em clínicas, onde só morre a vítima mesmo, sob supervisão médica e seguindo procedimentos higiênicos, e onde o assassino, que já está passando por um dos momentos mais difíceis da sua vida, não tem que passar pelo trauma extra de ir para um beco escuro ou coisa assim.

Digo, uma mulher que vive na rua da minha empregada tentou matar o marido e pegou tétano porque o cabo da faca estava enferrujado. E se isso não serve de argumento para a legalização do assassinato, estou sem calças neste exato momento.

Postado por Alexandre S. 6:18 PM | Comments (0)

17 de abril, 2008

Cada época escolhe achar um horror normal, e escolhe achar o horror considerado normal pela época anterior como sendo especialmente horrível. É uma espécie de Rodízio de Horrores praticado desde sempre. E o problema de ser simplesmente um bom menino da sua época é que, por bons que sejam, bons meninos da sua época sempre vão achar normal fazer sejam lá quais forem os horrores que as suas épocas decidiram que são normais.

Não duvido que uma época futura vai achar normal, por exemplo, o estupro de avozinhos (e se calhar vai acontecer justamente quando você for velhinho.) Nesse caso um bom menino, uma boa menina da sua época estuprará seu avozinho; ou pode até não estuprar, se for um pouco mais delicadinho, mas vai dizer "Olha não sei, eu mesmo nunca estuprei o vô, dei só uns amassos, mas tenho uma amiga que estuprou e eu defendo o direito dela, vai da consciência de cada um, né", e tal.

E se os opositores do Estupro de Vozinho forem meio chatos, como por exemplo se forem rapazes espinhudos com óculos feios, ou fizerem piquetes na porta dos motéis de estupro de vozinhos levando faixas com erros ortográficos e parecendo talvez um pouco boçais, um pouco virgens, um pouco religiosos, garotas perfeitamente boas e normais e delicadas vão se sentir tão repelidas pela semjeitice dessa gente que vão passar a ter alguma, ah sim alguma, simpatia pelo Estupro de Vozinho.

Postado por Alexandre S. 5:24 PM | Comments (0)

15 de abril, 2008

Continuo obcecado com a estupidez das pessoas estúpidas

Um grande momento na vida de uma pessoa de inteligência mediana acontece quando ela descobre que generalizações não cobrem todos os casos específicos. A excitação causada por essa descoberta e o prazer inocente em simplesmente pensar na existência de exceções o deixa incapaz, durante algumas décadas, de entender generalizações simples - de tal forma que se alguém disser que "a maior parte das mulheres chamadas Joana são morenas", ele é capaz de levantar e dizer de um jeito sabido que conhece uma Joana que não é morena.

Pelo menos pelo que eu vejo em jornais e fóruns na internet, a vida mental de muitas pessoas consiste numa única coisa, numa espécie de cacoete, que é pensar automaticamente em exceções sempre que ouvem uma tentativa de formulação de uma tendência geral. Essas exceções lhes causam tanto prazer que ficam um pouco tontos, um pouco distraídos, talvez, e assumem que a existência dessas exceções nega a tendência geral que acabaram de ouvir. Ver, por exemplo, o número de pessoas que dizem "meu avô fumava e viveu até os 97 anos", "eu fumo crack e estou vivo até hoje", "eu sou ateu mas sou bonzinho", etc.

-87% dos jogadores de futebol são mamelucos.
-Besteira, conheço um que é japonês - e caolho!
-95% dos repórteres da Globo sofrem de ginecomastia.
-Não fala bobagem, e o Tunico que tem bócio?,

etc etc.

Atualização: Logo depois de ter escrito isso encontrei este exemplo de pessoa-que-acha-que-a-exceção-invalida-a-tendência: "Some of her blanket statements are wildly irritating. In the chapter on language, she asserts that "male brains are simply less versatile when it comes to language, written or spoken" (and cites plenty of erudite studies). But surely such distinctions, even if scientifically proven, are largely meaningless when we all know that there are so many exceptions to these rules, exceptions dependent on education, family, opportunity?" Só posso achar que algumas pessoas encaram toda espécie de generalização como uma imposição, uma diminuição da liberdade, própria ou alheia, e se apegam a cada exemplo de exceção à regra como prova de que não há regra nenhuma. É um impulso bonzinho, mas cabeça oca, que parece atuar na maior parte das pessoas que negam as diferenças inatas e não socialmente adquiridas dos sexos e das raças.

Postado por Alexandre S. 6:27 AM | Comments (0)

8 de abril, 2008

Muxtape

Subi umas músicas aqui. Quando fiz a lista dos meus autores favoritos, não tinha nenhum judeu e insinuaram antisemitismo nas minhas fuças - mas não era, é que eu realmente não gosto de histórias de gueto e pobre e parentes pitorescos. Mas desta vez coloquei um klezmer só pra disfarçar (via).

Postado por Alexandre S. 12:09 AM | Comments (0)