A capital paulista tem sotaque italiano
São Paulo é a cidade com maior concentração de italianos no mundo.
Ao todo são seis milhões, mais do que a população de Roma

Liésio Pereira

São Paulo - A capital paulista tem sotaque italiano e nem poderia ser diferente, uma vez que a cidade abriga cerca de seis milhões de italianos natos ou descendentes. “Este número transforma São Paulo na maior cidade italiana do mundo. Não existe, nem na Itália, uma cidade que tenha seis milhões de habitantes. Roma não tem e é a maior cidade do país. E mais: o estado de São Paulo com seus 14 milhões de italianos e descendentes é, também, a maior região de italianos do mundo, não existe uma região na Itália – lá o estado é chamado de região – que tenha 14 milhões de habitantes”, diz Cláudio Pieroni, presidente do Conselho Estadual de Comunidades de Raízes e Culturas Estrangeiras (Conscre), da Assembléia Legislativa paulista.

A primeira leva de imigrantes italianos aportou em São Paulo entre os anos de 1872 a 1900, quando chegaram os primeiros 144 italianos. A segunda etapa ocorreu entre 1901 e 1920. A época das chamadas “grandes imigrações” foi entre 1921 e 1934 e a etapa mais recente foi de 1935 a 1950, provocada pela segunda guerra mundial e suas conseqüências.

“É uma história linda, cheia de lutas e de muita garra – acho que uma das características principais de nosso povo é a garra”, comentou Pieroni. Lembrou que as primeiras imigrações foram de colonos que vieram substituir a mão-de-obra escrava nas fazendas. “Normalmente, o italiano acabou sendo dono da fazenda depois de muitos anos e a contribuição dos famosos ‘Barões do Café’ foi absolutamente significativa. A Avenida Paulista, na época, foi constituída e, posteriormente, bastante desenvolvida por esses italianos”, explicou.

Os períodos das duas grandes guerras mundiais do século XX, segundo Pieroni, concentraram os maiores fluxos de imigração italiana. “As crises econômicas da Europa provocaram grandes fluxos de imigração, antes e depois das duas guerras. Estes imigrantes constituíam uma mão-de-obra mais qualificada. (Os imigrantes) vieram aqui, construíram seus comércios, e cresceram”, diz Pieroni. Como exemplo de obra desse imigrante mais qualificado ele cita o edifício Martinelli.

“O primeiro prédio da cidade de São Paulo, o primeiro arranha-céu realmente importante, foi o edifício Martinelli. Inclusive, o (Giuseppe) Martinelli era da cidade de Lucca, da Toscana, e eu sou da mesma região. Tenho esse orgulho de dizer que o primeiro prédio foi um luquense que fez”, comentou. “Nos anos 60 e 70, com o desenvolvimento da Itália, que passou praticamente cessou esse fluxo de imigração”, acrescentou.

Atualmente, a contribuição italiana na capital paulista pode ser sentida de várias maneiras. Na culinária, com as famosas cantinas e a pizza – “temos orgulho de dizer que a pizza de São Paulo é a melhor do mundo”, disse Pieroni. Na arquitetura, cartões postais da cidade têm o dedo de italianos, basta lembrar do MASP (projeto de Lina Bo Bardi) e do Museu do Ipiranga (projetado pelo engenheiro Tommaso Gaudenzio Bezzi). Nas artes, sobressaem-se os pintores de origem italiana como Portinari e Volpi.

Todos os anos, a comunidade italiana celebra suas tradições com grandes e concorridas festas como as de San Gennaro (na Mooca), San Vito (no Brás) e Nossa Senhora Achiropita (no Bixiga). “Achiropita quer dizer pintada sem as mãos”, ensina a professora de língua e literatura italiana Loredana de Stauber Caprara, da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ela, a expressão vem da história do santuário construído pelo imperador Maurício, cerca de 580 anos depois de Cristo, em homenagem à Nossa Senhora, cuja imagem foi pintada no fundo da parede do templo sem ter sido usada a mão do homem. Atualmente existem duas igrejas dedicadas a Nossa Senhora Achiropita no mundo: na Itália e no Bixiga, São Paulo.

A religiosidade italiana também é notória e se mostra presente entre os descendentes paulistanos. “Na igreja Nossa Senhora da Paz, no primeiro domingo do mês, tem uma missa que é patrocinada por uma das regiões italianas. Essa missa é rezada e cantada em italiano”, ressalta a professora Loredana.

Os descendentes dos imigrantes italianos (já existem descendentes de quinta geração São Paulo) procuram manter suas tradições, mas não se sentem menos brasileiros por isso, na opinião de Cláudio Pieroni. “A nossa comunidade foi, junto com a portuguesa, a que mais se miscigenou, a que mais se integrou na comunidade brasileira, devido à fantástica acolhida que o Brasil deu a esses imigrantes. Hoje temos em São Paulo mais de 80 associações italianas, e 160 no estado”, diz Pieroni.

Segundo ele, um dos grandes medos que a Itália tinha era o chamado “fluxo migratório ao contrário”, a volta dos descendentes para o país de seus antepassados. “Mas muito poucos (descendentes e imigrantes) pensam em voltar para Itália a não ser para passear”, acrescentou.

O chefe Giovanni Bruno, há mais de 50 anos em São Paulo e cidadão honorário da cidade, resume bem o pensamento dos imigrantes italianos. “Eu sempre disse que para mim São Paulo é minha segunda mãe, agradeço realmente a essa cidade, eu amo São Paulo, que me deu tudo”.

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