A cidade da diversidade racial
Estima-se que convivam, na capital paulista, representantes de 90 a 100 etnias
diferentes, emigrantes que ajudaram no progresso econômico de São Paulo

Liésio Pereira

São Paulo - Os imigrantes foram fundamentais para a construção do Brasil como nação e para a formação da cidade de São Paulo. Dos 5,5 milhões de imigrantes que chegaram ao Brasil entre 1880 e 1980, 2,5 milhões ficaram em São Paulo, o que transformou a cidade em uma vitrine da diversidade racial e cultural. Hoje estima-se que existam na capital paulista representantes de cerca de 100 diferentes etnias.

Na época de colônia, o país recebeu portugueses – os pioneiros – espanhóis, holandeses e franceses, entre outros, que aqui se juntaram à grande população indígena. Além disso, mais de seis milhões de negros foram trazidos à força da África para o trabalho escravo, entre os séculos XVI e XIX.

Alterações sócio-econômicas na Europa do século XIX incentivaram a vinda de inúmeros imigrantes ao Brasil. No século XX, foram as revoluções no Leste Europeu, guerras mundiais, massacres e perseguições políticas, religiosas e étnicas os principais fatores de imigração. Estima-se que 5,5 milhões de imigrantes chegaram ao Brasil entre 1880 e 1980, sendo 2,5 milhões para o Estado de São Paulo.

Os primeiros imigrantes em São Paulo foram os fundadores, padres jesuítas, entre eles Manoel da Nóbrega (português, da região do Minho) e José de Anchieta (Espanhol, nascido nas Ilhas Canárias). Segundo o historiador Hernani Donato, nos primeiros anos de sua fundação, São Paulo já abrigava pelo menos alguns representantes de várias etnias: em 1560 tinha um inglês, dois italianos e vários espanhóis.

Em 1750, chegam em São Paulo os primeiros negros – vindos do Congo e de Angola – para trabalhar na agricultura. Com a abolição, em 1888, a cidade recebe negros ex-escravos que vinham à procura de emprego. Já os imigrantes europeus começam a chegar em maior número no final do século XIX.

Os italianos ocupam a região do Bixiga e, logo, começam a chegar os primeiros imigrantes sírios e libaneses. Pelo Porto de Santos, um grupo de 108 japoneses desembarca do navio Kasato Maru e, com a eclosão da primeira guerra mundial, começam a vir para São Paulo imigrantes de todos os cantos do mundo. Atualmente, estima-se que vivam na capital paulista representantes de noventa a cem etnias diferentes.

Ciente da importância das comunidades estrangeiras para a construção da sociedade e da riqueza paulista, a Assembléia Legislativa de São Paulo criou, em 2001 o Conselho Estadual de Comunidades de Raízes e Culturas Estrangeiras (Conscre), que tem como objetivo preservar a memória e manter as tradições culturais das comunidades.

“O objetivo (do Conscre) é juntar esses imigrantes que, na verdade, fizeram a nossa São Paulo, o nosso estado e têm uma grande participação no nosso Brasil”, explicou o presidente do Conselho, Cláudio Pieroni.

O Conscre destaca no nome o termo “raízes e culturas estrangeiras” porque nem todas as comunidades participantes representam países. “A comunidade judaica, por exemplo, não representa o país Israel, porque existem judeus de todos os países”, explicou, acrescentando que “hoje, nós temos no Conscre mais de vinte comunidades”.

Desde a sua fundação, o Conscre realiza festivais anuais para mostrar à população um pouco da cultura e das tradições das comunidades estrangeiras. “A gente procura, com isto, preservar e mostrar as tradições dessas comunidades que formaram São Paulo e sua diversidade cultural. É um patrimônio para São Paulo que não pode ser esquecido e se perder ao longo do tempo. Não existe país ou cidade que tenha uma diversidade cultural como a que formou São Paulo”, informou Pieroni.

Apesar da importância dada às comunidades estrangeiras, Cláudio Pieroni faz questão de destacar a contribuição dos negros e nordestinos em São Paulo. “Em primeiro lugar, os negros – que foram os primeiros imigrantes, ainda que forçados - e contribuíram para o crescimento econômico daqueles séculos, até que veio a libertação dos escravos. Com a abolição, começaram a chegar as comunidades de diferentes etnias, no final dos anos 1800, que vieram contribuir com esse engrandecimento. E depois, os nordestinos, migrantes que ajudaram, junto com as comunidades estrangeiras, a construir São Paulo. Não existe uma construção em São Paulo que não tenha a participação da comunidade nordestina”, disse Pieroni.

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