HISTÓRIA
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Os encouraçados Minas Geraes e São Paulo foram as unidades mais poderosas da Marinha do Brasil durante décadas. Mas também eram belonaves complexas e dispendiosas. No entanto, em 1922 somente elas poderiam fazer frente ao Forte de Copacabana.

Um encouraçado contra o forte 

2ª Parte

O Forte de Copacabana, rebelado em julho de 1922, mostrou ser um alvo bastante difícil de ser vencido. Mesmo assim o São Paulo foi combatê-lo.

n Guilherme Poggio

Um Forte contra a capital federal

O levante em si não foi uma surpresa para o governo, pois o Chefe de Polícia da capital federal já havia alertado o presidente sobre os preparativos dos revoltosos. O que surpreendeu o governo foi a capacidade de uma bateria de defesa costeira, projetada para disparar contra navios ser empregada contra alvos terrestres dentro da cidade.

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O Ministério da Guerra (acima) e o Quartel do Batalhão Naval (abaixo) eram parte dos alvos do Forte de Copacabana. Mais do que alvos táticos, o capitão Euclides pretendia  

Canhões como os do Forte de Copacabana, são peças de artilharia com trajetória tensa, ou seja, combinam pouca elevação (pois não precisam ultrapassar obstáculos como morros e serras), maior velocidade inicial da granada e grande carga de projeção. Estas características também permitiam aos canhões de 305mm executar disparos contra alvos distantes até 23.300 metros. Por este motivo as tábuas de tiro prestavam-se ao emprego naval e não contra alvos terrestres. Obviamente que a guarnição do forte tinha conhecimento prévio deste contratempo e passou a reavaliar as tábuas de tiro utilizando novos ângulos de elevação e cargas de projeção reduzidas com o propósito de empregar os canhões contra alvos terrestres.

Neste quesito os revoltosos não decepcionaram e o Morro de São João deixou de ser um obstáculo natural entre o forte e a região central da cidade. Na manhã do dia 6 de julho, o Quartel do Batalhão Naval na Ilha das Cobras foi bombardeado pelo forte. Ali faleceram três fuzileiros navais vítimas dos disparos. Em seguida os disparos voltaram-se contra o edifício do Ministério da Guerra, local de onde partiu a ordem de prisão do marechal Hermes. O tiro foi longo, mas suficiente para gerar protestos por parte do próprio ministro Calógeras. Seguiram-se outros dois disparos que acertaram o alvo em cheio, causando a morte de três praças e ferindo outros tantos. Em vista da precisão dos tiros o pânico instalou-se de forma generalizada e o Quartel General foi obrigado a mudar de endereço.

O Forte de Copacabana precisava ser derrotado antes que a capital federal fosse destruída. Os planos para combater o forte já estavam traçados naquela altura dos acontecimentos. Caberia à marinha e às suas principais unidades de combate a tarefa de fazer fogo intenso contra o Forte.

O planejamento do combate

Na época, a Marinha do Brasil não contava com um serviço de informações na sua estrutura ministerial. Embora fatos anteriores tenham demonstrado a existência de focos conspiratórios dentro das forças armadas, as informações eram repassadas por militares que delatavam companheiros, pelo chefe da polícia local e pelo almirante Alexandrino, ex-ministro da Marinha e senador da república. Por estas informações, o Ministro Veiga Miranda colocou a Marinha em alerta já no dia 3 de julho.

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O Minas Geraes disparando sua bateria de canhões de 305 mm. Ambos os navios realizaram exercícios navais meses antes da eclosão da rebelião do Forte de Copacabana e estavam com o armamento principal em boas condições.  

Os encouraçados Minas Geraes e São Paulo passavam (como era de costume) por reparos. O Minas Geraes estava docado no dique Afonso Pena. Os reparos no casco foram interrompidos e o navio aprontado. Por volta das 15 horas o dique começou a encher. Auxiliado pelo rebocador Laurindo Pitta, o Minas Geraes deixou o dique e fundeou no poço dos encouraçados, onde começou a receber os batelões com a munição. O São Paulo encontrava-se do outro lado da baía, atracado ao cais da Ilha Vianna, recebendo reparos diversos. Por volta das onze horas da manhã as caldeiras foram acesas e, logo depois, começou a receber carvão. Os testes de máquinas ocorreram durante a noite.

Em relação ao armamento dos encouraçados, o mesmo encontrava-se em boas condições. Isto foi provado em fevereiro daquele ano quando ambos os navios realizaram exercícios de tiro ao largo das Ilhas de Maricás. Os canhões dispararam contra um alvo rebocado, o mercante Alagoas. O alvo não foi atingido, mas os canhões demonstraram eficiência e a tripulação estava adestrada.

Mesmo sendo belonaves poderosas, o Forte de Copacabana ainda representava um inimigo de respeito para os encouraçados. Cada navio possuía uma bateria principal composta por 12 peças de 305 mm, contra apenas duas do forte do mesmo calibre. Mas, em função da posição das torres, nem todas as peças dos encouraçados poderiam ser utilizadas ao mesmo tempo. Na melhor situação, cinco torres, totalizando dez peças de 305 mm, poderiam ser utilizadas simultaneamente.

Poder Naval OnLine

Culatra original de um canhão Armstrong 305 mm que pertenceu ao encouraçado Minas Geraes e duas granadas. Estas peças estão em exposição no Museu Naval do Rio de Janeiro. 

Se o forte perdia em poder de fogo, ganhava em alcance. Seus dois canhões de 305 mm disparavam granadas de 445 kg com alcance máximo de 23.300 metros, contra 21.800 dos canhões dos encouraçados. Além disso, a proteção do forte, com suas muralhas de até 12 metros de espessura, resistiriam muito mais que a blindagem dos 'dreadnought' brasileiros.

A questão das muralhas de concreto acabou definindo o tipo de granada a ser empregado pelos navios. As poderosas granadas perfurantes permitiam atravessar uma couraça de aço de até 305 mm. Eram ideais para combates entre navios, mas não para bombardeio costeiro ou, como no caso, ataques a fortificações terrestres. A opção recaiu sobre granadas comuns de 385 kg cada. 

 

Os navios tinham a vantagem da mobilidade, mas esta era bastante limitada, para não dizer próxima de nula, pelas características geográficas da baía. Mesmo assim, o combate jamais ocorreria numa distância superior a 7250m em função destas mesmas limitações geográficas. Isto era extremamente preocupante para os navios, pois as granadas do forte atravessavam uma blindagem de aço de 388 mm de espessura a 10.400 metros. Numa distância inferior a esta, mesmo as partes mais protegidas dos encouraçados (305 mm de espessura) seriam facilmente atravessadas.

A Marinha não tinha escolha, ou recusava o combate ou executava-o numa distância curta. Esta segunda opção foi escolhida e a distância média foi definida como 6.000 metros. Os navios deveriam navegar no sentido Norte-Sul (alinhamento Ilha da Laje - Ilha Rasa) a uma velocidade pré-definida de 9 nós.  Também foi estabelecido que apenas um canhão de cada torre dispararia ao mesmo tempo, limitando a salva a cinco tiros. Foi utilizada a experiência da fortaleza de Santa Cruz, que no dia 4 disparou diversas vezes contra o Forte de Copacabana sem maiores perigos para os moradores do entorno do mesmo. Portanto, a primeira salva dos encouraçados seria executada no mesmo alinhamento.

A movimentação dos navios e o combate

Na madrugada do dia 4 para o dia 5, os oficiais envolvidos no planejamento do ataque reuniram-se no encouraçado Minas Geraes e discutiram os detalhes da ação. O São Paulo seguiria na frente e logo atrás, ligeiramente deslocado para bombordo, viria o Minas Geraes. O contratorpedeiro Paraná, com a flâmula de almirante arvorada, apenas acompanharia o bombardeio. Após a reunião, o São Paulo ainda recebeu as últimas ordens do vice-almirante Frontin e embarcou um oficial do Exército para fazer a ligação entre o encouraçado e o Forte de Vigia.

Antes do início do combate, o ministro da Guerra Pandiá Calógeras telefonou para os rebelados do Forte. Exigiu a rendição imediata de todos caso contrário o mesmo seria bombardeado. Diante do ultimato, o tenente Siqueira Campos dirigiu-se aos cerca de 280 homens que ali se encontravam.  

"Quem quizer partir o governo garante a vida; quem quizer ficar, fique mas posso prevenir que nada de bom nos espera." 

A grande maioria preferiu deixar o Forte. A retirada deu-se de forma confusa e desorganizada. Sobram quatro oficiais e 24 soldados.

 

A bordo do São Paulo o aviso de postos de combate soou às 7:25 horas e a tripulação guarneceu as torres principais de 305mm com exceção da 4, cuja guarnição encontrava-se dividida pelas demais. Por falta de pessoal, as baterias de 120mm das casamatas também não foram guarnecidas. Neste mesmo momento ouviram-se dois disparos provenientes do forte. Não vieram na direção do encouraçado. Nem tão pouco foi possível identificar a direção dos mesmos a partir do navio, mas eram granadas de 190 mm disparadas contra instalações terrestres.

Às 7:55 horas, vinte minutos após  a guarnição suspender em postos de combate, a torre 2 do São Paulo realiza o primeiro disparo. Este seguiu na direção do Forte de Imbuí e felizmente caiu na água. Foi um disparo acidental, devido ao apontador ter calcado a chave de fogo. Exatamente às 8:00 horas, o Forte da Vigia sinalizou para o encouraçado e este disparou sua primeira salva de cinco tiros em direção ao forte. Devido ao nevoeiro baixo, não foi possível observar o ponto exato atingido pelas granadas. Segundo relato do encarregado geral do armamento a bordo do encouraçado São Paulo, capitão-de-corveta Guilherme Ricken, os tiros foram "curtos, com boa direção". Porém, pelo relato do capitão Euclides da Fonseca, os tiros foram "longos e, portanto, perderam-se". É mais provável que o relato do capitão Euclides esteja correto, pois além de estar mais próximo do local da queda as granadas, a observação do capitão Ricken foi afetada pelo nevoeiro baixo.

fortedecopacabana.com

Disparo real dos canhões de 305 mm. Esta foto mostra bem a fumaça produzida pelos disparos. Fumaça esta que dificultou a observação do alvo pelo encouraçado São Paulo.

Nova salva foi disparada 12 minutos depois. Mas antes disso, o forte havia disparado duas vezes, seguido por mais três disparos logo em seguida. Tanto a fumaça das chaminés do navio como a fumaça cinza dos disparos da cúpula de 190mm não permitiram confirmar o acerto sobre o alvo. Três minutos depois uma nova salva, seguida pela quarta às 8:22 horas e novamente a tripulação não pôde afirmar nada em relação aos acertos. Enquanto isso o forte continuava disparando, mas não contra o encouraçado.

A última salva do São Paulo foi dada às 8:30 horas e desta vez, pela fumaça levantada pela explosão das granadas de aço (com carga de projeção reduzida por três quartos), a fortificação foi atingida.

Às 9:07 horas o Forte da Vigia confirmou a rendição do Forte de Copacabana, que içou uma bandeira branca. O sinal de cessar-fogo (bandeira P) foi içado pelo Forte da Vigia para o São Paulo. Mesmo com esta confirmação, o encouraçado continuou atento, navegando entre a Fortaleza de Santa Cruz e a Ilha Rasa até o período da tarde, quando recebeu ordens para retornar e fundear no poço. O Minas Geraes havia retornado para o poço às 9:45 horas e acabou não executando nenhum disparo contra o forte. O contratorpedeiro Paraná, de onde o Chefe do Estado Maior da Armada acompanhava a ação, só regressou após o cessar-fogo.

Ao todo, o São Paulo disparou cinco salvas contra o forte, totalizando 19 ou 20 granadas (dependendo da fonte pesquisada). Segundo relato do capitão Euclides foram dezesseis disparos, sendo que "quatorze foram longos e, portanto, perderam-se.  Apenas dois atingiram o frontão esquerdo da frente da obra, lado do mar". Independentemente dos números reais, a verdade é que a fortificação saiu praticamente intacta, demonstrando a solidez de sua construção. 

Questões em aberto

Após a leitura do relato acima, a primeira pergunta que surge é: por que o forte não disparou contra os navios? Para responder a esta indagação, a única fonte de informação vem dos próprios revoltosos. Conforme relato do capitão Euclides, no comando dos canhões de 305mm, a cúpula encontrava-se no rumo da Vila Militar quando o tenente Siqueira Campos alertou-o sobre a presença de três navios que transpunham a barra. A elevação dos canhões fora baixada para 0º e a cúpula foi então manobrada na direção dos mesmos. Durante o giro para leste, houve perda de pressão hidráulica por falha no motor diesel, que vazava óleo. A cúpula parou no rumo do Forte da Vigia. O eletricista alertou o capitão Euclides de que os copos do motor diesel foram arrancados durante a confusão da retirada. Sem dúvida, um ato de sabotagem contra os revoltosos.

Não se sabe se este ato era do conhecimento das tropas legalistas e dos comandantes que participaram do combate. Mas por que a Marinha colocou em risco suas principais unidades de combate? A ação ocorreu a luz do dia e sob tempo bom (somente a visibilidade estava prejudicada pelo nevoeiro baixo). O combate foi travado em curta distância e a baixa velocidade. A blindagem dos navios não era suficiente para resistir aos impactos do forte e este mostrava-se um alvo difícil de ser eliminado. Ou seja, quase todos os elementos táticos do combate agiam desfavoravelmente à ação dos navios.  

No entanto, a dúvida permanece. A cúpula dos canhões de 305mm estava avariada, mas e as demais peças? Sabe-se que o canhões de 190mm estavam plenamente operacionais no momento do ataque. Os disparos contra os alvos em terra demonstram isso. Em momento algum a cúpula foi manobrada na direção do São Paulo. Sob o comando do tenente Siqueira Campos, os canhões fizeram dois disparos pouco antes de avistarem o encouraçado. Depois da segunda salva do São Paulo, outros dois disparos de 190mm foram feitos, mas também não seguiram na direção do navio. Ao todo, mais de dez disparos foram feitos entre as 7:35 horas (momento em que o São Paulo transpôs a barra) e as 8:28 horas (dois minutos antes dos últimos disparos do São Paulo) e nenhum deles seguiu na direção dos navios.

 

Não se conhece a operacionalidade do canhão de 75mm (face norte) naquele momento, mas mesmo este seria de grande valia, pois o São Paulo estava dentro do seu alcance.

Outro ponto em aberto é a real posição do São Paulo durante o combate. Cruzando as informações referentes à ordem de batalha estabelecida previamente, chegou-se a duas hipóteses excludentes. Ou o navio manteve a velocidade definida de 9 nós ou manteve o setor de fogo pré-estabelecido. Para a elaboração das duas hipóteses, partiu-se do princípio de que o primeiro disparo foi feito no alinhamento entre a fortaleza de Santa Cruz e o Forte de Copacabana numa distância aproximada de 6.000 metros.

No primeiro caso, adotando-se a velocidade de 9 nós constante, ficou demonstrado que o São Paulo percorreu uma distância equivalente a 4,5 milhas náuticas ou aproximadamente 8340 metros entre a primeira e a última salva. Sendo assim, as outras quatro salvas foram disparadas fora do setor de fogo previamente estabelecido e parte do bairro de Copacabana estaria à mercê de eventuais disparos longos (principalmente nos últimos dois disparos).

PN Online/modificado de Google Earth

Comparativo entre as duas possibilidades das posições do São Paulo durante o combate. Na imagem da esquerda estão identificados os pontos de onde partiram as salvas, mantendo-se a velocidade de 9 nós. Na direita a área restrita do setor de fogo limitado às marcações verdadeiras do forte entre 250º e 227º. 

Na segunda hipótese, mantendo-se todas as salvas dentro o setor de fogo previamente definido, o encouraçado praticamente permaneceu parado. Acredita-se que esta segunda hipótese seja mais correta, pois realmente existia a preocupação de minimizar a exposição da população ao risco e, se os relatos do capitão Euclides estiverem corretos, os "tiros longos" perderam-se no mar. Caso esta segunda hipótese se confirme, o estado de quase imobilidade do São Paulo é mais um elemento tático desfavorável para a ação do navio, reforçando a tese do conhecimento prévio por parte da forças legalistas em relação à sabotagem da cúpula de 305mm. 

O desfecho 

Durante o combate, o ministro Calógeras telefonou para o forte com o propósito de negociar o cessa-fogo. O capitão Euclides deixou então o forte e seguiu para o palácio do Catete para negociar com o ministro da Guerra, mas foi preso. Diante desta atitude, o restante dos revoltosos tomaram uma atitude idealista. Não mais combateriam no forte. Sairiam para combater as tropas legalistas. Antes disso, uma bandeira foi cortada em 29 pedaços, distribuídos para cada um dos 28 revoltosos. O tenente Siqueira Campos guardou o vigésimo nono peça para ser entregue ao capitão Euclides quando o encontrasse.

Arquivo

Uma das imagens mais famosas da história brasileira. A "marcha da morte". Da esquerda para a direita, tenentes Eduardo Gomes, Siqueira Campos e Nilton Prado. Com trajes civis o engenheiro Otávio Correia, que se juntou aos revoltosos no final.

Caminhando pela orla, os revoltosos seguiram na direção do Leme. Alguns abandonaram a marcha logo no início, mas parte do grupo seguiu em frente até encontrar resistência. O combate com as tropas legalistas durou das 13:45 horas até as 15 horas. Não se sabe exatamente quantos homens combateram até o final, mas o grupo ficou eternizado como "os dezoito do Forte".  Destes, somente dois sobreviveram; os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes. O governo imaginou ter, assim, sufocado a revolta e contido os ímpetos dos militares. Mal podia desconfiar que este era o início de um ciclo de revoltas que só terminaria sete anos depois.