Dez anos depois, Vanessa da Mata tem retorno triunfal a Londres no palco do Koko

<<last | 1 | 2 |

Nas andanças pelo mundo, Vanessa recorre a tradutores só em ocasionais entrevistas ao vivo para rádio. “Sempre que dá, respondo em inglês. No tête-à-tête, falando para jornalistas, dispenso. É sempre mais carinhoso quando você está frente a frente com o entrevistador”, compara, usando o vocabulário afetivo tipicamente brasileiro. Ela observa que os repórteres estrangeiros costumam ser bem informados sobre seu trabalho, mas já se acostumou a driblar uma tendência de generalização nas perguntas que enfrenta. “Sempre acham que eu canto Bossa Nova ou fazem alguma ligação com a Bossa Nova. Eu explico que trabalho com ritmos diferentes, geralmente com uma matriz africana mais forte. Minha música é mais ligada aos sons do norte e do interior do Brasil”, diz ela.

O primeiro álbum de Vanessa, Vanessa da Mata, de 2002, era predominantemente filiado à tradição acústica da MPB, e só contou com um remix pop eletrônico como estratégia posterior de divulgação. O segundo, Essa Boneca Tem Manual, de 2004, foi produzido por Liminha - ex-integrante dos Mutantes e uma grande eminência parda do pop/rock nacional - e gerou pelo menos um megahit de pistas de dança, Ai, ai, ai, também a canção mais executada pelas rádios brasileiras em 2006. Já o terceiro disco, Sim, ganhou ares cosmopolitas a partir da produção de Mario Caldato (famoso por trabalhos com os Beastie Boys) e do carioca Kassin Gamal, que renovou o som de Caetano Veloso e ajudou a fazer de Los Hermanos a banda mais popular do Brasil dos últimos tempos.

Parcialmente gravado em Kingston, na Jamaica, com a cozinha da dupla Sly & Robbie (o baterista Sly Dunbar e o baixista Robbie Shakespeare, veteranos de gravações com Bob Dylan, Mick Jagger e Sting, entre outros), o trabalho foi puxado por outro megahit, a bilíngue Boa Sorte/Good Luck, dueto entre Vanessa e Ben Harper. Ao mesmo tempo, porém, Sim acolhe nomes da nova geração brasileira, como o guitarrista Fernando Catatau, e investe nas fusões com ritmos tradicionais como o carimbó.

Mais do que um movimento em direção ao pop, percebe-se na trajetória de Vanessa a opção por eliminar fronteiras. “Eu gostaria de abrir os ouvidos das pessoas para misturas sonoras. Do funk carioca ao axé reprocessado, uma junção do kuduro com o pagode, o carimbó pop, coisas que estão no meu trabalho ou que ainda podem surgir nele. Miscigenação é a palavra-chave. Eu sou a própria miscigenação, totalmente misturada nas minhas origens: não sei onde começa uma coisa e termina outra”, define-se.

Há pouco tempo, descobriu um ramo francês da família, um D’Artagnan que se perdeu por Goiás e Minas Gerais e cujo sobrenome foi aportuguesado. Sobre a ascendência de índios xavante, divulgada em sua biografia na Wikipédia, ela revela que muito provavelmente está incorreta. “Isso vem da minha avó, que na verdade é lá da Bahia, região onde não tem xavante. Mas não sei identificar qual a tribo.”

Nada que impeça Vanessa de vibrar com decisões recentes como a homologação definitiva da área da reserva Raposa do Sol, em Roraima (norte da Amazônia), após anos de conflito entre macuxis e colonos arrozeiros. “Eles são bravos, não se dobram, não se entregaram. Quando vejo um carinha desses seqüestrando o branco na reserva, acabo meio que torcendo por eles”, revela a cantora. “Lá na minha cidade, no Mato Grosso, convivi muito com indígenas. Na minha escola havia vários. Além da origem familiar, aprendi a admirar certa pureza e a maravilhosa consciência da natureza que eles demonstram. Não sou uma ativista da causa indígena, mas sou da torcida”.

Seu engajamento maior é na questão ambiental, presente em canções como Absurdo, desabafo contra a destruição do cerrado na região rural onde morou até os 14 anos – o pai era fazendeiro. “Ali a gente vê muito terreno desmatado, devastado. A cultura da soja enche o solo de agrotóxicos e exaure tudo de maneira criminosa após alguns anos. Várias espécies locais estão ameaçadas de extinção”, comenta.

A conversa não se alonga porque a cantora está em momento de trabalho intenso em seu primeiro DVD, Jardim de Perfumes do Sim. Em maio, sai no Brasil um produto que pretende ser mais do que o registro de duas noites de show no centro histórico de Paraty, bela cidadezinha ao sul do Rio. No palco do Koko, podem faltar esses elementos pitorescos, mas a voz e a doçura de Vanessa da Mata garantem um passeio por charmosas ruas de paralelepípedo. Com esquina para o mundo.

Vanessa da Mata


26 de abril
£15.00
Koko
Compre seu ingresso aqui
<<last | 1 | 2 |

ENTRE EM CONTATO | SOBRE A JUNGLE | ANUNCIE
27 Apr
OJOS DE BRUJO @ Roundhouse
28 Apr
BOOK LAUNCH: EU E A PAZ @ Guanabara
28 Apr
SPANISH BOMBS @ Barbican Hall
30 Apr
OVER THE MOON @ Favela Chic
30 Apr
PLINIO PROFETA @ Guanabara
View full calendar