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Reportagem:
O Vale dos Imigrantes
Revista TERRA
Original: 8 páginas

 

 

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TEXTO

O Vale dos Imigrantes
Colonizado com o suor de italianos e alemães, o Vale do Itajaí, em Santa Catarina, revela um Brasil civilizado, ordeiro, e rico em patrimônio cultural

Por: Renato Ventura Modernell, de Ibirama
Fotos: Ricardo Telles

Lino Vicenzi já nem contava rever o verde do Vale do Itajaí. Aos 21 anos, sua vida parecia por um fio. Hoje, aos 75, esse agricultor de olhos azuis recorda muito  bem quando as bombas estremeciam o chão e as vidraças dos prédios da Toscana. Neto de italianos da região do Trento, durante a Segunda Guerra Mundial ele enfrentou a irônica fatalidade de ser incorporado à Força Expedicionária Brasileira que atravessou o oceano para combater seus próprios ancestrais italianos, aliados aos alemães. Voltou vivo, mas perdeu dois primos e um vizinho lá, no meio da neve, entre os doze soldados recrutados em seu município. Tendo agora oito filhos e doze netos, mas ainda trabalhando a terra na localidade de Pomeranos Caravaggio, Vicenzi é um herói de guerra. Só que sua casa está cercada de paz, na bela e bucólica zona rural de Rio dos Cedros.

Não longe dali, na primorosa Pomerode, considerada a cidade mais alemã do Brasil, Dietrich Schmidt também tem suas lembranças de guerra - mas são histórias de quem viu tudo pelo outro lado, isto é, pelo lado dos inimigos de Vicenzi. Nascido na Califórnia, criado em Berlim, radicado no Brasil, aos 79 anos ele agora é dono do Wunderwald, restaurante que serve pratos típicos alemães (incluindo um formidável marreco recheado) e também alguns italianos. Ali dentro, para surpresa do freguês, há um inusitado recanto denominado "Mamma Mia", homenagem de Schmidt aos colonizadores trentinos, que, na opinião dele, fizeram muito pelo Brasil. Uma lasca da Itália incrustada na  Alemanha - com jeitinho brasileiro. Enfim, a geografia do coração. "Agora é normal, mas no início me criticaram muito", confessa Schmidt.

"Antigamente havia certo rancor", confirma Carmelo Carlini, 78 anos, morador de Pomeranos Santo Antônio, um agricultor culto e bilíngüe que já escreveu em jornais sobre a técnica de plantar arroz. "Os alemães, que haviam chegado antes aqui, não aceitavam os italianos perto deles. E os italianos se vingavam. Havia uma pontinha de inveja, porque os alemães estavam mais bem situados. Mas agora é como uma única família."

Para que se chegasse a isso, hoje, no Vale do Itajaí, foi preciso que muitas águas rolassem por baixo da ponte - e até por cima, na época das enchentes. A atualmente harmoniosa convivência de alemães e italianos entre si, e com grupos minoritários de poloneses, russos e tchecos, e de todos esses os brasileiros, foi uma árdua conquista de muitos dias e muitas noites, ao longo dos anos. Por trás de tudo, o viajante antento ainda pode ouvir os ecos de um passado cheio de dilemas, dramas e fadigas. Mas o que vê à sua frente é sobretudo uma região próspera e serena - enclave de civilidade dentro do Brasil conturbado dos nossos dias. Ali quase todo mundo aparenta menos, ou bem menos, idade que realmente tem.

Miséria e crimes os moradores só conhecem pela televisão. Tudo é muito limpo e organizado. Até nas borracharias é difícil encontrar sujeira.

A região do Vale do Itajaí é uma porção do território catarinense que vai desde o coração do Estado até a costa, onde fica a cidade portuária com o mesmo nome do rio. Itajaí, Blumenau e Rio do Sul são os pólos mais importantes, respectivamente, do Baixo, do Médio e do Alto Vale. Com 12.700 indústrias têxteis, a região ostenta a segunda maior concentração mundial desse ramo de atividade, logo atrás do Vale de Greensboro, no Estado americano da Carolina do Norte. Para ter uma idéia, o Sindicato Têxtil de Blumenau tem 40 mil trabalhadores registrados e só perde em magnitude para a região do ABC, em São Paulo.

O eixo rodoviário do vale é a BR-470, estrada que corre em paralelo ao curso do rio, servindo de ligação entre a litorânea BR-101 (em duplicação acelerada) e a BR-116, no planalto, as duas linhas de acesso ao Sul que se oferecem ao motorista, a partir de Curitiba. Durante muito tempo, essa rodovia transversal de belos panoramas ficou quase escondida no miolo de Santa Catarina, servindo apenas às cidades que estão em sua rota. De uns anos para cá, entretanto, isso mudou bastante. Descoberta pelos caminhoneiros de outros Estados, a BR-470 recebe agora trânsito intenso, pesado, fuliginoso, e nas imediações de Blumenau os congestionamentos já não tem hora para acontecer. Mocinhas de minissaia exibem as pernas no acostamento, parando os carros e fechando negócios. Enfim, os efeitos colaterais da civilização vão chegando até ali.

Para sentir o sabor do vale é preciso dar as costas à BR-470 e se enfronhar pelas estradas secundárias, muitas vezes de terra, que dão acesso a cidades e vilarejos que são pequenas pérolas. Pomerode, Timbó, Benedito Novo, Rodeio, Rio dos Cedros, Ascurra e Ibirama, por exemplo, mostra que existe uma propensão natural para o equilíbrio, um senso de conjunto que prevalece, nesses lugares, sobre a tradição nacional de se tentar levar vantagem em tudo, conforma a famosa "Lei de Gérson".

Num hotel de Pomerode, por exemplo, o hóspede pode se encantar com a gentileza da proprietária, ao dar um desconto substancial na diário mesmo depois de ele já ter decidido ficar, sem regatear o preço normal. Há sempre reações inesperadas. Na zona rural, quando há um entrevero qualquer, a ofensa mais grave não é aquela que envolve o nome da progenitora, mas o mero xingamento de "vagabundo" ou "ladrão". Isto, sim, é imperdoável. Pois o trabalho, incluindo aí a postura ética em relação a ele, representa o ponto de honra na vida dessa gente que dá duro de sol a sol.

Desde o início, nunca faltaram desafios para a laboriosidade dos colonizadores teutônicos do interior do município de Blumenau, que ao longo deste século daria origem a muitos outros - como a encantadora Timbó, por exemplo, onde diferentes estilos arquitetônicos hoje se combinam. A Sociedade Colonizadora Hanseática, fundada em 1897, responsável pelo segundo fluxo imigratório para Santa Catarina, não trouxe apenas agricultores, como seria de se esperar, mas também grande número de artesãos, operários, comerciantes e até mesmo oficiais. Enfim, eram europeus urbanos, pouco acostumados ao cabo da enxada. Após quase três meses de travessia oceânica, apertados em lentos brigues e patachos, eles se viram diante de um lugar absolutamente selvagem, bem mais montanhoso do que haviam imaginado, com base na sedução da propaganda e do serviço de recrutamento. Tinham comprado gato por lebre - mas já não havia como voltar atrás. Fustigados pelos índios, ameaçados pelas onças, sufocados pelo calor, esses pioneiros tiveram então de se lançar à dura tarefa de construir os primeiros caminhos pelo fundo dos vales, margeando o Itajaí e seus afluentes. Depois ainda começaram a chegar aqueles italianos rudes, montanheses, sentimentais, para pegar o bonde andando. E cobras por todo lado.

Calejado, o povo encara qualquer dureza sem perder o ânimo. Arrasada pelas águas na década de 80, Blumenau foi rapidamente reconstruída. A receita: determinação.

A dureza dos primeiros tempos forjou a tenacidade dos habitantes dessa região e sua extrema dedicação ao trabalho. É admirável sua capacidade de dar a volta por cima, revertendo uma catástrofe, como aliás aconteceu com a própria Alemanha depois de ter sido arrasada em duas guerras mundiais. Nas enchentes da década de 1980, Blumenau chegou a virar uma cidade submersa, com barcos navegando ao nível dos semáforos; mas depois que a água baixou a população rapidamente retirou a lama, recompôs a cidade, replantou as flores e apagou os vestígios da cheia. E para sacramentar essa reação foi organizada a primeira Oktoberfest, que logo se tornaria um acontecimento turístico e cultural comparável ao Carnaval. Como resultados das enchentes, a cidade de Blumenau tem um dos sistemas de defesa civil mais bem preparados de todo o país, capaz de monitorar as menores variações no nível do Rio Itajaí e, caso necessário, remover os moradores ribeirinhos, em operação-relâmpago.

O contato com a dificuldade, em diferentes épocas, não só estimulou o senso prático dos habitantes do vale como também reforçou seu temperamento sóbrio, comedido, próprio de uma cultura luterana. A arquitetura confirma isso. Mesmo nas casas mais abastadas, não se sente uma tendência ao exagero ou à ostentação, mas sim à busca de um denominador comum com a mais simples que pode haver na mesma rua: o jardim. Todas se equiparam nisso. Nas grandes enchentes, não faltaram casos de vizinhos que se juntaram em mutirão para refazer o jardim de alguém que havia perdido suas flores, como se aquilo fosse tão essencial quanto o telhado.

Há sempre ma floreira no avarandado, ao lado de três cadeiras brancas. As portas com vidraças e as janelas amplas, geralmente, sem grades, ajudam a reforçar a impressão de que o visitante é bem-vindo. Só as casas de italianos e tchecos, às vezes, chegam a exibir pinturas mais chamativas; no caso dos alemães, a maioria e branca ou varia do amarelo ao bege. As cores claras convêm a uma região onde o calor do verão é tão compacto quanto a neblina de inverno, devido aos poucos ventos que circulam no vale.

O esmero dessas pequenas cidades demonstra que seus habitantes são poucos afeitos ao desperdício. É que sempre tiveram de fazer muito com poucos recursos. Ali nunca ninguém conheceu os horizontes ilimitados das fazendas que caracterizavam a economia em outras partes do país. A regra ainda hoje é o minifúndio, onde se tem um pouco de tudo. Porco, vaca, galinha, lavoura. As glebas dos colonizadores variavam entre 12 e pouco mais de 20 hectares, com medidas que podiam ser, por exemplo, de 200 metros de frente, à margem do rio, por 1.100 metros de fundo. Essa foi a planta inicial das cidades da região: um conjunto de 80 ou 100 filetes de terra acompanhando a sinuosidade dos cursos d'água.

Um desses terrenos era tradicionalmente destinado à igreja, responsável não apenas pelo suporte espiritual da nova comunidade, mas também pela difusão da língua e das tradições da pátria distante às novas gerações. O que o governo alemão pretendia, com sua política migratória, era justamente isso: estabelecer um quisto germânico dentro do Brasil, sem se misturar muito com o resto, que pudesse abastecer a Alemanha de matérias-primas e, em contrapartida, constituir um mercado para produtos industrializados. Isso nunca chegou a ser plenamente realizado. Até porque ocorrera duas guerras mundiais, nas quais Brasil e Alemanha foram inimigos.

Enquanto Lino Vicenzi e Dietrich Schmidt, na Europa, ficavam em lados opostos, no Vale do Itajaí abria-se outro duro período para os descendentes dos colonizadores. Até hoje são lembrados os casos de pessoas que foram forçadas, por brasileiros demasiadamente nacionalistas e rancorosos, ao suplício de beber óleo diesel. Pelo simples fato de terem sangue estrangeiro ou falarem outro idioma. Muitas das localidades da região tiveram seus nomes germânicos trocados para outros com apelo nacionalista, de preferência com evocação indígena.

Esse foi o caso, por exemplo, da atual cidade de Ibirama, que se chamava Hammonia na época em que se tornou sede da Colônia Hansa, na primeira década deste século. Situada no entroncamento dos rios Itajaí do Norte (ou Hercílio) e Itajaí do Sul, que ali formam o pedregoso Itajaí-Açu, nos dias atuais ela se transformou num dos principais pólos nacionais de rafting, canyoning e também numa área de interesse dos aficionados  em escaladas de cachoeiras e do turismo ecológico em geral.

Já valeria a pena conhecer essa região apenas para experimentar o delicioso caldo de cascudo, peixe de carne suave que em certas épocas é abundante no Rio Itajaí. Ou então para provar dos quitutes servidos em numerosas festas comunitárias. Nelas às vezes ainda se pode ouvir o tradicional bandônion, instrumento inventado por Heinrich Band em meados do século passado, como variação da concertina, e antigamente usado nas cidades alemãs para celebrar serviços luteranos na rua ou em igrejas que não tinham órgão. Seu som nostálgico ressoa com certa estranheza no calor do Vale do Itajaí. É que estamos numa imprevista Alemanha tropical, em cujas estradas se vendem cachos de bananas, coco gelado e caldo de cana. E de cujas matas foram arrancadas tribos milenares, junto com centenários troncos de canela, de diâmetro igual à altura de um homem em pé.

Para ir mais longe:
A Sociedade Colonizadora Hanseática de 1897 e a Colonização do Interior de Joinville e Blumenau, livro de Klaus Richter, editado em parceira entre a Editora da Furb (Blumenau) e a da UFSC (Florianópolis). Outras obras e material de pesquisa sobre o Vale do Itajaí podem ser encontrados na Biblioteca da Furb e no Acervo Histórico da Prefeitura de Blumenau (tel.: 326-6990).
 

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