Imortal como um Drible
Na, boca do túnel do Maracanã, o velho ídolo ouvia o grito forte, vindo do fundo da alma de cada um dos 131.551 torcedores presentes para assistir à sua última exibição: "Mané, Mané, Mané, Mané..." Era como se o tempo tivesse parado e ele ainda pudesse, estrela solitária ao peito como nos anos 60, vencer com os rápidos movimentos de suas pernar tortas a todos os "joões". Como se tivesse forças para uma vez mais reencontrar-se com a linha de fundo e fazer o povo novamente feliz. Mas o próprio Garrincha, depois de muito relutar, havia se convencido de que não dava mais para ser assim. Por isso estava l, naquela noite de 19 de dezembro de 1973. O jogo que reunia uma Seleção de Brasileiros e outra de estrangeiros convidados para a festa com renda revertida para o craque, marcaria a sua retirada dos campos.


E a torcida, fiel companheira desde os tempos de dribles fartos? O que poderia esperar dele naquele último encontro? Tudo, pensava-se. Craque de imprevisibilidade única na história do futebol, Garrincha tinha o dom mágico de incutir nas pessoas a esperança de rever, por uma vez mais que fosse, a grande jogada, a finta desconcertante. Mesmo que já tivesse com 40 anos. Ainda que em um jogo amistoso como naquele.

Apesar de não ficar em campo o tempo inteiro. Garrincha era sempre a atração. Todo o mundo do futebol se mobilizou para homenagear Mané. Até o Rei Pelé, companheiro de outras batalhas, estava presente, e mesmo figuras importantes na vida do craque, como seu compadre Niton Santos, fizeram questão de pagar seus ingressos. Com a renda, Mané pôde comprar uma casa na Barra da Tijuca, um Mercedes-Bens usado, um pequeno apartamento para cada uma das oito filhas e a sociedade um uma churrascaria.
São 17 minutos de um jogo que terminará em 2 x 1 para os brasileiros, de virada, com um goláco de Pelé e outro de Luís Pereira. Para os esntrangeiros, apenas o gol solitário do argentino Brindisi.
O mais importante, porém, está para acontecer agora. Garrincha pára a bola à frente de Oscar Bruñel, zagueiro do Flu, que defendia os estrangeiros improvisado na lateral.
Durante alguns segundos, o suspense entre suas pernas tortas e o olhar fixo do zagueiro remete o torcedor do Maracanã a jogadas perdidas em velhos jogos de outros tempos. A volta que Mané dá sobre o zagueiro sai perfeita, e a bola, como em seus melhores dias, passa limpa entre as pernas do "João". O remoçado Garrincha, então, a recupera mais na frente e, sem ângulo, chuta forte, mas longe do gol de Andrada. O estádio inteiro nem esperou pela conclusão do lance. De pé, todos já o aplaudiam antes, com entusiasmo.
Foi a última alegria do povo.


Aos 30 minutos, aindo no primeiro tempo, quando a bola estava no ataque dos brasileiros, o juiz Armando Marques paralisou a partida. Era chegado o momento que Garrincha tantas vezes adiou desde que saiu do Botafogo, em 1966, sempre na tênue esperança de um instante a mais de glória. Ele então deixou o campo para comandar uma volta olímpica. Acenando para a multidão, tirou primeiro a camisa. Depois as chuteiras e, em seguida, as meias. Para, aos poucos, deseparecer pela última vez como jogador de futebol, túnel do Maracanã abaixo, sob os gritos do povo que sempre acreditou nele.

OBRIGADO, MANÉ!


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