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Pisando em ovos , Brasília, 2005.


Artistas e suas
intervenções urbanas
:

Márcia X

Guga Ferraz

Renata Lucas

Go to

Corpos Informáticos

Daniela Bezerra

Rodrigo Paglieri


No número anterior foram apresentados outros artistas que praticam esta linguagem.


Apoio:

  











































































































Intervenções urbanas?
Um bate-papo com Alexandre Vogler, Guga Ferraz,
Luis Andrade e Ronald Duarte.


Kenny Neoob é artista, mestranda da UNI-RIO e
editora do caderno cultural Polêmica Imagem.



Kenny Neoob O que é uma intervenção urbana, nas artes visuais?

Ronald Duarte Há uma questão morfológica da palavra: intervenção ou interferência? Intervenção é uma maneira de inventar intervindo, reinventando alguma coisa na cidade. Reinventar o urbano, dialogar com o espaço.

A interferência tem a intenção de transgredir, de cortar, de fracionar, de ser a transversalidade da cidade, não tem nada com a invenção do espaço. Chamaria meu trabalho de interferência urbana. Meu diálogo não é paisagista, não é urbanista, nem arquitetônico. É estético.

O que é uma interferência urbana? É um diálogo direto com o que a cidade que agoniza, que grita o que mais necessita e, então, você vai mostra a todo mundo. É bastante visível mas, às vezes, as pessoas que vivem na cidade não conseguem enxergar porque estão muito próximas.

Fogo cruzado e O que rola é o que você vê são dois casos sociais de fogo cruzado na madrugada, às três horas da manhã, em Santa Teresa. Todas as madrugadas, tem fogo cruzado em Santa Teresa. Eu dou nome à coisa. Uma metodologia de Antônio Negri: como você estabelece o que existe? Estar diante da coisa e nomeá-la, então, é possível interagir, entendê-las de uma forma inteligente. Eu coloco fogo nas ruas de Santa Teresa, às três horas da madrugada. São mil e quinhentos metros de trilho pegando fogo. Interfiro, firo realmente a cidade, ainda mais: no patrimônio histórico.

KN E para você, Vogler, o que é uma intervenção urbana?

Alexandre Vogler Um conceito simples: intervir na urbis.
Tive uma formação em Belas Artes mas, em certo momento, não considerava mais tão importante a apresentação de trabalhos em lugares padronizados. Na época, eu estava terminando a faculdade, tive muitos contatos com múltiplas referências, sobretudo midiáticas, que fizeram com que eu me interessasse por trabalhar com a urbis.

A Avenida Brasil ? uma via expressa onde quase não se consegue parar, forma um batalhão de imagens, de outdoors etc. ? foi bastante significativa para que meu trabalho se deslocasse para esse tipo de fruição e, ao mesmo tempo, a mesma abrangência que o veículo publicitário, tanto em escala quanto e redundância, quanto em produtividade, em reprodutibilidade. No meu caso, a intervenção foi puxada pela atuação com os lambe-lambes. À medida que comecei a trabalhar na rua, comecei a ver os efeitos resultantes e a investigar outros meios. Não consigo pensar só na imagem, ela é o efeito primeiro, bastante eficiente, mais prático e mais fácil de ser produzido. A abrangência do trabalho e o seu poder de comunicação, sempre foram prioridades para mim. Mesmo com todas as dificuldades que tenho de produzir, penso em formas táticas de inserir o trabalho dentro de um outro circuito. E esta tática é a estratégia. Hoje em dia não penso tanto em intervenção urbana, mas intervenção em circuitos de comunicação.

RD É interessante você falar sobre isso tudo. Cada um pensa de uma maneira e vamos acrescentando, dizendo como é que a interferência urbana funciona na cabeça de cada um.

AV Quando você lida com o povo da rua, você usa uma linguagem mais simples.

KN E para você, Guga?

Guga Ferraz - Começou com a ingenuidade que poderíamos encher de cartazes a cidade do Rio de Janeiro e competir com a paisagem publicitária, usando o mesmo espaço, a mesma linguagem, tentando lutar com o braço contra o que já é instituído.

O importante é conseguir um retorno a partir de uma proposta bem simples como, por exemplo, quando o meu trabalho saiu na capa do EXTRA ao lado da foto do ônibus queimado por traficantes. Fala a notícia: enquanto isso, cresce o número de placas adulteradas ? as placas que interferi fazendo referência aos incêndios de ônibus. Um jornal popular como o EXTRA, com uma circulação bastante intensa, atinge uma camada da população que é difícil de comunicar. Vale muito pelo o que o Vogler falou, uma comunicação mais direta com um número maior de pessoas que normalmente não estariam interessadas no meu trabalho de arte. É como se fosse uma conversa com pessoas que não estão preparadas para aquela informação.

KN Luis, gostaria de acrescentar alguma reflexão sobre as intervenções?

Luiz Andrade Sim, tenho coisas a dizer que acho fundamentais. Há um somatório de experiências, aqui no Brasil, que fazem com que o Rio de Janeiro seja um terreno fértil para este tipo de interferência, além de ser uma tremenda experiência urbana, sem paralelo, desde a natureza até a especulação geral, as pessoas... e, tudo isso num país de escravocratas, aonde a comunicação direta é fundamental e a formação não está franqueada para todos.

Nós que trabalhamos na universidade pública, talvez tenhamos também, lá num cantinho da cabeça, um efeito colateral deste problema, algo que se manifesta em qualquer coisa que a gente faz, mesmo que não tenhamos muita consciência disso.

Vocês pontuaram coisas fundamentais. Primeiro mandamento: intervir na urbis. O diálogo direto como segundo mandamento. A orquestração, outro mandamento ? lembro aqui de Vila Lobos orquestrando quarenta mil crianças, o coro de crianças no Maracanã, o maior coral que a história da música teria visto, num lugar que não é teatro.

Eu acrescentaria o significado, o contexto, os signos que estão por aí à mão para quem quiser fazer uso. Faço questão de descrever o que aconteceu na Espanha, em Barcelona. Vi o Colombo, no porto, apontando para as Américas, e disse: que coisa estranha! Queria ampliar uma imagem da estátua da liberdade. Queria ver aquilo do tamanho de um jornal, por exemplo. Essas duas imagens, naquele momento, me criaram uma convicção: isto é um trabalho.

Quinto mandamento: o princípio de atenção. Quando se está na cidade é preciso ficar muito mais atento.

RD Existe uma anestesia natural de quem vive na cidade, acostuma-se com essa loucura. Antigamente, tinha-se medo de ser assaltado no Rio de Janeiro, hoje o medo é a bala perdida. O dinheiro perdido a gente ganha. O carro o seguro paga. Está tudo certo. Existe um certo conformismo com o nível de violência. O meu trabalho é a tentativa de exacerbar algo que acontece toda as madrugada no Rio de Janeiro, o sangue rola morro abaixo e ninguém vê. Então vamos fazer ver.

GF O que estava óbvio, vamos deixar mais óbvio ainda. E o pior é que muitos passam desatentos.

RD Somos contra a letargia.




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