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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Imazon: desmatamento cai, mas não dá para comemorar no Dia da Amazônia

Altino Machado às 12:09 am

Dados do Boletim Transparência Florestal, elaborado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), revelam que em julho deste ano a Amazônia Legal sofreu desmatamento de 276 km². Isso representa uma queda de 71% em relação a julho do ano passado, quando o desmatamento somou 961 km² . Em relação ao mês anterior (junho), que teve desmatamento de 612 Km², foi registrada uma redução de 54%

No acumulado do período atual,  de agosto de 2007 a julho de 2008, o desmatamento totalizou 5.030 km², contra 5.331 km² no período anterior. Portanto, segundo o Imazon, houve uma queda de aproximadamente 6% na área desmatada no período atual em comparação com o anterior.

Em julho deste ano, o desmatamento foi maior no Pará (75%) seguido por Mato Grosso (12%), Rondônia (6%) e Amazonas (6%). Os demais Estados contribuíram com cerca de 1% do desmatamento. Em termos absolutos, o Pará lidera o desmatamento na Amazônia com 42% do total registrado no período de agosto de 2007 a julho de 2008. Em seguida, aparece Mato Grosso com 41% e Rondônia com 9%. Esses três Estados contribuíram com 92% do total desmatado nesse período.

Para o período de agosto de 2007 a julho de 2008, o desmatamento cresceu no Tocantins (383%), Acre (+ 50%), seguido de Roraima (+29%) e do Pará (+24%). Houve queda em Rondônia (-42%), em Mato Grosso (-16%) e no Amazonas (-11%). Embora o aumento tenha sido expressivo no Tocantins, em Roraima e no Acre, em termos absolutos a contribuição desses Estados no total desmatado na Amazônia, na estação atual de desmatamento, é muito pequena.

A maioria do desmatamento (76%) em julho de 2008 ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse. O desmatamento em Assentamento de Reforma Agrária alcançou (18%), em Unidades de Conservação (5%) e em Terras Indígenas foi menor que 1%. Não foi possível detectar a situação do desmatamento em 17% da Amazônia Legal devido a ocorrência de nuvens nas imagens dessas áreas. A região não-mapeada está situada no sul do Amapá, parte de Roraima, noroeste do Amazonas e norte do Pará.

O desmatamento também atinge áreas protegidas. Nas Unidades de Conservação alcançou 5% do total registrado na Amazônia Legal em julho de 2008 pelo  Sistema de Alerta de Desmatamento do Imazon. A situação foi mais grave na Floresta Nacional do Jamanxim (PA), que perdeu quase 5 km²  de floresta.  Desde que foi criada há dois anos, a Flona do Jamanxim já perdeu 108 km² (10.800 hectares) de floresta. O desmatamento também tem sido persistente na APA Triunfo do Xingu e nas Unidades de Conservação estaduais de Rondônia.

Hoje é o Dia da Amazônia. Embora tenha sido decretado pelo Congresso Nacional e instituído pelo presidente Lula e pela ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, para ser comemorado anualmente, em todo o território nacional, o engenheiro agrônomo Adalberto Veríssimo, um dos fundadores e coordenadores da pesquisa do Imazon, afirma que não existe quase nada  a comemorar.

Em que pese  a queda de 71% no desmatamento, Veríssimo assinala que isso é como se estivéssemos comparando um paciente com 42 graus cuja febre baixou para 41 graus. E o que ele faria em benefício da Amazônia caso ocupasse o cargo do ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente?

- Primeiro é importante fazer com que o estado brasileiro esteja presente na Amazônia e não achar que os problemas possam ser resolvidos com pirotecnia a partir de Brasília. É necessário orçamento para fortalecer as secretarias estaduais de meio ambiente, pulso firme para fazer zoneamento ecológico-econômico e regularização fundiária. É necessário menos Brasília e mais Amazônia, sem conchavos. É necessário fazer aquilo que realmente faz a diferença - afirma.

Leia a entrevista de Adalberto Veríssimo, ex-consultor do Banco Mundial e autor de dezenas de livros e artigos sobre a Amazônia, região que poucos conhecem tão bem quanto ele:

O que comemorar neste Dia da Amazônia?

Quase nada a comemorar. A Amazônia continua com três graves problemas. O primeiro é a persistência do desmatamento e da degradação florestal, isto é, quando a floresta é usada para exploração de madeira. Não é apenas desmatamento, mas, também,  uma forma de empobrecimento. O Brasil não tem conseguido zerar o desmatamento. A Amazônia já desmatou demais e não precisa mais disso para o seu desenvolvimento. Precisa para alguns segmentos isolados, mas não para a sociedade como um todo. O segundo problema é que a Amazônia não tem merecido prioridade nacional em termos de investimento. A Amazônia continua no fim da fila dos aportes de recursos na área de ciência e tecnologia, na área de desenvolvimento sócio-econômico. Sempre que tem uma notícia, que chama a atenção da imprensa nacional e mundial, o governo surge com um pacote de medidas, mais de caráter repressivo, mas muito pouco de natureza de fomento das atividades sustentáveis. Existe pouco dinheiro para fazer as coisas certas. Não será possível fazer nada na Amazônia se não for investido, durante muito tempo, na formação de conhecimento da floresta, da biodiversidade, do uso mais intensivo das áreas que já foram desmatadas. O terceiro aspecto é a situação caótica em termos fundiários. Na Amazônia, boa parte do território o governo não sabe quem é o dono, não tem o controle fundiário, o que gera uma série de conflitos pela posse da terra.

Estamos então muito distantes da possibilidade de abolir o desmatamento  e as queimadas na Amazônia?

Sim, pois o fogo é uma tecnologia usada tanto para limpar o caminho do desmatamento, como para limpar áreas que  estão sendo desmatadas, que anualmente são preparadas para plantio. Essa tecnologia, que é pré-histórica, ainda é a tecnologia que a Amazônia usa em larga escala. Ela faz sentido, em termos econômicos, porque é barata e faz a limpeza de uma área. Mas é um desastre do ponto de vista ambiental. Isso evidencia que estamos no século XXI, com tecnologia de preparo de terra da pré-história.  Essa é a transição que temos que fazer. Polícia não vai parar o fogo na Amazônia. O que é necessário é investimento forte em tecnologia.

O que aconteceria se fosse decretada moratória na Amazônia?

Diminuiria muito o fogo, mas mesmo assim não o eliminaria, porque também se faz uso do fogo para limpeza de áreas que já foram desmatadas, sobretudo das pastagens. Mas a grande quantidade de biomassa que é queimada surge mesmo na hora em que a floresta é derrubada. Então uma moratória do desmatamento iria reduzir drasticamente o fogo. A partir disso, teríamos que focar no fogo que é utilizado para limpeza de pastos e nas áreas agrícolas. Teria que se oferecer alternativa para que as pessoas pudessem limpar suas áreas com algumas tecnologias agrícolas que já existem.

O governo poderia oferecer essa alternativa?

Primeiro o governo teria que desenvolver essas tecnologias em larga escala. O que existem são experiências apenas de caráter piloto, experimentais. Uma coisa é fazer uma moratória, reduzindo o fogo talvez em dois terços, mas ainda vai ficar um terço de fogo que não tem nada a ver com desmatamento. É o fogo que tem a ver com as áreas que já foram desmatadas e que anualmente são preparadas para o plantio ou pastagem.

Mas a queima não poderia ser controlada e fiscalizada?

É preciso reduzir e zerar. Além do fogo, que é a parte mais visível do problema, com uma floresta destruída se perde biodiversidade e a situação climática se agrava.  Mas o papel do governo é fundamental porque a economia rural da Amazônia ainda não decolou. Excetuando-se algumas áreas de soja e pecuária, no geral é uma economia ainda muito dependente dos subsídios feitos pelo próprio sistema público de crédito. Como as pessoas se apropriam de terras públicas, também existe  o subsídio da própria floresta, que sempre abriga um estoque de madeira. O governo é proprietário, regulador ou fomentador. Ele é o único que tem interesse de longo prazo, que pode arbitrar sobre os interesses de curto prazo dos proprietários, capazes de causar a destruição da Amazônia. Nós estamos num processo de perda anual e poderemos chegar num ponto sem retorno. Mesmo parando o desmatamento o processo fica irreversível.  A gente não precisa desmatar 80% da Amazônia. Os cientistas acreditam que, acima de 30% ou 40% da floresta desmatada, já estará instalado um processo irreversível de destruição.  O que sobrar da floresta vai acabar sendo afetado pelo regime de chuvas ou pela maior freqüência de fogo etc. Estamos próximos disso. Já temos 18% desmatado. Estamos perdendo em media 0,5% por ano. Nesse ritmo, teremos mais uns 12 ou 15 anos. É um tempo muito curto, tendo em vista a persistência de um desmatamento que a gente não consegue zerar.

A pecuária é realmente a grande vilã?

Em larga escala pode-se dizer que é a pecuária. Mas a pecuária está conectada com várias outras atividades. Tem conexão com a atividade madeireira,  que chega primeiro, abre estrada e faz a retirada da madeira. Quando se aumenta o plantio de cana no Mato Grosso e em Goiás, por exemplo, empurra-se a pecuária para a Amazônia. Isso gera mais desmatamento na região. Portanto, indiretamente, os biocombustíveis acabam contribuindo também para o efeito dominó. A pecuária mais tecnificada empurra a pecuária menos tecnificada para a fronteira. Assim, o desmatamento continua pela necessidade que o pecuarista tem de incorporar novas áreas. Existe uma disputa fundiária onde se apropriam das terras públicas. Desmatar ainda é reconhecido por alguns agentes públicos, como o Incra, como uma maneira legítima de se declarar dono da terra. O própio Judiciário, quando decide em favor de um ocupante, considera o desmatamento de um área como algo de peso.  O desmatamento ainda é usado para reivindicar posse.

O Boletim Transparência Floresta, baseados nol  Sistema de Alerta de Desmatamento registra, em julho deste ano, 276 km² de desmatamento na Amazônia Legal. Isso representa uma queda de 71% em relação a julho do ano passado, quando o desmatamento somou 961 quilômetros quadrados. Parece uma boa notícia, mas não é.

Realmente. É como se estivéssemos comparando um paciente com 42 graus cuja febre baixou para 41 graus. Continuamos em situação crítica, mas o desmatamento não subiu mais. Essa queda aconteceu nos meses de junho e julho porque nós vínhamos num regime de alta. Caiu, mas o desmatamento em 2008 vai ficar na faixa de 11 ou 12 mil Km². É um número elevado, não tenho dúvida, embora não seja a menor taxa da história, que aconteceu em 1991. Mas, se houver persistência, é possível uma redução ainda maior.

Pra finalizar: o que faria em beneficio da Amazônia se você fosse Carlos Minc no ministro do Meio Ambiente?

Primeiro é importante fazer com que o estado brasileiro esteja presente na Amazônia e não achar que os problemas possam ser resolvidos com pirotecnia a partir de Brasília. É necessário orçamento para fortalecer as secretarias estaduais de meio ambiente, pulso firme para fazer o zoneamento ecológico-econômico e regularização fundiária. É necessário menos Brasília e mais Amazônia, sem conchavos. É necessário fazer aquilo que realmente faz a diferença.

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4 Comentários »

  1. Concordo com o pesquisador: o que falta, realmente, eh menos demagogia e mais pratica dentro da Amazonia e, de preferencia, pelos amazonidas. Temos conhecimento e experiencia suficientes para lidar com a snossas mazelas e a ausencia quase total do estado somente faz agravar a situacao.

    Comentário por Raimundo cosme — sexta-feira, 5 de setembro de 2008 @ 9:14 am

  2. Essa avaliação de queda no desmatamento, que constantemente nos são impingidas, é uma grande enganação, pois compara as marcas de desmatamento entre dois períodos. Não se discute de que levando em conta essa comparação pode, de fato, ter havido uma regressão.Mas o que não se leva em consideração é o fato de que continua havendo desmatamento em grande escala. Assim é natural que, exatamente pela constante aumento de áreas desmatadas, obviamente vai diminuindo a quantidade de áreas a serem desmatadas. Não tendo o que desmatar, é claro que diminui o indice de desmatamento. Com isso, no momento em que não houver mais florestas o governo comemorará ter atingido o índice zero de desmatamento

    Comentário por Angelo Eduardo — sexta-feira, 5 de setembro de 2008 @ 10:08 am

  3. caraca meu esse desmatamento não vai acabar não,agora me esplica pra que eles fazem isso, não tem resposta pois isso não tem motivo . euem bando de maluco bay pessoal fui!

    Comentário por bruna — terça-feira, 16 de setembro de 2008 @ 8:05 pm

  4. seu blog etá bom!!
    mas como você fez?!

    Comentário por felipe — domingo, 21 de setembro de 2008 @ 1:45 pm

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