Manuel Alegre
"Não serei candidato em nome de nenhum partido. Serei candidato por Portugal "

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Manuel Alegre em entrevista exclusiva ao Expresso:
"Cavaco não resiste à tentação de governar"
Entrevista conduzida por Cristina Figueiredo e Ricardo Costa, fotos de Luiz Carvalho
09.01.2010

O histórico socialista está a um passo de anunciar a (re)candidatura às presidenciais. O país, segundo afirma, precisa de um Presidente com uma visão histórica e cultural que o actual PR não tem.

Manuel Alegre a um passo de lançar candidatura a Belém
“O Presidente não é o primeiro-ministro nº 2"


"Ainda não é o tempo" de dizer se é ou não candidato à Presidência da República. Mas Manuel Alegre assume que está a "meditar". E que, não houvera outros factores a sopesar, se fosse apenas pelo desafio já era candidato.

Um Presidente, defende, tem de ter uma visão histórica e cultural que, claramente, não reconhece a Cavaco Silva, a quem critica a propensão para intervir na esfera executiva e lamenta o uso insuficiente do poder da palavra.

Críticas políticas, faz questão de frisar, na mesma entrevista onde fica claro que, desta vez, caso decida avançar para as presidenciais gostava de ter o apoio do PS.


Estamos à beira de uma situação explosiva, como diz o Presidente (PR)?
Portugal está a caminhar para uma fractura social. Mas a mensagem resulta de dois equívocos, que estão na base da candidatura de Cavaco Silva e dos seus discursos: um é o conceito de cooperação estratégica, que encerra em si a ideia de que o PR e o primeiro-ministro (PM) partilham a definição das linhas políticas, quando isto compete ao Governo. Isto encerra uma lógica de conflitualidade. E tem outra consequência: retira espaço ao líder da oposição, subalterniza-o. Acaba por ser o PR a assumir esse papel.

Este PR é diferente dos anteriores?
Cavaco Silva foi ministro das finanças e PM, tem mais apetência executiva. O outro equívoco é precisamente o de que, por causa dessa experiência governativa, ele iria ajudar a resolver os problemas económicos e financeiros do país. Não pode. Ele não é o primeiro-ministro nº 2. São duas pessoas parecidas, com pendor para a acção governativa e o PR não resiste a essa tentação, porventura com a melhor das intenções, e isso gera conflitualidade. Sobretudo quando tem pela frente um primeiro-ministro que não gosta que lhe entrem pelos domínios. E neste momento há uma crispação muito grande, de parte a parte. Se o PR fez uma gestão infeliz da história das escutas, a resposta recente de Sérgio Sousa Pinto também foi de grande infelicidade.

E a mensagem de Ano Novo não contribuiu para desanuviar a crispação?
Não. Porque tem duas partes: o enunciado teórico do que deve ser o exercício da função presidencial e o seu contrário, com a contestação de algumas opções de fundo do Governo. Evidentemente que ele exprimiu preocupações comuns a todos os portugueses, inclusive a mim. Até houve coincidências: em Braga e no Entroncamento eu já tinha falado de querelas artificiais, de cultura de responsabilidade e negociação, da necessidade de restabelecer a confiança. Há muitas querelas artificiais e uma delas é o conflito PR/PM.

Se o PR é contra o investimento público, não há entendimento possível.
O PR tem direito à opinião e eu não sou por um corta-fitas. Mas além dos poderes que tem, é sempre um último reduto cívico, a voz dos que não têm voz, uma referência. Deve ter uma filiação nos valores históricos e culturais do país e saber ler e interpretar o país. Pensar o impossível e ver o que não é visível. E isto não é poesia, é a função de um PR, ter capacidade de antecipação, ser ousado nas intervenções e decisões, sem que isso signifique substituir-se ao Governo.

Vivemos uma gravíssima crise económica, uma crise política.
Mais do que isso, uma crise nacional. Lembra-me o fim da monarquia. Há quem diga que o país vai acabar, que mais valia sermos espanhóis. Há uma crise de confiança. E isso é grave. Somos a mais velha nação da Europa. Isto custou muito a fazer, foi sempre uma magnífica obra de vontade através dos séculos. Somos uma nação com uma história incomparável e isso deve ser transmitido às novas gerações, que se calhar não o aprendem porque se discute muitas coisas na educação mas não o essencial: os programas e o conteúdo do ensino.

Acha que Portugal tem futuro?
Se achasse que não tinha, fazia "qualquer coisa de louco e heróico", como diria o Manuel da Fonseca! Ou mandava tocar "a marcha Almadanim" ou fazia uma revolução. "Portugal é o futuro do passado", disse Pessoa. Claro que tem futuro! Vi Lula em Copenhaga a falar português e a citar o padre António Vieira: se calhar, o Quinto Império é o império cultural e da língua. Essa é a força de Portugal! Não se resolvem os problemas da economia sem orgulho ou confiança no país, se as novas gerações andam de estágio em estágio e os melhores ficam na precariedade ou abandonam o país. A minha geração nasceu sob a ditadura, mas nós acreditávamos em Portugal. Como é que hoje os jovens acham que isto não tem perspectivas? Portugal tem futuro mas o país está doente. E isto não pode ser enfrentado com uma visão tecnocrática, é preciso visão política, cultural e histórica. Essa é a função do PR. Eu disse em 2006 que dormiria descansado se Cavaco fosse eleito. Não perdi o sono. Mas acho que esta crispação vai ter consequências institucionais. Estou mais preocupado agora do que estava na primeira eleição.

Há que mudar as pessoas, portanto.
Mas como? As pessoas estão lá. Não creio que PR se vá embora na mensagem dele é evidente que se vai recandidatar e a sua agenda política, que o Expresso publicou, é de recandidatura. Há nele uma vontade de recandidatura perfeitamente legítima. E o PM também não é pessoa para se ir embora.

O PR tem sido profeta da desgraça?
Não, mas sem ser um optimista beato tem de transmitir optimismo. E isso faz-se pela palavra. O PR gere bem os silêncios, tem gerido mal a palavra.

Sócrates consegue governar em minoria?
Não é da sua natureza, mas vai ter de ser capaz. E a oposição também vai perceber que não pode haver Governo da AR. Seria um suicídio para qualquer força politica desencadear eleições e seria um suicídio democrático para o país. Não é sinal de fraqueza, até é sinal de força, negociar e chegar a consensos.

A negociação do OE vai ser com o CDS e com o PSD. Como vê isto enquanto homem de esquerda?
O PS devia negociar à esquerda. Tentei quebrar esse tabu. Não sou refém de ninguém, e também não sou do BE, que isso fique muito claro. A minha relação é com o PS. É uma relação com altos e baixos mas é uma relação familiar. Desejaria que a esquerda fosse capaz de se entender. Os eleitores de esquerda não entendem que não sejam capazes de se entender.

Em questões económicas, PCP e BE têm visões muito diferentes das do PS.
O PS aceita a economia de mercado, não está claro que os outros partidos da esquerda a aceitem. Constato que é difícil entenderem-se.

O problema das contas públicas não se ataca só com história e cultura.
Também é preciso atacar o que se passou com a Banca. Não há dinheiro para a segurança social e há para o BPN? Só se dá a volta à Economia com qualificação, criatividade, responsabilidade social. Não se desenvolve uma empresa sem desenvolver as pessoas. E não se atacam estes problemas desequilibrando as relações de trabalho sempre em desfavor dos mesmos.

Receia que esta crise passe e se volte ao paradigma anterior?
Até agora não vi, excepto num texto de um homem notável que é o professor Vitorino Magalhães Godinho, posto em causa este paradigma. Há uma consciência de que as coisas têm de mudar mas o paradigma mantém-se e as forças que provocaram esta crise continuam a definir as linhas de política económica. Temo que esta crise possa ter até consequências mais graves. O que me leva a pensar isto de outra maneira, mais ousada, não no sentido de reeditar a revolução de Outubro mas de aprender a viver com outra sobriedade e austeridade e conjugar o papel do Estado com o da iniciativa privada.

O Governo parece velho e cansado, apesar de não ter 100 dias.
Isso é uma opinião. O Governo está lá e não vejo alternativa. O PSD tem sido parte do problema e não da solução. Nas actuais circunstâncias, com esta crispação institucional, uma eventual reeleição do actual Presidente podia dar origem a um fenómeno estranho: de reconstituição de um centro-direita, que neste momento não tem uma expressão política unificada, à volta da figura do Presidente. Se o PSD não resolve nos próximos tempos os seus problemas, isso pode acontecer.

Está a dizer que a situação actual do PSD beneficia a recandidatura de Cavaco Silva?
Não. Faz com que a eventual reeleição de Cavaco Silva venha a ter um sentido político diferente.

E isso condiciona a sua decisão de se candidatar?
Faz-me meditar bastante.

Meditar para sim ou para não?
Não é matéria para esta entrevista.

Tem um prazo para essa decisão?
É uma decisão pesada. Tem de ser muito ponderada, independentemente da vontade e da disponibilidade. Há factores de ordem pessoal e política. Eu fiz a campanha de 2006 em dois meses e picos, fiquei a 29 mil votos da 2ª volta, sem apoio partidário. Mas as coisas dificilmente se repetem e nem eu estou disponível para uma repetição. Sobretudo estou preocupado com a descrença do país em si mesmo. E a crise da justiça contribuiu muito para isso. Um país sem justiça é uma democracia sem virtude. E este presidente ou outro tem de ser intransigente com a justiça. Tem que dar um murro na mesa se for preciso.

Com tantos jantares com apoiantes a sua candidatura já é imparável?
A candidatura depende do próprio. Tem de ser uma coisa autêntica, que vem de dentro, e que tem de estar ligada à vida e às pessoas. E eu tenho de ouvir as pessoas. Não tenho aparelho político, é uma rede afectiva que ficou.

Está dependente do apoio do PS?
Uma candidatura é uma decisão pessoal e um acto de independência. Mas, para vencer, obviamente que o apoio do PS é importante. Se alguém se candidata é para ganhar. Isso não muda a natureza da minha candidatura, caso tome essa decisão. Será uma candidatura transversal porque eu sou uma pessoa transversal. Só quem não percebe o que é a minha vida e a minha relação com as pessoas pode dizer que eu não unifico a esquerda, ou não ganho votos ao centro e até à direita. Da última vez até monárquicos!

Só conseguirá ser Presidente da República se tiver a esquerda toda a apoiá-lo, inclusive o PCP.
O PC apresenta sempre um candidato próprio mas nunca favorecerá a direita. Nunca a esquerda perdeu umas presidenciais por causa do PC.

Os presidentes são sempre reeleitos.
Isso também dantes o Olhanense nunca ganhava ao Sporting (risos). Seja quem for que esteja de um lado e do outro, a disputa vai ser renhida e vai ter consequências políticas no regime.

Expresso, versão impressa




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