Patinho Feio - o amuleto da sorte

por Enio Greco

 

 
 

Reprodução

  Sonho em Brasília: José Álvaro, Helládio
  Toledo, Alex Dias e João Luiz
  conseguiram construir o carro que
  fez sucesso nas pistas, apesar da
  simplicidade do projeto.

Das corridas com carrinhos de rolimã e em pistas de autorama, quatro rapazes de Brasília (DF) se uniram no final da década de 60 para transformar em realidade dois sonhos: montar uma oficina e construir um veículo de competição. O empreendimento deu certo e acabou contribuindo para revelar dois nomes de peso do automobilismo brasileiro: Nelson Piquet e Alex Dias Ribeiro

Assim começou a história da Camber, uma empresa fundada por Alex Dias Ribeiro, José Álvaro Vassalo, Helládio Toledo Monteiro Filho e João Luiz Fonseca. Eles moravam na capital brasileira e como muitos garotos da época tinham uma paixão pelo automobilismo.

Começaram com os pegas de carrinhos de rolimã, passaram pelo autorama, skates, bicicletas e motos, até que concluíram que deveriam ir mais longe. Dos quatro, Alex era o mais velho e o único que tinha carteira de habilitação.

Em 1967, eles tiveram a idéia de colocar em prática seus conhecimentos em mecânica, mas para isso precisavam de um carro. A mãe de José Álvaro foi a grande incentivadora do grupo, pois emprestou sua Vemaguete Pracinha na condição de que eles abrissem o motor para fazer modificações que resultassem na redução do consumo de combustível. O carro acabou virando a sensação nos pegas de rua em Brasília. A idéia evoluiu e os quatro rapazes resolveram montar uma oficina, batizada de Camber, e para isso conseguiram algumas ferramentas para iniciar os trabalhos. A oficina era um barraco de madeira montado no quintal da casa de José Álvaro.

Com a clientela limitada, eles decidiram que era preciso ter um carro próprio, com o qual pudessem fazer suas experiências e aprimorar seus conhecimentos em mecânica. Foi então que Alex resolveu pedir ao pai os restos de um Fusca que foi condenado por perda total depois de um acidente, com motor original de Fusca: um modestíssimo 1.200 cm³, com um único carburador. A suspensão aproveitava peças velhas e os pneus eram diagonais.A doação foi feita e os trabalhos foram iniciados, com a certeza de que aquilo que um dia foi um carro voltasse a trafegar pelas ruas.

A ferragem retorcida foi retirada e o chassi foi preparado, com motor e câmbio funcionando perfeitamente.

Eles chegaram a dar algumas voltas com aquele chassi depenado . Mas, quando foi anunciada a prova 500 Quilômetros de Brasília , os quatro rapazes não tiveram dúvidas em participar.

Para isso, tinham que construir uma carroceria para aquele chassi. Conseguiram um aparelho de solda a oxigênio, compraram tubos de conduítes de eletricidade e começaram a construir o carro.

 

A idéia era fazer uma carroceria parecida com a do Ford GT 40, mas o resultado final ficou muito diferente. Quem determinou o desenho da carroceria foi o Moyses, dono do aparelho de solda, que pouco conhecia de automóvel.

O carro ficou pronto, mas causava espanto por ser exageradamente feio.

Ele tinha quatro faróis de milha parafusados nos pára-lamas dianteiros, e uma enorme tomada de ar frontal, que segundo Alex, o transformavam em um gigantesco gafanhoto de quatro olhos . Os pára-lamas traseiros tinham forma de asas de abelha. No pequeno pára-brisa, um adesivo sentenciava: Cristo, a única esperança.

Eles foram para os 500 Quilômetros de Brasília de 1967 e para espanto geral, a caranguejola vermelha, que havia largado nos últimos lugares do grid, terminou a corrida em segundo lugar — atrás só de uma Alfa GTV da poderosa equipe Jolly. O Camber era muito leve e tinha outra vantagem: a irresponsabilidade inerente à pouca idade dos pilotos", conta José Roberto Nasser.

Pelo fato de ter deixado para trás carrões preparados no Rio de Janeiro e São Paulo, o bólido dos quatro rapazes acabou ganhando o apelido de "Patinho Feio".

Isso fez com que a Camber se transformasse em uma oficina conceituadíssima, ganhando cada vez mais clientela. Eles alugaram uma loja maior e acabaram registrando a Camber Mecânica de Automóveis e Representações.

Com o Patinho Feio participaram da prova 500 Quilômetros da Guanabara , correndo ao lado de Emerson e Wilson Fittipaldi, José Carlos Pace, Chico Landi, Bird Clemente e outros, ídolos da infância. Conseguiram um honroso quarto lugar. Depois disso, foram suspensos por quase dois anos por questionarem um terceiro lugar nos 500 Quilômetros de Brasília , de 1968.

Pois o desengonçado Camber ainda venceria muitas corridas em categorias de baixa cilindrada. Ganhou motor 1.600, modificações na carroceria e uma asa móvel (aerofólio), que melhorava a performance nas curvas. Eles começaram a participar de corridas em todo o País e Alex Ribeiro se destacou como piloto, correndo até o início dos anos 70.

A essa altura, já havia sido rebatizado."Qualquer coisa esquisita que aparecia na pista era chamada de ‘Patinho Feio’. Esse apelido foi para o carro dos cariocas Mauricio Chulam e Ricardo Aschcar, mas acabou pegando no Camber", conta o pesquisador Paulo Scali.  

Mas, em 1970, o Patinho Feio não se deu bem nas corridas e os altos custos das competições levaram os quatro rapazes a desistir. Alex passou a correr de kart, tendo como companheiro de equipe o jovem Nelson Piquet, que na época trabalhava na seção de peças da Camber e na manutenção de motos. Assim começou a saga destes dois grandes pilotos.

Depois disso, Alex partiu para o automobilismo internacional com a Equipe Hollywood, culminando com a participação na Fórmula-1 em 1976 e 1977. O resto é história....

 

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