21 avril 2012

Sobre o niver, lembrancinhas e o presente visto antes da hora

Mês que vem Béatrice completara três anos! Eu sabia que o tempo passaria rápido, mas chega a ser inacreditável olhar para aquele bebê tão fresco na minha memoria e nos porta-retratos daqui de casa e observar a minha menina hoje tão independente, faladeira, amável (tirando as pequenas crises da autoafirmação) e esperta.  Parece que foi ontem o dia que ela nasceu e que era um toco de gente que ficava grudada comigo na echarpe. Fica aquele gostinho de saudade.

Estamos nos preparativos de três comemorações, portanto, o mês de maio promete.

Haverá uma comemoração na escolinha, algo bem básico, um bolo (a professora sugeriu o mármore, pois as crianças gostam) e suco de frutas.

E as lembrancinhas?

Pelo que tenho visto, quando a Béatrice as traz para casa, são bem simples. E esse simples é beeeem simples mesmo: balinhas sete belo à la francesa dentro de um saco plástico qualquer. Sabe aqueles sacos de congelar? Esse mesmo, amarrado com um no em cima.

Estou num dilema, pois acho que seria «demais» fazer algo elaborado, um presentinho para cada criançaa ou uma lembrancinha frufru. Acho que destoaria com o que as demais levam. O Ju deu a boa ideia de fazer um origame e colocar algumas guloseimas lá dentro. Pode ser uma boa saída e estou pensando seriamente nessa hipótese. Outro ponto é, justamente, as GULOSEIMAS ou «pacotinhos radioativos», que me fez lembrar o post esccrito pela querida Mari, do Viciados em Colo.

Volta e meia a Béatrice aparece com os pacotinhos radioativos que são distribuídos antes do horário do almoço, pois a festinha e os parabéns pra você acontecem de manhã e acaba virando o «goûter», o lanche das 10h30. E quando tem comemoração na escola, sei que é o dia em que a Béatrice almoça pouco ou, dependendo da farra, nem almoça.

Eu gostaria de receber sugestões mamães! O que eu poderia fazer de diferente para as lembrancinhas? O que eu poderia oferecer que fugisse do «tradicional» pirulito, bala e carambar – que é uma bala dura e grudenta de caramelo - que as crianças adoram?  Aceito sugestões!

A segunda comemoração será o bolinho-família para nos três daqui casa. Como cairá num sábado, pretendo fazer algum programa ao ar livre e espero que o tempo colabore. E ela terá, ainda, uma terceira comemoração na casa de um casal de amigos, cujos filhos fazem aniversario em maio e as idades são próximas a de Béatrice.

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Preparativos - Presentes

A Béatrice esta numa fase de brincar de casinha e de imitar a vida cotidiana. Na biblioteca/midiateca que frequentamos tem uma linda casinha de bonecas de madeira e ela passa boa parte do tempo nesse brinquedo. Super concentrada e entretida, coloca a mamãe para dormir, o papai para dar banho no filho e o gato sobe na mesa para pegar o prato de comida. E eu só observo.

Outro dia fomos à casa de uma amiguinha de sala de aula, e lá, bem no meio da sala, havia uma casinha de bonecas de madeira, feita pelos pais. A Bê brincou bastante, confirmando que ela realmente esta na fase de transferir para a brincadeira as situações que ela vive no seu dia a dia, além de criar historias. 
Eu fiquei encantada com tamanha sensibilidade dos pais que fizeram o brinquedo para a filha.

Fazia algum tempo que eu pesquisava os preços para comprar uma. E o Ju era contra, falava que ELE faria a tal casa. Eu ficava com o pé atrás, pois as casinhas prontas são tão bonitinhas, tão bem acabadas que eu não via o Junior fazer uma igual. Mas, olha só como são as coisas, bastou ver a casa de bonecas na casa da amiguinha e ainda por cima saber que foram os pais que fizeram para a filha, para que a minha ficha caísse e achasse muito mais interessante um brinquedo feito com VAA (Valor do Amor Agregado) e isso não tem Mastercard ou Euro que pague.

Assim, dei carta branca pro Ju botar a mão na massa. Meu marido engenheiro fez a planta e o lado marceneiro, um hobby adormecido, tratou de cortar, lixar, martelar e a dar forma à casinha. E em duas semanas teve esse resultado:






Ficou linda, linda. Aceitamos encomendas. Bricandeirinha!

A Bê viu o seu presente antes da hora e não teve como evitar, pois o Ju transformou a garagem numa bagunça sem fim marcenaria. E basta abrir a porta do corredor que da acesso à lavanderia (que é anexa à garagem) para dar de cara com o brinquedo novo. Realmente não teve jeito.

Agora que a casinha virou o brinquedo da vez e esta instalada na sala, o presente de aniversário de maio será a família e os moveis para decorar, tudo isso em madeira.

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Enquando isso, nos bastidores...

O Juju , na maior das boas intensões, ficou tão empolgado com o seu velho-novo-hobby que, sem me consultar, comprou alguns moveis em miniatura para decorar a casinha que fez para ele mesmo a Béatrice. Resultado? Comprou moveis lindos e delicados, com direito a vaso sanitário, pia e banheira de porcelana! Ops, não da né? Então, escondidos da Bê, colocamos os moveis para tirar algumas fotos, e os mesmos voltaram para as caixas, com exceção do pianinho, pois este sim fara parte da surpresa de aniversario.







Quem sabe quando Béatrice tiver com uns 15 anos (que exagero!) ela estará brincando com outra casinha (feita pelo pai) esta sim decorada com os móveis escolhidos a dedo por ele!


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Ju, obrigada pelo presente e saiba que você tem um grande talento em suas mãos. Te amo.

16 avril 2012

Blogagem Coletiva sobre infância e consumismo


Foi uma feliz coincidência ter escrito um texto sobre os nossos critérios de escolha de brinquedos da Béatrice alguns dias antes de despontar o Movimento de Discussão Consumismo e Publicidade Infantil, orquestrado pelo coletivo de pais, mães e cidadãos conscientes e inconformados com o abuso das propagandas veiculadas no Brasil, voltadas ao publico infantil.

Digo que foi uma feliz coincidência pelo fato de que o post esbarrou na questão do consumismo ao descrever a minha dificuldade em escolher brinquedos por marcas, rótulos e cores, pois procuro, num primeiro plano, refletir sobre o caráter pedagógico, a qualidade e se é adequado para a idade dela.

Falei também que a Béatrice assiste seus DVDs e que não temos canal infantil pago. A tv não fica ligada o dia todo (eu diria que já se tornou um habito da nossa família) e poucas vezes ela viu (ou vê) propagandas. Mesmo com esses cuidados, percebi que a minha filha ao escolher seus brinquedos, optou por personagens que ela já conhecia ou tinha visto em algum lugar (DVDs, youtube ou as primas têm), ficando claro que a tela e influências externas interferem nas suas escolhas.

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O post de hoje tem a ver como o nosso modo de vida aqui na França e de como observo, de longe, a febre consumista da nova classe média brasileira.  Quero deixar claro que exponho o meu ponto de vista e que não pretendo, de forma alguma, afetar conhecidos ou fazer algum tipo de critica pessoal. Longe disso.  Posso até ser considerada como a radical, xiita, « xaAta », da esquerda ou da pá virada. Mas eu juro que sou gente boa, sou super calma e do bem; apenas questiono e procuro me informar e refletir o máximo possível antes de tomar as minhas decisões, pois somente assim terei respaldo e maturidade para arcar com os riscos, consequências e até voltar atrás nas minhas escolhas.

Eu tenho claro dentro de mim que quando se trata de educação de um filho, não ha meio termo, ha sim posturas serias a serem tomadas.  Quer exemplos? Sou contra criança ter TV no quarto. E ponto final. O quarto da criança deve ser um lugar calmo, de repouso e de estudo e isso tudo não combina com o aparelho hiperestimulante e que é destinado a uma atividade eminentemente passiva.

Educar um filho implica em rever conceitos e hábitos, quebrar paradigmas, mudar de opinião e, sobretudo, tomar decisões de forma consciente. E um dos nossos hábitos (na condição de pais e adultos) que merece reflexão e que pode ser revisto depois da chegada de um filho é o relacionado à TV. Sim, é importante pensar sobre a importância (ou não) que a TV exerce sobre nos mesmos e qual o seu papel no lar: entretenimento? Necessidade de ouvir um barulhinho enquanto faz as coisas? Distrair os filhos para dar tempo de preparar o almoço? Momento de ócio? Mais ainda: quanto tempo ela fica ligada? O que a família assiste com a criançada por perto (novelas?)? Quanto tempo o filho fica exposto sozinho diante da tela e da qualidade dos programas (e propagandas/publicidade) que ele tem acesso.

É preciso rever os nossos hábitos consumistas, o que não é tarefa fácil, pois requer uma reflexão dos nossos próprios impulsos para as compras, do nosso apego (ou não) por marcas, da nossa busca pela aceitação no meio social diante da compra de determinado produto (carros, roupas de grife, etc.) e da nossa satisfação (ou não) com o que temos e pelo que somos. Diante disso, pergunte a si mesmo: quais são os valores que você pretende passar para o seu filho?

Essa é a reflexão de até onde vai a mea culpa dos pais (a do controle do uso TV dentro de casa e da autoanalise do senso de consumo) e o resto pode deixar que os programas de TV, as propagandas, publicidades, catálogos, os amiguinhos da escola, família e sociedade se encarregarão da pressão velada (ou escancarada) para que você, seu filho, sua família se adequem a um determinado padrão de comportamento e de consumo.

Por isso acredito que é um peso muito grande atribuir a culpa exclusiva aos pais pelo consumismo dos seus filhos, se há toda uma gama de fatores externos atuando diariamente e, dentre eles, a publicidade tem o seu destaque e força peculiar. Pois ela deita e rola às custas da ausência do senso critico das crianças, já que elas são atraídas pelas cores, movimentos, musicas, magia e fantasia e isso, pode ter certeza, os publicitários sabem manejar com maestria. E eles sabem que a criança tem um poder de influência de compra dentro de um lar. Há sim a necessidade de regulamentação e eu sou totalmente a favor da imposição de parâmetros sérios quando o assunto é publicidade dirigida às crianças.

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Da minha ida ao Brasil e algumas impressões e comparações

Estou de fora da onda do consumo dos brasileiros pelo fato de morar em outro pais. Aqui os valores são diferentes e os hábitos de consumo também. Tenho aprendido muito com essa questão do desapego, do valorizar as pessoas pelo que elas são e não pelo que elas têm e é essa a base que queremos transmitir para a nossa filha. De pensarmos e optarmos pelo que dure mais tempo, ao invés descartável e do que traz satisfação imediata.  

Não é vergonhoso ou brega comprar brinquedos de segunda mão em bazares, por um preço bem mais em conta. Ruim mesmo é gastar bem mais num novo e que logo estará encostado num canto qualquer. Conheço pais franceses com bom poder aquisitivo (carrão do ano, casa confortável, férias na praia no sul da França e no ski nas montanhas) que também compram brinquedos em bazares e também na internet (iBay), pois sabem que determinados tipos de brinquedos (especialmente aqueles trambolhões de plástico, estilo Fisher-Price) servem apenas para distrair uns dias e que logo ficam encostados em algum canto e tomando espaço, digasse de passagem. Então, melhor pagar barato, usar e fazer rodar de novo.

Essa é a cultura do pais onde vivo. O bom é que isso favorece esse desapego e uma visão mais real diante do consumismo.

De frente para a tela - Na ultima viagem que fiz ao Brasil no inicio deste ano constatei que, de fato, as crianças assistem muito mais TV do que aqui.

A criança brasileira é a que mais assiste TV no mundo, uma média de 4h 51min 19s, enquanto na França a média é de 2horas 11 minutos verificados na faixa etária de 4 a 14 anos e a média aumenta 2 a 3 minutos por ano.

Vale dizer que muitas famílias não tem TV em casa e isso não tem nada a ver com falta de dinheiro, mas sim opção.  As mães se viram com DVDs e atividades com os filhos. De um modo geral, com ou sem TV em casa, prioriza-se e leitura, a cultura, a arte e passeios ao ar livre (ao contrario do habito do brasileiro que passeia em shopping).

Tempo destinado na TV destinado à publicade - Tenho a impressão que o tempo destinado à publicidade ai no Brasil é maior do que aqui. Assistimos desenhos no canal DKids e achei o formato destinado a uma única função: gerar um produto. Boa parte dos desenhos são “empacotados” e de qualidade duvidosa, mas que tem todo o potencial para virar um produto de venda (pôneis, animais mecânicos, princesas do mar, etc.).  Foram feitos para isso. Achei muito diferente dos desenhos que a minha filha assiste, os quais têm uma mensagem interessante e apropriada para a idade dela.

Publicidade, padronização e compra - Percebi que a maioria dos interesses de compra gira em torno de personagens de desenhos animados ou propaganda da vez. É como se os pais e crianças estivessem condicionados/envolvidos a comprar algo que esta na moda. Neste ponto tenho a dizer que me senti um peixe fora d’agua quando ia às compras. Eu entrava em lojas (caras e baratas) e a maioria dos brinquedos eram relacionados com o que estava sendo veiculado na TV, estabelecendo uma certa padronização. E isso gera uma falta de opção. O que mudava entre uma loja e outra era o preço.

Não que aqui seja diferente, mas encontro mais variedade e mais qualidade nos produtos, o que me da margem para escolher o que eu julgo mais adequado para a minha filha e eu posso escapar de temas, desenhos ou publicidade da vez. É como se no Brasil tivesse muito mais tranqueiras (desnecessárias) do que aqui. E o povo compra, sem questionar.

Somados o tempo em frente da TV, a publicidade e a padronização, cheguei à conclusão de que brasileiro vive em torno de algum “tema” da vez e é esse é “tema”  a base das compras, desde roupas, brinquedos e assessórios à festas de aniversario e decoração do quarto do bebê. Esse tipo de coisa, definitivamente, não vejo aqui.

"Eu tenho você não tem" - Senti um clima de “eu tenho, você não tem” ou então “eu posso ter e você não.” Crianças desde cedo sabem que tênis bom é aquele da letra N, que roupa legal só se for da marca da ratinha. Vi crianças que deveriam ter entre 8 a 10 anos com seus próprios celulares. E isso é motivo de ser ou não aceito no meio, faz parte da conversa das crianças.

A vigem para a Disney é o sonho de consumo. Em algumas escolas, boa parte das crianças conhece o parque mais famoso do mundo, tiraram foto com o Rato e tiveram o seu dia de princesa. E dai eu me pergunto: como é que ficam aquelas crianças cujos pais não têm condição de bancar essa viagem? Esses mesmos pais que se viram, se apertam para dar uma educação decente numa escola particular, tem, ainda, que estar preparados para o fato do filho pedir uma viagem desse porte para igualar-se aos demais amiguinhos.

Não bastasse essa “pressão”, ainda tem propagandas, produtos e brinquedos que remetem ao mundo encantado, fortalecendo o desejo do “EU QUERO”. E dai, vele empréstimos e desdobramentos para oferecer a sonhada viagem, que, não tenho duvidas, será encantada e maravilhosa para a família toda, mas que também terá, na sua subjetividade,   o desejo do enquadramento e da aceitabilidade perante os outros.

Temos planos sim de levar a Bê para a Disney e Asterix, mas não é algo que faremos para que ela não se sinta inferior ou frustrada diante dos amiguinhos que também foram ou, então, para mostrar que ela pode mais. É um programa de família, como tantos outros que fazemos. A relação que temos com esse tipo de coisa é bem tranquila, além do que não percebo essa competição. Na verdade aqui eles não estão nem ai se você foi ou deixa de ir. Acho ótimo.

Adultização e sensualização - Constatei que as meninas estão mais “adultas” e que aos oito anos já podem ser consideradas pré-adolescentes, pois usam maquiagem, sapatinho com salto e o melhor programa do mundo é passear no shopping. Filhos(as) pedem e os pais compram, sem questionar. Bonecas? Nem pensar, já passaram da idade. Legal mesmo é um tablet, um celular ou roupa de marca. 

Isso me chocou pois não é esse o cenário que vejo aqui, para esta faixa etária. Na França, meninas/crianças de oito anos ainda brincam de boneca e ainda compartilho um exemplo. Tenho uma vizinha que tem 12 anos e numa das nossas conversas ela falou toda contente que havia ganhado um celular; que ela não tem computador, só a irmã (de 16/17 anos) e que os pais já alertaram que ela é muito nova para ter um. Ela até doou alguns brinquedos para Béatrice e falou que até pouco tempo atrás brincava de bonecas. Eu acho razoável a idade dela com os interesses e até mesmo a postura dos pais, afinal ela tem 12, SO doze anos de idade.

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Para finalizar, devo dizer que não preservo a Béatrice numa bolha, apenas seleciono o que ela pode assistir e estabelecemos regras de horários e de permanência na frente da TV. Por exemplo, se assistiu ao DVD parte da manha, a TV ficara desligada à tarde ou vice-versa. De vez em quando apelo para a baba eletrônica (DVD) quando tenho que fazer o jantar ou terminar algo em casa, mas normalmente o Ju esta por aqui e nessas horas em que preciso de um tempo para dar conta do recado e ele fica brincando com a Bê.

O nosso tempo também é preenchido com outras coisas, como ouvir musica, passear, desenhar, fazer um bolo, brincar e um tanto de coisas que fazemos juntas. E assim vamos levando, deixando a TV como assessório, não o elemento principal para distração e diversão.

E quanto a publicidade e a sua relação com o consumo?

Foi a primeira vez que parei para ler e me aprofundar um pouco nessa questão da publicidade. Até então a minha preocupação maior era com o uso excessivo/exagerado da TV e dos distúrbios que isso pode (eu disse PODE) ocasionar, tais como problemas de falta de atenção, concentração e paciência e, sobretudo, irritação e ansiosidade pela abstinência quando não assiste TV. Em outras palavras: vicio.

Em relação é publicidade, EU precisava ter os MEUS argumentos de convencimento para render este post de hoje e diante de tudo que li e assisti, conclui que:

Assim como todas as crianças da sua faixa etária e da mesma fase de desenvolvimento, Béatrice não tem a capacidade de fazer a distinção entre mensagens publicitarias de outros programas televisivos. Ela não compreende a finalidade comercial e muito menos que ela é uma fortissima cliente em potencial. Ela acredita em tudo que vê e não há um limite entre o imaginário (fofinho, cintilante e colorido) e o real. Então, é melhor poupa-la, preserva-la dessas influências e educar colocando limites para o consumo e para o que é (ou não) apropriado para a sua idade. O elemento principal, no meu papel de mãe é o de preservar a infância da minha filha.

Por outro lado, tem que haver um freio (por meio de regulamentação) aos apelos publicitários. Eles influenciam as nossas crianças a tornarem-se adultas antes do tempo e a terem preocupações que não concernem com a sua idade, como compra de celulares, tablets, viagens, maquiagem, etc.

Estou certa que o Brasil ainda não esta preparado para uma vedação de publicidade em canais abertos para menores de 12 anos assim como acontece na Suécia (exemplo numero um no quesito respeito às crianças), mas porque não estabelecer, por exemplo,   a proibição da publicidade cinco minutos antes e depois das programações destinadas ao publico infantil? Simples assim. Um pequeno passo que já faria alguma diferença.

Pensemos nisso...

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Quer saber mais?

Conheça a fanpage do Infância Livre de Consumismo, na fanpage no Facebook e o blog do movimento.

Recomendo também assistir ao espetacular e instigante video "Criança, a alma do negocio".



3 avril 2012

As estações do ano são ateliers a céu aberto - Montessori à la maison (parte 2)

Num dos nossos passeios, eu sentei na grama e ela deitou-se, fechou os olhos e fez de conta que dormia. Eu ouvi um passarinho cantar e perguntei "Você ouviu? Que barulho foi esse?". E ela, ainda de olhos fechados, respondeu: "o vento".

Isso aconteceu ano final do verão do ano passado, mas me marcou tanto… De fato, um vento havia batido nas folhas das arvores, fazendo um barulho sutil e suave, o pano de fundo para o canto do passarinho. Ela foi muito mais sensível do que eu.

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Voltando para casa ela observou o musgo que cobria parte do muro. Passou a mão e concluiu "parece um tapete". Verdade Béatrice, a textura e a maciez lembra o tapete que temos em casa. E ela foi além "o tapete da casa do Léon, le bourdon" . Léon e um zangão, personagem dos livrinhos que ela tem em casa. E numa das historias, aparece o tapete de musgo dentro da casa dele.


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Não tem como negar que é maravilhoso acompanhar as descobertas dos nossos filhos. Eu me encanto com as idéias, conclusões e descobertas da Béatrice e aprendo muito nesses momentos, especialmente quando passo a ver de acordo com o olhar dela e a sentir sob a sua perspectiva. Ela tem razão em tanta coisa.

Para que nossos passeios sejam cheios de descobertas, frequentemente levo uma sacola para colocarmos dentro dela tudo que achamos interessante: folhas, pedras, galhos, marrons, nozes, flores, etc. Na primavera enfeitamos nossos vasos com as flores que colhemos e, nas outras estações, criamos, inventamos brincadeiras com o que foi encontrado. Abaixo mostro a primeira colagem de outono, quando ela tinha um ano e cinco meses:
Guardei a primeira coleta de folhas de outono da Béatrice.
Tenho uma familia de "marrons", so que não sei onde as fotos foram parar!
Assim que eu as encontrar, eu posto aqui no blog.

O projeto primavera - Começamos a pintar as cerquinhas para delimitar a nossa horta e estamos na fase de preparar a terra para receber as sementes.  A Béatrice participa de cada etapa e fazemos questão que ela esteja conosco para aprender a dar valor pelo que vem da terra e dos cuidados que devemos ter com ela. Ela tem as suas ferramentas e terá uma horta para chamar de sua. Alias, a horta faz parte das atividades que programamos para primavera e na medida em que os nossos "serviços" avançarem, postarei aqui.


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Montessoriando…

"Descobertas de novos horizontes

As crianças adoram estar do lado de fora, passear, subir em arvores, colher pedrinhas, juntar « marrons », nozes. Eles amam participar nos cuidados com o jardim ou alimentar pequenos animais como patos, coelhos ou galinhas. Os dias de caminhadas nos bosques com seus pais, brincar num riacho ou caminhar ao longo da praia a procura de conchinhas ficarão gravados para sempre na sua memoria.

A vida do seu filho do lado exterior começara, sem duvida, pelos pequenos passeios feitos no carrinho ou nas costas*. Tenha tempo para lhe apresentar um mundo novo. Até mesmo os bebês absorvem tudo que escutam e veem do lado de fora. As nuvens que desfilam acima de seus olhos, a cor e o cheiro das flores do jardim, o vento que agita as folhas das arvores; tudo isso deixa uma forte impressão. Qualquer que seja a estação, a natureza é bela.  

Atraia a atenção do seu filho para os pequenos detalhes: por exemplo, uma flor minúscula que desponta acima da neve ou uma bela concha, ou ainda, uma folha perfeita.

A medida com que seu filho cresce, mostre-lhe as coisas familiares que vocês encontram durante o passeio: « Olha, é a casa da sua avo! Observe como as flores que estão na frente são belas! » ou «Olha o ninho que o passarinho fez em cima da arvore. Um dia a mamãe passarinho botara os ovos e nascerão passarinhos."  No inverno, olhe as pegadas que os bichinhos deixaram na neve e pergunte «quem andou aqui?”


Trechos do livro "éveiller, épanouir, encourager son enfant, la pedagogie Montessori à la Maison", de Tim Seldin


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Tudo isso parece obvio e logico para nos adultos. Muitas vezes deixamos de observar e sentir a natureza. Temos pressa, somos dependentes dos ponteiros dos relógios. Temos mais o que fazer da nossa vida agitada e cheia de compromissos. Em outras palavras:  não temos TEMPO. Ou então estamos acomodados e acostumados com tudo que nos cerca. Não estamos nem ai quando olhamos um galho a mais jogado na grama, mas, para os pequenos, este mesmo galho pode ser uma "varinha magica" ou transformar-se em algum brinquedo superinteressante.




Deixemo-nos guiar pelos pequenos, com todo o TEMPO e observação. Tenho certeza que teremos agradáveis surpresas e descobertas.



30 mars 2012

Bilinguismo - Blogagem Coletiva - Mães Internacionais

Esta sendo bem interessante ser mãe de uma criança bilíngue. 

Beatrice esta com 2 anos e 10 meses e tem uma boa desenvoltura no português. Ela canta, conta historias, inventa diálogos, fala no plural, conjuga verbos e estabelece situações no passado. A conquista da fala em si é algo incrível e quando ela vem com um segundo idioma acoplado, posso dizer que é encantador e comprova que a mente de uma criança é ativa, incansável e extremamente absorvente.

O português é a sua língua materna, faz parte da sua cultura e será sempre o elo de comunicação conosco e com o restante da família. Ela será alfabetizada em francês e acredito que mais tarde, depois do domínio deste idioma, aprendera a ler e escrever em português.

Ela também fala francês, mas, por enquanto, as frases são mais especificas e é nítida a sua evolução depois que as aulas começaram. Alias, o nosso plano era justamente de que ela começasse com as aulas um pouco mais adiantado (três meses antes dos três anos de idade) para acostumar-se ao idioma e de permanecer na escola somente na parte da manhã*. Assim, quando o ano letivo começar para valer, em setembro, ela estará se comunicando bem em francês.

Algumas situações vividas na pratica:

*** Ontem voltávamos da escola ela falou « je porte mon sac a dos, avec mes jouets »  (eu levo a minha mochila com os meus brinquedos). A frase completíssima não foi ensinada em casa, é fruto de influência externa. Com isso fica claro que as aulas, os amigos, as professoras, os livros, DVDs, musicas e o que tudo mais que se relacione ao idioma francês será naturalmente (e lindamente) incorporado ao seu vocabulário.

*** Dia desses pronunciei o nome da Madame “MURIEL”, que é a assistente da sala de aula. Falei o U como o nosso U, de urso. Béatrice falou, (não mamãe) “é MIIIIIIRRRIEEEELLL”, com biquinho e o U com som de “i”.  Durma com esse barulho minha gente! A correção veio pronta, na hora.

*** Às vezes ela inventa conversas, diálogos, finge que lê e, o que sai da sua boca, não é nem francês, nem português. Pela “musicalidade” e nuances de entonação da sua voz, percebo que ela “tenta” (incansavelmente) falar em francês. Eu compararia a um bebê que balbucia e ensaia suas primeiras palavras.


*** Falando em inventar, Béatrice cria novas palavras misturando os dois idiomas, especialmente nos diminutivos. Assim, bonequinha (petite poupée) vira “poupéeZINNHA” (ela fala pupezinha) e ovelhinha (petit mouton) vira “moutonZINHO” (ela fala mutonzinho).

*** Ela demonstra curiosidade em relação o idioma quando pergunta, "mamãe, como é blusa em francês?" ou "mamãe, como é pirulito em francês?". Ela tem consciência de que ha duas formas de falar a mesma coisa.

*** Ela tem vários livros em francês. Ela pede lermos a historia em português (e invariavelmente, eu conto de um jeito e Junior de outro, cada um com sua versão e tradução!) e, às vezes, pede para ser contada em francês. Agora, se um francês nativo ler a mesma historia, ela ouve atentamente e, até o presente momento, nunca pediu para ativar a tecla SAP para fazer a leitura em português.

*** E ela tem vários livros, DVDs e CDs de musicas em português. E com isso mantem-se conectada com o idioma.  Com isso esperamos manter acesa a chama do idioma pátrio, pois sei que daqui para frente haverá um estreitamento natural (imposta pelo meio) com a língua francesa.

Eu acho um privilegio aprender um segundo idioma de forma espontânea e natural. Estou curiosa para ver a Béatrice daqui uns anos falando como uma francesa nativa, com direito a biquinho, finesse e élégance. Que marrrravilha!

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Como estou num período montessoriano, vou citar um trecho do livro “L’esprit absorbant de l’enfant” (O espirito absorvente da criança e ha tradução deste livro para o português), escrito pela própria Maria Montessori, no qual ela fala sobre o período sensível da aquisição da linguagem:







“Os anos vitais

Há um mestre vigilante dentro da parte mais intima de cada criança, o qual poderíamos dizer, sabe obter os mesmos resultados em todas elas, em qualquer pais onde elas se encontrem. A única linguagem que o homem aprende perfeitamente é, sem duvidas, aquela aprendida na primeira infância, que nenhuma pessoa poderia lhe ensinar. Se mais tarde a criança aprender outro idioma, com a ajuda de algum professor, não obterá o mesmo resultado, a mesma exatidão que ele poderia ter adquirido na primeira infância. Existe uma força psíquica que ajuda o seu desenvolvimento. E não somente para a sua linguagem; aos dois anos, ela sera capaz de reconhecer as pessoas e todos os objetos do seu meio.”

O período sensível da linguagem em uma criança, segundos os estudos de Maria Montessori, vai do nascimento até os seis anos de idade. Por isso que para nos, adultos, há maior dificuldade e maior empenho em aprender um segundo, terceiro ou tantos idiomas, o que, para uma criança, é absorvido com facilidade e naturalidade.

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O post de hoje é relacionado com a Blogagem Coletiva das Mães Internacionais e quer saber como outras mães brasileiras vivem com dois, três, quatro, cinco idiomas ao mesmo tempo? Clica aqui, vale a pena a leitura.

23 mars 2012

As estações do ano são ateliers a céu aberto – « Montessori à la Maison » (parte 1)

Adoro a primavera e desde que vim morar na França comemoro, vibro, mudo de humor com a chegada desta estação. São três longos meses de frio e com poucas opções de lazer ao ar livre e, posso garantir, ficar com uma criança em casa durante boa parte desse período é um grande desafio. Haja imaginação. E só mesmo a Béatrice para me fazer sair para brincar um pouco na neve, coisa que, alias, ela curte bastante.

Por mais que o inverno tenha sido curto, por causa das férias que passamos no Brasil, chega uma hora que o corpo pede o sol, os olhos querem ver o colorido das flores e os nossos sentidos querem sentir o seu aroma. Sinto uma alegria imensa quando aparecem as primeiras flores e quando ouço o canto dos passarinhos logo cedo (acredita que no inverno o silêncio é quase total? Não esqueçam que moro no “campo”).

O tempo aqui em Laon começou a melhorar antes da data oficial do equinócio da Primavera. Eu e Béatrice demos as boas vindas ao primeiro 18°C do ano e fizemos um piquenique no nosso jardim. Peguei o que vi pela frente: abricots, maçã e pão integral. Estendemos um pequeno tapete, colhemos algumas flores e folhas, representando os “tesouros da natureza” trazidos pela Dona Primavera.

Laon, 18°C

Nossas boas vindas à primavera!
E ela recebe com entusiasmo e curiosidade as novidades da estação e ha que se concordar com uma coisa: não tem professora melhor que a Mãe Natureza para explicar que as flores e folhas despertam e que os animais e insetos dormem no inverno e que acordam na primavera.

E foi bem legal explicar isso diante de uma arvore infestada de joaninhas, que saíram de dentro de seus esconderijos secretos (provavelmente dentro de buracos nas arvores) para aproveitar o sol primaveril. E ela que, não é de hoje, manifesta uma fascinação pelo inseto, ficou encantada com tantas famílias de joaninhas juntas num só local.
E na nossa ida semanal à biblioteca encontrei este livro aqui, bem ilustrado, onde mostra a interessante vida e hábitos das joaninhas.


Agora vamos falar sério, você uma pessoa adulta e culta, bem informada, alguma vez na sua vida parou para pensar no que fazem as Joaninhas nos primeiros dias da primavera? Será que tomam banho de sol ou é a época de acasalamento? Se não sabe a resposta, olha de novo a foto, ela explica direitinho.

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E ainda na exploração do nosso jardim, Béatrice removeu uma pedra e, pela primeira vez, viu uma minhoca. Pegou, apertou, esticou e olhou bem a bichinha e perguntou « ela voa?" » e em seguida « cadê os olhos? ». Não é perfeito poder explicar as coisas na pratica e ela mesma chegar às suas próprias conclusões?

Ela mesma viu que a minhoca não tem asas, patas e olhos!

Depois de tanto esticar a bichinha, não deu outra, ela virou duas e ela ainda me pergunta “o que foi que aconteceu”? E eu fiquei naquela enrascada, sem saber como explicar sobre a vida e morte das minhocas e da sua capacidade de regeneração; que, na verdade metade dela morreu e a outra não e que ela, um dia, ira encontrar a mesma minhoca quando revirar a terra no jardim. Complicada, complexa essa vida (e morte) das minhocas.

Antes mesmo de eu bolar a melhor resposta para a sua inquietante pergunta, ela veio com essa: “mamãe, cola” (a minhoca)! Eu tive que rir e embarcar na argumentação e solução tão criativa, simples e obvia.

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Maria Montessori* considera que todas as crianças têm um potencial cientifico e eles têm prazer em observar as coisas e descobrir o porquê e como é o universo que o cerca.

«Nunca se esqueça de que o olhar de seu filho está mais próximo do solo. Ao olhar as coisas do seu ponto de vista, descobriremos o encantamento dos nossos pequenos. Deixe-se guiar por seu filho e examine com ele tudo que lhe chama a atenção – por exemplo, uma joaninha ou uma flor. Em momento algum perca a paciência, observe-o, respeite e acompanhe seu ritmo.

Quando as crianças aprendem por suas próprias experiências, no tocar e sentir. Nenhum livro descrevera em linhas e imagens todo o mundo que existe em torno da criança. Os livros e outros suportes ajudam às crianças a se lembrar das impressões e experiências vividas com intensidade, mas o essencial é construir a partir da observação direta e da experiência tátil.»

Trechos extraídos do livro « éveiller, épanouir, encourager son enfant, la pedagogie Montessori à la maison », de Tim Seldin. Fiz a minha livre tradução.








Bom equinócio de primavera para quem esta no hemisfério norte e bom equinócio outonal para quem esta no hemisfério sul!

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Já faz algum tempo que tenho me dedicado em aplicar a pedagogia de Maria Montessori em casa, o que na França é chamado e conhecido como Montessori à la Maison. Foi por meio dos livros e extensa obra e legado deixados pela grande mestra que passei a entender os « períodos sensíveis » de uma criança e isso tem me guiado na compreensão do comportamento da minha filha (desde a fase do colo, do contato pele-a-pele , a autoafirmação, a fase do « deixe-me fazer sozinho », passando ainda pela disciplina e imposição de limites). Aos poucos vou inserir trechos de livros e o nosso dia-a-dia e de como tem influenciado o nosso modo de viver em família em respeito às etapas de desenvolvimento da Béatrice.

10 mars 2012

A Branca de Neve e os Quatro Bombeiros... Sobre casas e mansões e bonecos “antissexistas”



Semana passada fomos a uma loja de brinquedos gastar um “cheque-presente” que ela ganhou no final de ano. Rodamos a loja e deixamos a Béatrice fazer suas escolhas. Logo de cara, ela agarrou uma boneca de cabelo ruivo, praticamente idêntica a outra que ela já tem. Explicamos que ela já tinha uma (a única diferença era a cor do cabelo) e que seria legal escolher outro brinquedo. 


Ela passeou mais um pouco com a boneca e, lá pelas tantas, trocou-a por um gatinho de pelúcia com uma mamadeira na boca. A escolha se justifica pelo fato de Béatrice adorar gatos. Mas sinceramente falando, o bichinho era meio feinho e desta vez, a escolha foi barrada sob a explicação de que ela já tem outros em casa e que este logo ficaria encostado e esquecido em algum canto.


Andou um pouquinho com o bichano no colo, colocou-o no lugar e escolheu outro brinquedo que estava logo ali na sua frente, na prateleira de cima: uma Moranguinho cor-de-rosa, cheirosa e com florezinhas iluminadas e bastava apertar um botão para ela, também, cantar uma musiquinha. Tenho as minhas ressalvas e, até agora, nunca compramos um brinquedo sequer que ascende, apaga, canta ou dança sozinho. Os que ela tem, e nem são tantos assim, foram dados de presente. Cada coisa no seu tempo.


Agora eu acho mais importante que ela brinque com elementos simples, que crie situações e diálogos e que sua imaginação flua e dê “vida” às suas bonecas. Acredito que a escolha da Moranguinho também se justifica pela “familiaridade”, pois trouxemos do Brasil algumas bonequinhas deste tipo (todas de segunda mão, doadas pela prima). 


Finalmente ela se encantou com a Branca de Neve, na versão bailarina. Ela já tem a Belle (ruiva) e a Chochette (loira) e, por ser um personagem diferente, pensei com os meus botões que seria interessante fazer um trio de amigas, todas elas, por coincidência, de saias bem curtas.


Ainda para ter certeza da sua escolha, sugeri a Branca de Neve “tradicional”, com vestido longo amarelo e corpete azul. “Não mamãe, quero essa” (a de saia “tutu”). Ok, ficou com a versão bem menos “princesa” e bem mais pelada. 


Ainda com créditos para torrar, escolhi um brinquedo com um caráter pedagógico: um cordão (tipo cadarço) e missangas grandes de madeira para ela manusear e brincar de fazer colar. Mamãe aqui pensa no seu desenvolvimento da motricidade fina e, também, para dar uma variada na versão macarrão tubinho dentro do cadarço, que já rendeu alguns colares feitos à lá maison. 


E, como tinha mais um tiquinho de crédito, escolhi para ela um terceiro brinquedo: um corpo de bombeiros completo! Os homenzinhos vêm equipados com megafone, extintor de incêndio, walk-talk, machadinha e até mascara de oxigênio. 


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Eu confesso que tenho certa dificuldade em escolher brinquedos para a Béatrice quando o negocio envolve marca disso ou marca daquilo, ou então comprar Barbies, Polys e acessórios, ou bonecas que fazem tudo, desde cocô a andar sozinha. 


Eu não me vejo comprando esses brinquedos compulsoriamente ou, pelo menos, questionar se é disso mesmo que ela precisa “agora”.  


Eu não sei como será amanhã, se ela pedir “mamãe, quero a Barbie que voa, salta de paraquedas, anda de BMW e mora numa mansão”, não sei se estarei disposta a bancar uma coleção ou ficar antenada com os últimos lançamentos e, sobretudo, estimular esta modalidade de brinquedo 100% voltado para um mundo de luxo e cor-de-rosa.


Se no futuro ela tiver amiguinhas que tenham esses brinquedos, se ela demonstrar interesse e pedir, ainda devo pensar como proceder ou como contornar a situação. O que posso dizer é que eu procuro evitar os excessos e que hoje, Barbies e Cia., não combinam com a criança que se diverte com o que tem e isso inclui seus bichos da savana, fazenda, bonecas de pano e brinquedos de madeira. 


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Fato é que Ela escolheu uma boneca e Eu escolhi um corpo de bombeiros! 


O uso da TV aqui em casa é controlado e não são raros os dias em que o aparelho fica desligado. Ela assiste DVDs e não temos canal infantil pago e, com isso, poucas vezes vê propagandas comerciais. Ela tem o livro da historia da Branca de Neve e já assistimos juntas algumas partes no youtube, ou seja, ela tem familiaridade com o personagem. Sabe que ela come uma maçã, que tem uma bruxa e que faz amizade com sete gentis anões. De certa forma a sua escolha foi influenciada pelo que ela já conhece e o mesmo se diga das escolhas anteriores.


Como ela esta na encantadora fase de contar e inventar historias (a mãe aqui acha que sua filha é uma prodigia com forte inclinação artistica-teatral), achei que a Branca de Neve seria uma boa amiga da Bela e Sininho e que as três juntas dariam um bom enredo para a fantasia e imaginação dela. 


E o resumo da opera é o de que a Branca de Neve, de fato, virou a melhor amiga da Belle e ainda por cima ganhou quatro amigos protetores e corajosos, os “anões-bombeiros” (é assim que eu os chamo), que a previnem de não comer a maçã envenenada e a orientam a comer “goiabas”. E pronto, a historia da Branca de Neve ganhou uma nova versão. Viva a imaginação! 


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E eu, porque raios escolhi um corpo de bombeiros? Boa pergunta. 


Tenho alguns critérios para comprar brinquedos e eu procuro ser cuidadosa e usar do bom senso. 


Não é um corpo de bombeiros qualquer, mas sim “equipe” de quatro bonecos de madeira, bem bonitinho, bem acabado, flexível e articulado. 


Faz algum tempo que dou preferência pelos brinquedos de madeira, pela sua simplicidade, suavidade do toque, do manuseio do material, durabilidade e o respeito pelo que vem da natureza. E quando vejo um brinquedo de madeira dando sopa e se ha condições de comprar (aqui brinquedos ecologicamente corretos também custam mais caro), eu não penso duas vezes, eu compro. 


Por isso, dois importantes requisitos foram cumpridos: ser de madeira e o preço justo. 


Outro fator é que sou contra a submissão sexista imposta às crianças por meio de brinquedos, publicidades, catálogos e tudo mais que condicione a categorização do “só para meninos” e “só para meninas”. 


Eu procuro filtrar e reflito, acima de tudo, na finalidade do brinquedo e no que ele poderá ser útil no desenvolvimento e criatividade da minha filha e pensar desta forma afasta a sedução e o impulso pela fofice, “frufruzice” cor-de-rosa ou pelo brinquedo da vez, pelo esta na moda. 


Não me agrada a ideia de que, para meninas, só panelinhas, Barbies e Cia. e para meninos personagens musculosos, guerreiros, brinquedos de construção e, o pior, armas de brinquedo (me da arrepios escrever isso). Porque os meninos podem se imaginar pilotos de corrida, construtores/engenheiros, astronautas, bombeiros ou aviadores e as meninas devem se contentar e sonhar com a casa “luxuosamente” decorada?


Sem contar que os brinquedos para meninas ensinam e as estimulam, desde cedo, a serem vaidosas, consumistas e assumirem o papel principal nos serviços domésticos. 


Por isso é que não me vejo comprando uma casa assim: 






Definitivamente, não consigo limitar e basear as escolhas somente na beleza e delicadeza cor-de-rosa, que o “padrão impõe” às meninas. 


Ao contrario, eu acredito que uma menina pode brincar com os bonequinhos de corpo de bombeiros e carrinhos (que a minha filha também tem), assim como meninos podem brincar de fogão, panelinha e casinha. 


Um menino que brinca de limpar a casa com uma vassourinha ou aspirador ou que goste de fazer comidinhas no fogão esta aprendendo lições da vida, por meio de uma brincadeira. Quem sabe ai esteja sendo plantada a semente de um futuro homem colaborador dos afazeres domésticos dentro de casa (e numa visão macro, na construção de um homem menos machista), coisa rara hoje em dia. Na França é muito comum os meninos terem a sua cozinha de brinquedo e não é a toa que maior concentração de chefs de cozinha estão aqui. A brincadeira de hoje pode revelar as potencialidades do amanhã. 


Reflito também que uma casa cor-de-rosa e com elevador não corresponde à realidade, a realidade da nossa casa, dos vizinhos, nossos amigos, nossa família e tudo mais que cerca a Béatrice. Acho muito mais democrática e honesta, esta escolha:




Devo dizer que Béatrice tem sim seus brinquedos de plástico e também tem muita coisa em tecido, outro alvo de nossa preferência.


Mas a diferença é que quando penso em comprar algo de maior qualidade e que o brinquedo custe um pouco mais caso, eu não consigo pensar em Barbies e Cia e pagar uma pequena fortuna por isso. 


Se for para gastar dinheiro (aqui vale as economias para um presente especial de aniversario ou natal), prefiro, infinitamente, os de madeira. 


Ela tem a sua Belle e Branca de Neve, tem vestido de princesa cor-de-rosa (delicadamente feito pela tia) e brinquedos de personagens de desenho animado. O que eu procuro é o bom senso e não ficar pensando somente nesse universo tão feminino e ouso dar e oferecer outros brinquedos interessantes, mesmo que eles sejam rotulados de “só para meninos”. 


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Seguindo essa linha de não estabelecer um padrão discriminatório e sexista de brinquedos, a IKEA teve inteligente sacada em fabricar bonecos de pano e que, aparentemente, não tem sexo definido.


Eu comprei o menino/a que tem a carinha de oriental (estou de olho no loirinho e outro da cor negra) e algumas roupinhas: 




Eles entenderam que crianças fantasiam, imaginam, criam e tanto faz se o alvo da imaginação é um bonecO ou bonecA, menino ou menina, tudo depende da brincadeira que criança inventa na hora. Crianças têm “seus amiguinhos/as, irmãozinhos/as” pra cuidar, brincar de colocar e tirar roupas, levar para todo o canto para passear. Isso é salutar e faz parte obrigatória do seu desenvolvimento. 


Outro ponto positivo é que boa parte dos brinquedos da IKEA é de pano, o que reforça o perfil de engajamento sustentável e ecológico desta empresa. Só para lembrar, a IKEA é sueca e a Suécia é o primeiro pais do mundo em igualdade entre os gêneros (irremediavelmente arraigada na sua cultura) e um dos primeiros em qualidade de vida, além de terem um respeito invejável na educação de suas crianças, portanto, não me causa surpresa a ideia e concepção destes bonecos e dos brinquedos em pano tenha partido dela. Eu acho genial, educativo, apropriado para crianças e o preço é otimo (9,99 euros!).