Resenha: Sua Majestade, Ivete Sangalo

Cantora marca golaço em novo DVD e reitera sua popularidade em seu melhor registro ao vivo

Por Marcelo Tambor



Cotação:                  

Como de praxe, todo lançamento musical da cantora Ivete Sangalo é cercado de grande expectativa perante o público e o mercado fonográfico; dessa vez foi “em casa” que a baiana quis comemorar seus 20 anos de sucesso.  Gravado no dia 14 de dezembro de 2013 na recém-inaugurada Arena Fonte Nova, em Salvador/BA, o registro finalmente chegou às lojas com a expressiva tiragem inicial de 240 mil cópias, dividido em três versões: CD, DVD simples e DVD duplo, onde este último contempla todas as 43 canções distribuídas em 30 faixas que integraram o repertório da apresentação.

Grande percursora de superproduções capitaneadas por artistas brasileiros,  a saga audiovisual da baiana constitui um show à parte: começou com o projeto comemorativo de 10 anos de carreira sob o selo MTV, também gravado no antigo Estádio da Fonte Nova (até hoje, um dos DVDs mais vendidos do país); seguido pelo emblemático e bem-sucedido Ivete no Maracanã, que deu início a sua parceria com o canal de TV Multishow e alçou de vez a morena ao status de maior estrela da música brasileira contemporânea – DVD que bateu o recorde mundial de vendas pela gravadora Universal Music no ano de 2007. Êxito de repercussão que também foi experimentado em seu terceiro registro no formato de show, o Ivete Ao Vivo no Madison Square Garden, audacioso projeto gravado no templo mundial da música em Nova York e que emprestou notoriedade internacional à imagem da cantora,  fortaleceu seus laços com o mercado latino e deu sequência ao paradigma de que a gravação de um DVD serve como marco referencial dentro de sua trajetória.

Mas o que o Multishow Ao Vivo - Ivete Sangalo - 20 anos tem de diferente? É simplesmente o trabalho que melhor retrata as raízes musicais da cantora e sua capacidade de ser uma artista tão plural. É um DVD predominantemente festivo, vibrante, mas que não deixa de contemplar toda a versatilidade da multifacetada Ivete. Além do seu axé característico, nele há espaço para o pop, o reggae, o samba de gafieira, como também para baladinhas românticas e um variado número de resgates musicais de sua própria discografia e do cancioneiro popular baiano, como ocorre no "medley" Faraó, Divindade do Egito/ Ladeira do Pelô/ Doce Obsessão, esse último em parceira com o grupo percussivo Olodum, em um dos grandes momentos do espetáculo.


Com direção geral assinada pela própria Ivete Sangalo e direção de vídeo a cargo do internacional Nick Wichham, que coleciona trabalhos com estrelas pop do quilate de Madonna, Beyoncé,  o registro impressiona pela qualidade técnica impregnada em todos os detalhes: seja no desempenho magistral de uma inspirada Banda do Bem, seja nas belíssimas imagens captadas, inclusive, por uma spidercam importada da Alemanha (que realçou com dinamismo todas as reações da cantora, sua trupe e do público em torno de 40 mil pessoas que encheram a arena). A cantora contou ainda com o auxílio luxuoso de Elísio Lopes na direção artística e Radamés Venâncio na parte musical.
                
Com um repertório construído em cima dos incontáveis hits que embalaram a sua trajetória (devidamente costurados a sete canções inéditas e cinco regravações), o espetáculo tem início de maneira triunfal ao som da já popular Tempo de Alegria , com direito a Ivete surgindo em um elevador posicionado no centro do gigantesco palco de  75 metros de largura,  emoldurado por impressionantes 1200m² de painel de LED.  O cenário suntuoso impressiona, mas também evidencia que, paralelo a todo aparato tecnológico, há uma boa cantora,  ciente de sua capacidade e dona de escolhas musicais coerentes com o seu propósito.

Na sequência, a cantora arremata o público com seus sucessos de pegada mais pop como Acelera ( música repleta de autoestima, cantada em uníssono pela plateia),  Festa e Sorte Grande, onde Ivete demonstra sua boa desenvoltura ao interagir com 13 bailarinos - que merecem menção honrosa pela qualidade técnica demonstrada em todas coreografias da apresentação.  O primeiro bloco também é embalado pelas canções Veja o Sol e Lua, Dançando (ambas extraída do seu último álbum em estúdio – Real Fantasia), pelo delicioso "medley" Na Base do Beijo/ Manda Ver / Pra Abalar, e também pelas empolgantes inéditas Obediente e Pra Frente. O encontro dos dois maiores ídolos do carnaval baiano finalmente se concretiza quando a anfitriã convida ao palco o cantor Bell Marques na empolgante faixa Pra Você, canção de refrão grudento que remete à sonoridade dos áureos tempos do Chiclete com Banana.

Ao contrário daquela imagem de uma Ivete transmutada em trajes exóticos e nada apreciáveis  que integraram a cênica do DVD gravado em Nova York, o projeto atual traz de volta aquela Ivete que todos gostam de assistir; ela desfila a sua beleza em figurinos que ressaltam suas célebres pernas torneadas em boa parte do espetáculo, como também aposta em outros looks que dialogam perfeitamente com a proposta de cada bloco do show.  Todo visual foi idealizado pela própria Ivete, ficando a cargo de Patrícia Zuffa e Clara Lima a composição de cada peça.


A única “bola fora” em termos de figurino ocorre quando a cantora aposta em um macacão que faz alusão à street dance, mas que a deixou extremamente volumosa no vídeo.  É justamente vestida de tal maneira despojada que Ivete abre o segundo bloco do espetáculo com a música No Meio do Povão, em dinâmica com o grupo de percussão Stomp - famoso por formatar sua sonoridade usando o próprio corpo e instrumentos pouco convencionais como panelas e vassouras.  Berimbau Metalizado se faz presente em momento que pouco contribui para a festa, situação perfeitamente revertida quando Ivete envereda para o reggae, vertente musical bastante explorada em momentos pontuais de sua carreira, mas que retorna revigorado em canções como Flor do Reggae/Mega Beijo, Amor Que Não Sai (atual música de trabalho), na enérgica parceria com Alexandre Carlo (banda Natiruts) em releitura de Could You Be Loved e esboça renovação de sonoridade na ótima Master Blaster, hit da discografia de Stevie Wonder que caiu perfeitamente bem na voz imponente da cantora (e que a faz crescer em cena).

Sem perder o ritmo incessante, Ivete surge esplendorosa no terceiro bloco do espetáculo entoando Adeus Bye Bye(samba-reggae que marcou seu início como vocalista da Banda Eva e atraiu elogios rasgados da diva Maria Bethânia), com direito à Igreja do Bonfim sendo retratada ao fundo e a cantora envolvida em uma belíssima cênica junto ao seu corpo de baile. O clima de “festa de largo”, retrato da cultura local, segue em Muito Obrigado Axé, no bem-sucedido "medley" Beleza rara/ Tum, tum, goiaba/ Pra sempre ter você/ Fã/ Miragem/ Eva,  ganha força com o Olodum (Faraó, divindade do Egito/ Ladeira do Pelô/ Doce obsessão), e segue em clima de celebração nas parceria com Alexandre Pires (Me Engana Que Eu Gosto) e Paulinho Andrade (No Brilho Desse Olhar).

E como não dá para dissociar Ivete do posto de diva da música nacional, ela faz jus ao status surgindo estonteante de vestido longo em um elevador montado no centro da Arena Fonte Nova.  Com o público aos seus pés, ela entoa a inédita e envolvente Beijo de Hortelã,  convida alguns músicos para cantar em tom intimista Faz Tempo e Deixo, retornando ao palco principal para interpretação impecável de Só Num Sonho e de alguns de seus maiores hits românticos: Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim e Quando a Chuva Passar.  O cantor e amigo pessoal da anfitriã, Saulo Fernandes, surge na descontraída regravação de Cruisin (canção de Smokey Robinson, popularizada pela versão da Gwyneth Paltrow no filme “Duets”), encerrando em dueto sedutor a porção mais calma do espetáculo.

Dona de um poderio vocal vigoroso e de uma técnica vocal invejável, Ivete Sangalo demonstra a todo instante o porquê de ter se tornado um fenômeno dentro do showbis nacional.  A morena de 42 anos recém-completados não é apenas a artista mais premiada e a que mais vendeu CDs e DVDs nas últimas duas décadas, mas aquela que sempre se sobressaiu aos modismos musicais, mostrou-se antenada e soube se manter presente no imaginário popular com bastante determinação e personalidade na elaboração de uma sonoridade eclética, mas sempre em fina sintonia com o grande público.

Com uma superprodução digna de quem durante 20 anos deu as cartas no gênero que a consolidou e mostrando bastante fôlego para continuar trilhando seu caminho de sucesso(sempre encabeçando a cena pop brasileira), Ivete Sangalo marca mais um golaço e reitera sua popularidade em seu melhor registro ao vivo, distanciando-se ainda mais do abismo que a separa das demais candidatas à divas “brazucas” - até porque nenhuma outra cantora construiu uma história com tamanha solidez, sem atropelos e contando com tanta aclamação popular como ela.

Para finalizar toda essa celebração, o clima festivo é retomado na passagem mais carnavalesca do projeto, onde até uma espécie de trio elétrico é erguido sobre o palco; com direito à Ivete no topo comandando o público que se agita com “mamãe-sacodes”- em referência aos antigos blocos de rua – e com o desfile de alguns dos seus hits mais avassaladores: Real Fantasia, Dalila, Música Pra Pular Brasileira (ótimo resgate extraído do seu primeiro CD em carreira solo), Empurra-empurra, ainda sobrando fôlego para encerrar em tom apoteótico ao som de Arerê. O trabalho conta ainda com “extras” contendo os bastidores e alguns passos da elaboração deste marcante DVD – sem dúvidas, um dos registros mais representativos de sua trajetória.  


Imagens do DVD: 

                                                                                    Imagens extraídas da obra.




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