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Medicina no fundo do poço: O preço da desunião.

(31/08/2003 )

"As crises fazem pensar. Os padecimentos pessoais e coletivos permitem o crescimento". Leonardo Boff

Médicos, companheiros de profissão, como descemos...

Quando meu pai, médico, aposentou-se há nove anos, disse que estava fazendo aquilo porque a profissão médica havia chegado ao fundo do poço e não agüentava ver a classe descer mais do que aquilo.

Nesses 9 anos os salários e até o CH (coeficiente de honorários), criado para proteger o trabalho médico, desvalorizou 308,68% se comparado ao salário mínimo (e nós pagamos salários baseados no mínimo dos funcionários); desvalorizou 73,47% pelo IBG, que mede o índice de preços ao consumidor (inflação), índice este que sabemos ser maquiado pelo Governo Federal. Se "dolarizarmos" nossas perdas, elas chegam a 351,81%. Como descemos...

Inicialmente fizemos cortes no orçamento, depois aumentamos a carga de trabalho, passando a dar mais plantões. Cortamos férias, nos tornamos "clientes especiais" dos bancos, inicialmente eventuais, hoje cativos. Não temos tempo sequer para nos organizar. Como descemos!

Não podemos sequer lutar na justiça, pois o Judiciário jamais votaria a nosso favor, mesmo que estejamos certos. Os juízes já votaram seu próprio aumento salarial e, se votassem o nosso, poderia não sobrar para eles. Em 1994 um médico recebia R$ 755,00 e um promotor público R$ 1.300,00. Hoje,o médico recebe os mesmos R$ 755,00 e o promotor mais de R$ 8.000,00. Que diferença de responsabilidade ou de um curso faz com que ocorra tal disparidade. Sem falar de vereadores, auditores fiscais e outros cargos que, devido a seu poder de auto-gestão dos salários, foram evoluindo, enquanto nós retrocedemos. Como descemos.

E a culpa, de quem é? De nós mesmos! Nós, que deixamos a coisa correr sem reagir. Talvez devido à célebre frase: "Medicina é sacerdócio!". Mas até os padres, hoje, em sua maioria, vivem bem, comem bem, tem carro, vestem-se bem, viajam. A culpa é nossa por termos aceitado dar plantões em condições mínimas. Sem água?Compramos água. Comida ruim? Compramos a comida. Não há material? Improvisamos. Tudo em prol da continuidade do serviço e do paciente. A culpa é nossa por termos criado uma cooperativa médica que protege a todos, menos ao médico. Veja uma diária hospitalar hoje e há 8 anos. Quem protege quem? Os planos de saúde aprenderam que não temos tempo para reclamar e pagam o que querem, quando querem e se quiserem.

Chegamos no nosso carrinho, cara de cansados, exaustos, na verdade maltrapilhos, e somos atendidos pelo gerente do plano: bem dormido, gravata, perfumado e de carrão zero às nossas custas. Burros de cangalha é o que somos. O Governo também aprendeu que não temos força para cobrar o que é de direito: retira gratificações, suspende pagamentos. É como se fôssemos isentos de obrigações financeiras. Coitados de nós! Como descemos!!!

Temos medo de pedir um orçamento a um pintor ou pedreiro. Estamos apertados para pagar o colégio dos nossos filhos. Achamos que se continuarmos assim, vamos acabar pagando para trabalhar. Estamos enganados! Já estamos pagando, pois as noites em claro nos renderam doenças e problemas de saúde que nossa aposentadoria do estado de R$ 400,00, somados ao INSS de R$ 800,00, mais talvez uma previdência privada, não conseguem cobrir. Pagamos, porque a nossa ausência em casa na busca de manter um "padrão de vida" não tem preço. Nossos filhos estão à mercê de drogas e maus exemplos, devido ao abandono.

E como dizer aos nossos filhos para estudarem, pois vale a pena? Eles vêem o exemplo do pai que estudou tanto, fez tantos cursos, passou em concursos e tem uma qualidade de vida tão ruim. E aí vem o "Big Brother", e outros exemplos de pessoas que vivem muito melhor, até de forma ilícita. É difícil fazê-los compreender que o que nos mantém na nossa profissão, o que alimenta nossa alma e nosso espírito, são duas coisas: o amor pela prática médica e a incapacidade que temos de reverter todo investimento que fizemos à mesma. Se o medo é de pagarmos para trabalhar, pode ficar ciente de que já estamos fazendo isso. Acho que deveríamos ser mais radicais e não aceitarmos imposições, pois sabemos que estamos totalmente certos. Temos que ganhar melhor para atendermos melhor a nossos pacientes. Temos que dormir bem, para atendermos melhor a nossos pacientes. Temos que estudar e nos atualizar, para atendermos melhor a nossos pacientes.

Queira ou não, tudo isso depende de remuneração. É por isso que não devemos nos espantar quando nos depararmos com colegas ''''mais antigos'''' freqüentando os plantões noturnos de sábado à noite. Ou com os consultórios fechados. Ou com antigos professores trabalhando em PSF''''s. Os embalos de sábado à noite, para os médicos, só ocorrem em novelas da Rede Globo. São mostradas as exceções.

Que Hipócrates nos ouça!

Dr. Francisco Edilson Leite Pinto Junior é Professor do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

* Fonte : SAC - Brasilmedicina

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