ENTREVISTA
HÉLIO DANIEL CORDEIRO
No. 049 - Setembro/2001
O cinema questionador de Amós Gitai
        Nos últimos anos tem aparecido em Israel uma nova geração de intelectuais e artistas que tem provocado reações contrárias dentro e fora do país. Destaco três em especial, os quais tenho acompanhado o trabalho e com quem tive oportunidade de entrevistá-los: o filósofo spinozista Yirmiahu Yovel, o escritor e candidato ao Prêmio Nobel Amós Oz e, mais recentemente, o polêmico cineasta Amós Gitai.
        Gitai veio ao Brasil para ser homenageado no VI Festival do Cinema Judaico de São Paulo, quando concedeu entrevista coletiva no clube A Hebraica. Gitai despertou para o cinema no mesmo dia em que completava 23 anos (11 de outubro de 1973), quando foi ferido no helicóptero abatido numa missão de resgate na Síria, durante a Guerra do Yom Kupur.
        Aliás, Kipur é o título de uma de seus mais recentes trabalhos para o cinema, concluído no ano passado. O cineasta disse que após a guerra tentou suprimir as lembranças da guerra, por isso não foi este o seu primeiro filme.
        Mas de toda sua filmografia a mais polêmica de suas criações parece ser mesmo Kadosh - Laços Sagrados. Gitai realizou uma trilogia de filmes: um sobre Haifa (sua cidade natal), outro sobre Tel Aviv e Kadosh sobre Jerusalém, a cidade onde os temas religiosos (judaicos, cristãos e muçulmanos) têm a mais forte influência em Israel.
        Kadosh foi filmado dentro do bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim e trata principalmente da posição da mulher dentro do judaísmo tradicional. Para Gitai, o judaísmo é demasiadamente machista. Na abertura do filme um ortodoxo reza agradecendo por não ter nascido mulher... O diretor disse ter consultado rabinos para inserir falas de textos litúrgicos no roteiro. "Em Israel, a religião tem diferentes visões. Temo que o país se torne uma teocracia."
        Gitai é um apaixonado pela língua hebraica. Quando criança sua mãe lia para ele a Bíblia, um texto extremamente poético. Arquiteto de formação reconhece em sua obra mais influências de pintores e escritores de que de cineastas. Do Brasil conhece melhor o Cinema Novo e admira Glauber Rocha.
        Perguntado se teme ou ambiciona ser comparado a Philip Roth do polêmico O Complexo de Portnoy, respondeu não procurar a controvérsia e nem o sensacionalismo. Em seus filmes, acrescentou, toca nas diferentes faces de Israel, uma sociedade complexa e não monolítica. Seu cinema é para as pessoas fazerem perguntas.
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