FUNDAÇÃO   
PERSEU ABRAMO

Fundação Perseu Abramo
Instituída pelo Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores em maio de 1996

"Queremos uma integração soberana e digna", diz Lula em Havana
por Carlos Tibúrcio - Assessor de Comunicação do Instituto Cidadania, de Havana.

Falando na abertura da reunião do Foro de São Paulo, em Havana, em nome dos partidos e organizações do Cone Sul, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do honra do Partido dos Trabalhadores, fez um balanço das políticas neoliberais aplicadas na região, disse porque é necessário questionar a imposição da ALCA pelos Estados Unidos e defendeu uma integração soberana e digna dos países da América Latina e do Caribe.

Lula começou afirmando que "na primeira reunião do Foro de São Paulo, há quase onze anos, o neoliberalismo vivia o seu melhor momento. A idéia das privatizações, a idéia da diminuição do papel do Estado, a idéia da integração inevitável na globalização neoliberal - tudo isso parecia inquestionável e quem ousava ser contra era tratado como dinossauro ou incompetente. Não foram poucos os companheiros que tiveram vergonha de se dizer de esquerda naqueles tempos. Hoje, os 'bambinos' de ouro do neoliberalismo, como Collor, Salinas, Menen e Fujimori estão desmoralizados e alguns deles presos ou foragidos. Outros, que ainda governam, esperam para receber o julgamento dos seus povos. Aumento da pobreza, do desemprego e da corrupção foram e têm sido as marcas principais de suas administrações."

"Somos favoráveis a uma integração dos nossos países, com pleno respeito à soberania e à autodeterminação dos povos", disse Lula. "Queremos integração com autonomia política, econômica e cultural. A ALCA nesse sentido não é um projeto de integração. O processo desenvolvido na União Européia é, sim, um exemplo a ser considerado."

Lula disse também que "não existe na proposta da ALCA qualquer política para enfrentar as diferenças econômicas e sociais entre os países mais ricos e mais pobres do nosso continente". Além disso, continuou, "querem fazer a integração deixando Cuba de fora, como se Cuba não existisse - cabe à esquerda latino-americana apontar a todo momento no mapa do mundo a existência de Cuba". E advertiu que, "com o processo de anexação econômica que os EUA estão querendo impor à América Latina e ao Caribe, a indústria dos nossos países não sobreviverá".

O discurso de Lula durou pouco mais de 20 minutos e emocionou o presidente de Cuba, Fidel Castro, e os mais de 400 representantes de partidos, organizações de esquerda, movimentos sociais e culturais da América Latina que lotaram ontem pela manhã (04/11) o auditório do Palácio de Convenções de Havana.

Reunidos pela primeira vez após os atentados terroristas de 11 de setembro e da guerra dos Estados Unidos contra o Afeganistão, os participantes do Foro têm como objetivo principal definir uma visão conjunta sobre a situação mundial e debater diretrizes gerais para a esquerda e as forças progressistas da região.

"Este Foro - disse Lula - não pode deixar de definir nossa posição sobre a paz. Somos contra o terrorismo, que não ajuda a luta da esquerda e dos povos, mas não podemos aceitar que, em nome do combate a esses abusos, se faça uma verdadeira prática de terrorismo de Estado, fomentando guerras, bombardeando o Afeganistão e ameaçando outros países como a Líbia e o Iraque."

"A paz que a esquerda deseja no mundo inteiro só vai acontecer quando a riqueza produzida pela humanidade for distribuída de forma justa, para que todos os povos do mundo possam viver com dignidade - é assim que construiremos um mundo de paz."

Defesa de alianças

Ao falar sobre as dificuldades da esquerda latino-americana, Lula fez uma advertência aos membros do Foro de São Paulo: "Temos de discutir sobre nossas virtudes, mas também sobre nossas deficiências. Muitas vezes falamos como se quiséssemos ou pudéssemos construir o socialismo em quatro anos. A história não se faz ao ritmo das nossas ansiedades. Pensamos que temos as melhores posições, mas parece que nem sempre o povo nos entende. Acredito que muitas vezes nós utilizamos discursos que são entendidos somente por nós mesmos."

Lula utilizou duas imagens para explicar suas posições sobre esse assunto: a história do pescador do livro "O Velho e o Mar", de Hemingway, e o bom funcionamento de uma orquestra. No primeiro caso, ele comparou a conquista de um grande objetivo com a impossibilidade de realizá-lo - e usufruir dele - plenamente. O velho pescou o grande peixe, em uma significativa lição de vida e persistência, mas não conseguiu colocá-lo a salvo no próprio barco, o que fez com que sua presa fosse praticamente devorada por outros peixes.

"Um cardume de pequenos peixes pode significar - disse Lula - acabar com a fome nos nossos países, no nosso continente. Não vamos pensar nem agir como se a história terminasse com a nossa passagem pela terra. Mesmo que tenha sido uma vez, ou apenas com um gesto, vamos contribuir para melhorar efetivamente a vida de milhões de seres humanos que vivem excluídos socialmente por esse modelo neoliberal."

No exemplo da orquestra, Lula defendeu a unidade na diversidade, ou seja, a necessidade de uma política correta de alianças para que a esquerda possa vencer eleições, governar e ajudar de fato a mudar a vida dos povos: "Seria monótono e ineficaz se as orquestras tivessem somente um tipo instrumento. É preciso que sejam muitos e variados, com bons maestros, para tocarmos bem, por exemplo, a 5a Sinfonia de Bethoven."

Lula explicou, comentando a própria viagem, que é fundamental ser coerente e manter os princípios: "Se fosse ouvir conselhos e raciocinar somente em termos dos interesses eleitorais do PT, não viria agora à Cuba nem iria à Venezuela encontrar Chávez nem mesmo ao Peru, porque o Toledo também enfrenta problemas nas pesquisas". Mas, se agisse assim para ganhar, perguntou ele, o que se poderia esperar em caso de vitória?

Concluindo, Lula disse a Fidel e ao povo cubano: "Tenho absoluta noção das críticas que Cuba e o governo cubano recebem todos os dias de grande parte da imprensa no Brasil e no mundo. Mas vou lhes dizer: 'Obrigado Fidel Castro'. Obrigado por vocês existirem. Vocês dão demonstração todos os dias de que é melhor fazer menos do que poderíamos fazer, de cabeça erguida, do que ceder e perder a auto-estima - é melhor fazer pouco, mas com dignidade. A velhice é implacável: debilita o nosso corpo e enruga a nossa pele - mas a traição aos ideais é pior, porque enruga a própria alma. Embora o seu rosto esteja marcado por rugas, Fidel, sua alma continua limpa porque você nunca traiu os interesses do seu povo."

Lula foi aplaudido por quase cinco minutos, com a platéia de pé. Fidel Castro levantou-se e lhe agradeceu com um longo e comovido abraço.

Comitiva do PT

O Secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo e membro do Diretório Nacional e da Comissão Executiva Nacional do PT, Marco Aurélio Garcia, o ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque, e a integrante do coletivo da Secretaria de Relações Internacionais, Clara Charf, também participam da comitiva.

O Foro de São Paulo surgiu há dez anos por iniciativa do PT e de outros partidos da esquerda latino-americana, entre eles a Frente Ampla do Uruguai, o PRD do México, PC de Cuba, FMLN de El Salvador e FSLN da Nicarágua.

O secretário de Relações Internacionais do PT, deputado federal Aloízio Mercadante (SP), e o presidente nacional do PT, deputado federal José Dirceu (SP) participariam da delegação do partido nesta viagem, mas decidiram esperar a votação do Projeto de Lei do Governo relativo à CLT, marcada para esta semana na Câmara dos Deputados. Mercadante poderá ir a Cuba conforme o encerramento da votação.

Lula seguirá com Cristovam Buarque para o Peru, onde se encontra na quinta-feira com o presidente Alejandro Toledo, e, depois, para a Venezuela, onde terá encontro na sexta com o presidente Hugo Chavez.