por LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Cientista político e professor de história da política exterior do Brasil, vencedor do Troféu Juca Pato, eleito o Intelectual do Ano 2005, é Autor do livro O Governo João Goulart  - As lutas sociais no Brasil (1961-1964), que foi best-sellker, quando lançado em 1977. Ele era amigo de Goulart e esteve exilado no Uruguai após o golpe militar de 1964.

 

 

Os últimos tempos de João Goulart

 

Moniz Bandeira e Jango (arquivo do autor)As condições nos países do Cone Sul, nos meados dos anos 1970, não ofereciam também a menor segurança. No Chile, sangrento golpe de estado derrubara o governo constitucional e democrático do socialista Salvador Allende. Juan Domingo Perón, que voltara à presidência da Argentina (outubro de 1973) e mantinha excelente relacionamento com João Goulart[1], falecera em 1 de julho de 1974. Como vice-presidente, sua viúva, Isabel Perón (seu nome verdadeiro era Maria Estela Martinez) ocupou o governo da Argentina, cujas condições internas, tanto econômicas quanto políticas, voltaram a deteriorar-se, ao tempo em que atos de terror e violência se intensificavam, com as organizações paramilitares – Triple A (Alianza Anticomunista Argentina) e Comando de la Organización – a assassinarem militantes e líderes de esquerda, enquanto o Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP), de origem trotskista, e as formaciones especiales da Juventude Peronista (Montoneros) realizavam seqüestros, atacavam quartéis e executavam ousadas operações de guerrilhas em Tucumán. Isabel Perón também fora deposta do governo da Argentina por um golpe de estado, em março de 1976. E diversos líderes latino-americanos, que se opunham aos regimes militares, morreram em Buenos Aires assassinados, e entre eles dois importante políticos uruguaios, o ex-ministro de estado e ex-senador Zelmar Michelini e o ex-presidente da Câmara de Deputados, Héctor Gutiérrez Ruiz, cujos cadáveres foram encontrados juntos, dentro de um automóvel, em 22 de maio de 1976[2], bem como o general Juan José Torres, que fora deposto do governo da Bolívia (1971) com o apoio do Brasil[3]. Àquela época, os órgãos de repressão da Argentina, Brasil, Uruguai, Chile, Bolívia e Paraguai haviam concertado um entendimento e desencadeado, conjuntamente e com a assistência da CIA, a Operação Condor, com o objetivo de eliminar toda e qualquer resistência aos regimes ditatoriais instalados naqueles seis países do Cone Sul [4].

O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil (1961-1964), 7ª edição revista e ampliada, Editora Revan.Goulart, que montara uma empresa para a exportação de carne e arroz, em Buenos Aires, onde pretendia residir, recebeu também ameaça de morte e, segundo se informava, teve seu escritório, naquela cidade, na Avenida Corrientes, invadido, cofre e armários arrombados, por um comando cujo objetivo aparentemente fora seqüestrá-lo e matá-lo. Este fato é contestado por algumas fontes, mas algo estranho, de qualquer maneira, houve. E alternativa não restou a Goulart senão passar mais tempo em Mercedes (Argentina), onde possuía uma estância (La Villa) ou sua fazenda em Maldonaldo, perto de Punta del Este, no Uruguai. Mas, no Uruguai, onde fora recebido, em 1964, não como refugiado político e sim como presidente constitucional do Brasil, e obtivera até mesmo passaporte[5], negado pelo governo brasileiro[6], a situação igualmente se modificara. Depois do golpe de estado de 27 de junho de 1973, o governo autoritário de Juan Maria Bordaberry sujeitou-se ainda mais à influência do governo brasileiro, do qual dependia econômica e politicamente, e começou a criar as maiores dificuldades para todos os exilados, inclusive para Goulart. Seu filho, João Vicente Goulart, com 16 anos, foi preso, teve sua cabeça raspada e ficou três dias em um quartel. Sua mãe, Maria Tereza Goulart, sob a alegação de transporte irregular de carne[7]. O piloto, Rubem Rivero, foi também preso sob a acusação de militância subversiva. E o próprio Goulart, que tivera de mandar seus filhos – João Vicente e Denise – para a Inglaterra, com receio de que fossem seqüestrados[8], foi compelido pelo governo uruguaio a desistir do direito de asilo, dado que não o podia expulsar, devido aos seus grandes investimentos no país[9].

Goulart estava deprimido, ansiando voltar ao Brasil, o que constituía sua obsessão, e não tomava os devidos cuidados com a saúde, pois, embora fosse sabidamente cardíaco, continuava a comer sempre a gordura da carne, fumava e não dispensava algumas doses de whisky. E, em tais circunstâncias, ele decidiu fazer uma viagem à Europa, onde não apenas visitaria os filhos em Londres como verificaria as condições de mudar-se para a França[10] ou Espanha, onde ficaria perto de seus filhos que estudavam em Londres. Brizola, naquela ocasião, soube através do serviço secreto de Cuba, com qual desde 1965 nunca perdera contacto, da existência de um complô para assassinar Goulart quando ele passasse por Buenos Aires. Como não lhe queria diretamente falar, pois suas relações continuavam rompidas, procurou o escritor Edmundo Moniz, ex-diretor do Correio da Manhã, asilado em Montevidéu e amigo de ambos, e pediu-lhe que o avisasse do risco que correria[11]. Brizola, perguntado então porque ele, pessoalmente, não o fazia, inventou a desculpa de que Goulart o vira em um posto de gasolina e não o cumprimentara. Diante dessa evasiva, Edmundo Moniz aceitou a incumbência e transmitiu a informação a Goulart, que tomou a iniciativa de ir apartamento de Brizola, a pretexto de visitar sua irmã Neuza, então adoentada, e despedir-se, dado que estava com a viagem marcada para a Europa. Brizola, ao saber da presença de Goulart no prédio, recolheu-se a um dos quartos do apartamento, mas o escritor e jornalista Josué Guimarães, que lá se encontrava, bem como outros amigos pressionaram-no para que aparecesse na sala, com o que ele a muito custo aquiesceu, reconciliando-se assim com o cunhado, após 12 anos de rompimento[12]. Mas os dois não conversaram sobre política. Só de assuntos pessoais, de família.

Pouco tempo depois, em setembro de 1976, Goulart realizou a viagem à Europa[13] e aproveitou para fazer exames no instituto cardiológico de Lyon, quando passou pela França, e após submeter-se a vários exames, recebeu uma advertência a respeito de seu estado de saúde, e escreveu uma carta a Cláudio Braga, que cuidava de seus negócios em Buenos Aires e a quem confiava assuntos políticos e pessoais, contando que os resultados foram “bem razoáveis”, considerando que não se sujeitara “nunca às prescrições médicas e regimes” [14]. Também comentou a situação no Brasil, onde “as cousas se esquentaram”, com a notícia de seu possível regresso,  e se estavam “somando muita detonantes; eleições, situação econômica - social muito difícil, morte de JK, com repercussões de toda ordem e da maior magnitude (inesperada completamente para o governo), graves denúncias no campo moral etc. etc.”.[15]

Goulart tinha consciência de que não mais podia permanecer nem no Uruguai nem na Argentina, devido à insegurança que se instalara nesses dois países, onde recrudesceram os assassinatos dos líderes políticos, que se opunham aos regimes militares. Mas tinha dúvida sobre o que fazer. De um lado, excogitava morar em Paris. Do outro, pretendia regressar a Brasil, mesmo sem anistia política. Assim, logo após regressar da Europa a Montevidéu, solicitou a Cláudio Braga que ouvisse a   Almino Afonso, que  voltara a Buenos Aires uma viagem ao Brasil apesar de que estivesse exilado, sobre um possível retorno, mesmo sem anistia. Almino Afonso foi favorável. Mas nada de ir pela fronteira, nem de exílio dentro da pátria. Sua idéia era de que Goulart fizesse outra viagem à Europa, a fim de visitar o papa Paul VI, e aos Estados Unidos para um encontro com o senador democrata Edward Kennedy, irmão do ex-presidente John Kennedy e então o principal oponente das ditaduras militares instituídas na América Latina, após o que, com ampla divulgação, em New York tomaria um avião diretamente para o Rio de Janeiro, em franco desafio ao regime militar e correndo o risco de ser preso.[16] “Esta opinião foi por mim transmitida a Jango e conversamos várias vezes no Uruguai, mas ele sempre ordenava "absoluta reserva", ate sua definitiva autorização para deslanchar a operação retorno” – recordou Cláudio Braga.[17]

Por volta de 25 ou 26 de novembro, Goulart telefonou para Cláudio Braga, pediu-lhe que estivesse às 15 horas no bar do Hotel Columbia em Montevidéu. Após falar sobre seus interesses na Argentina, principalmente sobre um grande remate de gado que pretendia fazer em Mercedes-Corrientes, e orientá-lo sobre todas as providencias a tomar, Goulart disse a Cláudio Braga:

“Agora vamos ao mais importante. Viajes primeiro a Bueno Aires e marques um jantar com Almino, transmitindo-lhe minha decisão de regressar ao Brasil; ele pode ir pensando na operação regresso, na qual, certamente, estará incorporando o Waldir (Pires)”[18].

Quando ambos caminhavam para o Hotel Alhambra, na parte velha e Montevidéu, Cláudio Braga ainda várias vezes lhe perguntou, se esta era uma decisão definitiva. E ele respondeu:

"se não fosse, eu não estaria mandando tu falares com Almino. As conversas com Almino são conversas sérias... Ele é um homem sério. Irei antes conversar com Edward Kennedy, enquanto isso Almino irá ouvindo a quem ele considerar necessário a essa operação"

Cláudio Braga cumpriu a missão. Encontrou-se com Almino na confeitaria Richmond, na calle Florida em Buenos Aires, e transmitiu-lhe a decisão de Goulart. “Lembro-me que Almino Afonso disse – mais ou menos – o seguinte: ele prestará mais uma vez um grande serviço ao país.”[19]

Goulart, diante de tal perspectiva, estava sob forte tensão. Dado sofrer de cardiopatia grave e haver-se ampliado sua afecção coronariana, ele havia parado de beber e começara a fazer violento regime, a fim de emagrecer, porém mal controlado, e continuou a fumar muito, não obstante a proibição do médico, e a comer ovos e carnes gordurosas, conforme o próprio depoimento de sua esposa, Maria Tereza Goulart[20]. Grande era, portanto, o perigo de que tivesse outro enfarte, como já sofrera no Uruguai, em 1969.

De qualquer forma, Goulart, consciente ou não deste problema, prosseguiu normalmente suas atividades. Foi encontrar-se com Maria Tereza, em Maldonado, a fim de irem juntos à fazenda em Tacuarembó e de lá partirem para Argentina, pelo interior, cruzando o rio Uruguai, pois não pretendia transitar por Buenos Aires, em virtude do clima de ameaças lá existente. E na manhã de 5 de dezembro, com a perspectiva de retornar em  breve ao Brasil mesmo sem anistia[21], viajou com Maria Tereza para La Villa, a estância que possuía na província de Mercedes, Argentina. Fê-lo, sigilosamente. Mas a viagem fora, decerto, exaustiva, pois Goulart e Maria Tereza seguiram de avião apenas até Bella Unión, fronteira do Uruguai, atravessaram de lancha o rio Uruguai para Monte Caseros, prosseguiram de automóvel até Paso de los Libres, onde almoçaram com um negociante de gado no Hotel Alejandro I, após o que partiram para La Villa, distante cerca de 120 km de Uruguaiana, no Brasil.

Lá eles chegaram à tarde de domingo, dia 5 de dezembro, recebidos pelo administrador da fazenda,  Júlio Passos. À noite, enquanto conversava com Julio Passos detalhes sobre o recolhimento do gado para vacinação, Goulart comeu um churrasco de ovelha e, depois de beber uma xícara de chá, recolheu-se por volta de 1h ao seu quarto para dormir. Às 2h40m, porém, Júlio Passos ouviu os gritos de Maria Tereza – a angústia dos gritos era tamanha que ele pensou que alguém invadira a casa – e correu até o quarto, onde viu Goulart, deitado, com a mão no coração, e ela a tentar abrir-lhe os braços para fazê-lo respirar. Cinco minutos depois, às 2h45m, Goulart estava morto. O médico, Ricardo Rafael Ferrari, que o motorista Roberto Ulrich, o “peruano”, correra para buscar, já nada mais pôde fazer. E, após examinar o corpo, diagnosticou no atestado de óbito, como causa da morte: enfarte do miocárdio.

Goulart “passara incólume por uma dezenas de inquéritos”, conforme Elio Gaspari salientou,[22] purgara doze anos de exílio, mas a ditadura, o regime autoritário, instituído pelo golpe de estado de 1964, mostrou a sua face cruel, desumana e mesquinha. O governo do general Ernesto Geisel, embora se propusesse a promover, gradativamente, a abertura política, não decretou luto oficial, o que obrigou José Magalhães Pinto, presidente do Senado, a mandar baixar a bandeira a meio-pau hasteada, em sinal de luto, no prédio do Congresso, e o Departamento de Censura proibiu a transmissão de comentários sobre a carreira política de Goulart, através do rádio e televisão, só permitindo “a simples nota do falecimento”, desde que não fosse “repetida sucessivamente”[23]. Mesmo a autorização para que o seu corpo fosse sepultado no Brasil, gerou sérias controvérsias, porque o general Sílvio Frota, ministro da Guerra, tentou anular a autorização dada pelo vice-presidente da República general Adalberto Pereira dos Santos, para que o féretro atravessasse a ponte presidente Justo que ligava a cidade de Paso de los Libres, na Argentina, a Uruguaiana, no Brasil[24]. Não conseguiu. Só assim, doze anos, oito meses e quatro dias após asilar-se no Uruguai, o presidente constitucional da República, já sem vida, teve permissão de  regressar ao Brasil para ser enterrado em São Borja, onde nascera.

__________

[1] Perón convidara Goulart a residir na em Buenos Aires e solicitou-lhe  que se encarregasse da elaboração do plano trienal para exportação de carnes da Argentina. Goulart chegou a comprar um apartamento em construção na Avenida del Libertador, em frente do Hipódromo de Palermo, mas não conseguiu elaborar o plano para exportação de carnes, porque José López Rega, homem ligado à Triple A (Aliança Anticomunista Argentina), da extrema-direita , se opôs à sua designação e impediu que ele tivesse outra audiência com Perón que já estava bastante enfermo e do qual era secretário particular. Perón faleceu pouco tempo depois, em 1° de julho de 1974.

[2] Estavam asilados na Argentina, desde 1973, e foram seqüestrados no dia 18 de maio de 1976. Foram barbaramente torturados e assassinados, sendo seus corpos dilacerados.Sobre esses assassinatos vide Fialho, A. Veiga – Uruguai: um campo de concentração, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979, pp.  136-149.

[3] A Casa Militar do presidente Emílio Garrastazu Médici, sob a chefia do general João Batista Figueiredo, ofereceu aos adversários do governo do general Juan José Torres, através do ex-coronel Juan Ayoroa, dinheiro, armas, aviões e até mercenários, bem como permissão para instalar áreas de treinamento perto de Campo Grande (Mato Grosso) e em outros locais próximos da fronteira. E o golpe de estado, deflagrado pelo general Hugo Banzer, contou com aberto apoio logístico do Brasil, cujos aviões militares, sem ocultar as insígnias nacionais, descarregaram fuzis, metralhadoras e munições em Santa Cruz de la Sierra, enquanto tropas do II Exército, comandado pelo general Humberto Melo, estacionavam em Mato Grosso, prontas para intervir na Bolívia, onde alguns destacamentos chegaram a penetrar. Vide Moniz Bandeira, L. A. – Estado Nacional e Política Internacional na América Latina – O continente nas relações Argentina – Brasil (1930-1992), São Paulo-Brasília, Editora Ensaio/Editora da Universidade de Brasília, 2a. Edição, 1995, pp. 244-245.

[4] “Segundo o brigadeiro Márcio Calafange, que foi adido militar em Santiago durante a ditadura do general Augusto Pinochet, a cooperação através da Operação Condor envolvia até informações sobre economistas brasileiros da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) que eram investigados pela Dina (polícia secreta chilena). Na lista de brasileiros que a Dina deveria acompanhar estavam Fernando Henrique Cardoso, classificado como “agitador com elevado poder de persuasão”, Florestan Fernandes, Caio Prado Jr. e outros intelectuais e políticos”. Mas àquela altura, Fernando Henrique Cardoso, que viveu no Chile nos anos 60, já se exilara em Paris. Hollanda, Eduardo – Contreiras, Hélio – “O Condor Passa”, in IstoÉ On-line 1596.

[5] O Paraguai, governado pelo general Alfredo Stroessner, concedeu a Goulart passaporte diplomático, com data de 16 de outubro de 1973. “O incrível acontecia: um presidente derrubado por militares no Brasil ganha de uma ditadura militar um passaporte de presente. A vocação latino-americana para o surrealismo se confirmava numa noite de lua em Assunção. Em que outro lugar do planeta uma ditadura militar de direita iria dar de mão beijada um passaporte de presente a um político de esquerda escorraçado pelo militares?”. Moraes Neto, G., op. cit., p.116.  Somente em 8 de junho de 1976, já havendo o governo Geisel iniciado a abertura gradual, foi que o Consulado Geral do Brasil em Montevidéu concedeu um passaporte a Goulart, sob o número CA001858, assinado pelo diplomata Raymundo Nonato Loyola de Castro, chefe do posto. Goulart, porém, jamais usou este documento de viagem. Id., ibid., p. 120

[6] O governo brasileiro negou-lhe até a 2a. via da carteira de identidade.

[7] Para exportar mais carne, o governo do Uruguai proibira a comercialização de carne durante certas semanas e ela levava alguns quilos, do frigorífico de Goulart, para sua residência.

[8] Pouco antes do golpe que derrubou Isabel Perón, o Exército argentino desbaratou na cidade de La Plata um grupo vinculado à extrema direita peronista – e integrado por marginais – que, entre outros planos, confessou o de seqüestrar o filho de Goulart para exigir alto resgate em dinheiro. Tavares, Flávio – “Ameaças terroristas não o perturbaram”, in O Estado de São Paulo, São Paulo, 7.12.1977, p. 7.

[9] Goulart possuía duas fazendas, uma Tacuarembó (El Rincón), e outra em Maldonaldo (El Milagro), além de uma casa de praia em Punta del Este. El Rincón,  em Tacuarembó,  destinava-se à engorda de gado e ao plantio de arroz. A fazenda em Maldonaldo, El Milagro, tornou-se  centro de beneficiamento de arroz e de abate-distribuição de gado, o que fez de Goulart um dos grandes fornecedores de arroz e carne para o mercado consumidor de Maldonaldo, Punta del Este e San Carlos.

[10] “Eu sei viver é por lá, na minha região, no Sul. Se me fecham todas as portas, só me resta comprar um  apartamento por aqui. Pelo menos ficarei perto de meus filhos, que estão estudando em Londres” – Goulart declarou ao jornalista Carlos Castello Branco, que o visitou, em Paris, no Hotel Claridge (Champs Elysées), onde habitualmente se hospedava. “Seu ar era de indefinível tristeza, embora aparentasse a paciência e a serenidade que mantinha mesmo nos momentos de maior tensão” – o jornalista comentou. Castello Branco, Carlos – “Coluna do Castelo – Como um peão ronda o seu galpão”, in  Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 7.12.1976, p. 2.

[11] Depoimento de Edmundo Moniz ao Autor.

[12] Este relato, entre outras fontes, baseia-se em depoimentos de Edmundo Moniz e Josué Guimarães, ouvidos pelo Autor em distintas ocasiões.

[13] Consta que Goulart fora incógnito a Portugal, cujo primeiro-ministro, o socialista Mário Soares já antes o convidara a residir em Lisboa. Mario Soares, porém, não se recorda de haver feito qualquer convite a Goulart, com quem, pessoalmente,  nunca esteve, nem tem notícia de sua passagem por Portugal. Entrevista de Mario Soares ao Autor, por telefone, Strasbourg, abril de 2001. O jornalista Hermano Alves, que era àquela época correspondente de O Estado de São Paulo, em Lisboa,  e amigo  pessoal de Mário Soares, também não se recorda de haver transmitido qualquer convite, nem sabe da passagem de Goulart por Portugal. Entrevista de Hermano Alves ao Autor, por telefone, Lisboa, abril de 2001.

[14] Carta de Goulart a Cláudio Braga, Lyon 13.9.1976. Arquivo particular de Cláudio Braga.

[15] Ibid. Íntegra da carta: Lyon, 13/9/76. M/ caro Cláudio: C/ m abraço amigo desejo a você e a seus familiares, Marcela e nossos amigos, paz e felicidade.

Por aqui tudo “andando” mais ou menos bem. Estou concluindo m/exames médicos c/resultados bem razoáveis, considerando que não me sujeitei nunca a prescrições e regimes. Alguns “reparos” 2° os Mestres de Lyon e tudo evoluirá satisfatoriamente. Soube aqui  que no Brasil as coisas se esquentaram c/a noticia de meu possível regresso. Creio que se estão somando muitos detonantes: eleições, situação econômica-social muito difícil morte de JK c/repercussões de toda a ordem e da maior magnitude (inesperada completamente para o governo) (Graves denúncias no campo moral... etc. etc).

Sem ter tomado nenhuma iniciativa estranho à reação inesperada também para mim e para outros que lá estão e se sentia bem informados (militarmente). Bem, de qualquer forma vamos aguardar... /hora no silencio e expectativa.

 As coisas p/aí, como correm? Caso Mário não tenha dado nenhuma solução, o que seria bastante  surpreendente convém veres c/ Bijuja a possibilidade de conseguir algo ao menos pra desapertar até, eu aí, vender lãs e novilhos.  A solução é tentar algum empréstimo a curto prazo... mas não parar!. Eu participo também do pensamento de que se trata de um bom negócio.

E Marcos Paz? E de Mercedes que noticias? Ainda no inverno ou o tempo e pastagens já estão melhorando? Como fostes de Brasil? Tudo bem?E o nosso Orpheu? E por Montevidéu tudo em ordem? Vicente e Denise optimos (sic). Aguardo o neto, pra a quinzena de outubro. Minha dúvida até o momento: ir e votar ou aguardar. Em breve tomarei uma decisão t aviando.

Até breve e outro abraço,

Jango, Lyon, 13/9/76

E a nossa Argentina, como está?”

[16] Com Cláudio Braga. Projeto confirmado pelo deputado Almino Afonso, em discurso na Câmara dos Deputados, em 5 de dezembro de 1996. Jornal do Commercio, Recife, 2 de setembro de 2001, 12.

[17] Entrevista de Cláudio Bra ao Autor.

[18] Waldir Pires fora Consultor-Geral da República no governo de João Goulart e também estava asilado.

[19] Entrevista de Cláudio Braga ao Autor.

[20] Apud Moraes Neto, G., op. cit., p. 125.  Vide declaração de Maria Tereza Goulart a  Lourenço Flores e Rudolfo Lago, in “Jango – sem vontade de viver, não se consegue viver”, Zero Hora, Porto Alegre, 2.12.1996. O Autor esteve com Goulart, em começo de 1976, um mês antes de seu falecimento. Ele continuava realmente a fumar e ainda estava gordo, apesar de que, segundo vários depoimentos, houvesse perdido muitos quilos em dois meses.

[21] De acordo com Manoel Leães,  àquela época, um agente do SNI procurou-o no seu apartamento, como intermediário de um coronel do Exército, a fim de transmitir-lhe que Goulart poderia voltar ao Brasil, sem ser importunado. Desembarcaria em Brasília e apenas seria ouvido rapidamente pela Polícia Federal. Ele comunicou o fato a Goulart que lhe pediu fosse ao Rio de Janeiro consultar os companheiros sobre aquela proposta, mas quando estava a embarcar, no dia 6 de dezembro de 1976, recebeu um telefonema no aeroporto, informando-o de que Goulart sofrera um enfarte. Entrevista de Manuel Leães a Geneton Moraes Neto. Moraes Neto, G., op. cit., pp. 121-122.

[22] Gaspari, Elio. A Ditadura Encurralada. São Paulo: Companhia das Letras,  2006, p. 315-318.

[23] Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 7.12.1976,  1° caderno, p. 18.

[24] Id., 6.12.1986, 1° caderno, 2° clichê, p. 4.

   

 

 

 

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