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Comunidade Húngara radicada no Brasil

Éva Piller

COMUNIDADE HÚNGARA RADICADA NO BRASIL.

Os imigrantes húngaros foram sempre acolhidos de forma muito amistosa pelo povo brasileiro. Esta seja talvez a causa principal de que em todas as levas de imigração, houvesse tantos húngaros chegando ao Brasil ao longo do Séc. XX.

Já em 1933, de acordo com uma nota publicada no Délamerikai Magyar Hírlap (Periódico Húngaro da América do Sul) edição do dia 15 de junho, estimava-se que o número de imigrantes húngaros no Brasil era de 150.000, sendo 30.000 radicados em São Paulo.

Os descendentes desses húngaros que têm consciência de sua origem somam hoje em torno de 5.000 -10.000 pessoas.

Um breve histórico da imigração húngara

Primeiros imigrantes

Os primeiros grupos de imigrantes húngaros começaram a chegar a partir de 1890. Vieram para buscar novas oportunidades, já que a conjuntura econômica na Monarquia Austro-Húngara não era muito favorável. Vieram também animados pelos incentivos oferecidos pelo governo brasileiro: terras e animais para recomeçar a vida na nova terra. Muitos aportaram no sul do país e estabeleceram-se no Rio Grande do Sul, Santa Catarina (Jaraguá do Sul) e Paraná. Alguns desembarcaram no porto de Santos, estabelecendo-se no interior do estado de São Paulo.

Imigrantes da I. Guerra Mundial

Um segundo grupo de imigrantes húngaros chegou ao Brasil entre 1920 e 1929, depois da I. Guerra Mundial, proveniente dos territórios desmembrados da Hungria pelo Tratado de Paz de Trianon, estabelecido em 1920 na França (veja Pequena História da Hungria, neste mesmo site).

A tabela abaixo explica o número oficial relativamente baixo de imigrantes cadastrados como húngaros nos serviços de imigração: os emigrantes que deixavam os territórios desmembrados, viajavam com passaportes de seus novos governos, ou seja: romenos, iugoslavos, tchecoslovacos e austríacos.

Húngaros com passaporte romeno

Transilvânia

30.437

Húngaros com passaporte tchecoslovaco

Norte da Hungria

518

Húngaros com passaporte iugoslavo

Sul da Hungria

16.518

Húngaros com passaporte austríaco

Oeste da Hungria

2.742

Húngaros com passaporte húngaro

Hungria remanescente

6.501

Total de imigrantes húngaros

56.716

Fonte: Memorial dos Imigrantes e outras)

Muitos dos húngaros imigrantes possuíam na Hungria pequenas propriedades, estando ligados ao que hoje se chamaria o “agrobusiness”. Estabeleceram-se no interior do Estado de São Paulo e com seus conhecimentos e espírito empreendedor, depois de algumas dificuldades, conseguiram prosperar. Durante muitos anos, estes imigrantes húngaros viveram com a esperança de um dia voltar para suas terras se estas viessem a pertencer novamente à Hungria. Ensinavam a língua húngara aos seus filhos e netos e guardavam as tradições húngaras em seus lares. Porém, vários fixaram-se na cidade de São Paulo, que naquele momento passava por um desenvolvimento econômico sem precedentes. Foram esses que fundaram em 1926 a Associação Húngara Auxiliadora do Brasil. Ergueram em 1934 a Igreja Católica Apostólica Romana "Santo Estevão" (Vila Anastácio) e a Igreja Calvinista (Lapa) em 1936.

Imigrantes entre as duas guerras

Por volta dos anos 1930, entre as duas grandes Guerras Mundiais e devido a ameaça do nazismo, vieram várias famílias de judeus húngaros. Eram intelectuais, médicos, advogados, engenheiros, entre outros. Tornaram-se empresários, comerciantes de sucesso, médicos, etc.

Imigrantes da II. Guerra Mundial

Esse grupo chegou a partir de 1945. Eram na maioria militares, oficiais, profissionais liberais. Fugiam da guerra ou da ocupação militar soviética e do regime comunista imposto pela União Soviética. Aprenderam a língua portuguesa, revalidaram seus diplomas, abriram firmas, pequenas fábricas, consultórios e começaram assim a sua nova vida.

Longe do seu país de origem, esses imigrantes não queriam esquecer nem "abandonar" a pátria. Sentiam que podiam ajudar - mesmo à distância - o seu país ocupado por uma potência estrangeira. Também fizeram questão de ensinar a língua húngara aos filhos e passaram para eles algumas tradições. Fundaram Grupos de Escoteiros(as) com uma autorização especial para exercerem as suas atividades na língua húngara; fundaram ainda Grupos de Danças Folclóricas Húngaras e Corais. Realizaram diversas outras atividades para manter vivo o interesse dos filhos e netos pelas origens culturais de seus pais, avós ou mesmo bisavós.

Imigrantes da Revolução Húngara

O último grande grupo de imigrantes húngaros chegou ao Brasil, após o malogrado Levante Popular contra a ocupação soviética de 1956. Estes últimos imigrantes, constituídos principalmente de famílias jovens com formação universitária ou técnica, se fixaram quase que exclusivamente na cidade de São Paulo e conseguiram uma rápida adaptação na sociedade brasileira que os acolheu, integrando-se rapidamente à comunidade húngara, graças também ao trabalho desenvolvido pela Associação que  m uito fez por aqueles refugiados.

Situação atual

Em 1989, com o fim da Cortina de Ferro, a Hungria pôde novamente retomar sua independência e auto-determinação. Esta importantíssima condição, mais as melhores condições de vida das gerações de descendentes dos primeiros imigrantes, a globalização e a informática são fatores que permitem atualmente um intercâmbio muito mais intenso entre os membros da comunidade húngara em São Paulo e no Brasil com a antiga terra de origem. Muitos jovens curiosos em aprender o idioma de seus pais e avós, interessados em tomar contato com a cultura da Hungria atual buscam a Associação Húngara. Através das oportunidades que ali são oferecidas, podem satisfazer esses desejos de reintegração. Informações sobre bolsas de estudo e oportunidades de conhecer a Hungria podem ser obtidas ali, sem falar na possibilidade de aprender o necessário da língua húngara para poder viajar à Hungria e aproveitar melhor o contato com a cultura húngara atual.

Presença histórica de húngaros no Brasil.

Século XVI.

Varga János: foi o primeiro húngaro a pisar em terras brasileiras (13 de dezembro, 1519) no Rio de Janeiro. Varga servia como artilheiro em um dos navios da Expedição de circunavegação do globo de Fernão de Magalhães

Século XVIII.

Nesse século, a História registra a passagem pelo Brasil de 6 jesuítas húngaros:

Ignác Szentmártonyi e János Szluha matemáticos e astrônomos, chegaram em 1749 a convite do rei Dom João V. para participar de uma expedição para rever as fronteiras, pois a decisão do Tratado de Tordesilhas não satisfazia a corte de Portugal;

Dávid Fáy e József Kayling, missionários, chegaram no ano de 1753 para catequizar os índios no Maranhão. Foram deportados e encarcerados pelo Marquês de Pombal;

János Zakarjas e Ferenc Xavier Éder, de passagem, fizeram as primeiras anotações sobre o Brasil.

Século XIX.

Os dois irmãos Hofbauer chegam por volta de 1810, estabelecendo se em Itapetininga. Mais tarde adotam o nome Hungria, tornando-se  os ancestrais dessa grande família.

O conde Miklós Pálffy chega em 1817 comandando o corpo de guarda da Princesa Leopoldina de Habsburgo, noiva de Dom Pedro I, chegando da Áustria.

Os irmãos Dániel e József Vámosy, desembarcam no Rio de Janeiro em 1828. São os fundadores das famílias Wamosy do Rio de Janeiro e da cidade de Uruguaiana. Alceu Wamosy, um dos mais representativos poetas da lira brasileira do início do século, orgulho do Rio Grande do Sul, é um de seus descendentes.

Károly Kornis, jurista e historiador, um dos oficiais da luta pela independência dos húngaros contra o Império Habsburgo (1848-1849) deixou a Hungria após a derrota dos patriotas húngaros, e chegou ao Brasil no ano de 1854. Abriu uma oficina de daguerreótipo - fotografia da época. Chegou a ser fotógrafo oficial da Corte e fotografou Dom Pedro II. e a família imperial. Mais tarde (já falando a língua portuguesa) atuou como professor jurisconsultor de representações diplomáticas estrangeiras no Brasil. Defendeu os direitos de colonos, importou vinhos húngaros, foi autor de inúmeros trabalhos jurídicos, estudos e livros sobre o ensino do latim no Brasil e o casamento civil.

João Décsy, outro oficial, capitão do exército húngaro na luta pela independência dos anos 1848-1849, começou sua existência no Brasil em 1854 como professor em Petrópolis e Espírito Santo. Em 1864 atuou na comissão de recrutamento em São Paulo. Juntou se ao exército em operações no Paraguai em 1866. Tornou-se presidente da colônia de Itajaí e em 1877, já como major, comandou um dos distritos da guarda urbana na Capital.

István Szendröi Geöcze, seguidor de Garibaldi, chegou ao Brasil no ano de 1864. Encantado com as belezas naturais do Brasil, com a riqueza do seu folclore e também com a mentalidade do povo brasileiro, escreve um livro que será o primeiro livro sobre o Brasil em língua húngara.

Lajos Mátyás Majlaszky, engenheiro, chegou em 1868. Foi o fundador e construtor da Estrada de Ferro de Sorocaba. Recebeu mais tarde o título de Visconde de Sapucahy e uma das estações da ferrovia recebeu o seu nome.