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Análise
crítica do texto "Orfeu da Conceição"
Maria
Lúcia Candeias
4.fevereiro.2002
Exclusivo para o Clube do Tom
Escrita
originalmente em 1942, reescrita em 1955 e montada em 1956, "Orfeu da
Conceição", do poeta Vinícius de Moraes,
tem o mérito de ser uma peça para ser encenada por
atores negros. Uma característica ainda hoje, 2002, rara
e um espaço que precisaria ser preenchido. Afinal eles
representam a metade da população. O personagem
negro no teatro não era novidade e há muitos deles
nas obras abolicionistas do século XIX, como "A Mãe"
e "O Demônio Familiar" de José de Alencar.
Mas
sem considerarmos a dramaturgia de Abdias Nascimento (que foi
ator na curta temporada em que Orfeu esteve em cartaz no Rio),
desde os anos 60, a única peça de repercussão
escrita para este grupo de atores foi Arena Conta Zumbi, um musical
escrito por Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo, cujo embrião
foi a letra de Vinicius de Moraes para a música Zumbi,
de Edu Lobo.
Textos
com um personagem negro, em geral em papel subalterno, sempre
houve, assim como a mulata sensual quase obrigatória no
teatro de revista. Contudo o mesmo não acontece quando
se trata de papéis mais dignos e muito menos que abra oportunidade
para todo um elenco. A despeito dessa qualidade indiscutível,
muitos anos se passaram e quem o lê Orfeu com os olhos de
agora, certamente achará no mínimo estranho o machismo
presente em vários trechos: "mãe é feita
mesmo para servir e pôr no lixo...", ou ainda pelo fato
de todas as mulheres só terem valor enquanto objetos sexuais,
inclusive aquela de que o protagonista se cansou, que é
vítima de bofetadas, de acordo com a rubrica, um comportamento
de Orfeu que não suscita quaisquer críticas. Além
disso, nos momentos em que há coro de mulheres elas estão
bêbadas.
É
possível alegar, não sem razão, que mesmo
Orfeu, paradigma masculino, é valorizado por ser músico
e compositor e por estar sempre assediado pelas mulheres, e só.
Leva a alegria para o morro mas não apresenta nenhum ato
digno de admiração em benefício da comunidade,
como costumam fazer os heróis dos mitos que se prestam
ao teatro. Também não vai aos infernos atrás
da amada, como no enredo grego. Neste caso felizmente, porque
um local sobrenatural é um tanto incompatível com
o cotidiano de uma favela. E transferir mitos para locais realistas
quase nunca dá certo. Nem no caso de "Gota D'Água"
em que Paulo Pontes coloca Medeia entre bicheiro e favelados,
contexto no qual ela - que chega a assassinar os próprios
filhos - é uma criminosa hedionda e não somente
a personificação da vingança, sob os auspícios
do deus sol.
Acredito
que nos dois os casos, ainda é possível encontrar
quem comente e monte essas adaptações, muito mais
pela qualidade das músicas, do que pela literatura propriamente
dita. Pelo menos foi o que se notou em 1997 quando houve uma encenação
extremamente bem sucedida de Orfeu. Foi pena que a temporada em
São Paulo, onde se apresentou no Teatro Paulo Eiró,
da prefeitura, foi curta e só naquele espaço de
bairro. A direção de Aroldo Costa contornou os problemas
com grande eficiência, sem grande valorização
do texto, falado ao mesmo tempo em que os atores faziam movimentos
de dança, como numa coreografia. Era um grupo com muitos
atores negros entre os quais Ruth de Souza e poucos atores brancos,
entre os quais Elke Maravilha. Funcionou, mesmo com uma réplica
do cenário original de Oscar Niemeyer de tantos anos antes.
É um caminho.
Porque
"Orfeu da Conceição" não chega a ser uma
obra realista enraizada na favela. Há a dama negra que
é uma alegoria da morte que é um traço simbolista.
Muita mudança de cenário. Pouco traçado psicológico
dos personagens. Pouco conflito dramático: acontecem coisas,
há muito bate boca, porém uma verdadeira luta entre
os rivais não é mostrada. Nada justifica suficientemente
o assassinato de Eurídice. Faltam as explicações.
Mas por outro lado não é exatamente simbolista,
ainda que seja uma tentativa de juntar poesia lírica e
dramática. Faltam para isso as pausas e sugestões,
bem como a sincronia entre natureza (luz, sombra, chuva, sol,
ruídos) e as emoções das figuras ficcionais,
criando um certo clima metafísico.
Mesmo
assim, as melodias e letras compostas para Orfeu são simplesmente
inesquecíveis. Basta lembrar a valsa de Eurídice
(letra e música do Vinícius), ou mesmo Se Todos
Fossem Iguais a Você (em parceria com Tom Jobim). E é
por isso, a nosso ver, que o texto vai continuar despertando interesse.
Maria Lúcia Candeias
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