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Um ano depois, as cicatrizes de um crime bárbaro

Por Luciana Bonadio, repórter iG em São Paulo


SÃO PAULO - Com apenas 16 anos, Andreas von Richthofen viu seu último ano passar sob os olhares da imprensa e de curiosos. Já o casal Nadja e Astrogildo Cravinhos de Paula e Silva evita sair de casa com receio das ofensas e dos olhares de ódio a que são costumeiramente submetidos. Os três são também vítimas de um crime que estarreceu o País no dia 31 de outubro de 2002: o assassinato do casal Von Richthofen.

O engenheiro Manfred Albert e a psiquiatra Marísia von Richthofen foram mortos enquanto dormiam na mansão do casal na rua Zacarias Góis, em um bairro nobre de São Paulo. Uma semana depois, o Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) revelou que os autores do crime estavam mais próximos do que se podia imaginar. A filha do casal, Suzane Louise, 19 anos, confessou ter planejado a morte dos pais com a ajuda do namorado, Daniel Cravinhos de Paula e Silva, 22 anos, e do irmão dele, Christian, 27 anos.

O crime chocou o País não só pela brutalidade - o casal foi espancado com barras de ferro, além de Marísia ter sido asfixiada -, mas principalmente pela participação da filha no assassinato. Para as pessoas que conviviam com os três jovens, as dúvidas sobre o crime e as conseqüências dele persistem depois de um ano. Assim como a opção pelo silêncio.

Durante meses após o assassinato dos Richthofen, os pais de Christian e Daniel deixaram de ir ao supermercado nos horários em que estavam acostumados. Eles preferiram passar a fazer compras durante a madrugada para evitar os olhares desconfiados que tanto incomodavam dona Nadja.

O casal evita usar o Maverick de Astrogildo, que é facilmente reconhecido nas ruas. Mas esse cuidado não evita que ele passe por situações constrangedoras. Certa vez, o carro em que estava com um amigo foi sacudido por populares inconformados com o assassinato.

A rotina na casa 39 da rua Brás de Arzão mudou drasticamente após a confissão dos irmãos. O casal Cravinhos vive em função dos filhos e das visitas feitas religiosamente aos sábados e domingos. Durante a semana, Astrogildo e Nadja preparam o “jumbo”, como são conhecidas as compras levadas semanalmente a Christian e Daniel.

Os irmãos estão presos em unidades separadas do Centro de Detenção Provisória (CDP) do Belém e recebem os “jumbos” - com produtos de higiene, alimentos não perecíveis e alguns objetos pessoais - todas as quartas-feiras. As segundas e terças-feiras, o casal Cravinhos faz as compras para os filhos e escreve as cartas que são remetidas durante a semana.

Amigos dizem que os Cravinhos mantêm os quartos intactos à espera do retorno dos filhos. Sobre a cama de Daniel, ainda permanece o travesseiro com a foto de Suzane. Nas paredes, murais com as fotos que registraram os momentos felizes do relacionamento dividem o espaço com os troféus e medalhas conquistadas nos campeonatos de aeromodelismo.

Proteção a todo custo

Desde a morte dos pais e da confissão da irmã, o adolescente Andreas tenta fugir a qualquer custo do assédio que o cerca. “A vida desse menino mudou completamente de um minuto para o outro. Ele se tornou uma celebridade sem desejar”, diz o promotor Roberto Tardelli, do 1º Tribunal do Júri. “Ele é a grande vítima de tudo isso”, completa.

O adolescente de 16 anos mora há um ano com a avó materna, Lourdes Magnani Abdalla, e com o tio, Miguel Abdalla Neto. Na casa da família, predomina o silêncio sobre o caso. “Aqui não se comenta (sobre o crime). A gente não quer colocar o dedo na ferida”, diz Lourdes. Apesar de tudo, a avó diz que o neto “está bem” e segue com a rotina que tinha antes da morte dos pais. “Crio o Andreas como criei a minha filha”, diz.

Andreas cursa o 2º colegial do Colégio Vértice, na zona sul de São Paulo. Na escola, funcionários e seguranças tentam impedir que a imprensa se aproxime do adolescente. Os próprios alunos esquivam-se de perguntas sobre Andreas, que é apontado pelos colegas como simpático e um ótimo aluno.

Fugir da imprensa tornou-se rotina na vida do adolescente. Em um culto após a morte dos pais, em novembro do ano passado, um forte esquema de segurança foi montado na Igreja Evangélica Luterana para evitar o assédio ao garoto. Andreas entrou pelos fundos e saiu do local em um carro com os vidros escuros sem aparecer para os repórteres.

Para Tardelli, Andreas foi muito julgado pelas pessoas. Isso justificaria tamanha proteção em torno dele. “Ele passou por um período de massacre. As pessoas o massacraram principalmente por ter perdoado a irmã”, acredita. Cerca de 15 dias após o crime, Andreas declarou por meio de uma carta à imprensa que havia perdoado Suzane.

"Perdoar é abrir o coração. Não só perdoei minha irmã Su, mas continuo a amá-la. Agora, principalmente, é o momento que ela mais precisa do amor. Apesar da dor, tenho certeza de que nossos pais a perdoaram. Ainda ontem ouvi uma frase que me marcou: a humanidade deve caminhar unida em busca da civilização do amor”, escreveu.

De acordo com os vizinhos, o adolescente visita pouco a mansão da família onde os pais foram assassinados. A casa está com ares de abandonada, com a fachada coberta por pichações. Um vigia contratado pela família, que se identificou apenas como Marcos, cuida da mansão e mantém a limpeza do local. Ele recebeu ordens da família para não falar com a imprensa.

Vida atrás das grades

Daniel Cravinhos já fez amigos na cela que divide com outros quatro presos no Centro de Detenção Provisória (CDP) do Belém. Participa da alfabetização de adultos e ajuda a cuidar dos filhos dos outros presos durante as visitas íntimas. Sobre sua cama, Daniel montou um mural com fotos da família e da ex-namorada, Suzane. Para passar o tempo, ele cola folhas de sulfite brancas e azuis na parede da cela, imitando azulejos.

O ex-namorado de Suzane perdeu cerca de 20 quilos na prisão. De acordo com pessoas próximas à família, Daniel pergunta constantemente da estudante e jura que o amor dele pela jovem será eterno. Ele manda pelo menos uma carta todas as semanas para os pais e também enviaria cartas à ex-namorada.

Christian está detido em outra unidade do CDP Belém, em uma cela com outros quatro presos. Voltou a se relacionar com uma antiga namorada e eventualmente recebe visitas íntimas. Também fez amigos na prisão e ocupa o tempo criando artesanatos como porta-retratos e origamis. É membro da “faxina”, um grupo de presos que faz a intermediação entre os detentos e a coordenação do CDP.

Já Suzane divide a cela com outra detenta na Penitenciária Feminina do Carandiru. Nunca apresentou problemas de comportamento ou relacionamento, segundo a Secretaria de Administração Penitenciária. Como as outras presas, desempenha atividades administrativas e dá aulas para as outras detentas.

Suzane se corresponde com o pastor Hermam Wille, da igreja que freqüentava com os pais e o irmão. Segundo Wille, a estudante recebe apoio espiritual por meio das mensagens. “É algo muito complexo. Ela vive confinada e está se dando conta de tudo o que aconteceu, por isso tem altos e baixos”, diz o pastor.

A avó de Suzane diz que Andreas já visitou a irmã algumas vezes. Lourdes diz que não vai à penitenciária ver a neta porque “não tem condições emocionais”.

O crime

Estudante do primeiro ano de direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo(PUC-SP), Suzane von Richthofen era uma adolescente acima de qualquer suspeita. Bonita, rica e culta, a estudante tinha tudo o que desejava materialmente. No começo do ano, havia ganhado um carro Gol do pai como prêmio por ter sido aprovada na faculdade.

Os Von Richthofen eram uma família reservada e os pais eram rigorosos quanto à educação dos filhos. Manfred e Marísia estavam preocupados com o envolvimento excessivo da filha com Daniel Cravinhos, o aeromodelista que namorava havia três anos. Dez dias antes do crime, o engenheiro chegou a confidenciar com um amigo que pretendia mandá-la no final de 2002 para a Alemanha. Mas foi tarde demais.

Por volta da meia-noite do dia 30 de outubro, Daniel, Christian e Suzane chegaram à mansão dos Von Richthofen. Os detalhes já haviam sido preparados: meias finas compradas antecipadamente, luvas de uso cirúrgico pegas da psiquiatra Marísia e barras de ferro. Eles haviam deixado Andreas em um cibercafé.

Suzane subiu as escadas, confirmou que os pais estavam dormindo, acendeu as luzes e chamou os irmãos Cravinhos para matar seus pais. Christian teria pensado em desistir do crime, mas Daniel falou que já não tinha volta. Daniel matou Manfred enquanto Christian assassinava Marísia.

No andar de baixo, Suzane andava da biblioteca para a sala de estar. Agachava, colocava a mão no rosto, enquanto iniciava a simulação de latrocínio - roubo seguido de morte. No quarto, a preocupação dos irmãos Cravinhos também era enganar a polícia. Depois do assassinato, Daniel retirou a arma de um fundo falso e colocou sobre a cama. Christian carregou o revólver e colocou-o no chão ao lado de Manfred.

Depois do assassinato, os namorados foram para um motel localizado na avenida Ricardo Jafet, na zona sul, onde ficaram até as 3 horas. Na volta, pegaram Andreas no cibercafé e seguiram para a casa dela. Por volta das 4 horas acionaram a polícia para informar que tinham encontrado os corpos.

De acordo com o delegado Enjolras Rello de Araújo, responsável pelo 27º Distrito Policial na época das mortes, Suzane estava no hall de entrada da mansão quando ele chegou ao local, por volta das 5h30. Depois de algumas perguntas, Andreas, Suzane e Daniel seguiram para a delegacia.

“Ela estava tranqüila. Tanto que por volta das 6h, foi levada para a delegacia e, como não havia dormido, chegou a cochilar no sofá do plantão (...) Parecia que não estava preocupada com a morte dos pais”, conta Araújo. “Uma hora ela chegou a dizer que queria que os policiais pusessem a mão nos marginais que mataram seus pais”.

Para o promotor Roberto Tardelli, os fatos que mais o impressionaram no crime foram a brutalidade das mortes, a insensibilidade de Suzane e o fato de ele não ter sido cometido por pessoas com antecedentes criminais. “O Daniel não é um alpinista social como as pessoas imaginavam. Ele também era um garoto que tinha tudo o que queria”, declarou.

”Por amor”

Na confissão do crime, Suzane alegou que matou os pais “por amor”. A união de Suzane e Daniel foi um fato que impressionou o delegado, que diz ter suspeitado dos dois desde o início. “Era um amor de Romeu e Julieta. Nossa, que paixão. Levantava mais suspeitas ainda, por eles estarem muito unidos. Cegos é a palavra certa. Completamente absorvidos um pelo outro”, disse.

Durante depoimento à Justiça em dezembro de 2002, Suzane disse que no início a família aceitava o relacionamento. "Ele freqüentava a nossa casa, passava Páscoa, Natal, com a gente", contou. Segundo a estudante, a mãe passou a se opor ao relacionamento quando percebeu o quanto a filha estava envolvida. "Meu relacionamento com ele virou uma obsessão, queria estar com ele a todo o momento", disse.

A gota d’água para os pais proibirem a adolescente de ver e falar ao telefone com Daniel foi quando ela mentiu dizendo que dormiria na casa de uma amiga e foi ao motel com o namorado. Segundo ela, a intenção de matar os pais surgiu de Daniel após uma briga entre Suzane e os pais. A estudante teria sido agredida no rosto por Manfred. "Foi a primeira vez que o meu pai me bateu, fiquei com muita raiva", disse.

Suzane afirma ainda que soube dos planos homicidas do namorado em julho de 2002, mês em que os pais foram viajar. Ela, seu irmão Andreas, e Daniel teriam ficado juntos naquele mês na casa da família e o período foi definido por Suzane como "um sonho". "Foi tudo maravilhoso", disse, afirmando que Daniel parecia "o príncipe encantado" de sua vida.

Em julho, Daniel teria dito a Suzane que "a melhor coisa" seria matar os pais, porque jamais ela conseguiria sair de casa ou morar com ele enquanto o casal estivesse vivo. "Odiei isso, mas com o tempo fui aceitando a idéia. Isso tudo foi plantado em mim como uma semente. Ele vinha me falando devagarinho e sempre devagarinho, até que eu obedeci", afirmou no interrogatório.

Na versão de Daniel, quem teria manifestado a vontade de matar os pais teria sido Suzane. Ele ainda teria tentado dissuadi-la, mas foi convencido na medida que o namoro era proibido. Segundo o acusado, a namorada contava para ele que os pais não permitiam o relacionamento e que falavam mal da família dele, que seria "de classe inferior".

O desfecho dessa história que deixou o Brasil estarrecido deve ocorrer em 2004, com o julgamento do trio. Eles devem ser submetidos a júri popular por homicídio triplamente qualificado (promessa de pagamento e motivo torpe; asfixia e meio cruel; e impossibilidade de defesa das vítimas) e fraude processual. Christian responderá também pelo furto das jóias de Marísia, avaliadas em R$ 10 mil.