Master em JornalismoMaster em Jornalismo

Instituto Internacional de Ciências Sociais

Universidade de Navarra

Área do Aluno

Ruy Mesquita

O grande desafio da liberdade

Por Eduardo Martins

Parte II

Eduardo Martins - Na apresentação do livro Páginas da História - é um texto curto, de sua autoria -, o senhor diz que os 125 anos de existência (hoje são 126) dão ao Estado, o jornal mais influente do Brasil, uma condição única: a de testemunha viva e participante de um período que moldou o País e o mundo. Foi muito difícil ser participante e não apenas testemunha? Porque grande parte dos jornais que a gente conhece é apenas testemunha e muitas vezes testemunha não muito confiável. Mas esse fato de ser participante foi complicado para o jornal?

Ruy Mesquita - Claro. Como o jornal sempre teve as suas posições perfeitamente definidas e as defendia com absoluta e total intransigência, as suas convicções democráticas, as suas preocupações com os problemas fundamentais do País, como principalmente desde aquela época o problema que até hoje é o problema número um, que é o problema da educação, tudo isso fez que, além de jornalista, meu pai fosse, de certa forma, um militante político, na medida em que ele participou, na Primeira República e depois no período de Getúlio Vargas, da luta política fora do jornal também. Quer dizer, ele participou dos movimentos revolucionários de 30 e depois foi um dos chefes da Revolução de 32 no Brasil contra Getúlio Vargas.

“O primeiro visado pelo Ato Institucional Número 5 foi o jornal O Estado de S. Paulo, que, no dia da proclamação (do AI-5), fez um editorial (Instituições em Frangalhos) sobre o que estava acontecendo e a sua edição foi apreendida”

Tanto assim que o jornal O Estado de S. Paulo foi o inimigo principal do ditador Getúlio Vargas. Por isso eu, com 7 anos de idade, em 1932, pela primeira vez, vi meu pai sendo preso e exilado. Esse exílio foi rápido, durou apenas um ano. Depois, o Getúlio - que tinha vencido a guerra militar, mas tinha perdido a guerra política, que São Paulo venceu naquele momento - foi obrigado a fazer a redemocratização, a constitucionalização do País. Ele sabia que, para pacificar São Paulo, tinha que, em primeiro lugar, conquistar, de alguma maneira, o apoio do jornal O Estado de S. Paulo. A maneira que ele encontrou para isso foi fazer o cunhado do meu pai, Armando de Salles Oliveira, o interventor de São Paulo para preparar a Constituinte, etc. e tal. O que aconteceu foi que aí o Armando Salles se entusiasmou com política, ele, que nunca na vida dele tinha se preocupado com política: era um engenheiro de pleno sucesso, abastado, não se metia na vida política. Mas entrou nisso porque era um dos nove acionistas da empresa O Estado de S. Paulo S.A. Se apaixonou pela política e partilhou todo o drama da vida do meu pai e da vida do jornal, sendo exilado logo depois do golpe de 37, junto com meu pai, dessa vez um exílio mais prolongado, que coincidiu com o início da Guerra (Segunda Guerra Mundial).

Você está perguntando se é participar, e é isso mesmo. Nós tivemos um tipo de participação que não foi exclusivamente na redação do jornal, comentando os acontecimentos, mas participando dos acontecimentos, vivendo os acontecimentos, pelo menos até a fase da redemocratização, em 45, depois da queda do Getúlio, logo depois da Guerra, quando então a situação no País se estabilizou democraticamente. Poucos anos depois houve o golpe militar, mas isso é outra história. A partir da primeira fase realmente democrática da vida do País, que foi aquele breve período entre 46 e a renúncia do Jânio Quadros, em 61, a nossa atividade, principalmente a da minha geração, se limitou quase que exclusivamente à atividade jornalística, à militância no jornal e à crítica diária dos acontecimentos que interessavam à sociedade brasileira.

Eduardo Martins - Nessa atividade de participante, o jornal se arrependeu alguma vez? Por exemplo - e como é um fato notório - cito o Golpe de 64, que o jornal apoiou e depois teve que desapoiar, digamos, porque ele tinha se desviado dos seus objetivos. Mas, de qualquer forma, o senhor acha que naquele momento era a única solução?

Ruy Mesquita - Eu estou absolutamente convencido de que sim. Hoje em dia, a história que se conta do movimento militar de 64 é absolutamente distorcida. O movimento militar foi um movimento essencialmente defensivo. Quem estava planejando um golpe abertamente, e o anunciava em todos os seus discursos, era o presidente da República, Jango Goulart, que pretendia estabelecer aqui um regime como o regime das repúblicas popular-democráticas. Cometeu, na minha opinião, um erro trágico, que foi o que provocou a reação conspiratória da maioria da oficialidade jovem das Forças Armadas brasileiras. Os generais de quatro e cinco estrelas não participaram dessa conspiração, porque o sr. Jango Goulart cometeu o erro básico de promover uma subversão da ordem hierárquica dentro das forças militares.

Não foi nem tanto o problema da ameaça comunista, como se diz hoje em dia, que levou os militares chamados da direita a reagirem contra a conspiração de Jango Goulart. Eu tenho a certeza absoluta de que, se ele não tivesse mexido com as Forças Armadas, não tivesse fomentado a revolta dos sargentos, não tivesse fomentado uma indisciplina total dentro das Forças Armadas, uma subversão da hierarquia, como eu disse, principalmente na Força Aérea, eu tenho a certeza de que ele teria conseguido chegar aonde pretendia chegar. Mas ele exorbitou. Ele era, em primeiro lugar, um homem muito medíocre, as suas chefias militares eram muito fracas e o resultado foi esse que a História registrou.

O jornal participou, o jornal e nós, Mesquitas (eu principalmente, já que fui o primeiro procurado por jovens oficiais das Forças Armadas para preparar o contragolpe). Ele participou, apoiou e rompeu já no primeiro governo do Castelo Branco, porque evidentemente o que nós pretendíamos - e meu pai, que era um dos líderes civis daquele movimento, pretendia - era apenas um pequeno período de reestruturação das instituições democráticas para restabelecê-las plenamente o mais rapidamente possível. Quando ele percebeu, com a proclamação do Ato Institucional n.º 2, que alterou o sistema partidário, etc. e tal, já no governo Castelo Branco, que a coisa estava saindo completamente diferente do que ele pretendia, ele rompeu imediatamente. E mereceu, aliás, um tratamento especial dos regimes ditatoriais que se seguiram ao de Castelo Branco, quando a situação interna passou a configurar uma revolta quase que armada dos grupos de oposição, e o governo endureceu na sua reação, até chegar ao AI-5. O primeiro visado pelo AI-5 foi o jornal O Estado de S. Paulo, que, no dia da proclamação do AI-5, fez um editorial sobre o que estava acontecendo e a sua edição foi apreendida. Nós tivemos sempre o privilégio de ter aqui dentro da nossa redação (algum tempo depois, não foi imediatamente) um censor, e essa história já é conhecida de todo mundo.

Eduardo Martins - Eu acho que esse editorial, que se chama Instituições em Frangalhos, deveria figurar em todas as antologias brasileiras de jornalismo. Na época, o que é curioso, o Estado terminou sendo um jornal que aglutinou em torno de si não apenas os seus defensores, os leitores habituais do jornal, como até oposicionistas e algumas pessoas que tinham posições quase irreconciliáveis em relação ao jornal. Mas o Estado, então, era praticamente a única trincheira aberta contra aquele regime de exceção. O senhor acha que a censura terminou valorizando esse papel do Estado, como defensor da liberdade, porque me parece que foi o único jornal que se recusou a fazer a autocensura?

Ruy Mesquita - É evidente que para nós foi ótimo o que aconteceu, para tirar qualquer dúvida sobre as verdadeiras razões pelas quais nós participamos de um movimento que hoje passou para a História como antidemocrático e que, na realidade, nós estávamos convencidos de que era em defesa da democracia. Porque as pessoas hoje não têm a menor idéia do que era o cenário internacional naquela época. É preciso lembrar que nós estávamos no auge da Guerra Fria, onde o mundo estava radicalmente dividido entre dois grupos: o grupo liderado pelos norte-americanos, pelos Estados Unidos, o mundo democrático europeu, e o mundo soviético e chinês, totalitário e comunista. E aqui, com a instalação de uma cabeça de ponte desse mundo comunista, que foi a vitória do Fidel Castro. Aliás, o jornal O Estado de S. Paulo, no período da revolução castrista de Sierra Maestra, apoiou irrestritamente. Foi, aliás, reconhecido pelo próprio Fidel Castro como o jornal da América Latina que mais apoio deu à revolução de Sierra Maestra e que continuou a apoiá-lo até logo depois que ele subiu ao poder, até que ele se confessasse irrestritamente alinhado com o mundo soviético e comunista, etc. e tal. De modo que foi ótimo para nós este "privilégio" de termos sido não o único, mas entre os grandes jornais, sim, o único que mereceu, mereceu porque se recusou.

O meu irmão Júlio de Mesquita Neto, que era quem dirigia o jornal naquela época, ligou para o ministro da Justiça e disse: "Se o senhor quiser que eu censure o jornal, eu me recuso a censurar. O senhor mande alguém do seu governo para vir aqui censurar, porque eu vou escolher as notícias que acho que devem ser publicadas." Foi aí que começou aquele período em que, no Jornal da Tarde, que eu dirigia, instituí o sistema das receitas culinárias para substituir as notícias vetadas pelo censor, e o Júlio Neto, como O Estado de S. Paulo era um jornal mais conservador e não ficava bem uma coisa desse gênero, escolheu o expediente de publicar Os Lusíadas desde o primeiro canto até não me lembro em qual é que terminou (risos).

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