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Veja, 18/08/1993

Tem tigre na selva

GUSTAVO PAUL, de Tomé-Açu

No Pará, uma próspera colônia japonesa realiza os sonhos fracassados de Daniel Ludwig e Henry Ford

Tomé-Açu, uma comunidade rural situada nas margens do Rio Acará-Mirim, no interior do Pará, é um cartão-postal do Japão escondido na maior floresta tropical do planeta. Ali, o sol é inclemente, a umidade do ar fica insuportável na estação das chuvas e a temperatura chega aos 40 graus centígrados na maior parte do ano. Nesse clima pouco hospitaleiro, um grupo de imigrantes japoneses transformou parte da selva em um cenário que lembra o oriente na paisagem, nos costumes e também na riqueza. Os jardins são bem cuidados e emolduram lagos e riachos onde nadam carpas coloridas. Grande parte da população mora em bangalôs típicos e reúne-se para rezar aos domingos em um templo budista. Nas escolas, fala-se e estuda-se japonês. Tirar os sapatos para entrar em casa é um hábito rotineiro e a maior diversão local é o campeonato de sumô, o esporte nacional dos japoneses.

A maior surpresa, porém, está na vitalidade econômica desse Japão amazônico. O município tem 63 000 habitantes, dos quais 1 362 são japoneses ou descendentes de imigrantes que chegaram ao Pará no começo do século. É esse pequeno grupo que responde pela riqueza da região. Os japoneses de Tomé-Açu são os maiores produtores brasileiros de pimenta-do-reino e acerola, duas culturas que eles introduziram no Brasil. As fazendas cultivadas por eles ao redor da cidade têm energia elétrica e telefone celular. A cooperativa agrícola local, a Camta, é uma das mais lucrativas do país e a renda média da família de seus associados chega a 10 000 dólares anuais. "Eles mudaram tudo por aqui", diz o prefeito José Maria de Paiva, do PMDB. "Trouxeram técnicas agrícolas que ninguém conhecia e tornaram-se os únicos pequenos agricultores bem-sucedidos em toda a Amazônia."

Naufrágio na selva - Tomé-Açu é também uma exceção na impressionante galeria de personagens e projetos fracassados na Amazônia desde que o espanhol Francisco Orellana percorreu a região pela primeira vez, em 1542. No final do século passado, o coronel americano George Earl Church, herói da Guerra da Secessão, sacrificou a vida de 6 000 homens tentando abrir uma ferrovia na selva, a Madeira-Mamoré, no atual Estado de Rondônia. Em 1927, Henry Ford, pai da indústria automobilística, enterrou 20 milhões de dólares em um megaprojeto de produção de borracha nas margens do Rio Tapajós que nunca deu em nada. Cinqüenta anos mais tarde, foi a vez do bilionário Daniel Ludwig, o homem do Projeto Jari. Ele perdeu quase 1 bilhão de dólares plantando arroz nas várzeas do Rio Amazonas.

Distante três horas de carro de Belém, por uma estrada de terra esburacada e pedregosa, Tomé-Açu fica em uma região próxima das agrovilas plantadas na selva pelo governo Medici ao longo da Transamazônica, no começo da década de 70. Abandonados pelo governo e sem tecnologia adequada para dominar a selva, quase todos os colonos levados para a Amazônia na época acabaram tomando o caminho de volta, mais pobres do que antes. Criada há 64 anos, a colônia japonesa de Tomé-Açu também enfrentou grandes dificuldades no começo. Mas o resultado foi muito diferente.

As primeiras 43 famílias de japoneses chegaram ao Pará em setembro de 1929, a bordo do vapor Montevideu Maru. Sua missão era colonizar os 50 000 hectares comprados por eles do governo do Estado. Não havia estradas nem qualquer outro meio de contato com o mundo além do rio. A atual estrada de terra só foi aberta em 1974. A viagem de barco até Belém durava entre dois e três dias. Até 1953, plantavam hortaliças, cacau e arroz, compravam caro o que precisavam, mas, como não havia a quem vender, quase toda a produção se perdia na lavoura. Parte da população acabou dizimada pela malária. A vida nessa época foi tão difícil que, das 374 famílias que chegaram lá nos primeiros anos, sobraram apenas 98. As outras migraram para o sul do país.

Ouro e madeira - A salvação da colônia ocorreu depois da II Guerra Mundial, quando a pimenta-do-reino passou a ser explorada na região e transformou a cidade na maior produtora do país. Foram os próprios japoneses que importaram as primeiras sementes de Cingapura para o Brasil. Graças a eles, o país chegou a ser o maior produtor de pimenta-do-reino do mundo na década de 80. Ultimamente, a cotação do produto vem caindo no mercado internacional, mas não o suficiente para abalar a economia local. A cidade já está rica e estabilizada. Agora, ganha-se dinheiro também com madeira e pecuária.

A prosperidade alavancada pelos japoneses fez a população do município crescer de 20 000 habitantes em 1970 para 63 000 em 1990. Os novos moradores são, na maioria, migrantes capixabas ou nordestinos que chegam em busca de oportunidades de trabalho. "Nossa grande sorte foi não entrar em aventuras", diz Shujui Tsonoda, presidente da Associação Cultural de Tomé-Açu, um imigrante do pós-guerra. "Enquanto muita gente veio para a Amazônia atrás de ouro e madeira, nós sempre estivemos mais preocupados em cultivar a terra e manter nossas tradições."

Moram hoje em Tomé-Açu 274 famílias de japoneses. A última chegou em 1978. "A colônia deu certo porque ficou aqui sessenta anos e se manteve muito unida", diz Tsonoda. A associação cultural fornece 800 fitas de vídeo japonesas para a comunidade (tem até vídeo erótico), promove festas e administra a escola de língua japonesa, com nove professores. Na comunidade nipônica de Tomé-Açu não existe um analfabeto sequer. Nem todos sabem ler e escrever em português. Mas todos sabem japonês. A maior estrela nas escolas locais é Shigenori Moritomo, um professor aposentado de 60 anos, que está há seis meses no Brasil, enviado especialmente pelo Ministério da Educação do Japão. Moritomo não fala nem entende uma palavra de português, dá aulas de Geografia, História e Música Japonesa, tem casa e o salário mensal de 1 000 dólares pagos pelo governo do Japão. Ele é um professor itinerante. Foi contratado pela Agência Japonesa de Cooperação Internacional (Jica) para uma temporada de dois anos no interior do Pará, depois de passar outros dois em Teerã, no Irã, ensinando a língua. "É surpreendente como essa comunidade se manteve unida em um lugar tão isolado", diz Moritomo. "Encontrei aqui hábitos e costumes que há muito tempo não existem no próprio Japão."

Dinheiro japonês - A organização comunitária dos japoneses é diferente da que se vê nas cidades vizinhas. Cada família cultiva sua propriedade no interior do município, mas mantém um vínculo estreito com o restante da comunidade através da associação cultural, do templo budista e da cooperativa responsável pela comercialização dos seus produtos, que funcionam na cidade. E ao redor dessas instituições que se pratica hoje a filosofia dos primeiros imigrantes, que passa de pai para filho. Ela é simples e baseia-se num tripé: trabalho em comunidade, austeridade econômica e cooperativismo. Em 1985, a colônia se reuniu, criou a Companhia de Eletrificação Rural de Tomé-Açu e foi à luta. Conseguiu que o Japão financiasse dois terços dos 3,6 milhões de dólares necessários para a construção de 192 quilômetros de eletrificação, que beneficia uma área de 50 000 hectares onde estão japoneses e brasileiros. A mesma receita serviu para a instalação de 140 telefones celulares para a comunidade rural. "Foram eles que idealizaram tudo e buscaram o financiamento para tocar as obras", diz o prefeito Paiva.

Depois de trazer para o Brasil a pimenta-do-reino e a acerola, fruta muito popular hoje nas grandes cidades, e de aprender a, cultivar maracujá e guaraná, os japoneses de Tomé-Açu tomaram gosto pela pecuária. Uma das fazendas, a da Nipaki Agropecuária, empresa formada por duas cooperativas de pequenos e médios empresários do Japão, tem 20 000 hectares, quase o tamanho do município gaúcho de Novo Hamburgo, e custou meio milhão de dólares. "Quando digo lá no Japão o tamanho da fazenda, as pessoas acham que estou exagerando", conta o administrador Nario Suguimoto, de 36 anos. Filho de um ex-deputado do Partido Socialista japonês, Suguimoto veio para o Brasil há dezoito anos especialmente para cuidar da fazenda.

Economia em dólar - A saga dos dekasseguis, descendentes dos imigrantes que estão voltando ao Japão para trabalhar, também contaminou Tomé-Açu. Atualmente, dos 1 362 descendentes de japoneses do município, 400 estão no Japão. "Os jovens vão lá ganhar dinheiro, mas acabam voltando", diz Tsonoda, da associação cultural. É o caso de Humberto Kato, de 29 anos, e Sonia Izumi Kato, de 23. Eles passaram três anos trabalhando no Japão, tiveram lá dois filhos e conseguiram economizar 52 000 dólares. Com esse dinheiro, acabam de comprar uma fazenda de 500 hectares em Tomé-Açu, uma caminhonete e uma casa em Belém. "Meu Japão é aqui", alegra-se Humberto.

"Temos de cuidar de nossa cooperativa e de nossa colônia para receber os jovens que estão voltando", afirma Kozaburo Mineshita, presidente da Cooperativa Mista de Tomé-Açu, a Camta, criada há 62 anos. Apesar da crise econômica, a Camta apresenta bons indícios de que os jovens que estão voltando do Japão não têm por que se preocupar. A produção de acerola passou de 115 toneladas em 1991 para uma previsão de 855 toneladas neste ano. A de maracujá deu um salto de 449 toneladas para 1 270 neste ano, "Não podemos simplesmente esperar a crise nos pegar", diz Mineshita. "A cooperativa não é nossa, é da colônia."


 

 
 

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