A Língua Russa A Rússia Relações

Portugal-Rússia: mais de dois séculos de relações oficiais

As relaçőes diplomáticas oficiais entre a Rússia e Portugal foram estabelecidas em 1779.

Ambos os países, e em primeiro lugar Portugal, estavam interessados no estabelecimento de relaçőes comerciais. Portugal tinha vastas possessőes ultramarinas e sonhava dispor de uma frota poderosa. Para concretizar tal sonho, interessavam aos portugueses as mercadorias constantes da exportaçăo russa: madeiras para as mastreaçőes, cânhamo e resina. Existem dados de que, no ano de 1724, o governo português se dirigiu a Pedro I com uma proposta de estabelecimento de relaçőes comerciais. Em resposta, Pedro I emitiu uma directiva sobre o envio para Lisboa de um cônsul encarregado de organizar o comércio com Portugal.

Há factos, datados de 1739, de comércio bilateral entre a Rússia e Portugal, abrangendo um leque muito limitado de mercadorias: Portugal importava da Rússia, além de madeira, ferro, linho e cera; a Rússia comprava a Portugal vinho, fruta, cortiça, azeitona e sal. É desde 1769 que os portugueses começaram a manifestar sistematicamente o seu interesse pelo comércio com a Rússia; para possibilitar tal comércio tornou-se necessário o estabelecimento do primeiro consulado geral oficial. O interesse pela ampliação do comércio bilateral foi acompanhado, neste período, pelo estabelicimento das relações diplomáticas permanentes entre a Rússia e Portugal. A 20 de Outubro de 1779, chegou a São Petersburgo Francisco Jóse Horta Machado, o primeiro embaixador português na Rússia, transferido de Haia por ordem de D. Maria, a rainha de Portugal.

No âmbito das relaçőes bilaterais foi importante, naquela época, o Tratado de Aliança para a Defesa Russo-Português, assinado em 1799 em Săo Petersburgo. O tratado previa a obrigaçăo de as partes «se prestarem ajuda mútua, em terra e no mar, no caso de agressăo inimiga». Embora tal tratado năo encontrasse aplicaçăo prática na extremamente complexa situaçăo político-militar na Europa do início do século XIX, a Rússia, na medida do possível, prestou o seu apoio diplomático a Portugal nos seus esforços de se manter afastado dos conflitos armados entre as grandes potencias.

No âmbito das relaçőes culturais que se desenvolveram entre a Rússia e Portugal no século XVIII, săo de realçar os contactos entre a Academia Imperial das Ciências de Săo Petersburgo e a Academia Real da História Portuguesa, nos anos de 1735 a 1741. Para o estabelecimento da correspondęncia directa entre as duas academias muito contribuiu o português António Nunes Ribeiro Sanches, médico que viveu durante longos anos na Rússia e esteve ao serviço da corte real. Com a sua participaçăo directa foi fomentada a permuta de livros e de obras científicas editadas pelas duas academias, russa e portuguesa. No tempo que permaneceu na Rússia, Ribeiro Sanches participou na vida cultural e científica de Săo Petersburgo, tendo-lhe a Academia das Ciências petersburguense, como reconhecimento dos seus méritos, outorgado o título de seu membro honorífico, o que aconteceu após a partida de Ribeiro Sanches da Rússia, em 1747. Relativamente aos contactos entre Portugal e a Rússia noutros domínios culturais, existem dados sobre as visitas e concertos que, entre 1785 e 1787, a célebre cantora lírica portuguesa da época, Luísa Aguiar Todi, fez na corte de Catarina II, assim como um concerto dado em Lisboa em 1787 por Antonio Logli, músico da imperatriz russa.

No século XIX, a importância maior atribuída pela Rússia às relaçőes com Portugal incidia no desenvolvimento do comércio. As mercadorias russas defrontavam no mercado português a concorrência renhida das mercadorias inglesas e francesas. Em 1851 foi assinado um novo tratado destinado a promover as relações comerciais entre a Rússia e Portugal,. Dado o agravamento da rivalidade de Portugal com a Inglaterra e a França, cujo motivo principal era o domínio colonial em África, Portugal pretendia obter o apoio da diplomacia russa. Em 1885, a visita da armada russa a Portugal foi um importante acontecimento para as relaçőes russo-portuguesas. Em Portugal teve um efeito positivo a participaçăo dos marinheiros russos do iate imperial «Tsarevna» («Princesa») na extinçăo do incêndio que deflagrou no edifício do parlamento em Lisboa em Julho de 1895. Numa nota de 3 de Agosto de 1895, dirigida à missăo russa, o governo português agradecia à tripulaçăo russa, destacando a sua coragem. Em nome do rei, era expressa a «gratidăo de sua majestade» aos marinheiros russos. O tenente Siniávin, que comandou o destacamento, foi agraciado com a Ordem de Cristo.

Com a deflagraçăo da guerra russo-japonesa, em 1904, Portugal declarou a sua neutralidade. Porém, sob pressăo da Inglaterra, o governo portuguęs colocava entraves à entrada nos portos portugueses dos navios russos que seguiam para o teatro da guerra. Os portos portugueses, de facto, estavam fechados à marinha russa. Com o derrube da monarquia e a instauraçăo da República em Portugal, em 5 de Outubro de 1910, verificou-se um sensível esfriamento nas relaçőes russo-portuguesas. Durante quase um ano, a Rússia absteve-se de reconhecer o regime republicano de Portugal (só em 14 [27] de Setembro de 1911 a República Portuguesa foi reconhecida por decreto de Nicolau II). Por consequência, o volume de negócios entre a Rússia e Portugal reduziu-se significativamente no início do século XX.

A Revoluçăo de Fevereiro de 1917 na Rússia teve uma enorme repercussăo nas relaçőes russo-portuguesas. Houve corte de relaçőes diplomáticas que durou até 1974. No entanto, os contactos entre a Rússia (e, posteriormente, a União Soviética) năo deixaram de existir neste hiato de 57 anos, pelo menos, ao nível de transacçőes comerciais. Após a Revolução de 25 de Abril, as relações diplomáticas entre Portugal e a União Soviética foram re-estabelecidas. Revitalizaram-se também o comércio e as relações culturais. Desde então, os nossos países vęm mantendo um sistemático diálogo político, incrementando a cooperaçăo tanto bilateral como no âmbito das relaçőes entre a Rússia e a Comunidade Europeia, participando juntos na actividade internacional que visa a luta contra o terrorismo, trabalhando em conjunto para ampliar a cooperaçăo nas áreas económico-comercial, cultural e militar, desenvolvendo o intercâmbio parlamentar.

Em 1994 a Universidade do Minho assinou os Protocolos de Cooperação Científico-Pedagógica com duas Universidades da Federação Russa: a Universidade Estatal de São Petersburgo e a Universidade Estatal Linguística de Moscovo. No âmbito destes protocolos funcionam programas de intercâmbio de estudantes e professores. Em 2006, foi celebrado um acordo entre a Universidade do Minho e mais uma universidade russa, de grande prestígio, chamada Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscovo (MGIMO).

A visita de Vladimir Putin a Lisboa em Novembro de 2004

Topo