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A falta que faz um armazém

 | 01.06.2006

Sem estrutura para estocar a safra na própria fazenda, o agricultor não tem como negociar um preço melhor

 

Carregamento de soja em Mato Grosso: caminhões são armazéns sobre rodas

Eraldo Peres

Carregamento de soja em Mato Grosso: caminhões são armazéns sobre rodas

Por Alessandra Corrêa

EXAME 

Todo ano, a cena se repete na época de colheita da safra agrícola: caminhões carregados de grãos fazem fila nos maiores portos do país. É a face mais visível de uma das principais deficiências da infra-estrutura brasileira -- a falta de armazéns para guardar a safra. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil tem hoje capacidade para armazenar 109 milhões de toneladas de grãos, ante uma produção prevista de 121 milhões de toneladas na safra 2005/2006. Esse descompasso faz com que os caminhões funcionem como uma espécie de silo sobre rodas. "A situação é preocupante. Estamos em alerta", diz Denise Deckers do Amaral, superintendente de armazenagem e movimentação de estoques da Conab. Segundo ela, o ideal é que a capacidade total seja 20% superior à safra.

As conseqüências dessa deficiência na armazenagem não se restringem ao congestionamento em direção aos portos. Quem mais perde é o próprio produtor rural. Sem ter onde guardar a safra, ele acaba ficando sem condições de barganhar melhores preços pelo produto colhido. "Assim que termina a colheita, a maioria dos agricultores precisa correr para vender a produção, independentemente do preço que esteja vigorando no mercado", diz Luiz Antonio Fayet, consultor de logística de transporte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O produtor perde também pelo aumento dos custos de transporte, conseqüência direta da precariedade na silagem. "Como todos os agricultores têm de escoar o produto na mesma época do ano, acabam competindo pelo serviço dos caminhões. Isso faz o preço do frete disparar na época da colheita", diz o analista Antonio Sartori, diretor da corretora Brasoja, de Porto Alegre.

A situação dos produtores também é agravada pela distribuição geográfica dos silos existentes. De acordo com a Conab, apenas 11% da capacidade de armazenagem do país está instalada dentro das propriedades rurais. Ou seja, não apenas faltam silos, como os que existem estão, em sua enorme maioria, longe dos locais de produção. Embora esse índice esteja em crescimento -- há cinco anos, somente 5% dos silos encontravam-se nas fazendas --, ainda está muito longe do ideal, que é de pelo menos 25%. Nos Estados Unidos, país que tem estrutura para abrigar um volume superior a duas safras, 65% dos silos e armazéns se encontram nas fazendas. Para o produtor, ter um sistema próprio de armazenagem é a melhor maneira de maximizar receitas e minimizar custos. Ele consegue evitar picos de oferta, reduzir custos com o frete e melhorar a renda. Também pode separar os grãos convencionais dos transgênicos, uma exigência cada vez maior do mercado devido ao avanço das plantas geneticamente modificadas.

Onde estão os silos brasileiros
A maior parte da capacidade de armazenagem do Brasil está instalada fora das fazendas
Nas cidades
52%
Na zona rural*
32%
Nas fazendas
11%
Nos portos
5%
* Armazéns de empresas e cooperativas
Fonte: Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)

Aos produtores que não contam com estrutura própria, resta recorrer a armazéns de terceiros, seja do governo, de cooperativas ou de indústrias. "Hoje, implantar um sistema de armazenagem é minha prioridade número 1", afirma o produtor Alcides Carlos Pereira Alves, que planta 2 500 hectares de soja, milho, trigo e aveia no município de Tupanciretã, no Rio Grande do Sul. Como muitos agricultores gaúchos, Alves utiliza o armazém de uma cooperativa próxima à fazenda. Diferentemente da maioria dos agricultores que usam silos de terceiros, ele pode vender a safra a quem quiser -- o mais comum é que o produtor seja obrigado a negociar a produção com a empresa dona do armazém. Mesmo assim, a prioridade de Alves é investir na armazenagem própria. A quebra da safra passada, no entanto, adiou seus planos. "Embora seja um problema urgente, não posso comprometer o capital de giro", diz.

O caso de Alves ilustra uma situação comum no campo, segundo o executivo Othon d'Eça Cals de Abreu, diretor-presidente da Kepler Weber, uma das maiores fabricantes de equipamentos para armazenagem do mundo. Os agricultores brasileiros costumam investir primeiro na mecanização da lavoura, na adubação, na compra de tratores e colheitadeiras. Acabam relegando a estrutura de armazenagem a segundo plano. A quebra de 18 milhões de toneladas na safra passada e a baixa cotação do dólar contribuíram para a descapitalização do campo e, portanto, para um novo adiamento no investimento em silos. "O produtor aplicou tudo o que tinha e não recebeu o retorno esperado", afirma Abreu. Resultado: na Kepler Weber, as vendas de sistemas de armazenagem no merca do interno caíram 44% em 2005 em relação ao ano anterior.

Um sistema próprio de armazenagem não sai barato. Uma estrutura para guardar 5 000 sacas, incluindo recepção, secagem, armazenagem, termometria e instalações elétricas, custa a partir de 220 000 reais. O elevado gasto com a implantação, a imobilização de capital e a burocracia para obter financiamento são algumas das justificativas dos produtores para adiar o investimento na estocagem da safra. Segundo a opinião da maioria dos especialistas, no entanto, vale a pena arcar com os custos. "É o caro que sai barato. O investimento pode ser pago em apenas três safras, no caso de algumas culturas", afirma o consultor Carlos Cogo. "É mais caro que comprar uma máquina agrícola, mas, depois de pago, só dá retorno." Ele estima que um armazém próprio proporcione um ganho de até 15% para o produtor, sobretudo graças à redução do frete e à possibilidade de negociar a safra por um preço melhor.

Quem já optou por um sistema de armazenagem próprio concorda que as vantagens superam os gastos. "Antes eu vendia na época da colheita e perdia dinheiro", diz Heitor Yoshimitsu Arikita, gerente do grupo Ioshida, de São Paulo. "Agora posso controlar a comercialização e também a colheita." Há oito anos, o grupo, que antes recorria a silos de cooperativas, decidiu implantar armazéns em suas propriedades em Taquarituba, Itapetininga e Itaberá, no interior paulista. O financiamento foi obtido por meio do Programa de Incentivo à Irrigação e à Armazenagem (Moderinfra), do governo federal. Segundo Arikita, o investimento se pagou em pouco tempo. "Com o meu armazém, posso me concentrar na produção. Além disso, ganho mais tempo para preparar o plantio da próxima safra", afirma o produtor, que planta 1 500 hectares de soja, 2 000 hectares de milho e 700 hectares de trigo em cada safra e pretende ampliar a estrutura de armazenagem.

A comparação com outros países
Quanto da capacidade de armazenagem está instalada nas fazendas
Brasil
11%
Argentina
40%
União Européia
50%
Estados Unidos
65%
Canadá
80%
Fonte: Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)

Se nas regiões Sul e Sudeste a construção de silos e armazéns próprios é uma alternativa para fugir da dependência de cooperativas e ganhar mais autonomia, em outras partes do país ela é a única opção de armazenamento existente. "Aqui não há cooperativa nem armazém público. Não tenho alternativa", diz o produtor Fábio Aidar, dono de uma fazenda em Sambaíba, no sul do Maranhão, onde cultiva 7 000 hectares de soja, milho e arroz. Há oito anos ele começou a instalar um sistema de armazenagem. "Antes alugávamos a estrutura de uma empresa", diz Aidar. "Com armazéns próprios, não tem briga com o comprador por causa da classificação do produto. Também dá para tirar a umidade e padronizar, além de ganhar no transporte."

Apesar da imensa demanda reprimida por silos, o fato é que, pelo menos até agora, o Moderinfra ainda não conseguiu alcançar seu objetivo de ampliar a capacidade de armazenamento nas propriedades. O maior problema é a burocracia. "A documentação nem sempre sai na velocidade com que gostaríamos", afirma Wilson Araújo, coordenador-geral de análise econômica da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura. É comum que a liberação do financiamento demore mais de 150 dias. "Passa a safra e o produtor não tem mais o dinheiro", diz Abreu, da Kepler Weber. Segundo Araújo, o ministério trabalha em conjunto com o BNDES e o Tesouro para tentar evitar atrasos. Apesar desse esforço, do total de 700 milhões de reais que o programa tem à disposição dos produtores interessados, apenas uma fração -- 192 milhões -- foi liberada entre julho de 2005 e janeiro de 2006.

 
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