A invasão silenciosa das favelas
Censo do IBGE revela que surgiu uma ocupação por mês na última década
artigo de Fernanda Pontes e Selma Schmidt, para “O Globo”, de 28/01/2001
O números vem confirmar o que é já percebido a olho nu. A cada mês, pelo menos uma nova favela com mais de 50 casas surgiu no município do Rio nos últimos dez anos. O censo de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que a cidade ganhou 119 favelas a partir de 1991.0 IBGE listou 513 comunidades faveladas no ano passado na capital - um crescimento de 30,2% em relação ao censo anterior, feito em 1991, e de 12,3% levando-se em consideração a recontagem de 1996. No ranking nacional, o Rio ficou em segundo lugar, só perdendo para a cidade de São Paulo em quantidade de áreas carentes. Embora menor do que na capital, o aumento percentual do número de favelas no Estado do Rio alcançou 22,7% - passaram de 661, em 1991, para 811, em 2000.

- Esses percentuais são altos, se pensarmos que o espaço urbano não cresceu - diz a professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Rosângela de Azevedo Gomes, que faz pesquisas com favelas.

Mas o ritmo de crescimento dessas comunidades é ainda maior. Rosângela lembra que o censo deixa de contar favelas com menos de 51 casas, além de conjuntos habitacionais e loteamentos irregulares favelizados. E mais: o IBGE ainda não totalizou os números referentes a domicílios e aos habitantes de favelas. Com isso, a expansão das áreas carentes não foi contabilizada.

Segundo o Censo 2000, Jacarepaguá é a região da cidade com maior número de favelas: 68, distribuídas por sub-bairros como Anil e Taquara. Depois, vêm Bangu (21 favelas) e Realengo (14). Itanhangá, Recreio, Anchieta, Complexo do Alemão concentram 11 comunidades cada um.

É em Jacarepaguá que se localiza Rio das Pedras, favela de pessoas de origem nordestina que se expandiu na última década. Na recontagem de 1996, Rio das Pedras tinha 7.439 domicílios e 24.581 habitantes. Josinaldo Cruz, o Nadinho, presidente da associação de moradores, diz que vivem ali 65 mil pessoas.

- De 96 para cá surgiram mais duas comunidades dentro de Rio das Pedras, Areinha e Pinheiro. Hoje, Rio das Pedras é dividida em seis partes - conta Nadinho.

Ele garante, no entanto, que com o programa Favela-Bairro, houve um freio na expansão territorial de Rio das Pedras nos últimos dois anos. O crescimento hoje, diz Nadinho, está limitado ao miolo da favela e ao gabarito de três andares.

Vila se torna favela no Itanhangá

No Itanhangá, onde o número de favelas já chega a 11, comunidades como Tijuquinha, Muzema e Sítio do Pai João dividem espaço com condomínios luxuosos. O cearense Pedro Araújo Gregório chegou ao bairro há 20 anos à procura de emprego. Montou sua casa perto de outras quatro em uma pequena vila ainda sem nome. Conhecida como Pedra do Itanhangá, a favela - que não foi classificada como tal no censo de 91 nem na recontagem de 96 - tem hoje cerca de cem domicílios, segundo a associação de moradores.

Quantidade de favelas à parte, percentualmente foi em Padre Miguel onde nasceram mais favelas. Em 91, havia no bairro uma única comunidade com mais de 50 casas; hoje existem quatro. Um aumento de 300%.

Entre os fatores citados pela professora Rosângela de Azevedo Gomes para justificar o boom das favelas estão a proximidade do mercado de trabalho e o empobrecimento da classe média baixa. A migração de moradores de outras regiões mais pobres do Brasil ainda contribui para o crescimento das favelas, embora em grau menor que no passado. Sem falar na própria cultura de apropriação do espaço.

- As famílias se instalam em favelas e criam vínculo com o lugar - afirma a professora.


Conheça os números

CRESCIMENTO: O Censo de 1991 contou 384 favelas no Município do Rio. Em 2000, o IBGE contou 513 favelas na cidade. (aumento de 30,2%). No Estado do Rio, o número de áreas carentes subiu 661 para 811 (mais 22,7%).

BAIRROS: Padre Miguei foi o bairro da cidade com maior crescimento percentual de favelas (300 %) - de 1 para 4 em dez anos. Em Guadalupe o aumento foi de 150% (de 2 para 5 favelas), em Anchieta de 120% (de 5 para 11 comunidades carentes), em Vargem Pequena de 100% (de 2 para 4). Em Benfica, o crescimento foi de 75% (4 para 7) e em Paciência de 67% (3 para 5).

CONCENTRAÇÃO: De acordo com o Censo 2000, Jacarepaguá é a região que concentra o maior número de favelas (68), seguida de Bangu (21) e Realengo (14). Depois vêm Itanhangá, Anchieta, Recreio dos Bandeirantes e Complexo do Alemão, com 11 favelas cada um. Rio Comprido e Cordovil têm dez comunidades carentes cada.

BRASIL: No ranking nacional, a cidade de São Paulo ocupa o primeiro lugar em concentração de favelas (612), seguida de Rio (513) Fortaleza (157), Guarulhos (136), Curitiba (122), Campinas (117), Belo Horizonte (101), Osasco (101), Salvador (99) e Belém (93).

ALUGUEL: De acordo com dados da Secretaria municipal de Habitação, o aluguel de um quarto e sala no Jacarezinho varia de R$ 150 a R$ 170; no Vidigal e no Pavão-Pavãozinho, de R$ 250 a R$ 300; e no Complexo da Maré, de R$ 200 a R$ 250. Em favelas do Complexo do Alemão, nos morros do Salgueiro e do Andaraí e em favelas de Tomás Coelho e Cavalcante, o aluguel de um quarto e sala vai de R$ 150 a R$ 200. Em Santa Cruz, o aluguel varia de R$ 180 a R$ 220.


Saiba mais sobre o assunto

Para ser considerada um aglomerado subnormal (favela) pelo IBGE, a comunidade precisa possuir várias características. Uma delas é ter no mínimo 51 casas. A maioria das unidades habitacionais da área também não pode possuir título de propriedade ou documentação recente (obtida após 1980). É necessário ainda que tenha pelo menos uma das seguintes características: urbanização fora dos padrões (vias de circulação estreitas e de alinhamento irregular, além de construções não regularizadas por órgãos públicos); e precariedade de serviços públicos (a maioria das casas não conta com redes oficiais de esgoto e de abastecimento de água e não é atendida por iluminação domiciliar).


Quatro gerações num mesmo endereço no Vidigal

Grande procura faz com que preço de casa 
de três quartos na favela chegue a R$ 20 mil


O aposentado Salvino Félix da Silva, de 78 anos, é um exemplo isolado de quem fez crescer a favela onde mora há mais 30 anos. Paraibano, ele já tinha a metade dos dez filhos quando se mudou para o Vidigal. Mas foi lá que nasceram seus netos e bisnetos. Para acomodar toda a família, a casa de Salvino se transformou num prédio, hoje com quatro andares.

- Aqui é um sossego. Para cada um que nasce, arrumamos um cantinho - diz Salvino, que ganha R$ 150 de aposentadoria.

Tamanha procura fez nascer um mercado imobiliário forte nas favelas, com preços de aluguel e compra de imóveis muitas vezes salgados. Os valores são determinados pela localização da casa dentro da comunidade e pela infra-estrutura existente. No Vidigal, para comprar uma casa de três quartos, é preciso desembolsar R$ 20 mil. Na Ilha do Governador, no Parque Royal, o projeto Favela-Bairro encareceu em até 40% o custo dos imóveis, de acordo com o diretor da associação de moradores Gilson Almeida de Oliveira.

- Uma quitinete é vendida por até R$ 7 mil, dependendo da localização. O aluguel varia de R$ 150 a R$ 200.

Na Rocinha, para alugar um bom quarto-e-sala na Estrada da Gávea é preciso pagar R$ 500. Por um preço menor (R$ 450), eram oferecidos apartamentos do mesmo tamanho nas ruas Aires Saldanha e Figueiredo Magalhães, em Copacabana, nos classificados publicados em jornais do último dia 25.


Crescimento da Rocinha surpreende: 
mais de 675 casas em duas localidades

Light faz recontagem, detecta 'gatos' 
e lança programa para áreas carentes


O crescimento das favelas do Rio é tão dinâmico que, em apenas dois sub-bairros da Rocinha, apareceram 675 novas unidades residenciais em menos de um ano. Uma espécie de censo está sendo feito pela Light desde 1998 em comunidades carentes, com o objetivo de implantar o Programa de Normalização de Áreas Informais (Pronai). Em abril de 2000, a Light cadastrou na Rocinha 24.765 domicílios. Numa segunda contagem, iniciada no fim do ano passado, a surpresa: a quantidade de residências tinha aumentado: na Cachopa, passara de 2.106 para 2.596 e, na Paula Brito, de 483 para 668.

- No cadastramento, encontramos postes da Light servindo de pilar para casas - conta Márcia Reed, coordenadora do Pronai na Rocinha.

Na Rocinha, número de casas duplica em dez anos

Cento e quarenta favelas e loteamentos irregulares do município do Rio foram recenseados pela Light. O cadastramento é feito basicamente por jovens das comunidades, contratados por ONGs, como a Rocinha 21. Além de contar as unidades, o programa detecta os "gatos" e redimensiona a nova rede a ser instalada, levando em conta o número real de clientes. Ensina ainda os moradores a economizar energia, para se beneficiar dos descontos dados àqueles que consomem até 140 kWh.

- Através de jogos e folhetos, as famílias aprendem a usar a energia de forma racional, como não tomar banho quente no verão - diz Ana Cláudia Peres, coordenadora do Projeto Social e Educativo do Pronai.

O primeiro cadastramento feito pela Light na Rocinha mostrou que o número de domicílios na favela mais do que duplicou na última década. No bairro, havia 11.948 unidades em 1991, conforme censo do IBGE.

Cedae: tarifa reduzida para 120 mil este ano

Um dos trechos de ocupação recente na Rocinha fica junto ao antigo Hotel Trampolim. loteado, o terreno ganhou casas e lojas e o Trampolim foi subdivido em apartamentos em 1999. Nos fundos do prédio, um trecho de Mata Atlântica foi desmatado para a construção de casas, demolidas posteriormente.

- As casas, em frente ao Trampolim e a subdivisão do hotel foram feitas sem licença. Vamos analisar caso a caso e verificar o que poderá permanecer - diz a nova administradora regional da Rocinha, Valquíria de Souza Dias.

A Cedae também está implantando um programa voltado para áreas carentes: o da tarifa social (de R$ 6, por mês), que chegou há duas semanas ao Pavão-Pavãozinho (Copacabana) e ao Cantagalo (Ipanema). Até o fim do ano, o diretor comercial da Cedae, Márcio Paes Leme, pretende levar o programa a 120 mil famílias, de favelas como Rocinha, Vidigal e Maré.

- Além da conta com tarifa reduzida, instalamos núcleos nas favelas, para facilitar o atendimento aos usuários.

>>> VERBA VOLANT <<<
>>>> FORMULARIO <<<<
>>>>>> INDEX <<<<<<<
PENSAMENTO ECOLÓGICO
PECO