Divirta-se Notícia - O francês Jean Rouch levou a antropologia para a Sétima Arte

Divirta-se

Seção : Cinema - 22/06/2009 09:44

O francês Jean Rouch levou a antropologia para a Sétima Arte

Cineasta revolucionou a ficção, influenciando a Nouvelle Vague e documentaristas

Marcello Castilho Avellar - EM Cultura
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Jean Rouch/Reprodução
Filmes de Jean Rouch lançam novo olhar sobre o homem e as relações sociais que o cercam

Logo depois do surgimento do cinema, cientistas sociais começaram a perceber que a nova linguagem respondia com perfeição a certas necessidades de seu campo de conhecimento – como a possibilidade de documentar processos sociais dos quais, de outra maneira, só seriam preservados relatos. Essa relação entre o cinema, principalmente documentário, e a ciência se manteve quase incipiente durante quase metade da história dos filmes. Foi só no fim dos anos 1940, com No país dos magos negros, do antropólogo, fotógrafo e cineasta francês Jean Rouch (1917-2004), de Pierre Ponty e de Jean Sauvy, que a possibilidade de namoro entre a “nova” mídia e a ciência ganhou corpo. O filme é um dos que integram a Retrospectiva Jean Rouch, que começa hoje e permanece em cartaz até 19 de julho no Cine Humberto Mauro, com entrada franca. A iniciativa da Associação Balafon e da Fundação Clóvis Salgado integra a programação do Ano da França no Brasil. Serão apresentados 77 filmes realizados pelo cineasta e outros 14 sobre ele.

Podemos pensar a contribuição de Jean Rouch a partir de duas perspectivas bem distintas. Primeiro, devemos imaginar como seriam as ciências sociais, principalmente a antropologia e campos afins, sem o poderoso instrumento de registro de modos de viver que é a câmera cinematográfica, ou com a câmera registrando a realidade em estruturas convencionais. A iniciativa de Rouch e, antes dele, de um único outro cineasta, Robert Flaherty, praticamente divide em duas partes a história daquelas ciências: o tempo em que qualquer estudo era viciado pelos limites da linguagem verbal em sua capacidade de descrever fenômenos sociais (e os limites do cinema convencional em mostrar registros daqueles fenômenos) e a época em que estruturas cinematográficas aptas àquele estudo começaram a ser desenvolvidas.

Fácil ver que foi uma via de mão dupla. Se o cinema se tornou instrumento poderoso das ciências sociais, as necessidades da antropologia representaram uma revolução na linguagem cinematográfica que transcendeu as fronteiras do cinema antropológico e do documentário e invadiu até mesmo os domínios da ficção. Entre as formas de narrar que fascinaram os críticos e cineastas dos anos 1950 e 1960 na França e que resultaram no que frequentemente é chamado de Nouvelle Vague, estavam os filmes de Rouch. Eles pareciam dizer aos jovens e rebeldes realizadores que havia objetos no mundo que nunca haviam sido filmados, ou cujo registro nunca fora adequado. Mostravam propostas sobre como esses objetos poderiam ser filmados de maneira significativa e expressiva, de modo que os filmes constituíssem, mais do que registro, um pensamento sobre o mundo.

Em resumo, eram obras que abriam não apenas novas províncias para a arte cinematográfica, mas também caminhos inéditos para se chegar até ela.