A "RENASCENÇA PORTUGUESA"

E A REPÚBLICA

por José Augusto Seabra

A implantação da República, com a revolução vitoriosa do 5 de Outubro, foi ao mesmo tempo o culminar de um longo processo histórico, que remonta ao liberalismo vintista, e a abertura de um novo ciclo da vida nacional, cujas incidências se fizeram sentir em todos os domínios da vida nacional, no limiar do século que agora termina. Na génese do republicanismo participaram sucessivas gerações de mentores e de militantes, através de uma luta de ideias que conheceu múltiplos avatares, com diferentes derivações após a institucionalização do regime. Para compreender o contexto complexo em que essa institucionalização teve lugar, entre crises recorrentes, é necessário conhecer o posicionamento das várias correntes de pensamento e de opinião que confluíram na causa comum do derrube da monarquia constitucional em degenerescência, para depois se diversificarem numa larga gama de tendências partidárias, como é aliás inerente ao pluralismo democrático, mas com uma exacerbação conflitual que levou à instabilidade parlamentar e governativa, conduzindo, finalmente, à instauração da ditadura.

Um dos mais importantes movimentos culturais emerge no início da República foi, sem duvida, o da Renascença Portuguesa, que sempre se lhe manteve fiel, embora numa atitude crítica perante os seus erros e desvios. Saído do núcleo de intelectuais que, na sequência do 5 de Outubro, em 1 de dezembro de 1910 – data sobremodo emblemática -, tinham lançado no Porto a revista A Água, ele tornar-se-ia, a partir de 1912, com a Segunda série desta, o catalisador de sectores significativos de escritores e artistas, na sua maioria republicanos, preocupados no entanto com o rumo que ia tomando o regime, devido ao jacobinismo nele dominante em contradição, de resto, com o programa descentralizador do Partido Republicano Português.

Herdeira do legado dos republicanos do 31 de Janeiro, alguns dos quais, como Sampaio Bruno e Basílio Teles, continuavam a exercer a grande influência política, tendo recusado, porém, exercer cargos governativos por divergência com a orientação prevalecente no partido, a geração da Renascença Portuguesa revelara-se, já antes do 5 de Outubro, através da revista juvenil Nova Silva, de tendência libertária, em que se destacaram Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra e Álvaro Pinto, os quais se iriam reencontrar n’ A Água, agregando, entretanto, o poeta do Saudosismo, Teixeira de Pascoaes, logo promovido a figura carismática do movimento. Havendo participado na greve académica de 1907 contra o ditador do João Franco, esses aguerridos jovens interviriam activamente, com a sua voz própria, na propaganda republicana. Um deles, Jaime Cortesão, aderiu mesmo ao Partido Republicano, tornando-se um dos seus activistas e tendo mesmo sido preso na madrugada de 4 para 5 de Outubro, para de imediato ser libertado com a vitória da revolução .

A adesão ao ideal republicano não significava, contudo, para esses temperamentos rebeldes, eivados de sensibilidade anarquizante mesclada de religiosidade cristão heterodoxa, uma identificação total com o partido que o encarnava, nomeadamente com a sua ideologia positivista oficial. E pôde assim ver-se Leonardo Coimbra, num comício de1909 no Campo de 24 de Agosto, defender que o sentimento religioso não desapareceria jamais, criticando, é certo, de igual passo o jesuitismo enquanto "seita política" . Seria essa uma postura que sempre assumiria, em particular, quando mais tarde, volvido ministro da Instrução da República, se propôs assegurar a liberdade do ensino religioso, em desacordo com o anti-clericalismo da ala jacobina.

A atitude dos homens da Renascença Portuguesa face à República pautou-se coerentemente pelo quadro de valores fundamentais que enformavam a sua doutrina cívica: a luta pela liberdade e por uma democracia tolerante, no respeito da identidade cultural do povo português, dentro de um patriotismo universalista, como condição de uma "nova Renascença", a que Pascoaes, como Leonardo e Cortesão, cada qual a seu modo e com a sua linguagem – poética, filosófica, política – faziam apelo. Basta cotejar as tomadas de posição de uns e de outros para aprender a alta visão que, com tonalidades diversas, todos tinham da República.

Na sua célebre conferência sobre O Espírito Lusitano e o Saudosismo, pronunciada em 1912 e depois editada pela Renascença Portuguesa, Teixeira de Pascoaes afirma com veemência: " É absolutamente preciso que a esperança que nos deu o 5 de Outubro não morra; e, por isso, é absolutamente necessário que a nossa república seja uma república portuguesa e não uma república afrancesada com o constitucionalismo. E, porque a monarquia constitucional não soube ser portuguesa, é que ela caiu sem nada legar a Portugal, a não ser os seus vícios e os seus crimes..." O poeta de Marânus, apegado às raízes originárias e imbuído de uma religiosidade, onde o cristianismo se casava com o paganismo, via na República a forma que podia tomar democraticamente o espírito lusitano: "Uma Democracia religiosa e rural, eis o que deveria ser a nossa República", proclamava ele. E ponderava que, nessa perspectiva, o regime republicano tinha dado um passo decisivo: " O 5 de Outubro foi já um facto de grande alcance, porque nos livrou da influência de Roma" . Defendendo a liberdade religiosa, que a Inquisição sufocara, Pascoaes estava identificado com o espírito republicano, mas divergia deste enquanto se fundava no preconceito positivista contra a religião.

Foi Leonardo Coimbra quem, com a sua filosofia do Criacionismo – uma "filosofia da liberdade", como essencialmente a definiu –, mais profundamente elaborou uma crítica radical do positivismo, que não era para ele mais do que um "cousismo". Apesar de haver sido erigido em doutrina programática do Partido Republicano, isso não impediu o filósofo de a esta vir a aderir, em 1914, acabando por ser seu deputado e, depois, seu ministro, ainda que controverso e polémico, dada a sua posição sobre o ensino religioso, como vimos. As reticências de Leonardo relativamente ao "outubrismo" eram outrossim conhecidas, em contraponto com a sua preferência pelo 31 de Janeiro, várias vezes afirmada, na linha das posições da Renascença Portuguesa. Mas nunca deixou de reiterar o seu indefectível republicanismo: "Portugal há-de salvar-se pela República, eu tenho fé,mas por uma República que seja de todos os portugueses", eis o seu credo político. Ele o levaria a enfileirar, fianalmente, na Esquerda Democrática, de José Domingues dos Santos, chegando a propugnar uma "República socializante" .

Quanto a Jaime Cortesão, o mais interveniente politicamente entre os renascentistas, entregou-se desde antes do 5 de Outubro ao proselitismo de militante do Partido Republicano, embora sem ter apetência por uma carreira partidária. Tendo sido ele o iniciador da Renascença Portuguesa, que concebeu como "uma espécie de maçonaria dos artistas e intelectuais portugueses para se imporem e criarem uma grande corrente a seu favor e mesmo para dar uma direcção nova à sociedade portuguesa", o futuro historiador entregou-se a uma intensa acção cívica, pedagógica e social, não ó através d’ A Água, mas do jornal A Vida Portuguesa, que fundou, aí procedendo ao levantamento das grandes questões que se punham à República, tanto no plano político, como económico, educativo, religioso, etc. Após a sua participação corajosa na Grande Guerra, Jaime Cortesão continuou o seu apostolado à frente da Biblioteca Nacional, lançando e animando ao lado de Raul Proença e de António Sérgio – dois dissidentes da Renascença Portuguesa – a revista Seara Nova, que se tornou um órgão dos republicanos críticos, defensores de uma "reforma nacional" para salvar o regime em crise. "A obra que mais urge dentro da República é a democratização da sociedade", afirmava Cortesão ao apresentar um manifesto da União Cívica, associação política independente criada para levar a cabo essa reforma. A Primeira República iria porém sucumbir, em breve, vítima tanto dos inimigos como dos erros próprios, para que tinham alertado desde o seu início os renascentistas, bem antes dos seareiros.

A história das relações entre a Renascença Portuguesa e a República foi a das convergência e divergências entre um movimento cultural que se situava ao nível dos valore cívicos e éticos e um regime que pouco a pouco perdeu a alma, resvalando para o que Leonardo chamou "uma República política de campanário, cuidando mais dos mesquinhos interesses partidários do que da administração e dos interesses públicos". Como escreveu Fernando Pessoa, que também renascentista foi, nas páginas d’ A Água, se "é dentro do republicanismo, e pelo republicanismo, que está, e será, o glorioso futuro deduzido", esse "republicanismo" não se pode confundir com o do regime instituído. Ele encontra-se na obra dos poetas, filósofos e intelectuais da Renascença Portuguesa, transcendendo o circunstancialismo e o oportunismo dos políticos de ocasião.

   
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     © República - João Sequeira - Última actualização - 18-07-2001 03:33