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'COM ATAQUES PESSOAIS NÃO VOU A JOGO, BATO-ME POR IDEIAS'

por

JOÃO FONSECA  

Bastonário dos advogados toma posse terça-feira

Esteve quase a inscrever-se na Academia Militar, para ser piloto-aviador. António Marinho e Pinto estava então a concluir o ensino secundário em Vila Real (no seu concelho natal, Amarante, o ensino não ia além do 5.ºano, equivalente ao actual 9.º ano de escolaridade), mas acabou por optar pelo Direito e por ir para Coimbra. O envol- vimento, no início da década de 1970, nas lutas estudantis e no combate contra a guerra colonial e o Estado Novo e pela liberdade adiaram-lhe, no entanto, o curso. Depois do 25 de Abril, foi o jornalismo a afastá-lo, de novo, da licenciatura e da advocacia.

Um dia, recebeu uma carta de despedimento da agência noticiosa ANOP e, compreendendo a vulnerabilidade do emprego, a facilidade com que, "sem justa causa, poderia ficar sem trabalho", decidiu concluir o curso. Para ser advogado e poder trabalhar por conta própria - este, de resto, um dos vários encantos da advocacia. Melhor, encanto desta e da sua outra profissão, o jornalismo, que, mais tarde, chegaria também a exerceu como free-lancer. Foi nessa altura, quando foi jornalista em regime livre, que, não duvida, melhor exerceu a profissão. Esta é, sustenta, a melhor forma de o jornalismo se libertar da teia de interesses a que está, cada vez mais, submetido.

A decisão de concluir Direito recuperou o bom estudante, mas, sobretudo, transformou radicalmente muitos dos seus hábitos e grande parte da sua vida. Marinho (como é tratado pelos amigos e continua a ser mais conhecido em Coimbra) passou, então, a deitar-se cedo e a levantar-se pelas cinco da madrugada - muito antes, portanto, da hora a que, frequentemente, ia, já com o "pequeno-almoço" tomado, dormir (ainda hoje, "às vezes, tenho saudades desse tempo", admite). Mas é ao romper do dia que "o trabalho rende mais", justifica. E a noite coimbrã perdeu um nome importante, uma quase referência da mítica boémia estudantil. O estudante e jornalista deixou de ser visto, à noite, nos cafés da Praça da República, nas repúblicas estudantis, nos bares da alta, enfim, pelos caminhos e paragens dos amantes da vida nocturna coimbrã.

A noite de Coimbra perdeu um passageiro. A Academia e a cidade continuaram, apesar disso, a contar com o combatente, o cidadão activo, o empenhado defensor de causas, a voz polémica. Tanto como antes do seu eclipse nocturno e tanto como depois de concluir o curso e abrir escritório de advogado. E mais, contudo, que nos últimos tempos. "Agora não tenho intervenção política, mas sim cívica." Com a frontalidade, coragem, irreverência, determinação e polémica de sempre. E mantendo, por isso e por vezes, a fama de ter mau feitio.

"As verdades doem", frequentemente, mas dizê-las "não é ter mau feitio", reage. "Digo o que tenho a dizer e sempre pela frente, nunca por trás, sempre que critico faço-o com frontalidade e lealdade." Confundir isso com mau feitio é injusto, observa, lembrando serem muitos e bons os amigos que tem. Mas injusto seria, igualmente, ignorar o lado simples, afável e solidário de Marinho. De todo o modo, essa maneira de ser e estar tem-lhe valido alguns inimigos, reconhece. Mas "tanto uns como outros são muito intensos e, como dizia Nietzsche, os verdadeiros inimigos são tão necessários como os verdadeiros amigos".

Verdadeiros amigos e inimigos que Marinho tem, por exemplo, em todos os partidos políticos. "Se vivesse na Tocha votava no CDS/PP", garante, sem deixar de lembrar que sempre foi e é de esquerda, que a sua "matriz ideológica assenta nos valores da esquerda". De todo o modo, mais importante que os partidos são as pessoas e os projectos de que elas são portadoras, defende, para explicar o apoio que daria ao centrista Júlio Oliveira, se vivesse na Tocha, terra onde este seu amigo é, há muitos anos, presidente da Junta de Freguesia.

António Marinho vive em Coimbra, não é cidadão-eleitor da Tocha e nunca votou no CDS/PP. E, tem apoiado, "ultimamente, nos sucessivos actos eleitorais, o Bloco de Esquerda". Antes vinha dividindo a sua simpatia por socialistas e comunistas, em função das situações e, sobretudo, dos candidatos. "Hoje, valorizo mais as pessoas que os projectos políticos de que os partidos se dizem portadores." Mas mesmo quando não desvalorizava tanto os partidos políticos, o estudante, professor, jornalista e advogado se deixou seduzir por eles. "Nunca fui militante de nenhum partido", ressalvando a ligação que, em 1973, manteve com a Juventude Comunista.

Não milita em partidos, mas foi e é militante de causas. Envolveu-se nas lutas estudantis, integrou o Movimento Democrático Estudantil e foi dirigente da Associação Académica de Coimbra (altura em que foi preso pela PIDE/DGS), e, depois do 25 de Abril, fez parte da Comissão Nacional para a Liberdade de Informação e da Secção Portuguesa da Amnistia Internacional, foi dirigente do Sindicato dos Jornalistas e membro do Conselho de Redacção do Expresso e do Conselho Geral da Ordem dos Advogados. Presidiu à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados e acaba de ser eleito seu bastonário (cargo a que também se candidatou em 2004).

António Marinho e Pinto ainda não tomou posse de bastonário dos advogados (isso acontecerá na próxima terça-feira, dia 8), mas já teve de ouvir críticas. "Às vezes temos de ouvir o que não gostamos e não merecemos", mas "reagir a quente nem sempre é a melhor forma de combater as injustiças", diz, explicando o seu silêncio, para o qual também podem existir outras justificações. "Quando me atacam pessoalmente, não vou a jogo", quando estão em causa "ideias, bato- -me por elas".


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