Na sala do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) não há retrato de Dilma Rousseff, nem de Lula, nem muito menos de Fernando Henrique Cardoso. Quem entra no gabinete 482 do Anexo 3 da Câmara dos Deputados depara com fotos dos ex-presidentes Emílio Garrastazu Médici (de 1969 a 1974) e João Figueiredo (de 1979 a 1985). O primeiro com a frase “Eu era feliz e sabia”, o segundo ainda com a faixa presidencial. Sob o olhar severo dos dois generais que comandaram o Brasil durante a ditadura militar (1964-1985), há uma mesa caótica com papéis espalhados (que Jair Bolsonaro não deixa ninguém arrumar). Sempre de jeans, sapato e camisa social e dispensando paletó e gravata quando pode, Bolsonaro é bem-humorado. Ri de tudo. Não se preocupa em escolher as palavras. Não sente absolutamente nenhum constrangimento com nada. Discorre sobre o seriado mexicano Chaves (é fã do Seu Madruga) e sobre sexo anal com a mesma serenidade com que trata de tortura e execução.

Apesar de estar no sexto mandato, Jair Messias Bolsonaro, aos 56 anos, ainda não se acostumou ao assédio depois de sua aparição no programa CQC, da TV Bandeirantes, no dia 28 de março. No ar, Preta Gil perguntou o que ele faria se seu filho namorasse uma negra, e ele respondeu que não corria esse risco pois seus  filhos haviam sido bem-educados, longe da promiscuidade que marcava a vida da cantora. Alegando não ser racista e não ter entendido a pergunta, Bolsonaro aproveitou a projeção para entrar com os dois pés contra o Projeto de Lei 122, que tramita no Senado e que, em linhas gerais, criminaliza a discriminação contra homossexuais. A questão se tornou uma obsessão na agenda do deputado e deu origem a declarações polêmicas, para dizer o mínimo. Até o fechamento desta edição, Bolsonaro tinha oito representações na Corregedoria da Câmara, que resultaram em quatro processos internos em andamento. Isso não o assusta nem o intimida. Em duas décadas como parlamentar ele já chamou os povos indígenas de “sujos e fedorentos” e proclamou que duas coisas suas nunca estariam à venda: “meu voto e meu rabo”.  

Nascido em Glicério, no interior de São Paulo, e o segundo de sete irmãos, ele ingressou na carreira militar como aluno da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em 1973, indo para a Academia Militar das Agulhas Negras no ano seguinte. Esteve longe de ser um militar disciplinado. Foi punido, entre outros motivos, por fazer reivindicações salariais em público. Com essa bandeira, deixou o Exército como capitão e foi eleito vereador no Rio de Janeiro em 1988. Depois de dois anos de mandato, elegeu-se para a Câmara dos Deputados, de onde não mais saiu. E seu legado político segue em família. Os dois filhos mais velhos (ele tem cinco, quatro homens e uma mulher), Flávio, de 30 anos, e Carlos, de 28, ocupam respectivamente os cargos de deputado estadual e vereador no Rio, ambos em seu terceiro mandato. Bolsonaro é de extrema direita e muitas vezes professa ideias esdrúxulas. Mas não fugiu de nenhuma pergunta da PLAYBOY, mesmo as mais provocadoras e indiscretas. Ele conversou por mais de 7 horas com o editor Jardel Sebba ao longo de três encontros. O primeiro no gabinete de seu filho Carlos e os dois seguintes em seu gabinete em Brasília, sob o olhar atento de Médici e Figueiredo.

Por que o direito dos homossexuais o incomoda tanto?
O que me incomoda não é o homossexual maior de idade. Não me incomoda em nada se ele sai do serviço e vai para o motel com um companheiro. Entrei nessa briga no dia 23 de novembro, depois de uma reunião conjunta das comissões de Direitos Humanos e de Educação. Tinha um grupo de homossexuais lá confraternizando no lançamento de um material com filmes, cartazes e livros para serem distribuídos nas escolas de primeiro grau, conforme bem disse o senhor André Lazáro, secretário de Educação Continuada. Ele disse: “Nosso alvo são as 190 mil escolas públicas do Brasil”. Esse número bate com o das escolas de primeiro grau. O problema é o público. Se aqueles filmes passam para nós, você, barbado, eu, de cabeça branca, nem vou ver essa porcaria. Eu vejo isso com muita seriedade. Não é uma coisa que a gente pode levar na brincadeira.

Dizem que a sua obsessão com os homossexuais pode ser sinal de desejo reprimido…
Domingo fiz uma caminhada no Rio, distribuímos esse panfleto que eu chamo de kit gay [panfleto contra a PL 122 produzido pelo deputado]. Aí um cara falou: “Deputado, procura um analista, sai do armário”. Eu respondi: “Me dá o telefone do seu analista. Não vai dar por quê? Tem medo que eu roube sua namorada?” [Risos.] Se você está contra é porque está no armário, reprimido; se você está quieto, você dá valor. Não tem escapatória.

 Quer dizer, o senhor não vai sair do armário? [Risos.]
O pessoal costuma dizer que meu armário é de aço, é blindado. Não tenho esse problema, graças a Deus.

Quanto custou e quem pagou o panfleto que o senhor distribui?
Custaram 5 400 reais. O jornal Correio Braziliense disse que a Câmara deu sinal verde para usar a minha verba para pagar os panfletos. Estamos aguardando.

Então o senhor vai usar dinheiro público para pagar esses panfletos?
Não é dinheiro público, é minha verba! [Deputados têm uma verba para gastos gerais que varia de acordo com o estado. Os do Rio de Janeiro recebem 26 797, 65 reais.]  Tudo que é meu é público. A gasolina que boto no meu carro é pública. De vez em quando almoço com nota fiscal. E meu almoço dá em média 20 reais, ok?

O senhor já foi hostilizado na rua depois do episódio do CQC?
Já ouvi: “Tem que morrer, tem que estar preso”. Ou: “É bicha!” O cara fala e passa batido. O pessoal me diverte. Mas não vou levar desaforo pra casa. Se o cara vier com ignorância, vou também. Mas estou com 56 anos, não posso enfrentar um boiolão bombado de 30. Posso apanhar eventualmente se tiver alguém mais exaltado. Mas os caras também me respeitam.

 O senhor já foi a um analista?
Pra tratar desse assunto, não [risos].

Para tratar de qualquer assunto?
Não. No quartel, quando um soldado tinha algum problema nessa área, eu tinha um cassetete de 1 metro e meio de altura escrito “psicólogo”. Eu mostrava aquilo para ele, e rapidamente os problemas dele estavam resolvidos. Não chegava a dar porrada, não. Não acredito em psicólogo. Sou retrógrado, neandertal, o que você quiser, mas não acredito.

O senhor acha que o homossexualismo nasce com a pessoa?
Uma minoria, sim. Outra é levada pelo meio. É igual à pessoa que começa a consumir drogas. Naquele vale-tudo pode acontecer um relacionamento homossexual. Não podemos estimular na base. Não discrimino, já tive homossexual trabalhando aqui sem problema. O problema é o Ministério da Educação, a Secretaria de Direitos Humanos e o Ministério da Saúde com propostas para beneficiar os homossexuais, dar superpoderes a eles.

No CQC o senhor disse que Preta Gil cresceu em um ambiente de promiscuidade. Um exemplo: o senhor, heterossexual, praticar sexo anal com a sua esposa é promiscuidade?
Não vejo nada de mais em quem quiser praticar isso com o sexo oposto. O que acontece entre quatro paredes com um casal é preferência deles. A promiscuidade da Preta Gil está no blog dela. Ela fala ali que é bissexual, diz que na casa dela os héteros eram exceção.

Sexo anal faz parte da sua vida sexual?
Não vou entrar em detalhes, mas acho que entre quatro paredes vale tudo. Eu, com a minha esposa, vale tudo!

 Tudo?
Tudo! Tudo o que acharmos que vale a pena, vamos à luta.

O senhor já esteve em uma situação de, durante o ato sexual, uma mulher querer enfiar o dedo no seu ânus? [Risos.]
Olha, fica difícil falar sobre isso. Acho que vale tudo se o homem tem prazer com a mulher, com a companheira dele.

Essa situação, do dedo no ânus,  valeria também?
Se eu gostasse, valeria.

O senhor não gosta?
Você me obrigou a responder… Não faz meu gênero.

Se uma mulher lhe propusesse isso durante o sexo, o senhor se ofenderia?
Não me ofenderia, mas tenho certeza também que, para muitas mulheres, não vale tudo. Acredito até que no caso do sexo anal, que você citou, 70% das mulheres não concordam com isso.

O senhor então é liberal sexualmente?
Sexualmente, sim, mas tem coisa que não gosto de fazer.

No Exército, o senhor viu casos de homossexualismo?
Sim. Havia sargentos que a gente não desconfiava, a gente tinha certeza. Tinha um oficial, inclusive, que uma vez foi visitado pelo Clóvis Bornay no quartel. O pessoal ficou: “Que porra é essa? O Clóvis Bornay veio visitar o cara aqui? Que petulância!”

Bornay chegou à noite?
Não, foi durante o expediente, em 1978. Eu não o vi. Quando fui ver ele já tinha ido embora. Queria ter visto. Quem não tinha curiosidade de ver o Clóvis Bornay? Inclusive ele falou o nome do oficial e disse: “Como você está bonito de verde!” [risos].

O senhor já fez menção ao deputado Jean Wyllys [PSOL-RJ] como “homossexual assumido, não sei se ativo ou passivo”. Faz diferença ser ativo ou passivo?
Não. Uma vez fui ao programa Superpop, da RedeTV!, e lá estava um casal de pastores homossexuais, um negro e um branco. Era a segunda vez que eu tinha contato com eles. O pessoal do Rio ficava falando: “Pô, Bolsonaro, a gente quer saber quem é a menina lá, se é o negão ou se é o branquelo”. Aí perguntei: “Quem é a menina aí?” O negro ficou revoltado: “Aqui são dois homens que se amam”. [risos] Não tenho nada a ver com a vida deles, repito, estou nessa briga por causa das escolas.

O senhor classificou como “gracinha” a decisão do Supremo Tribunal Federal de reconhecer a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Por quê?
O Supremo tem de interpretar a lei e fazer cumpri-la. Nesse caso não existe lei nesse sentido. Ele inventou, ele extrapolou.

Mas nesse caso está se regulamentando a vida de quem já tem uma relação. Em que o incomoda a decisão do STF?
Aí é uma questão pessoal minha. Por exemplo, moro num condomínio, de repente vai um casal homossexual morar do meu lado. Isso vai desvalorizar minha casa!

Um casal homossexual como vizinho desvaloriza a sua casa?
Sim, desvaloriza! Se eles andarem de mão dada, derem beijinho, vai desvalorizar. Porque, se uma pessoa quiser comprar minha casa e estiver adotando uma criança, vai ver aquilo e sair fora. Ninguém fala porque tem medo de ser tachado de homofóbico, mas é uma realidade. Não sou obrigado a gostar de ninguém. Tenho que respeitar, mas, gostar, eu não gosto. Tanto desvaloriza que na PL 122 está que, se você não vender ou não alugar uma casa para um casal homossexual, pode pegar de um a três anos de cadeia. Se não desvalorizasse, isso não estaria lá.

Opiniões como a do senhor podem estimular o ódio, como nas 250 mortes de homossexuais documentadas pelo Grupo Gay da Bahia no último ano. O senhor se sente responsável por alguma dessas mortes?
O deputado João Campos [PSDB-GO] já entrou com um pedido de informações junto ao governador da Bahia para saber a maneira, o local e o horário dessas 250 mortes. A maioria foi em local de consumo de drogas, altas horas da madrugada, muitos assassinados pelos próprios colegas. Outros por terem dado “banho” no cafetão. Não tem nada de ódio, eles pegam isso para vender o produto deles. Tem cara que sente ódio, como tem quem não goste de mim, que sou branquelo de olho azul. Ou não tem?

Ambos estão errados, o senhor concorda?
Lógico que estão errados. Ninguém aqui está pregando um comando de caça aos gays. Eu nunca defendi isso.

Se, por mais que batesse nele, seu filho se tornasse homossexual, o que o senhor faria?
Tem certas coisas que digo que é como a morte. Me daria desgosto, me deixaria triste, e acho até que ele mesmo me abandonaria num caso desses. Para mim é a morte. Digo mais: prefiro que morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo.

O senhor seria incapaz de amar um filho homossexual?
Seria incapaz. Não vou dar uma de hipócrita aqui para fazer média com quem quer que seja. Teria vergonha mesmo. Acho que me abalaria politicamente, atrasaria minha vida.  Acredito que homossexualismo vem das amizades, e aí vem droga, vem tanta coisa atrás disso. E um filho meu não precisa se misturar com essa gente, como a Preta Gil, para ser feliz e vencer na vida.

 Mas o que o senhor chama de “essa gente” está em todos os lugares da sociedade…
Eu não tenho problema nenhum. Se o colega aqui do lado é gay, não estou preocupado com isso e não vou discriminar. Mas, filho, não. Por exemplo, o cara vem pedir dinheiro para mim para ajudar os aidéticos. A maioria é por compartilhamento de seringa ou homossexualismo. Não vou ajudar porra nenhuma! Vou ajudar o garoto que é decente.

O senhor acredita realmente que a aids é consequência direta do homossexualismo?
Em grande parte, sim. As questões de mulheres casadas que contraem o vírus, muitas vezes elas pegam pelo marido, que é bissexual e leva para dentro de casa.

Não seria melhor falar em preservativo, em proteção?
O pessoal não usa. Geralmente quem tem não está preocupado com isso. Se preocupa é quem não tem.

Se o seu filho virar homossexual, o senhor o prefere morto, mas, se ele virar uma pessoa com desvios de caráter, desonesta, o senhor aceitaria? O que é aceitar?
Enquanto for menor de idade, vou tentar recuperar. Se for maior, vai cumprir o xilindró dele. Comigo filho bandido vai ter um promotor, não um advogado de defesa. Mas nesse caso a gente vai tratar o garoto, que dá para tratar. Poucos retornam, mas dá para tratar.

Filho estuprador ou ladrão o senhor tenta mudar?
Sim, depois que ele pagar, porque não vou passar a mão na cabeça.

Mas homossexual prefere morto?
Para mim, se morrer é melhor. 

O senhor associa homossexualismo à pedofilia, que é crime gravíssimo, apenas baseado na sua crença. O senhor realmente acredita nisso?
Eu acredito. Geralmente os pedófilos são homossexuais.

Baseado em quê?
Baseado no que eu vejo, porra! Quando você fala em dois homens adotarem uma criança, ela vai crescer, com toda a certeza, homossexual.

Isso nada tem a ver com pedofilia.
Mas é claro que tem tudo a ver. Você vê, por exemplo, ainda que em número reduzidíssimo, padrastos que abusam de enteadas, não tem isso?

Padrasto não é homossexual. Ele é casado com uma mulher, mãe da menina…
Tudo bem, mas, se em um relacionamento hétero há essa possibilidade, no homossexual há muito mais. O menino vai crescer vendo os amigos do casal, que são homossexuais. E, naquele ambiente, está propício a virar homossexual e ser abusado, sim!

Há mais registros de pedofilia relacionados aos padres da Igreja Católica do que aos homossexuais. É uma minoria. Você não pode pegar menos de 1% dos padres que talvez pratiquem isso e tomar pelo todo.
Pedofilia na Igreja Católica cabe à Justiça resolver.

Qual é a relação entre consumo de drogas e homossexualismo?
A droga é o primeiro passo. Sentindo prazeres e ilusões, o sexo com outro homem passa a ser apenas um detalhe.

Seguindo esse raciocínio, um porre de whisky também pode levar ao homossexualismo?
Não, o alcoólatra geralmente toma seu porre no bar e do bar vai para casa. Ele não fica em locais de consumo de drogas, frequentando as boates gay da vida. O avanço do homossexualismo passa pela pedofilia também, e o consumo de drogas é a porta de entrada. Eu me surpreendo quando vejo [o governador do Rio de Janeiro] Sérgio Cabral ou [o governador do Rio Grande do Sul] Tarso Genro em campanhas pela liberação da maconha. O Tarso disse que nunca viu alguém cometer um crime por causa do consumo da maconha. É um fanfarrão! Se você pegar esse pessoal que participou da manifestação gay aqui e fizer uma análise química sobre o consumo de drogas entre eles e em outro grupo do lado de cá, porcentualmente lá teria muito mais gente que consome do que o grupo normal.

Se fizerem um levantamento sobre consumo de drogas naquele grupo e no Congresso ou no colégio do seu filho, o daquele grupo será maior?
Sem dúvida.

Associar homossexualismo a drogas, pedofilia e aids não é ignorância da sua parte?
Faço essa associação, sim. Se você pegar o pessoal da Cracolândia, ali ele fuma crack, maconha, cheira cocaína, fuma óxi, e o cara pode ter uma relação, seja com quem for, se porventura ele entrar em ereção… 

Mas pedofilia, deputado, é praticar sexo com crianças.
Uma parte dos homossexuais se associa a isso. Não vou generalizar, dizer que todo homossexual está atrás de criancinha. Mas acho que, entrando numa determinada fase de degradação, a pedofilia acontece. Uma coisa puxa a outra. 

O senhor já levou cantada de homens?
Já, mais de uma vez. Como cadete, eu passava sábado e domingo no Forte de Copacabana para fugir do trote. E era comum sair do Forte para pegar uma praia e um sujeito conhecido como “Bicha Velha” fazia “Psiu, psiu”. Ele inclusive me chamou pelo nome uma vez: “Ô, Bolsonaro”. Eu pensei: “Caramba, esse cara já levantou minha vida!” O governo inclusive está com proposta de apoio psicológico ao gay idoso. Vão ressuscitar o “Bicha Velha”! Quando ele veio, eu falei: “Companheiro, não é minha área!”

O senhor já fez exame de próstata?
Já. Comecei aos 49 anos. Está na hora do próximo. Vai ser o sétimo.

O primeiro teve algum trauma?
Teve. Quando deitei de barriga para cima e encolhi as pernas, ele botou a mão na minha canela, dei uma mexida, e ele disse: “Calma, deputado, calma!” Não senti nada. Quer dizer, senti aquele dedo entrando e vi que ele tinha umas unhas grandes. “Pô, Zé! Que unhão, hein?” E ele falou: “Ah, o rabo não é o meu! É que eu toco cavaquinho”. Pelo fato de ser militar da reserva, nós somos, confesso, machistas. Na sala de espera, vi oficiais com a próstata numa situação que precisaria partir para cirurgia, e só Deus sabe o que ia acontecer com a vida sexual deles. E tudo isso por preconceito. Quando vi um coronel médico chorar na minha frente, tirei coragem não sei de onde e encarei o José Carlos, o médico, que virou o grande amor da minha vida [risos].

O senhor teve medo de gostar?
Não, sou macho. Você violenta a tua formação, os teus princípios, mas sabe que aquilo é para ter uma vida sexual saudável. É constrangedor, mas, por favor, façam!

 Sexo é importante para o senhor?
Estou com 56 anos, e, sim, é importante. É lógico que a minha atividade sexual não é a mesma de quando eu tinha 20, 30 anos, mas ela existe, tanto que casei de novo [é casado pela terceira vez com Michelle Firmo desde 2008]. Com o passar do tempo você fica ali em duas por semana, três por semana. E pode cair, né?

Já caiu, deputado?
Lógico! Quem nunca broxou está mentindo, pô! [risos]

O senhor, como militar, tem direito a porte de arma. O senhor anda armado?
Tem uma dúvida aí porque, pelo Estatuto dos Militares, como oficial, tenho direito ao porte de arma, mas, pelo Estatuto do Desarmamento, não.  Então já houve casos de oficias detidos pela polícia porque não tinham a carteirinha do porte. Eu tirei para evitar problema. O que me deixa revoltado é ter de comparecer na frente de um psicólogo de 20 e poucos anos depois de toda a minha formação para poder usar um 38. Sou inclusive da artilharia. Tenho outra pistola registrada, mas só posso circular com essa, que tenho o porte.

Por que o senhor tem duas armas?
Eu até teria mais. Quem tem uma arma só não tem nenhuma. Na minha casa tenho de ter duas armas comigo. Não sei quantos tiros vou trocar com alguém que estiver forçando minha porta, e eu sei que, se ele entrar, vai deitar e rolar. Vagabundo hoje não se contenta em roubar, quer te esculachar, violentar sua esposa, seu filho, se bobear até você.

O senhor anda com essa arma o tempo todo? Ela está aqui dentro do Congresso?
O tempo todo, não. Se falar que ela está aqui dentro do Congresso, estarei cometendo um crime.

Não está aqui?
Se estiver, vou ser obrigado a mentir para você.

O senhor já matou alguém? Acredita que as pessoas devem ter uma arma e devem reagir a um assalto?
Nunca matei ninguém nem como militar. Mas as pessoas devem ter arma, sim. Agora, uma coisa é ter uma arma dentro de casa, outra coisa é o porte de arma. Ninguém quer comprar uma arma oficialmente para fazer besteira. Para isso pode-se comprar uma arma aí fora que é fácil. Eu saio contigo no Rio de Janeiro, e a gente arranja uma rapidamente. Sou a favor do porte, mas não é para qualquer um. Aí há uma série de coisas, passado, idade.

Ter gente armada dos dois lados não é uma situação propícia para tiroteios, para virar um faroeste?
Mas o bandido geralmente é um canalha covarde, ele cresce nesse momento. Com a arma na mão ele vira macho. Quando perde a arma, a primeira coisa que diz é: “Eu tenho família, doutor, me desculpa”.

O senhor acredita que as pessoas podem fazer justiça com as próprias mãos?
Em alguns casos, sim. Fui numa palestra em Florianópolis, há uns dez anos, e tinha que defender grupo de extermínio, essa era a minha missão. Cheguei, levei uma vaia estrondosa, comecei a falar. Lá defendi a justiça com as próprias mãos, eu faria a mesma coisa, e tenho certeza que mais de 90% das pessoas também fariam. Tivemos um caso de um pediatra russo naturalizado brasileiro que jogou umas fitas-cassete no lixo, e um funcionário da limpeza pública levou para casa. Nas fitas ele aparecia abusando sexualmente de garotos de 11, 12 anos. Imagina se eu pago para o meu filho ir a um pediatra de renome e de repente vejo um cara introduzindo seu pênis no ânus do meu filho… [Silêncio] Eu só descansaria quando esse cara morresse, e com requintes de crueldade.

 O senhor faria o serviço?
Faria. Arriscaria acabar com a minha vida na política, mas ia dar um jeito de sequestrar esse cara e passar uns três dias com ele. Aí, sim, arrancar as unhas, arrancar os dentes, transformar esse cara num verme. Um ato como o que ele fez um animal não faz com outro, porra!

Para que então eu sustento com o meu imposto o sistema judiciário e o senhor, que é deputado e está em Brasília para fazer leis?
Nós não conseguimos mudar as leis como queremos, incluir a pena de morte, a prisão perpétua. E eu sei que isso é cláusula pétrea da Constituição, antes que alguém me chame de idiota. Mas a minha vida não é pétrea. Eu até disse na época da discussão sobre o desarmamento que, se o governo desarmasse a população, eu teria uma arma na minha casa, uma arma fria. Teria, sim, porque a minha vida vale mais do que uma letra num papel.

Quer dizer que, nesse caso, pouco importa a lei para o senhor?
Nesse caso, sim. Estou me lixando para a lei. Se alguém chegar na minha casa e estuprar minha família, roubar, barbarizar, vou me defender com o quê? Com a frigideira? Vou esperar o bandido  com a frigideira atrás da porta? Minha vida está acima da lei.

O que vai acontecer com o Brasil se todo mundo resolver fazer justiça com as próprias mãos?
Calma, há casos e casos. Não é porque você roubou o meu relógio aqui que eu vou te matar. Com a minha família, com criança no carro, não uso arma. Mas sozinho sempre estou armado. No Rio estou no mínimo com mais uma pessoa armada. E já discutimos entre nós: falsa blitz? Atira, e foda-se! Atira porque, se nos pegarem armados, vão nos executar.

O senhor diz que tem saudade do regime militar?
Falam tanto em golpe militar… Ora, são sempre as Forças Armadas que dão golpe num país. É lógico! Não vão ser os jornalistas ou o pessoal da OAB, eles não têm fuzil! Quem dá golpe é quem tem força. Mas, se foi um golpe em 1964, me digam o nome do general ou do marechal que assumiu no dia 1o de abril. O pessoal reluta um pouquinho e responde: Castello Branco. Não, foi o [então presidente da Câmara dos Deputados] Ranieri Mazzilli. Só em 15 de abril que o [marechal] Castello Branco assumiu. Que golpe é esse?

 Existia liberdade na ditadura militar?
Liberdade completa. Falam que a imprensa publicava receita de bolo. Mas em ditadura não tem imprensa. Qual é a imprensa livre que há em Cuba? Qual é a imprensa livre do Hugo Chávez?

 Não tinha polícia política, repressão, preso político?
O pessoal da esquerda sempre tenta se vitimizar. Se você pega o Osama Bin Laden vivo e dá dois tapas na cara dele, cai o mundo. Direitos humanos! Tortura! E esquecem os milhares que ele matou nas Torres Gêmeas. Naquela época, quem sequestrou, matou, roubou era preso político!? Tá de brincadeira! Então vou dar uma dica para o Fenandinho Beira-Mar se ele ler a PLAYBOY no xadrez: Beira-Mar, começa a falar que é preso político que daqui a pouco você pode estar no governo.

 Não existiu tortura durante o governo dos militares?
Tortura sempre existiu desde que o homem é homem. Tem aquela pessoa que vai para um interrogatório enérgico e classifica aquilo como tortura. Primeiro: o que é tortura? Tortura é pegar você, por um motivo qualquer, e esculachar contigo. Agora, a partir do momento que, naquela época, se pegava gente que estava participando de grupos guerrilheiros, que não tinha amor à própria vida, numa situação dessas, que você precisa obter uma informação, é diferente. Porque eles faziam isso com a gente quando nos prendiam também, né? Você chega para uma pessoa dessas e diz que tem uma informação sobre uma bomba suja que ele vai colocar na Cinelândia. Não sei quantos milhares de pessoas vão virar geleia, e você pergunta: “Então, cadê a bomba suja?” Ele tem direito a advogado? O advogado que eu vou trazer é um cassetete desse tamanho! Se uma criança é sequestrada, você pega um dos sequestradores num orelhão fazendo um contato, esse cara não vai ser obrigado a dizer onde fica o cativeiro? Você deve estar de brincadeira comigo!

 O senhor já citou a frase de um colega militar que disse que, “se tivessem dado tratamento correto a esses terroristas, nada disso teria acontecido”. Tratamento correto, nesse caso, é fuzilamento?
Nós não temos pena de morte no Brasil, mas certas pessoas são irrecuperáveis.

 Vamos falar português claro. Quem se engajou em luta armada contra a ditadura militar deveria ter sido eliminado?
Sim, são incorrigíveis. Naquele momento caberia isso porque eles executavam gente nossa, mataram 11 nossos lá no Araguaia. O [ex-capitão Carlos] Lamarca matou um agente da Polícia Federal com tiro nas costas. Covardia. Ele torturou barbaramente o tenente Alberto Mendes Junior, de 23 anos. A grande preocupação dos militares, quando havia passeata de estudantes – e vale lembrar que em ditadura não tem passeata –, era porque se sabia que alguns deles que não estavam muito seguros naquela cartilha seriam executados e eles botariam a culpa na gente. A esquerda sempre se fez em cima de cadáveres. Tem de ter pena de morte no país. Temos que arrancar aquela história da cláusula pétrea. Botaram aquilo lá porque a Constituição de 1988 foi feita no fim do regime militar. Por que não se implantou uma lei para punir terrorismo? Porque ia pegar a Dilma e muita gente no governo.

O senhor já conversou com a presidente Dilma Rousseff?
Não acredito na hipótese de estar junto com ela. O meu partido já teve café com ela, mas eu não compareço. Conversar para quê? Para ela dizer que é a favor da Comissão da Verdade, que quer identificar torturadores? Ela apoia esse projeto de lei do governo anterior que quer apurar só determinado tipo de crime, não quer apurar os cometidos pela esquerda. Agora vamos procurar saber do passado dela, por que ela chegou àquele ponto.

O senhor já disse que o problema foi ter torturado, e não matado. A presidente Dilma Rousseff tem uma história conhecida como militante de um grupo armado, o VAR-Palmares, na época da ditadura. Essa frase se aplica a ela também?
Se aplica a todo mundo, até porque a política desse pessoal de esquerda era a de execução.

Deveriam tê-la matado?
Sim, é a minha opinião. Todos esses traidores da pátria deveriam ter recebido pena de morte. Essa é a minha opinião. Espero que nenhum imbecil, ao ler esta entrevista, diga que sou antidemocrático. Tenho imunidade para falar! Não vou perder a minha liberdade ou dar resposta de político vaselina para você. Os crimes que o grupo da Dilma cometeu, sequestro de autoridades, assaltos a banco com mortes, latrocínio, merecem o quê?

O senhor tem dificuldade de respeitar a autoridade dela por causa do passado?
Não acredito em cobra domesticada. Ela participou do assalto à casa do Adhemar [de Barros, ex-governador de São Paulo], e um grande colega dela, o [deputado estadual no Rio de Janeiro pelo PT] Carlos Minc, participou de latrocínio num assalto a banco. Quando você vê o Barack Obama no meio da Marinha americana, confraternizando no caso Bin Laden, vê o sorriso, o prazer dele. Essa senhora nunca olhou para nós, militares, com o devido respeito.

O senhor olha para ela com o devido respeito?
Fomos nós que concedemos anistia a eles. Além até do que o Congresso estava querendo. Eles não foram exilados. Quero que você me mostre um ato exilando alguém no Brasil. Eles foram embora porque sabiam que, naquela época, bandido era tratado como bandido se fosse pego. Tanto que a frouxidão da legislação é produto deles. A Dilma Rousseff tem tanto medo da verdade que quer criar uma comissão e indicar os sete integrantes.

Do que ela tem medo?
De contarem a vida dela. Ela era mandona, era o capeta naquela época, tinha 20 e poucos anos. E não estava lutando por democracia.

O senhor é vaidoso, gosta de aparecer?
Aparecer bem todo mundo gosta. Mas vaidoso aqui na Câmara era o [assessor especial do ministro da Defesa] José Genoino. Sabe como a gente prendeu ele na guerrilha do Araguaia? Acendemos uma luz na selva, e ele apareceu para dar entrevista [gargalhadas].

Sua relação com ele é ruim?
Nós conversamos com cordialidade. Uma vez ele fez uma declaração de que era ateu, e eu fiz um discurso descendo o cacete nele. Ficamos bicudos por um tempo aqui dentro. Aí geralmente o cara passa no corredor e, quando te encontra, abaixa a cabeça. Depois fomos nos reaproximando. Amigos nunca fomos, mas há cordialidade entre nós, sim. Ele entra no hall das cobras domesticadas [risos].

O senhor tem amigos no Congresso Nacional?
Se amigo for frequentar a residência, não. Agora tenho o respeito, acredito, de muita gente, inclusive nos partidos de esquerda. Quando fui acusado de racismo, descobri uma matéria da Folha de S.Paulo de janeiro de 1993 que registrava 54 assinaturas em uma proposta de emenda à Constituição para a volta da escravatura no Brasil. Na minha defesa, pergunto: esses deputados foram induzidos ao erro ou são racistas? Não são racistas. Entre eles estava o Aldo Rebelo, que é do PCdoB e com quem tenho divergência na questão do Araguaia. Eu disse ao Aldo que ia arrolá-lo como testemunha de defesa minha, e ele disse: “Sem problema algum”.

No cafezinho, os senhores falam de mulher? [risos]
A gente critica algumas deputadas. “Se ela não falasse isso, ia aparecer como, né? Deus não foi muito generoso com ela.” [risos] A gente fala de brincadeira. Tem deputada que faz discurso e a voz dela é terrível. “Pô, já imaginou o marido dessa deputada? Quando ela fala ‘eu te amo’ de manhã, o cara pula da cama” [gargalhadas].

Na pelada que os congressistas jogam toda terça-feira, o pessoal de esquerda entra mais duro na dividida com o senhor?
Ali não tem isso. Uma vez, um deputado do PT do Maranhão, o  Domingos Dutra, fez uma greve de fome porque o partido dele estava se coligando com o PFL no Maranhão, e ele não queria. No terceiro ou quarto dia da greve, eu ocupei a tribuna da Câmara e falei: “Olha, não desista, estou contigo!” Ele levantou meio cambaleante, querendo sair na porrada comigo. Jogamos bola depois, e disseram de brincadeira: “Não bota o Bolsonaro no time oposto ao do Dutra que vai dar porrada!” Jogamos juntos e, quando eu passava a bola pra ele, alguém gritava: “Ih, o que está acontecendo aí?” [risos]

O senhor já deu de cara com o deputado Jean Wyllys no banheiro do Congresso?
Não, mas acho que lá ele vai ocupar o reservado, não vai ficar no aberto, exposto. Quando me encontra no corredor ele abaixa a cabeça, faz aquela cara de quem “cheirou e não gostou”. Agora eu fico imaginando um cara mantendo relações com o Jean Wyllys. Meu Deus, além de homem, é feio! [risos] Imagina esse cara olhando para trás e pedindo: “Me dá um beijinho” [gargalhadas].

Jean Wyllys é o único homossexual assumido no Congresso. Existem outros?
Acho que sim. Na legislatura passada eu suspeitava de mais gente. De vez em quando rola uma lista anônima. Desconfio de uma meia dúzia aí, mas é até pouco. Dizem que tem mais [risos].