Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

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O rei Hiro

Atualizado em 04 de agosto de 2008 às 12:54 | Publicado em 12 de janeiro de 2008 às 12:56

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Levei um susto quando abri a revista Time e vi o anúncio da General Motors. Com o boné da GM, Émerson Fittipaldi comemorava a vitória nas 500 Milhas de Indianápolis. O susto é porque apareço ao lado dele, de macacão azul.

Vivi com Émerson momentos de alegria, de tristeza, de pânico e de lazer.
Ele foi meu chefe, um campeão amigável, simples, talentoso e carismático. Émerson Fittipaldi abriu caminho para uma geração de pilotos brasileiros.

Campeão da Fórmula 1 em 1972, quando eu iniciava no Jornalismo, nunca imaginei que teria o prazer de conviver com o homem da Lotus preta (campeão de novo em 74, pela McLaren). Émerson comeu o pão que o diabo amassou depois do fracasso da Copersucar, lembram-se? 
Por causa de dívidas na Grã Bretanha, ficou impedido de entrar no país enquanto não acertou as contas.

Eu só o conheci pessoalmente nos Estados Unidos, muitos anos depois, quando ele já tinha sido campeão da Fórmula Indy e vencido uma vez as 500 Milhas de Indianápolis. Em 93, Émerson ganhou as 500 Milhas pela segunda vez. Foi um dos dias mais alegres da vida dele.

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É uma das muitas tradições da corrida: o vencedor estaciona o carro sobre uma plataforma, que sobe feito um elevador. Cercado pela família e por integrantes da equipe, festeja lá em cima.

Repórteres não podem subir no pódium. Mas, ajudado por Kika Concheso, assessora e fiel escudeira de Émerson, subi junto. Acho que os fiscais me confundiram com algum mecânico. Era um momento chave da transmissão da Rede Manchete: ouvir o campeão.
Mas o microfone falhou na hora agá. Ainda assim, foi possível registrar um "obrigado Brasil" de Émerson.

Foi no ano em que, ao celebrar, Émerson trocou o leite pelo suco de laranja (ele era produtor em Araraquara, São Paulo). Deixou enfurecidos os produtores de leite do estado de Indiana. No dia seguinte, o brasileiro pediu desculpas por quebrar a tradição.

Quando a crise financeira da TV Manchete ameaçou as transmissões, Émerson montou a própria empresa e nos contratou. Apesar de chefe, manteve o mesmo comportamento de cavalheiro e amigo. Nunca nos pediu tratamento especial.

Vi o batizado do filho dele, Luca, numa das pistas.
Estava ao lado de Teresa e dos filhos do piloto na porta de um hospital de Michigan, quando a vida de Émerson esteve por um fio. Eles choravam, desesperados, e ainda assim eu precisava manter a calma para transmitir ao vivo informações sobre o estado de saúde do piloto.

Aquele acidente, na pista de Michigan, em 1996, acabou com a carreira de Émerson. O impressionante vigor físico permitiu que ele se recuperasse, voltasse a andar normalmente e até se aventurasse a voar de ultraleve (acho que só desistiu de desafiar a morte depois de um acidente de ultraleve, com o filho).


Como profissional, nunca deixou de nos atender, qualquer que fosse a circunstância. Quando não obteve tempo para se classificar para as 500 Milhas de Indianápolis, se escondeu num box para chorar.
Depois, retomou a calma e deu entrevista.

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Eu e o cinegrafista Luiz Carlos Novaes colávamos no Émerson, em dias de corrida (na foto acima, já transmitindo pelo SBT). Émerson nos recebia na casa dele, na Flórida, para passear de barco ou andar de jet ski. Voamos juntos pelas águas de Key Biscaine.

Sempre teve tantos amigos que, durante a festa da segunda vitória em Indianápolis, mal teve tempo de celebrar. O telefone não parava de tocar, chamadas do mundo todo.
George Harrison, o ex-Beatle, ligou. Meses depois, veio pessoalmente ver uma das corridas.

Sentamos todos na tenda da Penske - a equipe de Émerson - enquanto Teresa Fittipaldi preparava a caipirinha que deixou Harrison fora de ritmo.
Por causa de Émerson, conheci um de meus ídolos na música, Tom Petty, que foi assistir a uma corrida.

O mesmo caráter do pai era visto nos filhos.
Jason, que escapou do desejo paterno (que piloto não quer que o filho siga o caminho dele?), estudava artes plásticas.
Tatiana, que vi criança nas pistas, tem também a doçura dos Fittipaldi.


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Émerson cercado por um milhão de dólares, depois da primeira vitória em Indianápolis.
Na verdade, só as notas expostas eram verdadeiras. O recheio era de papel.

Em seis anos como repórter de automobilismo, vi grandes duelos.
Um dos melhores envolveu Émerson e o britânico Nigel Mansell, em Cleveland, num circuito que aproveitava a pista de um aeroporto. Disputando a liderança, lado a lado, eles trocaram de posição várias vezes. Nigel tinha vindo da Fórmula Um - como Émerson e Mário Andretti, foi campeão das duas categorias.

A disputa de Émerson e Mansell foi limpa e emocionante. Naquele dia, o brasileiro chegou na frente. Os críticos diziam que Émerson não era ousado. Era, na hora certa. Tinha a combinação de ousadia, cautela e a estrela de um campeão.

Por causa dele, o piloto japonês Hiro Matsushita, que era lento nas pistas, ganhou um apelido. Durante as corridas, Émerson falava pelo rádio com a equipe. Sempre que ultrapassava o japonês, gritava: "King Hiro". Em português, "Rei Hiro".  Curiosos, os mecânicos da Penske um dia perguntaram a Émerson por que ele chamava Matsushita de rei. "Rei? Eu nunca disse rei", respondeu Émerson.

É que o rádio do carro picotava.
Na verdade, o que Émerson dizia era "fucking Hiro", porque se considerava atrapalhado pelo japonês. Acho que até hoje o Hiro Matsushita não entendeu.  A partir daquele dia, entre os mecânicos, ele ganhou o apelido de Rei: "King Hiro, fucking Hiro".

Publicado originalmente em 2006


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
cezar (cezar.alvares@gmail.com) (18/08/2008 - 14:41)
É, cara!

Vou tem uma riqueza só! Como diriam os gregos: INCOMENSUR�VEL.

Nunca arrependo-me de investir meu tempo neste teu sítio.

Felicidades.

Ciao

Azenha tem muito chão! (18/08/2008 - 06:52)
Acho que agora tive uma vaga lembrança do Azenha das antigas ,mas não lembro muito dessa época.



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