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Quarta-Feira, 24 de agosto de 2011
Brasil – Frei Betto, escritor - PT
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28.07.08 - Brasil
Agroecologia: uma forte alternativa ao agronegócio
IHU - Unisinos
Instituto Humanitas Unisinos
Adital

Até o dia 26 de julho aconteceu, em Cascavel, Paraná, a 7º Jornada de Agroecologia. Mais do que compreender as práticas agroecológicas, o evento pretende estudar, pesquisar e debater o que pode ser feito para que mais pessoas possam integrar a causa e expandir a discussão acerca do tipo de alimento que estamos consumindo. A IHU On-Line conversou, por telefone, com um dos coordenadores do evento, José Tardim.

Além de falar sobre esta jornada, Tardim analisa o debate acerca da agricultura ecológica no Brasil e de como essa prática contribui para a construção da identidade camponesa. Ele analisa ainda as ameaças que o evento sofreu por parte do setor ruralista paranaense, principalmente daqueles que vivem próximos de Cascavel, onde a jornada está sendo realizada.

Para Tardim, “o agronegócio é a expressão política hegemonizada pelas transnacionais, como a Syngenta, a Monsanto, a Cargil, a Bunge, enfim, que querem controlar a agricultura no mundo associada a governos de estado e federal que apóiam esse setor com a máquina pública”. Por isso, a agroecologia vem com uma proposta alternativa para poder ser “uma unidade, uma cooperação solidária e muito forte entre o saber e a prática indígena e camponesa e o saber acadêmico-científico”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o debate acerca da agroecologia no país?

José Tardim – A agroecologia tem alcançado no Brasil um espaço crescente de debate e estudo. Afinal, ela vem sendo colocada em prática nas comunidades, nos assentamentos, em todas as regiões do Brasil. Com isso, a população camponesa está cada vez mais se abrindo para a questão. O seu crescimento acontece num impulso muito grande a partir do momento em que os movimentos camponeses da Via Campesina no Brasil assumem essa proposta junto aos seus programas e começam efetivamente a impulsioná-la nas comunidades e nos assentamentos de reforma agrária.

IHU On-Line – Uma dos grandes motivações para o desenvolvimento da agroecologia é que, a partir dela, os camponeses poderão se tornar independentes das grandes empresas de sementes. Como a agroecologia pode também resgatar a identidade dos camponeses?

José Tardim – A agroecologia, mesmo se organizando como uma ciência, parte de dois fundamentos. O primeiro é o conhecimento tradicional das populações indígenas e camponesas. O outro aspecto é que o saber dessa prática indígena e camponesa se associa ao saber acadêmico-científico. Então, a agroecologia é uma ciência que vem construindo uma unidade, uma cooperação solidária e muito forte entre o saber e a prática indígena e camponesa e o saber acadêmico-científico. Seu trabalho faz com que a auto-estima do povo camponês seja erguida, recuperando saberes que estavam latentes e recursos genéticos em processo de risco de erosão genética, além de resgatar o plano técnico e cultural. Desse modo, a agroecologia tem se revelado, nessa conjuntura atual, uma das ciências mais importantes para reconstrução ecológica da agricultura de base camponesa. Traz de volta, então, a recriação de territórios indígenas e camponeses, de territórios livres no sentido plano, de autonomia tecnológica, de conhecimento, de geração de saberes, de uma nova cultura que contribua para que a humanidade corrija o seu grande desvio, detectado na agricultura do agronegócio, com transgênicos, o monocultivo em larga escala, o problema dos agrotóxicos cada vez mais potentes e ameaçadores à saúde e a natureza. Esse é o campo da mudança mais radical que a agroecologia aponta para o mundo camponês e a sociedade em geral.

IHU On-Line – Quem faz parte, hoje, do movimento agroecológico do Brasil?

José Tardim – Ele tem particularmente uma origem dentro das organizações não governamentais que passaram a se criar aqui no Brasil no início dos anos 1980. Esse movimento vai ganhando cada vez mais visibilidade e hoje é uma expressão no Brasil. Isso porque mobiliza grande número dos movimentos sociais do campo, além de movimentar um número enorme de cientistas, de acadêmicos, de estudiosos de diferentes áreas, como a sociologia e antropologia. Então, é um movimento que agrega de forma crescente de atores múltiplos da sociedade e cada vez mais atrai a população da cidade, muito preocupada com a falta de qualidade e com os riscos existentes ao se comer um alimento com agrotóxicos, transgênicos ou com hormônio, ou seja, atenta aos problemas que a degradação da qualidade do alimento pode proporcionar. O Brasil tem essa capacidade hoje de realmente expressar, por múltiplos atores da sociedade, o pensamento e a prática agroecológica.

IHU On-Line – E como o evento está se organizando para manter a segurança daqueles que estão participando e foram ameaçados por entidades ruralistas?

José Tardim – Nós temos tido esse problema grave no Paraná. Aqui, infelizmente, o agronegócio também é truculento, violento, organizando, por exemplo, milícias e pistolagens, que ameaçam e provocam. Então, a nossa orientação é para um cuidado muito particular e coletivo de estar aqui reunido com mais de três mil pessoas. Nós temos uma equipe de orientação permanente para assegurar a segurança do povo reunido. Tentaremos evitar qualquer possibilidade de que as provocações do agronegócio cheguem até nós e desorganizem esse grandioso esforço que fizemos de aprofundar o estudo, a troca de experiência em torno da agroecologia, da reforma agrária e por uma terra de transgênicos e agronegócio.

IHU On-Line – Que figura o senhor Alessandro Meneghel representa no Paraná?

José Tardim – Ele é uma expressão do arcaísmo daquele sistema violento do tempo da colônia portuguesa, que tinha a escravidão como processo de trabalho, ou seja, a submissão absoluta do trabalhador do campo ao chicote, ao pistoleiro, ao capitão do mato. Trata-se de um dos elementos que expressam a brutalidade mais explícita do agronegócio. Mas ele também é um elemento que toma parte dessa articulação do agronegócio como um todo. Afinal, o agronegócio é a expressão política hegemonizada pelas transnacionais, como a Syngenta, a Monsanto, a Cargil, a Bunge, enfim, que querem controlar a agricultura no mundo associada a governos de estado e federal que apóiam esse setor com a máquina pública. Essa violência que ele expressa, essa tentativa de nos agredir, de impedir o avanço da agroecologia e da reforma agrária, faz parte desse aglomerado maior de empresas transnacionais, banqueiros e outros setores que estão no poder público.

IHU On-Line – Qual a importância de organizar esta 7ª Jornada de Agroecologia no seio ruralista do Paraná?

José Tardim – A Jornada de Agroecologia tem como um seus objetivos estratégicos demarcar claramente na sociedade o projeto soberano popular de uma agricultura camponesa agroecológica e pela reforma agrária. Essa demarcação nos coloca numa posição direta ao projeto do agronegócio, que traz concentração de terra, com liberdade para promover o trabalho escravo, de contaminar a agricultura com agrotóxicos e com transgênicos. Então, a 7ª Jornada é mais uma vez um momento em que nós expressamos para a sociedade paranaense e do Brasil o projeto que queremos em contraponto ao do agronegócio. Aqui, cumprimos um momento de estudo, de intercâmbio, de troca de experiência e de qualificação da nossa formulação do que vem a ser esse projeto popular e soberano de uma agricultura camponesa, com soberania alimentar, com reforma agrária, com agroecologia. Esse é um marco.

IHU On-Line – Que transformações nos modelos de produção e de consumo da sociedade são necessários para que um modelo de desenvolvimento realmente sustentável possa ser construído no Brasil?

José Tardim – No Brasil, é notório que uma política fundamental e imediata seria uma ampla e massiva reforma agrária. Não podemos seguir sendo o Brasil do latifúndio, do trabalho escravo e da violência no campo. A reforma agrária é uma política estrutural fundamental para criar uma ampla base de agricultura camponesa no país, que possa, nesse momento, ampliar em larga escala a produção de alimentos básicos e a garantia de uma soberania alimentar, assim como produzir trabalhar com uma agricultura ecológica, no sentido de produzirmos alimentos saudáveis para a vida. Essa é uma mudança fundamental e estrutural para o país. A outra é, no plano da sociedade urbana, alterar o padrão de consumo. Isso porque a sociedade urbana está cada vez mais concentrada e precisa passar por um processo de desconcentração, ou seja, de reforma urbana. Dentro desta, devemos incluir uma reeducação no que se refere ao que é necessário ser consumido diariamente, a fim de garantir a vida das pessoas que utilizam um produto de base agrícola contaminante, além de consumirem uma quinquilharia, uma quantidade de objetos desnecessários para manutenção da vida, colocados nas lojas do comércio, em geral da cidade. Então, é preciso uma reforma agrária, uma reforma na base tecnológica da produção agrícola e uma ampla reforma urbana que possa incluir uma educação ao consumo daquilo que é necessário e ambiental. Tudo com o objetivo final de cuidarmos da vida de forma diferente a partir de fundamentos ecológicos.

IHU On-Line – Pensando no campo da agricultura brasileira atual, como o senhor analisa a produção de bicombustíveis?

José Tardim – Os bicombustíveis aparecem na pauta internacional do agronegócio e inclui os interesses do grande capital que controlam a economia mundial, fundamentada na energia do petróleo. Interessa às petroleiras ter uma fonte alternativa de energia combustível sob seu controle. Não que o agrocombustível será a fonte de energia do futuro: isso é uma grande mentira. Na verdade, é uma forma de as petroleiras controlarem o outro processo alternativo, mas numa escala que não irá alterar o padrão geral ecológico da destruição ambiental, que continua a ser praticado na sociedade capitalista. No caso brasileiro, essa política responde diretamente aos interesses do agronegócio. As transnacionais que controlam a tecnologia dos transgênicos, da maquinaria da agricultura, do agrotóxico, das sementes têm grande interesse em expandir, em larga escala no Brasil e no mundo, o monocultivo de algumas espécies sob as quais as transnacionais possuem total controle tecnológico. Assim, ela consegue impor uma ampliação da sua capacidade de explorar a sociedade dos países do Terceiro Mundo e entregar nos países ricos alguma escala de energia pode ser interessante para o ambiente deles.

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