Pedro Victor Brandão: “Vou investir em bitcoins”

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Nunca havia ouvido falar em bitcoins até bater um papo ontem com Pedro Victor Brandão, jovem artista (nascido em 1985) que inaugura amanhã, na Casa França-Brasil, uma exposição inspirada no que eu chamaria de pintura criminosa.

O artista, cria da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e parte do coletivo Opavivará, foi buscar referências nas notas de Real danificadas pelo tal dispositivo que as colore de rosa quando das tentativas de roubo por explosão dos caixas eletrônicos.

Crime da moda para uns, resposta ao elevado custo de vida para outros, essa nova modalidade de roubo - que vem deixando nossa moeda com um duvidoso-porém-providencial-toque de-pink – foi a primeira coisa que veio à cabeça de Pedro Victor quando convidado a ocupar o antigo cofre da CFB com uma instalação.

O trabalho é uma foto na parede. Uma espécie de “paisagem” formada por um mosaico de 96 reproduções das notas (56×156 cm). Versões em menor escala (6,5x14cm) foram produzidas para que o público pudesse levar parte do trabalho pra casa, no limite de uma nota por visitante.

“Da inutilidade desse papel-moeda e do processo de formação de imagem que o inutiliza surge a possibilidade de criar para este espaço uma paisagem acidental (fruto de uma circulação proibida)”, explica o artista, afirmando que a realização deste projeto parte de uma pesquisa sobre a criação de virtualidades no contemporâneo.

Infiltração - Para realizar seu site specific, fez o que chamou de “infiltração”. Conseguiu interceptar as notas antes da incineração, e reproduzir as cédulas com uma máquina fotográfica. Confira o papo com Brandão, saiba como foi o processo para realização do trabalho e descubra, por fim, quanto vale um bitcoin.

Gilberto de Abreu: Eu já vi algumas exposições ali no cofre, mas nenhuma das que me lembro pareciam dialogar com algo tão atual. No seu caso, a tentativa de roubo e a consequente destruição das cédulas… Não por você, mas pelos bandidos. Você já tinha em mente trabalhar com isso e a oportunidade de expor no cofre fez o trabalho acontecer, ou o quê?

Pedro Victor BrandãoÉ. Os roubos por explosão são algo bem recente aqui no Brasil. O dispositivo antifurto está em operação aqui desde o final do ano passado e é baseado no mesmo sistema que combateu o crime a de explosão explosão  a ATM’s na Europa Foi implantado pela empresa que administra os caixas 24 horas. Tenho grande interesse por formações de imagem autônomas, vou atrás delas. A possibilidade de mostrar algo no cofre surgiu, e vi que havia a oportunidade de contatar o Banco Central, num troca-troca de e-mails oficiais entre instituições.

Como foi lidar com o tramite burocrático da coisa?

Foi uma “infiltração” bem simples na verdade, tive que ir a São Paulo fotografar um lote antes que fosse incinerado. Para colocar algo que está proibido de circular numa nova circulação tive que fazer uma espécie de roubo também, mas autorizado por umas três cartas escritas por mim, pela presidência da Casa França-Brasil e do Departamento do Meio Circulante do Banco Central.

Bacana você falar de “infiltração”, porque eu ia mencionar outro “in”, de inserção… A do Cildo Meirelles, que também já mexeu com dinheiro em “Zero Cruzeiro”.

Sim, o Cildo é inspiração total, assim como outros artistas que trabalham revalorizações de uma maneira geral.

Impressões de Cildo chegam a R$ 12 mil em leilões

Interessante pensar que toda essa operação foi autorizada  justo por quem mais combate crimes de falsificação e roubo aos caixas eletrônicos…

É quase uma inversão russa… Nos últimos seis anos, houve a triplicação dessa rede bancária de rua, atualmente com 14 mil caixas num ação que”visa atingir as regiões mais afastadas dos grandes centros, periferias e municípios de menor porte, onde contribui diretamente para a bancarização e desenvolvimento das classes C, D e E”. Os roubos e a conseqüente inutilização do dinheiro associados a esta estranha bancarização – parece quase ser um conceito civilizatório – indicam algo mais que “um crime da moda” , pois são ações ocultas carregadas de algum nível de insatisfação e muita violência que marcam um período onde o custo de vida sobe e a exigência da presença do indivíduo em sistemas bancários e de consumo é cada vez maior, num reflexo da integração econômica pela qual o país passa. Ao mesmo tempo, há a criação de moedas sociais, redes de valores descentralizadas que seguem crescendo, mostrando transformações-piloto no sistema financeiro. Criar um valor onde não há pode trazer efeitos surpreendentes. Todo esse processo se traduz numa expressão social furtiva que deixa no rastro um novo “produto” do qual eu me aproprio pra criar o trabalho. Destaco somente a parte rosa, que faz a nota perder seu valor, nas outras áreas, fica uma mascará numa opacidade de 6%. É um trabalho pra testar limites da legalidade na arte. 

Se eu pegar a sua nota, ao sair da exposição, e mandar emoldurar… Isso será uma gravura? Um objeto? Uma memorabilia?

Não penso em limitar a circulação do trabalho depois que faço a dispersão dele no mundo, mas tenho uns amigos que vão tentar vendê-las por aí. 

Você pagaria quanto por esse trabalho?

Eu? Pagaria uns 6฿

Seis o quê?

Bitcoins, moeda corrente P2P vinculada à bolsa de negociações MtGoxO Bitcoin é um exemplo de moeda social por onde o sistema financeiro que a gente acredita pode ir pro saco. hoje 6฿ podem valer R$30, amanhã pode ser 90, semana que vem R$4…

Alguma vez teve um cofre onde guardasse moedas? Onde guarda os centavos de real atualmente?

Tinha uma lata de filme em que botava umas moedas quando era pequeno. Fazia uma coleção de moedas antigas. Tento acumular o mínimo delas, mas tenho uma cuba de barro com várias num aparador aqui de casa, em oferta aos deuses da abundância.

Pra finalizar: se pudesse escolher uma outra cor para ser usada no dispositivo que tanto vem frustrando os bandidos , qual seria?

Não pensaria pela cor, mas por alguma propriedade da tinta, tipo algo corrosivo. Ou algo que mudasse de cor quando uma lavagem fosse tentada. Cor de ferrugem, talvez. Mas o roubo é a verdadeira pintura. 

Se alguém te oferece uma nota roubada, pintada pelo dispostivo, o que você faria?

Estou com algumas aqui, mas eu poderia trocar por uma da edição do meu banco, rs.

Vai comprar o Brooklin do Banco Imobiliário ou conquistar a Oceania no War?

Se ganhar o jogo, vou investir em bitcoins.

Leia mais sobre Pedro Victor Brandão aqui: PVB_2011_v2
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2 Comentários

  1. Jovem, mas já maduro artista como mostra sua excelente entrevista. Uma idéia genial. Parabébs Pedro. Parabéns Super Giba

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  2. Great blog! I’ve just shared it on Facebook.

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