Milk - sem voz para a igualdade

 

O pastor evangélico e dublador profissional Marco Ribeiro se recusou a dublar Sean Penn em “Milk – A Voz da Igualdade” alegando que “não teve vontade” porque “tem a voz envolvida com outras questões”. O caso foi noticiado pela Folha de S. Paulo de ontem. 

A esta altura, todo mundo imagina o porquê. Harvey Milk, personagem que rendeu o segundo Oscar de Penn, é um dos baluartes do movimento GLBT norte-americano. Foi o primeiro homem assumidamente gay a ser eleito para um cargo político nos Estados Unidos, ainda na década de 70. 

A igreja Assembléia de Deus, da qual Marco Ribeiro é pastor, critica a homossexualidade como muitas outras igrejas pentecostais. A reportagem da Folha sugere que Ribeiro teria recusado o papel para, basicamente, não arranjar mais confusão com a igreja. Marlene Costa, diretora de dublagem, disse ao jornal:

“Primeiro ele aceitou, depois viu o que era o filme e achou melhor não fazer para não ter aborrecimento. Pediu-me mil desculpas, expôs os pontos de vista dele. Não é que [Ribeiro] tenha algo contra homossexuais, é que as pessoas ao seu redor confundem sua profissão de ator com o lado religioso”

 De fato, Ribeiro deve ter provocado o aborrecimento de boa parte da Assembleia com os personagens que já dublou. Vejamos alguns:

 

Stanley Ipkiss, o Máskara (Jim Carrey) – deus pagão propagador do caos 

 

Willie Stark (Sean Penn) - político corrupto de “A Grande Ilusão”

  

Austin Powers (Mike Meyers) - agente secreto e fornicador

No Twitter, cheguei a pensar que ele havia dublado Sean Penn em “Sobre Meninos e Lobos”, mas me enganei.

Mesmo assim, Ribeiro tem um currículo polêmico e tanto (para um pastor pentecostal). Uma lista mais completa, e admirável, dos trabalhos dele pode ser encontrada aqui

Diante desses personagens, é fácil entender a recusa de Ribeiro: dublar um ativista gay poderia ser visto, dentro da lógica de sua comunidade, como outra provocação, outro papel condenável, a cereja do bolo amassado pelo diabo. 

Mas por que o dublador resolveu recusar um papel só agora, em “Milk”? 

Voltemos ao filme. Como supervisor eleito em San Francisco, Harvey Milk conseguiu aprovar leis que garantiam direitos civis a homossexuais e chegou a estender sua área de atuação para fora da cidade, usando suas alianças políticas para combater o movimento conservador empreendido pela cantora cristã Anita Bryant. Entre outras coisas, Anita defendia a aprovação de uma lei que expulsaria professores gays dos colégios públicos norte-americanos. Não muito diferente da caça às bruxas promovida por Joseph McCarthy contra comunistas. 

O longa de Gus Van Sant pinta o protagonista com tintas messiânicas. Além de visto como um brilhante orador e articulador de alianças pró-gays, ele também é retratado (não sem alguma redundância) como salvador da vida de jovens homossexuais por todo o país. É assassinado de forma covarde e, inevitavelmente, torna-se mártir para todo aquele povo. 

Anita, por sua vez, é a antagonista, chegando ao público como uma vilã – talvez a maior das combatidas pelo personagem no filme. Ela fala em Deus e na Bíblia toda vez que tenta defender seu ponto de vista. As imagens da cantora são todas de arquivo, o que, além de provar que aquelas sandices realmente vieram da boca da mulher, dão a ela uma aura inatingível, superior (Milk nunca a encontra cara-a-cara). Anita é a “força do mal” mais poderosa do filme. A vitória do político na batalha contra a lei proposta por ela é o clímax do longa. 

E, se você tem mais de dois neurônios, já sacou faz tempo de que lado a igreja de Ribeiro estaria se estivesse no meio dessa batalha. 

Uma explicação para a pergunta que fiz anteriormente seria essa: em “Milk”, Ribeiro, mais do que dublar um homossexual, dublaria um personagem “bom” que enfrenta uma “vilã” que segue os mesmos preceitos que ele. A mesma reportagem da Folha de S. Paulo diz que, no site da Assembléia, Ribeiro se pronunciou contra “‘famílias modernas’ em que não há a figura do pai ou da mãe, ou em que essas figuras são substituídas por casais do mesmo sexo… isto não é modernidade, e sim uma distorção do que Deus disse sobre o que deveria ser a família”. 

É de se imaginar que participar de um filme (mesmo que apenas como dublador) que critica cristãos de maneira tão direta causaria uma dor de cabeça fenomenal ao pastor. Seria, acima de tudo, uma grande incoerência. 

But the plot thickens

Leia a lista com atenção e perceba que um ataque ao núcleo da fé cristã não pareceu ser um problema para que Ribeiro dublasse Robert Langdon (Tom Hanks) em “O Código da Vinci” (2003), como aconteceu. Na trama, Langdon basicamente descobre que o livro que guia a vida do pastor e de seu rebanho está recheado de mentiras. 

À época, cristãos do mundo todo se voltaram contra Dan Brown, o autor do livro em que o filme é baseado, propondo boicote às obras. Não seria errado dizer que “O Código Da Vinci” ataca ideais de católicos e evangélicos com mais veemência que “Milk”. 

(A informação de que Ribeiro dublou Hanks no longa consta em diversos outros sites. Uma rápida busca no Google a confirma) 

Com isso, volto à pergunta anterior: se um herege como Langdon não foi um problema, porque um ativista homossexual o seria? 

Queria muito saber em quais outras questões Ribeiro “envolveu sua voz” para aceitar dublar um pesquisador herege em 2003 e recusar um ativista gay em 2009. 

Marco Ribeiro é um dublador muito competente e respeitadíssimo no meio. Até agora, parecia comprometido com todos seus personagens. Talvez, ao longo desses anos, ele realmente tenha sido aporrinhado por fiéis e finalmente se cansado da perseguição que sofreu por dublar figuras tão “polêmicas”. 

Ou talvez, para um pastor evangélico, defender um homossexual orgulhoso, feliz e combativo seja ofensa maior que dublar um pesquisador que desautoriza sua fé. 

 A lógica desta última hipótese parece torta, mas a guerra empreendida por cristãos contra homossexuais sempre foi regida desta maneira. A razão nunca teve espaço em uma luta movida pela fé.

 Anita Bryant e seus discursos frágeis e risíveis que o digam.

7 Responses to “Milk - sem voz para a igualdade”

  1. Metheoro says:

    meu cu pro Sr. Ribeiro, o lance dele ter aceito dublar o Robert Langdon, NA VERDADE, diziam na época, era porque ele acha que o livro APENAS falava mal da igreja católica e a colocava em CHECK…

    Só que la no meio da audição do texto, foi que ele descobriu que o texto falava mal, na verdade, de toda a fé cristã e da possível mentira que bilhões de pessoas no mundo vivem.

    O problema dos evangélicos (religiosos em geral) é querer se meter num dos preceitos básicos que a própria Biblia (que por si só, é o livro mais contraditório do universo) prega: LIVRA ARBITRIO DADO POR DEUS.

    Então, caraspalidas, por mim pouco importa quem vai dublar o Sean Penn, até porque eu sempre prefiro ver os filmes legendados, com os palavrões originais, vozes originais e expressões e interjeições originais.

    Outra que o Sr. Ribeiro não vai apagar a história de Harvey Milk, nem vai apagar o Oscar que o Sean Penn ganhou (não que eu dê valor ao oscar, mas um monte de gente dá e vai acabar assistindo só por causa disso.)

    E finito.

  2. Zé Mucinho says:

    Parabens pelo artigo. Permitam-me acrescentar:

    É realmente difícil a defesa de Ribeiro neste caso. A rigor - e o próprio pastor de certa forma confessa -: foi uma decisão mercadológica, e não de “princípios” ou foro religioso. “Ele seria cobrado pelos fiéis”. O pastor julgou que teria menos rebanho se fizesse o trabalho. Então, eu pergunto: quando ele acha que isso (a cobrança) não vai acontecer, ele faz?

    Tô lembrando aqui de uma frase clássica do personagem Ned Flanders (que o próprio Marco Ribeiro já dublou nos Simpsons): “- Senhor Deus, por que me fizeste isso? eu sigo direitinho a Bíblia: até aquelas partes que se contradizem umas às outras…”
    Ué, dessa série o pastor participa? E mais: ele já dublou o declaradamente homossexual Waylon Smithers nesta mesma série! Mais ainda: ele é o atual diretor de dublagem da série (podem conferir). Por que isso o dublador pôde fazer? Ah, já sei: ali ele estava protegido contra reconhecimentos, contra comentários… longe do olhar de Deus… quer dizer.. do Deus “Mercado”… do Deus “Imagem de Bom Pastor”… que conveniente. Ele vai mudando de opinião à medida do tamanho da polêmica…

    Então, faz de conta que sou pastor também: “Os vendilhões não são (nem serão) mais expulsos do templo, pois eles o compraram.”

    Olha, eu não sou gay, não sou religioso nem assisto a filmes dublados; mas não consigo relevar a revolta diante de atitudes como essa.

    Vamos fazer um paralelo: há 130 anos havia escravidão no Brasil, havia “valores cristãos”, e negros e índios não eram gente. Não é vergonhoso lembrar que um dia nossa sociedade (branca, capitalista, cristã e machista) pensou assim? Mas nós mudamos. Sinal de que evoluímos… um pouco…

    Muito em breve os direitos dos homossexuais estarão consolidados, e a atitude do pastor-dublador vai soar para nós mais ou menos assim:

    “Dublador se recusa a dublar Denzel Washington: -’Temos cor diferente… minha voz não… combina’”.

    “Dublador não emprestará sua voz a Tom Berenger no filme “Brincando nos Campos do Senhor”, pois o americano interpreta um “pele vermelha”: -’Sou anticomunista, desde criancinha; não mexo com nada vermelho’; além do mais o filme “ofende” (mostra a trágica realidade) o proselitismo CATÓLICO E PROTESTANTE.”

    “Dublador não fará vozes nacionais no filme “Dúvida”, pois a película não esclarece se o padre molestou ou não o garoto:-’Eu não quero ficar na dúvida; isso é contra minha religião’”.

    Ok, fiz piada, carreguei nas tintas, mas pensem bem: se for pra sermos simplistas assim, todos os comerciais SÃO PERNICIOSOS, pois levam as pessoas a consumir produtos por motivos diversos da necessidade, logo são contra os valores cristãos (e quem escreve isto aqui é também um publicitário); recusar fazer este ou aquele trabalho não diminui meu pecado.
    Se o pastor quiser ser coerente, terá de deixar totalmente a propaganda - o proselitismo cristão inclusive - e não dublar nenhum filme, pois todos ferem de alguma forma os valores cristãos.

    E bem vindo ao mundo, pois a contradição, o paradoxo é da natureza da vida.

  3. Tiago says:

    Só acho que essa história do dublador confirma a atualidade do discurso do filme. Parece até que a trama saltou da tela.

    E acredito que o cara só não quis fazer a voz do personagem por se tratar de um gay assumido que levanta essa bandeira política. Só isso. Nada além.

  4. says:

    Parabéns pelo texto!

    Só um adendo: “Olha, eu não sou gay, não sou religioso nem assisto a filmes dublados(…)” [2].

    Já havia me chocado ver pessoas saindo no meio do filme - aparentemente depois de “descobrir” do que se tratava. Acho que saiu mais gente do que quando assisti Brokeback Mountain, no mesmo cinema, em Campinas, há 3 anos.
    Engraçado pensar que essas pessoas que não conseguem assistir a filmes cujos personagens principais são homossexuais não-caricaturizados (pq, afinal, quando eles estão pulando e vestidos de rosa, tudo bem) são, muitas vezes, aquelas que não se sentem incomodadas depois de assistir a “Tropa de Elite” cinco vezes. Enquanto violência explícita continua a agradar - e eu não tenha nada contra ela, adoro Funny Games, por exemplo -, o preconceito velado segue, e é muitas vezes mascarado pela desculpa da moral e bons costumes.

    Eu só não entendi como o Austin Powers conseguiu driblar essa moral…

  5. Resenha: “Milk” « Tatiana Carvalho says:

    [...] Mais detalhes aqui. [...]

  6. Diego says:

    Metheoro, não lembro disso na época de lançamento do filme, mas se rolou, realmente é ponto contra o cara.

    Zé, obrigado pelo ótimo comentário! Concordo contigo: acho que o caminho natural é que leis de proteção sejam estendidas a gays e, com o tempo, esse tipo de atitude do dublador seja vista com o desprezo que merece.

    Tiago, acho justo pensar que o fato do personagem ser um gay foi apenas coincidência, mas eu tendo a concordar contigo.

    Má, obrigado! Moral e bons costumes já patrocinaram atrocidades demais por aí…

  7. says:

    Disponha, Diego.

    Estava conversando sobre essa loucura com um amigo e ele me lembrou que, há anos, a globo teve que matar duas lésbicas em uma novela, lembram?

    Em um episódio do Você Decide (ahaha, era uma pirralha, mas adorava assistir), um dos temas era “seu filho é gay. você o expulsa de casa?”, e o sim ganhou com uma margem absurda em relação ao não. Hoje toda novela das oito tem que ter um núcleo gay (caricato na maioria das vezes, mas tem), e o assunto já é discutido com mais naturalidade até no fantástico.

    Sou otimista quanto ao assunto; não demora muito para as pessoas lançarem um tsc, tsc pra essa atitude lamentável.

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