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ESTATUETAS

             Muito embora comumente vinculadas à idéia de ídolos, as estatuetas tapajônicas dão margem a controvérsias, entre seus estudiosos, no que se refere a sua denominação exata, pois enquanto alguns reconhecem, mesmo que implicitamente, uma função religiosa, outro, como é o caso de Conceição Gentil Corrêa (26), atentando para o desconhecido da função exata das mesmas no contexto cultural tapajônico e atribuindo, por isso, a denominação de ídolos aos textos dos cronistas, preferem chamá-las de estatuetas, nós preferiremos também, empregar a denominação de estatuetas, por ser a mais comum em termos antropológicos e arqueológicos.

            As estatuetas tapajônicas, ao contrário das marajoaras, caracterizam-se por uma grande variedade de formas e principalmente pelo realismo da modelagem, evitando dessa maneira a padronização observada nos modelos da Fase Marajoara. Outro aspecto a considerar, é a significativa ocorrência de estatuetas tapajônicas, sob forma zoomorfa, dificilmente encontrada nas marajoaras.

            Via de regra , as estatuetas tapajônicas são  modeladas a mão, encontrando-se exemplares totalmente ocos, maciços, com cabeça oca e corpo maciço, ou vice-versa. A decoração, excluindo os meios comuns a todas as estatuetas, isto é, modelagem em relevo e incisão, faz-se através de engobo branco e, ainda, pintura preta ou vermelha sobre engobo branco (pintura policrômica), com relação a confecção  e acabamento externo, as estatuetas tapajônicas apresentam discrepância entre si, encontrando-se ao lado de exemplares cuidadosamente modelados e decorados, outros rusticamente elaborados; assim também como verifica-se a ausência de padronização no acabamento, em virtude da manufatura por modelagem a mão, da diversidade de técnica e, como ressaltou Frederico Barata, do “virtuosismo das oleiras Tapajó”(27) .

            Quanto ao estilo cabe-nos observar que em decorrência do predomínio das estatuetas antropomorfas, limitaremo-nos a descrição destas, observando inicialmente, que os olhos em geral, são em relevo, acentuados por incisão reta ou circular e o nariz ainda em relevo, com alguns exemplares apresentando a forma adunca e os orifícios das narinas. A boca, quando não marcada por incisão, é igualmente em relevo; já as orelhas são estilizadas ou alongadas pela deformação do lóbulo para introdução de enfeite circular, assim como os cabelos, mostram-se estilizados em linhas incisas ou então em relevo lembrando tranças, surgindo geralmente no alto da cabeça uma faixa ou cocar em relevo, que por vezes termina na parte posterior da cabeça em nó estilizado.

Os personagens representados nas estatuetas acham-se nus e, na maioria das vezes, mesmo as do sexo masculino, possuem seios. Destaca-se ainda o ventre ligeiramente saliente com o umbigo reentrante ou apenas indicado por incisão circular, sendo o sexo feminino estilizado por triângulo ou quadrilátero, enquanto o masculino é representado em relevo. As curvas das nádegas são bem definidas e raras vezes há ocorrência de deformação da região dorso lombar.

            Ainda que encontremos exemplares com os membros superiores  estilizados sob a forma de ressaltos à altura dos ombros, as estatuetas os apresentam devidamente modelados e ligeiramente fletidos, afastados ou colados ao tronco. A colocação das mãos varia, apoiando-se sobre os quadris e coxas, sobre os seios, ventre, sexo e ainda sob o queixo, sendo os dedos indicados por pequenas incisões, verificando-se em alguns exemplares, duas linhas incisas à altura do punho como estilização de pulseira.

            Normalmente os membros inferiores apresentam-se estilizados, aparecendo somente as coxas ou partes destas que, com joelhos afastados, constituem a base da estatueta; todavia, em outros exemplares as pernas são bem definidas, apresentando-se distendidas, flexionadas ou fletidas uma sobre a outra. Os artelhos são mostrados por meio de incisões ou excepcionalmente modelados, e o calcanhar bem delineado. Por vezes, as estatuetas mostram duas incisões paralelas à altura dos tornozelos e abaixo dos joelhos como representações estilizadas de tornozeleiras e jarreteiras, com a conseqüente deformação das panturrilhas.

 

3.2.3 – MUIRAQUITÃ

 

            Os muiraquitãs têm fascinado os homens há centenas de anos. Segundo o estudioso paraense Frederico Barata a palavra muiraquitã “é vocábulo adaptado do tupi ou da língua geral” (28), e a sua grafia atual teve surgimento no século XIX, pois a palavra sofreu corruptelas e distorções por missionários e cientistas desde o século XVII.

            Quanto ao significado da palavra as controvérsias permanecem até hoje, pois não havendo uma grafia original, o significado atual do termo muiraquitã, perde o seu valor. Existem porém tentativas de tradução como as: nó de pau, pedras verdes do rio, pedra de chefe, botão de gente e pedra de gente.

            As dúvidas permanecem quando se pretende estabelecer o material ou materiais com que foram manufaturados os muiraquitãs. Falam “de um barro verde e mole que adquirisse consistência ao contacto com o ar ou que mulheres amazonas os fossem buscar ao fundo de um lago misterioso para ofertá-los aos amantes ocasionais”(28). Existem muiraquitãs de barro, de pedra e de concha, apresentando colorações variadas – verde, amarela, cinza, vermelha e preta – porém destacam-se os de pedra-verde ou mineral verde (jadeite ou nefrite).

            Frederico Barata defende a tese de que outros artefatos de pedra-verde com formas cilíndricas ou laminares tidos como muiraquitãs são contas para serem usadas em colares; originalmente o muiraquitã tinha a “... forma batraquiana, caracterizadas por furos duplos laterais na face posterior, que denotam um uso especial e isolado do objeto”(28).

            O uso do muiraquitã como ornamento pessoal e  discutível ; tem-se refer6encias do seu uso na testa, pendente no peito como um colar, pendurado no nariz, etc.

            Um historiador do século XVII – Maurício de Heriarte, que visitou os Tapajós, destaca a estima que os indígenas devotam aos muiraquitãs e o seu valor como objeto precioso, pois eram utilizados como elemento de troca e de dote matrimonial.

            O muiraquitã chegou aos nossos dias envolto por um caráter místico, sendo usado por diversas pessoas como um amuleto; tal fato certamente advém da estranha sedução que os indígenas tinham por objetos de pedra-verde, em decorrência da cor verde e não do mineral ou da forma dos artefatos.

            Há grandes divergências sobre a origem dos muiraquitãs. Eles são encontrados em varias partes do Brasil, principalmente no Norte e no Nordeste, achando porém os estudiosos que tal fato se dá em decorrência de um comercio entre tribos indígenas e entre civilizados.

            Acha Frederico Barata que os Tapajós eram “apenas portadores das pedras-verdes ou muiraquitãs e não os seus fabricantes”(28). Barbosa Rodrigues defende a tese de que os muiraquitãs , são originários da Ásia  e foram introduzidos na América por grupos de imigrantes. Eduardo Galvão afirma que: “As conclusões mais realistas dos arqueólogos, indicam tratar-se o muiraquitã de um produto artesanal dos grupos dessa área” (entre o rio Tapajós e o rio Xingu) (29).

            Enquanto a Ciência não determinar positivamente as suas origens, fica o mito dos muiraquitãs...
  
     

  

 


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