Sociedade e mídia

Ilha do tempo livre: o livro de Wolfgang Müller sobre a Berlim Ocidental dos anos 1980

Wolfgang Müller wrote a book about West Berlin’s subculture in the 1980s.  Photo: Tom NeubauerWolfgang Müller escreveu um livro sobre a subcultura de Berlim Ocidental nos anos 1980. Foto: Tom NeubauerAo contrário do que acontecia em Berlim Oriental e na Alemanha Ocidental, na subcultura de Berlim Ocidental surgiram espaços de liberdade na sociedade. Espaços esses cujas histórias precisam ser urgentemente registradas. Foi o que fez agora o escritor, artista e músico Wolfgang Müller.

Um homem desmaia na pista de dança e permanece no chão por minutos. Os outros presentes continuam dançando como se nada tivesse acontecido, alguns parecem achar que a queda faz parte de um “estilo especialmente extravagante de dançar”. Um outro homem fica preso numa cabine telefônica. De dentro, debate-se contra o vidro. Ninguém o ajuda, já que tudo pode não passar de “mais uma performance de arte estranha, incompreensível e completamente supérflua”. Uma mulher desaparece de outra pista de dança num buraco que se abriu de súbito no chão. Pouco depois, ela ressurge do mesmo lugar como se nada tivesse acontecido.

Rompendo fronteiras

O livro já está em sua terceira edição.  Foto: © Philo Fine ArtsAquele que desmaiou na pista era o cineasta Rainer Werner Fassbinder na discoteca “Dschungel”. Aquele que ficou preso na cabine de telefone no bairro berlinense Schöneberg era o músico Iggy Pop. A subitamente desaparecida na discoteca berlinense “SO36” era a “arquipunk” Jenny Schmidt, conhecida como “Ratten-Jenny”.

Essas são apenas três entre as centenas de histórias da Berlim Ocidental dos anos 1980, contadas pelo escritor, artista e músico Wolfgang Müller em seu livro Subkultur Westberlin 1979–1989 Freizeit (A Subcultura de Berlim Ocidental 1979–1989. Tempo livre) como típicas de uma cidade na qual era possível romper fronteiras – algo “absolutamente impensável em outros lugares”.

Novo realismo

Wolfgang Müller mudou-se em 1979, quando estudante, de Wolfsburg para Berlim Ocidental.  Foto: Cornelia HainMüller tornou-se conhecido por ter integrado a cena de música e performance do Festival Genialer Dilletanten e por ter fundado o grupo artístico intermídia Die Tödliche Doris. Desde então ele vem participando de uma série de projetos artísticos, exposições e publicações de livros. Em 1979, Müller mudou-se de Wolfsburg para Berlim Ocidental a fim de estudar Comunicação Visual e Cinema Experimental na Escola Superior de Artes da cidade. Pouco depois, porém, ele viria a se indentificar com a cena da subcultura na cidade, na qual as ideias tipo faça-você-mesmo do punk e do pós-punk atraíam os jovens em fuga para “além desse muro, rumo a Berlim Ocidental”. Eram pessoas que “não se ajustavam nem ao socialismo real nem à economia social de mercado de então”.

Entre bares improvisados e galerias alternativas, clubes punk como o SO36 e o Ex’n’Pop, squats, moradias baratas com aquecimento a carvão e banheiros só nos corredores dos prédios, pequenas editoras e festivais de música, foi sendo criado um microcosmo cultural. Tudo isso trazia à então Berlim Ocidental a imagem de cidade que servia de exílio para “loucos, pirados, inúteis, ladrões ocasionais e desertores”. Para o próprio Müller, Berlim Ocidental era acima de tudo uma ilha do tempo livre, onde o propósito não era de forma alguma a “autorrealização” ou a “autodescoberta” dos esquerdistas alternativos, mas o desenvolvimento de novos conceitos de realismo e realidade.

Década da independência

Müller participou de diversos projetos de arte, exposições e publicações de livros.  Foto: Tom NeubauerO projeto Die Tödliche Doris, por exemplo, que contou com a participação de muita gente entre 1980 e 1987, é apresentado no livro de Müller como alguém com “um corpo constantemente ausente”. O Doris aparecia como banda, realizava curtas-metragens, publicava gravações conceituais em vinil e foi até convidado para participar da Documenta. Na “década da independência”, segundo Müller, a questão era saber de que forma o tempo poderia se transformar em espaço – em lugares que só puderam existir nesse curto espaço de tempo durante os anos 1980.

Müller salienta que esses lugares propiciaram também o surgimento de uma subcultura gay-lésbica-transexual, que se misturou à cultura punk que emergia em Berlim – o Bar Blocksberg, lésbico e alternativo de esquerda, por exemplo, viria a se transformar no bar punk Risiko. Essa é uma das observações contidas nas 600 páginas do livro de Müller, com suas 460 respeitáveis notas de pé de página, índice remissivo, reproduções fotográficas e um mapa desenhado pelo autor, que mostra as locações dos cenários descritos. Esse livro indispensável sobre Berlim questiona seus leitores a respeito de quanto restou hoje do tempo livre daquela época.

Literatura:

Wolfgang Müller:
 A Subcultura de Berlim Ocidental 1979–1989.
Tempo livre. Hamburgo, Philo Fine Arts, 2013

Martin Conrads
é escritor freelancer. Vive em Berlim, onde dá aulas de Comunicação Visual na Universidade das Artes.

Tradução: Soraia Vilela

Copyright: Goethe-Institut e. V., Internet-Redaktion
Agosto de 2013

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