A Dama do Lotação (1978)
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A Dama do Lotação (1978)

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A moda em filmar Nelson Rodrigues

Assim como hoje a moda do cinema nacional é produzir filmes que mostrem a violência nas favelas, lá pela década de 70 a sensação era filmar as peças e contos escritos por Nelson Rodrigues. Com isso, surgiram A Dama do Lotação e muitos outros filmes como: Bonitinha, Mas Ordinária, Beijo no Asfalto, Sete Gatinhos e uma lista a perder de vista.

O cenário perfeito

O caráter erótico próprio de Nelson somou-se ao trio cafajestagem do cinema nacional: Sonia Braga (a gatona dos anos 70 que tinha acabado de viver Gabriela), Nuno Leal Maia (o gatão que viveu, na mesma época, Bem Dotado – O Homem de Itu) e Neville d’ Almeida (o diretor que colocava um “que” a mais de erotismo nas suas produções; dirigiu filmes como a segunda versão de Matou a Família e foi ao Cinema e Sete Gatinhos).

O cenário é perfeito, com um trio desse: um título que se chama A Dama da Lotação e a participação de Nelson Rodrigues só podia dar em um filme altamente erótico para a Marie Claire de hoje fazer uma edição especial. E realmente foi isso que aconteceu, uma das maiores bilheterias do cinema nacional. Afinal, quem é que não queria ver?

Erótico, mas com seriedade

       A dama da lotação 2Apesar de toda essa forte temática sexual não podemos ser levianos de pensar que este filme é apenas uma novela das 8 com uma boa pitada de erotismo. Não, não é! É certo que esse era o gênero recorrente nos filmes das décadas de 70/80 no auge da ditadura e posso até falar um pouco mais sobre esse contexto em postagens futuras, mas voltando ao assunto, estou falando de Nelson Rodrigues e não de filme pornô.

Era através desse cenário que Nelson construía toda a sua crítica à sociedade de classe média da época. Tá certo que os filmes classificados como “pornochanchadas” ou “dramas eróticos” têm a sua parcela de culpa, mas boa parte dessa classe social foi responsável pela frase “célebre” que “cinema nacional é só putaria”. Calma, calma, isso é assunto pra outro dia. Vamos pra resenha…

A Dama da Crítica

Voltando às críticas, no caso de A Dama da Lotação, por exemplo, fica bem claro toda a discussão acerca do papel da mulher na sociedade. Nos anos 70 ainda era natural as mulheres casarem virgens com o namoradinho da infância e que assim fosse. Nunca havia conversas abertas sobre o assunto. E o que se passa com Solange nesse filme foi a realidade do público feminino da época: mulheres de um homem só que nunca conversaram sobre sexo, e erradas estariam se conversassem e se procurassem saber.

Este filme é apenas mais um dos muitos tapas na cara que Nelson deu na sociedade, mostrando a Vida Como Ela É. Uma mulher que se frustrou com o casamento como qualquer outra, que sente prazer como qualquer outra e que teve, como diferencial, não se deixar sufocar pela etiqueta social como as outras. Acredito que certamente, além de ter escandalizado a classe média, A Dama do Lotação foi um grito de liberdade para muitas mulheres.

A dama da lotação 3

Tietando Nelson Rodrigues

O que vou falar agora não é uma visão suspeita de uma pessoa que gosta dos filmes baseados na obra do jornalista, mas a mais pura realidade: filmes baseados na obra de Nelson não são para serem vistos com os olhos unilaterais das vovós do passado, mas com uma visão ampla de quem entende o contexto histórico da sociedade na época.

Bato palmas de pé, sempre.

A incrível trilha sonora de uma música só

Tá bom. Ok. Só pra não soar muito “tiete”, eu confesso: é chato um filme ter apenas uma música na trilha sonora tocada de diversas maneiras (teclado, cavaquinho, somente cantada, no arranjo original…). É ruim, eu sei. Seja bem-vindo ao cinema nacional dos anos 70/80 sem patrocínio e de baixo orçamento.

 

4 0 16764 19 fevereiro, 2014 Drama Erótico fevereiro 19, 2014
Clara Azevedo

Sobre o Autor

Clara Azevedo é formada em Letras pela UFRJ, tem 24 anos e é fã incondicional do cinema brasileiro desde os 15. Tem uma preferência acentuada por tudo que é "anos 80", principalmente se for trash. Para Clara, assistir a um filme é uma coisa muito mais séria do que apenas diversão.

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